segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ah! Esse Guimarães...

Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago...foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.




segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"Se você parar para pensar"


Na correria do dia-a-dia, o urgente não vem deixando tempo para o importante. Essa constatação, carregada de estranha obviedade, obriga-nos quase a tratar como uma circunstância paralela e eventual aquela que deve ser considerada a marca humana por excelência: a capacidade de reflexão e consciência. Aliás, em alguns momentos, as pessoas usam até uma advertência (quando querem afirmar que algo não vai bem ou está errado): "Se você parar para pensar..." Por que parar para pensar? Será tão difícil pensar enquanto continua fazendo outras coisas ou, melhor ainda, seria possível fazer sem pensar e, num determinado momento, ter de parar? Ora, pensar é uma atitude contínua, e não um evento episódico! Não é preciso parar – nem se deve fazê-lo – sob pena de romper com nossa liberdade consciente. Isso, de certa forma, retoma uma séria brincadeira feita pelo escritor francês Anatole France (Nobel de Literatura em1921, um mestre da ironia e do ceticismo) quando dizia: "O pensamento é uma doença peculiar de certos indivíduos, que, a propagar-se, em breve acabaria com a espécie".Talvez "pensar mais" não levasse necessariamente ao"término da espécie", mas, com muita probabilidade,dificultaria a presença daqueles no mundo dos negócios e da comunicação que só entendem e tratam as pessoas como consumidores vorazes e insanos. Talvez um "pensar mais” nos levasse a gritar que basta de tantos imperativos. Compre!Olhe! Veja!Faça! Leia! Sinta! E a vontade própria e o desejo em contornos? E (ainda lembra?) a liberdade de decidir, escolher, optar, aderir? Será um basta do corpo e da mente que não mais agüentam tantas medicinas, tantas dietas compulsórias, tantas ordens da moda e admoestações da mídia; corpo e mente que carecem cada dia mais, de horas de sono complementares, horas de lazer suplementares e horas de sossego regulamentares, quase esgotados na capacidade de persistir, combater e evitar o amortecimento dos sentidos e dos sonhos pessoais e sinceros. Essa demora em "pensar mais", esse retardamento da reflexão como uma atitude continuada e deliberada, vem produzindo um fenômeno quase coletivo: mais e mais pessoas querendo desistir, largar tudo com vontade imensa de sumir, na ânsia demudar de vida, transformar-se, livrando-se das pequenas situações que as torturam que as amarguram que as esvaem. Vêm à tona impulsos de romper as amarras da civilidade e partir, céleres, em direção ao incerto, ao sedutor repouso oferecido pela irracionalidade e pela inconseqüência. Desejo "grandão" de experimentar o famoso “primeiro a gente enlouquece e, depois, vê como é que fica...” Cansaço imenso de um grande sertão com diminutas veredas?Quando o inglês (nascido na Índia) George Orwell, no final dos anos 40 do século passado, publicou a obra "1984" - uma assustadora utopia negativa quanto ao futuro das sociedades, nas quais não haveria liberdade, individualidade e privacidade –, despontou no Ocidente um disfarçado e ansiado consenso (apoiado em uma simulada expectativa):tudo aquilo que ele colocara no livro jamais poderia acontecer nem se relacionava com o porvir do mundo capitalista. No entanto a macabra história sobre uma sociedade totalitária vai além de fatos abstratos e atinge hoje, em cheio, o terreno da “mercadolatria". Orwell disse que, numa sociedade como a que prenunciou, "o crime de pensar não implica a morte, crime de pensar é a própria morte”. Pouco importa, dado que ser humano é ser capaz de dizer "não" ao que parece não ter alternativa. Apesar dos constrangimentos e da tentativa de seqüestro da nossa subjetividade, pensar não é, de fato, crime e, por isso, claro,não se deve parar.

CORTELLA, Mário Sérgio. Se você parar para pensar. Folha de São Paulo, 24 de maio de 2001. Folha Equilíbrio, p.15

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

"E criar, a grande redenção".


Nossa cultura não nos incentiva a lutar, mas a chorar, a nos vitimar. Valorizamos e protegemos os fracos ao mesmo tempo criticamos os ousados, criativos. Consideramos o trabalho uma penalidade, e nosso sonho maior é sempre descansar. Mas a vida é sempre o resultado de uma luta. O fim da luta é a morte. E criar, a grande redenção. Para Nietzsche criar, mais do que um gesto individual, é um processo de integração e participação na vida. A vida cria em suas constantes transformações, em seu eterno jogo de vida e morte. Ao homem cabe dizer sim ou não a este processo, isto o define como homem. Ao dizer sim ao que os gregos chamavam de devir, o vir-a-ser constante das coisas, o homem se vê inserido em um processo que necessariamente leva à criação. Criar é suportar as contradições e intensidades da vida no corpo, é transformar em signo este movimento excessivo que é viver.

A PALAVRA

é uma roupa que a gente veste
uns gostam de palavra curtas
outros usam roupa em excesso
existem os que jogam palavra fora
pior são os que usam em desalinho
cores brigando,substantivo em luta
alguns usam palavra rara
poucos ostentam palavras caras
tem quem nunca troca
tem quem usa a dos outros
a maioria não sabe o que veste
alguns sabem e fingem que não
uns nunca usam a roupa certa para a ocasião
tem os que se ajeitam bem com pouca peça
outros se enrolam em um vocabulário de muitas
eu adoro usar palavra limpa
tem gente que estraga tudo que usa
com quais palavra você se despe?
Viviane Mosé

Viviane Mosé - É psicóloga e psicanalista-Mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro

sábado, 4 de dezembro de 2010

Talvez seja, e daí?


À medida que caminhava percebeu que seria impossível levar toda aquela bagagem. Distante do embarque e sem ninguém para ajudá-la tomou rapidamente uma decisão. Era uma pessoa de movimentos rápidos, porém de imensa serenidade na execução deles. O que lhe conferira imensa graciosidade.
Assim, soltou no chão o baú maior, a bolsa foi escorregando naturalmente sem que precisasse fazer o mínimo esforço. Sentou-se totalmente à vontade na esperança que um táxi, ou  uns momentos de descanso fossem suficientes para continuar a trajetória.
E, passados alguns minutos uma impaciência, coisa rara em sua vida, começou a tomar conta de sua mente. A sensação era péssima. Procurou na bolsa os óculos e não achou. Só pra ajudar  tinha esquecido.
E do que ia adiantar, agora, estar com eles. Por acaso estou cega, conjecturou? Ou será que pretendo aqui no meio do nada ler? Era só o que faltava. Diabos, por que é que na pior das situações me vem esses pensamentos: ler, colocar óculos, comer chocolate, vai ver é assim com todo mundo. Talvez seja. E daí? O que isso ajuda?
Nossa já é noite. Agora sim vou precisar dos malditos óculos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Quis acordá-la, mas não.


Desço a rua tranqüilo. Olho o relógio. Seis horas. À rua deserta escuto o farfalhar de meus passos sobre o chão, cadenciado passo, dança e música misturadas ao silêncio existente. Na mente nenhum pensamento ordenado ocorre. Trajeto feito todos os dias, hábito enraizado, é só seguir em frente.
Em alguns dias a atenção volta-se para o andar, em outros para a respiração, há ainda aqueles dias em que se fixa nos cheiros, nos aromas das casas, nos lixos tombados, no latido do cão, e finalmente no gato fugindo sorrateiramente.
Feito a pássaro livre em seu vôo matinal, ela muda rapidamente. O que determina essa atenção? Nenhuma escolha prévia. Nada.
Somente o olhar e o sentir. Distância encantatória entre as coisas e o homem. Foi numa dessas manhãs, que inexplicavelmente e numa fração de segundos passei do sentir ao pensar. Um único pensamento tomou conta de todo o meu ser. Perdi a tranqüilidade, o silêncio, a música, a dança, o chão. À medida que caminhava percebi que seria impossível viver sem resolver tamanho tormento. Pessoa de extremos voltei para casa. Olhei teu corpo na cama, passei-lhe suavemente as mãos pelos cabelos negros. Quis acordá-la, mas não. Para quê? Sobre o móvel deixei-lhe a chave.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:


Poderia ficar em casa e tecer um lindo bordado, e depois também poderia fazer um gostoso bolo e depois de um tempo, mais descansada, poderia molhar as plantas, brincar com os gatos, dar banho no cachorro e depois... E depois... Olhei-o no fundo dos olhos buscando entender qual o motivo, se é que existe um, dessas sugestões. Mas nada consegui. Vai ver esse meu amigo tem a capacidade de contrariar a máxima de que os olhos são a janela da alma. Não vi nada de alma nessas sugestões tão estapafúrdias.
Já um outro amigo, estudante de psicologia, desses que gostam  de tudo explicadinho com os pingos nos seus devidos “is”. Veio com essa:  é preciso conciliar os afazeres, diversificar, ser criativo e impostando a voz continuou todo seguro de si, ou seja, entre um bordado e outro, um bolo e outro deve-se visitar um museu, ler um bom livro, assistir um bom filme. Como se não fizéssemos isso e muito mais. Pronto, pensei com meus botões, está aí à chave da felicidade. Diversifica-se e tudo resolvido. Na hora fiquei com uma vontade imensa de sugerir um novo olhar sobre seus conceitos, mas pensei com meus botões: vai que ele se ofenda, e se tem uma coisa que aprendi e respeitar a ignorância alheia, já com a inteligência não precisamos ir com tanta cautela, não. E a boa discussão corre solta.
Já um outro amigo, esse sim, um questionador nato. Disse-me que somos feitos para o encontro, que é só no encontro com o outro que reside à possibilidade de nos conhecermos melhor, de aceitarmos nossos limites, reconhecermos nossas fraquezas, superarmos as nossas mazelas. E que na verdade seja homem, mulher, jovem, velho, criança não gostamos do automatismo no viver, mas que não basta pular de uma coisa para a outra, não. E brincalhão que só ele, sorridente, diz: não é porque descendemos do macaco que basta pular de um galho a outro. E calmo olhando fundo nos meus olhos completa: seres singulares que somos cada qual escolhe seu jeito de caminhar, mas nada sabemos de antemão e aí reside a beleza do viver. Enxergo no seu olhar à janela da alma, na sua voz serena a imensa sabedoria daqueles que sabem que a palavra está dentro de nós,  que somos produtos da linguagem. Linguagem escrita no nosso corpo. Lugar dos nossos desejos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

É só um café. Será?

É que foi acontecendo devagar dia após dias, eu mesma no começo não percebi. Sabe quando se bebe água sem muita sede só porque sabemos que é preciso. Bebe-se devagar saboreando cada gole lentamente. É, talvez seja isso. Devagar eu fui saboreando esse cansaço. Cansaço de sair da cama todas as manhãs, cansaço de falar até as coisas mais banais. _ Bom Dia, Lucinha você já trouxe os pães? Ah! Que ótimo. Pão doce? Gosto tanto. Também poderia não dizer nada. Calar-me ou simplesmente dizer: _Lucinha, hoje, teremos convidados para o jantar. Faça algo diferente. E se ela coloca um laxante em meu suco? Ou até algo mais forte só de raiva. Acontece. Só eu para pensar isso. Será? Em algum momento da vida de cada um deve ter ocorrido esse tipo de pensamento. E se eu não for mais agradável com todos. Condescendente, compreensiva, tolerante, amiga, mãe, filha, nora, amante. E se me mandam embora do trabalho, se me evitam, se meus filhos nunca gostaram de mim, se aquela vizinha tão boa, voz tão meiga, é a primeira a falar de mim, e se, e se. A diferença é que comigo isso atingiu proporções absurdas, para cada gesto, cada situação cotidiana um questionamento sem fim. Cansaço das coisas tidas normais. E se eu demonstrasse. Não sorrisse mais ao cumprimentar os colegas no trabalho, não aceitasse os convites, faltasse ao encontro com os amigos, não visitasse aos domingos minha mãe, minha sogra, minha tia, se pouco ligasse se os filhos gostam ou não gostam de mim, se não quisesse mais falar com ninguém. Isolasse-me? Por quê, não? E é no fundo de mim  que esse mistério  do pensar se instalou , me fez sorrir e cada vez mais sólida numa quase demência fecho todas as portas. Vagarosamente bebo meu café.

domingo, 14 de novembro de 2010

"Um som ensandecido"

 
Derrepente percebeu que não fazia o menor sentido continuar. Estava exausto e com toda certeza aquela não era a rua. Como pudera se enganar tanto? Bastou esse pensamento e, numa seqüência doentia, muitos outros afloraram: - não era esse o melhor sapato a usar. Não era esse.... Não era essa... Não era aquela... Até que se deu conta de que não era doentia essa sua forma de viver, ao contrário, justamente ao abrir esse leque de possibilidades uma nova sensação surgia. Era ele um sujeito privilegiado, divagar sempre o entusiasmava e mesmo diante do cansaço sentia-se revigorado rapidamente. Foi com esse pensamento que avistou no finalzinho da rua a casa. Não tinha dúvidas. O vaso na entrada com campânulas roxas, as preferidas dela, o portão azul recém pintado. E tudo à sua volta a lembrar-lhe outros tempos. Ah! Sempre o tempo, senhor absoluto, cobrador implacável. Com o pensamento já apaziguado resolveu tocar a campainha, mas não foi preciso. O acaso se fez presente e lá estava ela um pouco mais envelhecida também, mas não menos bela, descendo as escadas com o mesmo andar firme e decidido. E, assim de sopetão entre sorrisos, com os olhos marejados de lágrimas e com uma voz trêmula disse-lhe:-.Houve tempo — sim, houve em que me fiz duro e ameacei que não voltaria mais. Voltei. Podemos agora subir no palco dessa cidadezinha adorável e concretizar nosso velho sonho e um bom rock tocar. O que se ouviu naquela noite foi um som ensandecido de guitarra no ar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Emitia um som"

Era um sujeito de poucas palavras. Desses que encontramos raramente e quando isso se dá, penso eu, que só nos cabe o silêncio, o muito pensar.  Não posso dizer que não fiquei intrigada quando dirigiu-se a mim lentamente e quase num sussurro perguntou-me se podia fazer-lhe  a gentileza de  digitar  uma carta. O pedido me deixou sem ação, ele percebeu e com um sorriso largo foi logo se explicando. Machuquei ontem a mão, brincando com um bichinho que emitia um som: miau, miau, disse e sorriu. Diante do inusitado do relato também sorri. Sorrimos.  O que poderia eu responder? O que faria qualquer pessoa em meu lugar, diante de um homem sensível, apreciador de gatos, a não ser de pronto aceitar simples incumbência.  E foi o que fiz.  Foi quando percebi certo tremor em seu corpo e um brilho no olhar que jamais me esqueci. Estranhamente o seu olhar voltou-se para o céu estrelado, a lua indo alto, e a primeira frase da carta ditada pausadamente.  Estou voltando e levo comigo um miau.


domingo, 7 de novembro de 2010

Trago comigo

 
Deixou claro, feito à lua que iluminava aquelas viagens sem fim, que só é gente àquele que não careça de nada, que a tudo agradece ao nosso senhor Jesus Cristo e na dor enxergue a bondade divina. Sua voz doce ainda é um canto de ninar aos ouvidos da mulher em que hoje me transformei. E trago comigo, como num cofre, cada uma daquelas paradas em que mãe e eu ficávamos a olhar a terra seca, o gado magro, o povo sofrido. Mas eu não queria aquela vida para mim, vida do sertão, doída como gado queimado a ferro, triste como menino sem escola. E diferentemente de mãe eu não acreditava no destino traçado, na sina a cumprir, na cruz a carregar. Sempre acreditei que a escolha se dá à  cada passo, à cada manhã, à cada respirar, mas maínha, como eu costumava chamá-la, tinha outra crença. Dessas que fortalece o sujeito que segue sem nada questionar. E assim na primeira oportunidade vim embora. Hoje passado tantos anos a morte de maínha é só um quadro na minha memória, e eu sigo sem questionar.

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

da série: "Um pouquinho de Teoria Literária”



Estamos vestidos de alfabeto, não sabemos sequer nosso nome.
Murilo Mendes
“A linguagem é dimensão da existência. Em quase todos os pulsares do nosso pensar, revelam-se nomes e verbos. Nossos gestos têm rastros de signos. Ressoam em nós redes de símbolos. Nossos corpos são feitos também com palavras. Os medos, o desejos, as lutas e os amores raramente podem ser separados de nossas vozes. No entanto, como tem estado entre nós, neste século, a relação entre a linguagem e á vida?”. M.Mendes.

Creio que fazemos coisas com as palavras e, também que as palavras fazem coisas conosco
Jorge Larrosa Bondía

“As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente raciocinar ou calcular ou argumentar, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou o sem- sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E portanto, também tem a ver como as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos , diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo isso. Aristóteles definiu o homem como “zôon lógon échon”, a tradução dessa expressão , porém, é muito mais “vivente dotado de palavra” do que “animal dotado de razão”, ou animal racional.
O homem é um vivente com palavra. E isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa, ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem é enquanto palavra, que todo humano tem a ver como a palavra,se dá em palavra, está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é homem, se dá na palavra e com a palavra. J.L.Bondía

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:


Bem, que eu deveria mesmo me conformar, aceitar e pronto. Eu, na hora, quase que concordo. Sabe aqueles momentos em que  sentimos não valer a pena travar uma discussão, que não vai acrescentar nada, pois então. Ele percebeu minha quietude e foi logo mudando a prosa. Até gostei. Amigo tem mesmo é que conhecer o momento do outro, respeitar, pisar leve, falar manso, ou calar.
Já um outro amigo desses que nunca estão em silêncio foi logo falando: é isso mesmo aceite não há coisa melhor coisa para se fazer, não. E ainda acrescentou: “o que não tem remédio, remediado está”. Eu dei aquele meu sorrisinho de lado que nem chega a ser um sorriso é um leve mover de lábios de quem não concorda com o dito. É que tenho minhas dúvidas quanto à eficácia desses e tantos outros provérbios. Ele, como o outro, também percebeu meu espanto diante da sua colocação e foi logo tratando de deixar o ambiente. Não era para tanto, amigo tem mesmo é que sentir-se à vontade, viver a alegria da companhia, e ser uma festa só.
Já um outro amigo, sabedor das coisas da boa amizade, com seu olhar doce e um sorriso iluminado calmamente disse: os tempos são outros mesmo, minha cara, e não se trata de aceitar, não. É preciso coragem pra não permitir o mau uso da palavra, e com seu jeito leve de brincar completou: há porta e portinhola; gaiola e gaiolinha todas se abrem para algum lugar, mas os espaços são outros. Vôos e caminhos. E não está certo o mesmo nomear para tantas coisas que há. Há árvores e plantas; planaltos e planícies; vales e morros; musica e letra, projetos e planos. Cada coisa é uma coisa. Fazes é muito bem em não aceitar.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Realidade Travestida


Naquela tarde Eleonora fechou portas e janelas, desceu vagarosamente as escadas, olhou o pátio lá embaixo sentiu o aroma das flores e deixou-se ficar escondida atrás do alpendre. Não queria visitas. Não queria falar, responder, sorrir. Nada. Apenas ficar só. Reorganizar as idéias e decidir-se. Escolher. Dispensou os empregados e certificou-se com a cozinheira. Fome não estava em seus planos. Ordenou-lhe que fizesse algo especial, leve, frugal. Deu-lhe a chave da adega. Queria um bom vinho. E quando finalmente sentiu-se só, pegou da taça, sentiu a doce umidade do vinho em seus lábios e o prazer que isso lhe proporcionava. Era bom estar ali saber-se dona de toda aquela terra. Com o corpo e a mente mais leve pelo vinho deixou-se levar pelas recordações que foram naturalmente surgindo. Primeiro alguns lances da infância depois a juventude junto aos primos, os risos, os desejos, as insinuações e as festas noite adentro. O pai sempre austero, a mãe com aquele olhar sonso, agudo e finalmente seu casamento com Heitor. Derrepente um vento forte e uma janela que se abre o som dos carros, o movimento dos transeuntes, as conversas entrecortadas., os risos, os encontros, o ir e vir. A vida que corre lá fora pulsante, real. E , ela, ali, presa em seu minúsculo apartamento. No escuro de si, no vazio que construiu, enganando-se dia após dia, noite após noite. Por quê? Para que? Ficção travestida de realidade Eleonora a personagem criada, a propriedade que nunca teve a infância que sempre quis o pai que nunca conheceu e as festas que não viveu. Desejo e imaginação. Levanta-se lentamente e com toda força joga a taça de vinho. Cacos de uma vida inexistente.

domingo, 17 de outubro de 2010

"Olhar o mundo e olhar a si"



Jose Angelo Gaiarsa -1920 -2010- 
psiquiatra brasileiro.
 maravilhosos livros publicados
 destaco:
Couraça Muscular do Caráter
O que é Corpo?
O Olhar
 Sexo, Reich e Eu
A Inconsciência Coletiva

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

De beleza e partituras, ser professor.

Como disse Rita Lee, toda mulher é meio Leila Diniz. Sinto que a expressão pode ser estendida à questão da arte, do aprender e do ensinar , respeitando as devidas proporções, toda mulher, todo homem é “meio” Paulo Freire, o grande mestre. O tempo todo aprendemos com o outro e o ensinamos numa troca maravilhosa, a qual, Freire nomeou de a "Roda do saber".

Mas, não podemos esquecer de forma alguma que ser professor é uma profissão, e como toda profissão exige dedicação, conhecimento e acima de tudo paixão, uma imensa paixão. Ou, como disse o mestre Rubem Alves:


"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes"

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Nenhuma palavra dita


Saciada a sua ira e satisfeito o seu ódio Beatriz observava seus pés nos degraus. A chuva doce e mansa caia devagar seus pingos a bater na vidraça. A mudança de humor, os passos na escada, a observância desses pés e os movimentos de seu corpo era tudo o que possuía. Queria mais. A vida lhe negou ou ela não soube escolher. Já não sabia e isso era o que mais pesava o descobrir-se perdida, sem forças para a luta e amarga em seu viver. Figura carismática, boca carnuda, roupas claras e de chapéu Firmina esperava-a de braços abertos. Esse fato também pesava. A generosidade de Firmina, sua alegria contagiante, seu ser singular e exótico. Parada na ponta da escada com o luar a iluminar-lhe o semblante sorria. Um sorriso de boneca ou da boca que se alarga e toma conta do rosto inteiro. Beatriz nunca descobriu. A bem da verdade chegou a pensar que não era nenhum nem outro. Era só mesmo o brilho que Firmina possuía e que tanto a incomodava. Tornaram-se inimigas sem nenhuma palavra dita. E por mais que Firmina buscasse uma aproximação tudo era frio e distante. Com o tempo desistiu. E agora ali na sua frente depois de tantos anos Beatriz  dissimulava todo o seu rancor,  fingia uma vida que não teve e  tagarelava coisas e fatos inexistentes. Firmina  ouvia calada o relato da amiga, relembrava outros tempos , momentos da infância quando ambas rindo corriam para a praça ver o teatro chegar. Eram noites de muita alegria quando assistiam ao espetáculo. Beatriz vibrava com a bailarina, com seus sapatos prateados o corpo a girar, girar lentamente. Mas tudo também se transformou lentamente. Em que momento Beatriz ficou assim? Qual acontecimento desencadeou esse sentir, ou melhor, esse não sentir? Impossível sabê-lo.
Apenas que Beatriz é nada. É um corpo adormecido. Já não sorri, não vibra com bailarinas, danças, sapatos prateados. Agora tudo o que precisa é do brilho do olhar de Firmina.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

"Um "pouquinho" de Teoria Literária"

“O homem é o ser que se criou ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo.”
 Octávio Paz.


Uma das maiores crises de nosso tempo é a crise da linguagem. A perda da palavra, a perda da expressão própria, a perda da comunicação autêntica, a perda de uma linguagem pessoa e criadora. Essa é uma das mais profundas desfigurações da segunda metade do século XX. E um dos maiores paradoxos da nossa era: vivemos cercados de sistemas de comunicação, temos os maiores e mais complexos instrumentais da comunicação e toda a história, e ao mesmo tempo, nunca tivemos tão pouco a palavra própria, a expressão pessoal, uma linguagem que expressasse e encarnasse nossa identidade pessoal, uma comunicação verdadeira em que mutuamente nos reconhecêssemos. A perda da palavra. A morte da linguagem. As falas cada vez mais neutralizadas. Uniformizadas, Cada vez mais insignificantes. Estereotipadas. Reduzidas ao informe homogêneo. Cada vez mais sem voz, o homem contemporâneo tem dissolvida sua linguagem e sua identidade pessoal e pública. A inconsistência da linguagem, das imagens, da história , da vida.
Penso em Ítalo Calvino
Ás vezes me parece que uma epidemia pestilenta tenha atingido a humanidade inteira em sua faculdade mais característica, ou seja, no uso da palavra, consistindo essa peste da linguagem uma perda de força cognoscitiva e de imediaticidade, como um automatismo que tendesse a nivelar a expressão em fórmulas mais genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados, a embotar os pontos expressivos, a extinguir toda centelha que crepite no encontro das palavras com novas circunstâncias. O vírus ataca a vida das pessoas e a história das nações, torna todas as histórias uniformes, fortuitas, confusas, sem princípio nem fim. Meu mal-estar advém da perda da forma que constato na vida, à qual procuro opor a única defesa que consigo imaginar-uma idéia de literatura”. Ítalo Calvino

É preciso redescobrir e revivificar a linguagem. Renascer a linguagem significa também renascer a dimensão que se revela ao mesmo tempo raiz e utopia das palavras, e que tem tido imemorialmente – o nome de poesia.

 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"A surpresa do ser"


Se a filosofia nunca soube ao certo o que é o ser (a metafísica ocidental só fez oculta-lo ainda mais), em Heidegger ele ressurge iluminado pela linguagem poética. A poesia é a “casa do ser”; só através dela é possível comemorá-lo sem perdê-lo de vista; só ela é capaz de evocá-lo em seu movimento fulgurante. O ser é uma surpresa que os poemas ajudam a vislumbrar. Seis séculos antes de Cristo, a filosofia nasce justamente em confronto com a poesia (e seus mitos), que antes de emancipar-se como forma autônoma destinava-se à revelação do sagrado. A idéia heideggeriana de que a poesia nos lembra o ser encontra-se em sua “Carta sobre o humanismo”, a qual se encerra com estas palavras: “na presente indigência do mundo é necessário: menos filosofia e mais desvelo do pensar, menos literatura e mais cultivo da letra”. Orides Fontela provavelmente pensava nisso quando disse num depoimento: ‘Nossa época é terrível, somos poetas em tempo de desgraça”. Orides se foi. Já não presencia os infortúnios de nosso tempo nem deles participa, mas sua poesia cristalina continua exercendo o “desvelo do pensar” e o “cultivo da letra”, de que fala Heidegger, provocando o ser à luz da linguagem. Aliás, do que mais se ocupam seus poemas? Orides fontela, como Paul Celan, é daqueles artífices que clareiam o ser ao mesmo tempo em que propõem uma indagação essencial sobre o ser da própria poesia. Ler sua obra é constatar que o ser em geral, no sentido heideggeriano, questão sempre aberta, e o ser lucífugo da poesia têm idêntica irradiação. Ambos podem nomear-se como aquilo que não se sabe ao certo o que é, mas que se deixa perceber no mesmo instante em que se furta como pedra filosofal da leitura. “Natureza ama ocultar-se”, conforme o célebre fragmento de Heráclito.

Artigo postado, na minha coluna mensal, no Imaginário Poético com  o poema "Fala" de Orides Fontella.
Referências bibliográficas:
BORGES, Contador. A surpresa do ser. In Revista Cult/novembro 1999.
FONTELA, Orides. Poesia Reunida [1969-1996] São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

LITERATURA


                  
  
                                               


  
                 


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

"Dãodão e Zé pelonga"


Voltou para casa no finalzinho da tarde, já escuro. Entrou pela porta dos fundos, bem devagarinho, com cautela. Não queria que mãe o visse. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Choro baixinho, soluço seco, engolido. Como doía, vergonha e tristeza. O calção todo sujo de barro, camiseta manchada, as vozes em sua mente, os xingamentos ganhando força na medida em que revia cada cena. Quando querem meninos são cruéis. Menino franzino, solitário, Dãodão ia passando em revista cada ato falho, cada oportunidade perdida. Sabia dos erros cometidos. Evitá-los. De que jeito? Nessas horas só uma imagem apaziguava seu coração, a figura do avô sentado em sua cadeira de balanço, pra frente, pra trás, num ritmo suave, a conversa mansa. Vô era amoroso, homem bom, sempre pronto a escutar, a contar estórias. Falava da vida difícil de menino, de gente grande sempre pronta a interromper brincadeiras tão sérias, a dar ordens sem precisão. Gente esquisita. Na época do plantio, meninos e meninas corriam cantando em meio ao campo. Só paravam mesmo no momento de colocar a semente na terra, tudo feito como numa festa. Um ritual quase religioso, não fosse a safadagem ao olhar as meninas, feito bicho cobiçando preza. Dãodão achava tudo tão natural. Vô abençoava a todos antes do plantio, seus olhos claros transmitiam tanta certeza, como se o fruto já estivesse ali. Mãe não. Mulher sofrida, só sabia obedecer ao pai, fazer tudo com presa, com medo. E pai só fazia ralhar. Dãodão gostava mesmo é de escutar o vô. Ria muito com as estórias que ele contava. Tinha a do Tibúrcio, que levara uma baita surra quando o pai o pegou escondidinho espionando Carmela se despir. Linda como a luz da lua. E vô dizia: -Qué coisa mai bunita qui vê muiê tirano ropa. Bem devagarzinho, o saiote iscurregando, as anca balançando, i a gente ficano loco. Dãodão ria, e vô falava: -Ri não muleque, muiê é coisa séria, é danação. Danação mesmo era o que Dãodão sentia agora, ali sozinho, sem a presença alegre do avô, sem suas estórias, sem seus conselhos. Tinha certeza que só vô iria acreditar que ele fez de tudo, correu, até driblou, mas não conseguiu. Mas vô tinha morrido, ou como dizia Tibéria: -Morreu não, ficou encantado lá no milharal. Dãodão não tinha medo. Medo mesmo, tinha do pai gritando todo dia: -Vai, treiná minino. Jogá bola, sê jogado, ficá rico, i imbora do Cariri. Fica aí falano suzinho, parece reza de nêga. E não é que era mesmo, quase uma oração, uma ladainha. Mal rompia a manhã, Dãodão abria a janela, e junto com o vento fresquinho elas chegavam. Como uma bola que um jogador passa ao outro, as palavras vinham rolando. E Dãodão lembrava-se novamente do avô, de sua voz rouca: -Dão, vem qui minino. Dão, vem. Vou ti insina fazê uma coisa linda que gira, gira como tudo nesse mundão. E naqueles fins de tarde sentados na varanda, ele e vô pegavam revistas, pauzinhos e o brinquedo ia surgindo. Dão, é ansim: ocê tira as foia da revista, enrola bem enroladinho, fica qui nem um canudinho. Faiz um montão, i dispôis vai culando nos pauzinho, dai sua peorra tá pronta. I é só rodá no chão. Ela roda, roda até cair. Dão olhava as revistas com seus olhos curiosos, olhava o formato de cada palavra e gostava do que via. Seus olhos brilhavam. Vô, homem sempre atento a tudo dizia: -Si preocupa não Dão. Um dia ocê vai pra escola e aprende as palavra, qui são bela cumo muiê. Cheia de força e mistério, iguar elas. Óia essa: “coração”, qui palavra qui faiz a gente pensa! Óie outra, que belezura: “pé”. I essa intão: “mão”. São tantas,qui enche essa vida doída da gente e dão uma alegria. Foi tomado por essa alegria sem explicação que Dãodão sentiu uma coisa esquentar dentro dele, bulir com ele. A lembrança da peorra, as palavras do vô ganhando força tomaram conta de seu corpo, franzino, e ele sentiu-se como um gigante. Tomado por esse mistério enxugou os olhos, abriu o guarda-roupa. De soslaio viu a peorra guardada. Pegou uma camisa limpinha, trocou o calção sujo de barro, as mãos já seguravam a bola. Abriu a porta do quarto e correu, correu, correu. Só parou quando chegou ao campinho. Os meninos a olharem para ele. Zé Pelonga com um sorriso maroto. A desforra chegara. Dãodão colocou a bola no chão, deu o primeiro chute, a partida recomeçava. Foi uma passa-passa, um corre-corre, olho no olho. O amigo Zé Pelonga fez o passe. De frente pro gol, Dãodão chutou. A bola entrou lentamente, girando, girando: Goooooooooooool. Golaaaaaaaaço.Uma mistura de alegria e tristeza naquele fim de tarde. Vô tinha razão, as palavras têm força e mistério. E tudo gira no mundo .Foi de goleada, vô.


sábado, 18 de setembro de 2010

Seria uma Ópera.


Eu poderia tecer longos comentários sobre sua figura, a começar pelo seu porte perfeito, músculos definidos e belos, andar altivo, passos firmes sobre a rua pedregosa. Depois, lentamente, me deleitar observando a textura da sua pele, ou ainda rir das suas mãos soltas a tremer de frio, naquela tarde de julho.
Poderia falar sem nenhuma dificuldade do seu olhar límpido e sereno a transmitir uma infinita ternura, e do perfume que exalava de seus cabelos caídos sobre os ombros. Da sua alegria ao escutar as maritacas naquele fim de tarde, ou ainda do seu sorriso largo ao olhar no céu o barrilete, que o menino alegremente empinava. Essas e outras tantas coisas poderia eu falar, mas nenhuma palavra, nenhum verso, nenhuma poesia seriam suficientes para descrever tua figura infinitamente amada. E se eu tivesse o dom da musica, tua figura serviria tão somente de ponto de partida.
E se eu me dispusesse a cantar, tua figura seria uma ópera a preencher a minha vida.

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:


Preciso modificar alguns hábitos, ou melhor, arrancar todos eles, os quais delicadamente nomeou de síndrome “habimort”, ou seja, “hábitos que matam”. Foi como me explicou e segundo ele, para o meu próprio crescimento interior. Fiquei ali parada sem saber se ria ou chorava em ver o seu empenho em me convencer. Não que eu não busque mudanças. Sei que são saudáveis. Mas as coisas não são tão simples assim. É depois todos temos hábitos. Como dizia minha sábia, avó: — Tem coisa mio di bão não, bicho di custume.
Já um outro amigo diz que não tem jeito mesmo, quando arrancamos um hábito outro devagarzinho vai se formando, e que temos que estar alertas o tempo todo. Ruminando essas idéias fico a pensar: — mais pra que mudar se logo outro vai se enraizar. O jeito, então, é ficar com o velho que, pelo menos, já conheço.
Aí um outro amigo não agüentou e disse que não é nada disso que essa coisa tão simples, mesmice, nos incomoda muito, nos deixa amargurados. E é preciso extirpá-la com um método que ele nomeou de “ou vai ou racha”. E consiste em todo dia ter algo novo para fazer. Como, por exemplo, inventar uma receita de bolo que não precise ir ao forno ou um bordado que não use linhas ou uma visita a alguém que não se conhece ou... Arregalei uns olhos dado ao inusitado da situação que ele pediu desculpas e disse que nossa conversa era um hábito que precisava extirpar. Cada um, um: — pensei. Mas é bom amigo. Fiquei sabendo que logo vai receber alta ou vai ou racha, maldade minha esse pensamento. Fazer o quê e a força do hábito.
Eu já estava quase desistindo de querer entender quando apareceu meu velho amigo, amigo maior, desses que ficam enraizados no nosso coração. E ele disse, daquele seu jeito habitual de dizer as coisas: — que quando menos se espera, quando a hora chega e o nosso coração transborda ,ele, sabe que precisa de novas aventuras, novas vivências. E o que é velho, o que fica ali nos incomodando e nos tornando amargurados vai embora como num passe de mágica. Não deu nem tempo de arregalar meus olhos. E, ele já veio logo se explicando, conhecedor de meus pequenos hábitos, mas que essa mágica é a gente mesmo quem faz. E é muito simples não precisa de método, nem nomes, nem nada.
Só é preciso aprender a olhar para dentro de si. E escolher a cada dia o que se quer, como se quer, para que se quer, e permitir-se o espanto consigo e com o outro.



sábado, 11 de setembro de 2010

"O desejo de liberdade"


Carta enviada ao SATED -SP. Sábado, 29 de agosto de 2010.
AO
SATED -SP
ATT: Diretoria,

Acredito no sindicato e na força e poder político que ele tem em prol da classe por ele representada. E também defendo a regularização da profissão, pois só vejo vantagens e benefícios nela. Mas também acredito nas soluções negociadas. No ocorrido em relação ao festival de teatro de Sorocaba, havia uma negociação sendo mediada entre nossa representação local e um membro da diretoria da ATS sobre a questão da regularização dos participantes e embora com objeções estava caminhando a contento. Com a intervenção do SATED-SP as coisas acabaram tomando o rumo que tomou e o conseqüente cancelamento do festival pela prefeitura.
Eu contava poder participar do Festival com o espetáculo O Ébrio e já estava com tudo pronto, faltando apenas duas Autorizações de Trabalho já em andamento. Foi frustrante não realizar essa apresentação. Sobretudo ouvir as opiniões da Ângela Barros (jurada e amiga antiga) Penso que nossa intervenção deva ser sempre fomentadora. Isso me faz lembrar Cacilda Becker como presidente do Sindicato dos Artistas abrindo teatros fechados pela policia militar, ou Lélia Abramo sempre mais à esquerda e usando essa força política em prol da classe. Como disse no discurso de posse na Câmara de Sorocaba em março. Acredito, repito na profissionalização e nos benefícios que ela engloba. Mas se a classe não quer, fazer o que? Paciência. Não vou impor a profissionalização à fórceps, ou como dizia Figueiredo: Vou fazer a democracia, nem que para isso eu tenha que prender e arrebentar” Conheci pessoas muito boas e muito bem intencionadas nessa curta aventura sindical. Berta Zemmel, que prazer ouvi-la e só nela já vão mais de 50 anos de teatro.Celso Curi, que maravilha foi revê-lo no sindicato. E embora agindo com amparo da lei se estabeleceu aqui nesse episódio o mesmo conflito que Sófocles tão bem expõe em Antígone. Há uma lei que foi descumprida por Antígone, mas até que ponto essa lei é justa. A tragédia Antígone discute o conflito entre o Direito Natural – o Direito considerado pelos antigos como sendo de origem divina e aceito ipso facto como costumeiro – e o Direito que toma forma jurídica nas leis estabelecidas pelo governante, tradicionalmente denominado Direito Positivo. Houve nessa questão do festival o mesmo conflito entre Direito Positivo – a lei e o direito natural de se realizar o festival. Penso que dentro do Sindicato eu poderia fazer mais pela cidade, como foi minha participação na comissão do Proac deste ano, que findou com 4 espetáculos de Sorocaba e talvez ano que vem isso pudesse ser ainda maior. Quiçá dobrar esse número, porque não? Enfim, acabou. Acredito que talvez isso possa servir para o próprio SATED como auto critica afim de rever alguns procedimentos operacionais mais rígidos e até que ponto eles trazem benefícios ou prejuízo a própria imagem do Sindicato.

Mario Persico- é autor, ator e diretor, e há seis anos coordena o Núcleo de Artes Cênicas da Fundec - Fundação de Desenvolvimento Cultural de Sorocaba, onde também atua como professor desde 2001


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O desejo de liberdade


Representar é um ato natural

Sempre gostei de participar do teatro amador. Por anos, no Teatro Estudantil, no Teatro do Sesi, no Teatro Universitário, depois em muitos outros momentos. Artista amador é um direito. Artista profissional é um direito. Particularmente prefiro ser do teatro amador. O que houve, e todos percebemos, foi um abuso de poder. Comentei isso em outra situação: lutamos tanto para acabar com a ditadura e trazermos o diálogo de volta e o que vemos é opressão. Há direitos inalienáveis do ser humano: o direito de ser e de existir; o de desempenhar, com liberdade, os próprios papéis; o livre arbítrio. Lei que destrói, ninguém precisa dela.Representar é um ato natural e, por isso, um dos mais completos. O teatro engloba todas as artes. Como profissionalizar o sonho? Como profissionalizar a liberdade? Como profissionalizar a arte? Dinheiro? Pra quê? Pra quem? "Liberdade, liberdade, abre as asa sobre nós".
Sonhos não são vendidos no mercado. Representar é um ato de vida. Direitos: ser amador ou ser profissional. Escolha de cada artista.

Saudações culturais.
Myrna Ely Atalla Senise da Silva

ACADEMIA SOROCABANA DE LETRAS  Cadeira nº- 3 -Patrono: João Guimarães Rosa
Acadêmica- Myrna Ely Atalla Senise da Silva

terça-feira, 7 de setembro de 2010

"O desejo de liberdade ... ".


Confraria dos Artistas de Sorocaba
Diante de uma terrível tempestade que assola os meios artísticos na atual situação de Sorocaba, com todas suas chuvas de mágoas, ventos de desgosto e trovoadas de ódio, e perante de tais elementos se nos perguntassem quais sentimentos nos dominam neste instante em que acompanhamos estarrecidos esta borrasca, principiado por tal SATED, nós diríamos que são da vergonha e da revolta, e por que não medo, já que toda tempestade trás piores prejuízos. Portanto eu, Santiago Ribeiro, venho por meio desta carta e representando toda a classe dos artistas plásticos de Sorocaba, notificar nosso repúdio e indignação contra esta verdadeira prostituição da arte que infelizmente vem contaminando com a ditadura da censura todos os meios artísticos locais.
Um dia eu aprendi que de ma forma geral, a palavra "liberdade" significa a condição de um indivíduo não ser submetido ao domínio de outro e, por isso, pleno poder sobre si mesmo e sobre seus atos. O desejo de liberdade é um sentimento profundamente arraigado no ser humano. Situações como: a escolha da profissão, o casamento e ter o compromisso político ou religioso, fazem o homem enfrentar a si mesmo e exigem dele uma decisão responsável quanto a seu próprio futuro.....

O Teatro assim como toda arte pictórica, musical e rítmico é a essência vital do oficio da paixão pela liberdade de expressar-se. É o Teatro uma forma de arte cuja especificidade a torna insubstituível como registro, difusão e reflexão do imaginário de um povo.....

A atual política oficial, que rege as manifestações e os profissionais do Teatro, transfere aresponsabilidade do fomento à produção cultural para a iniciativa privada, mascara a omissão que transforma os órgãos públicos em meros intermediários de negócios, e assim vão usurpando valores financeiros à queima-roupa, sob a coivara de ameaças, impondo suas garras sujas ao direito do artista em exercer sua profissão legal. Notamos que a aparente quantidade de eventos faz supor uma efervescência, mas, na verdade, disfarça a miséria dos investimentos culturais de curto e longo prazo que visem à qualidade da produção artística. Hoje, a política oficial deixou a Cultura restrita ao mero comércio das famosas DRTs e entretenimentos de “metsos”. ...

Vergonha! Uma vergonha que um profissional ou amador seja punido por prezar pela sua liberdade de expressão e prime pelo dever cumprido. É uma vergonha que as pessoas sérias sejam afastadas e censuradas. É uma vergonha e uma revolta imaginar um dia que nós dormiremos ao som de aplausos, mas que acordamos no dia seguinte sob o estigma de criminosos e formadores de quadrilha. É uma vergonha que o capitalismo selvagem continue arrebatando nossos artistas e expurgando-lhes a democracia de fato. Vergonha! SATED! Democracia! “Liberdade ao Artista”!...
               Santiago Ribeiro
Presidente da Confraria dos Artistas Plásticos de Sorocaba

Optei por postar, aqui, no Blog- TRECHOS DA CARTA -sueliaduan

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Você está em análise?

   
Você está em análise? Etâ perguntinha difícil de responder; vejamos. Primeiro não, basta você dizer que vai a um psicanalista bem titulado, tantas vezes por semana. O carteiro do analista também vai lá com freqüência e nem por isso está em análise. Ficou conhecida a história de um paciente que após um bom tempo diz a "seu analista" que está chegando ao fim de seu trabalho. Este lhe responde: - "Engano seu, penso que o senhor está prestes a começar". Entrar em análise é mudar de posição subjetiva: a pessoa para de referir suas queixas às cenas atuais de seu cotidiano e passa a se entender em uma "Outra Cena", como dizia Freud. Isso é difícil de conseguir, pois a realidade sempre alivia o comprometimento de cada um em seu mal-estar, razão pela qual muitas pessoas adoram viver um inferno de vida. Se quisermos traduzir em conceito, entrar em análise é sair de uma moral dos costumes e instalar na ética do desejo.
Segundo, há que se conhecer a diferença entre Psicanálise e o mar de psicoterapias que são oferecidas. Se até para o profissional, nem sempre é clara, imagine para o leigo. O termo "Psicanálise" adquiriu certo valor de mercado e acaba sendo o cobertor genérico de corpos disciplinares muito diferentes, o mais das vezes, opostos. Em síntese, praticamente todas as psicoterapias seguem o modelo da ética médica: um se queixa, o outro trata; um não sabe, o outro sabe; um é paciente, o outro é atuante. Arrisquemos uma definição: no fundamento do que se chama Psicanálise está sempre - sim - sempre responsabilizar o sofredor em seu sofrimento. Não culpar, atenção, responsabilizar e de uma responsabilidade muito diferente da responsabilidade jurídica, que se baseia na consciência dos fatos. Seria até engraçado que a prática do inconsciente exigisse a responsabilidade consciente. A responsabilidade em Psicanálise, contrariamente à jurídica, é a responsabilidade frente ao acaso e à surpresa. Não dá para ninguém se safar de uma situação dizendo: - "Ah, só se foi o meu inconsciente", como se ele fosse 'um moleque irresponsável que não tem nada a ver comigo'. A Psicanálise se define por sua ética, como queria Lacan, e a ética da Psicanálise é o avesso da ética médica, por conseguinte, das psicoterapias. Isso não quer dizer que uma coisa seja melhor que a outra, mas que é fundamental reconhecer as diferenças para que haja uma colaboração efetiva entre os campos clínicos e não mútuo borrão, como soe acontecer...."

Artigo, na íntegra, publicado na Revista Psique - número 51

Jorge Forbes: é psicanalista e médico psiquiatra, em São Paulo.
É um dos principais introdutores do pensamento de Jacques Lacan no Brasil, de quem frequentou os seminários em Paris, de 1976 a 1981. Teve participação fundamental na criação da Escola Brasileira de Psicanálise, da qual foi o primeiro diretor-geral.
Preside o IPLA - Instituto da Psicanálise Lacaniana e o Projeto Análise

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Pensamento e Poesia

Heidegger, em sua “Carta sobre o Humanismo” (Questions III), diz que o “homo humanus”, além de ter um meio ambiente, como os demais seres vivos (que nele estão presos), é o único que, em sua humanidade, ex-iste — está exposto à clareira do ser”, livre para ter não um meio ambiente, mas um mundo. A convocação a pensar a Verdade do Ser, que este dirige ao homem, é o que o torna um homo humanus.
O pensamento, portanto, em seu ser verdadeiro, “não é nem teórico nem prático” —, não é nem episteme e techne, nem práxis: "Um tal pensamento não tem resultado. Não produz nenhum efeito. Satisfaz à sua essência no momento que é” O pensamento é, para Heidegger,um fazer. Mas um fazer que ultrapassa de imediato toda práxis. O pensamento é superior a qualquer ação e produção, não pela grandeza do que realiza ou pelos efeitos que produz, mas pela insignificância de sua realização que não tem resultado.
Em seu “Qu’appelle-t-on penser?” (O que se chama pensar?), Martin Heidegger afirma: “ Poesia e Pensamento não se limitam, jamais, a utilizar a linguagem, a pedir sua ajuda para declarar-se, mas Pensamento e Poesia são,em si, o falar inicial, essencial e, consequentemente, ao mesmo tempo, o falar último que a língua fala por intermédio do homem.”

Trecho- “As Três Graças” – nova contribuição ao estudo de Guimarães Rosa-
Heloisa Vilhena de Araújo. São Paulo- Mandarin, 2001
Título do post- sueliaduan

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"A arte de ouvir"


De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: "No princípio era o Verbo". Eu acrescento: "Antes do Verbo era o silêncio." É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio. Veja esse poema de Fernando Pessoa, dirigido a um poeta: "Cessa o teu canto! Cessa, que, enquanto o ouvi, ouvia uma outra voz como que vindo nos interstícios do brando encanto com que o teu canto vinha até nós. Ouvi-te e ouvia-a no mesmo tempo e diferentes, juntas a cantar. E a melodia que não havia se agora a lembro, faz-me chorar…" A magia do poema não está nas palavras do poeta. Está nos interstícios silenciosos que há entre as suas palavras. É nesse silêncio que se ouve a melodia que não havia. Aí a magia acontece: a melodia me faz chorar.

Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa para por não haver o que dizer tratamos logo de falar qualquer coisa, para por um fim no silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para encher o tempo até que o elevador pare.

Os orientais entendem melhor do que nós. Se não me engano o nome do filme é "Aconteceu em Tóquio". Duas velhinhas se visitavam. Por horas ficavam juntas, sem dizer uma única palavra. Nada diziam porque no seu silêncio morava um mundo. Faziam silêncio não por não ter nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras. A filosofia ocidental é obcecada pela questão do Ser. A filosofia oriental, pela questão do Vazio, do Nada. É no Vazio da jarra que se colocam flores..."

Rubem Alves
 
 
 

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Ruminar ideias

Acordava antes de todos. Descia as escadas pé ante pé o mínimo barulho seria fatal. Sabia que iriam reclamar implicar mesmo com sua mania de sair cedinho. O que fazer se esse era seu método de trabalho? Caminhar pelas ruelas tranqüilas, encher-se da paisagem, do silêncio, observar o início de mais um dia, das poucas pessoas que cruzavam seu caminho, dos gatos tombando latas de lixo, do cheiro do pão, e muito mais. Depois, muito depois, com a caneta e o papel em branco ou, às vezes, sentado defronte ao teclado, ruminar ideias, elaborar frases, jogar com as palavras, escolher uma a uma como se escolhesse feijão. Escrever suas impressões, seu sentir, seu espanto perante um mundo em eterno movimento. Assim era seu ofício. Ofício de escritor. Às tardes eram, então, dedicadas à leitura, à pesquisa, sabedor que era de que não há inspiração, mas como costumava dizer: — eclosão, de que nada se cria sem técnica e disciplina, sem trabalho e persuasão.Como era lindo esse ritual, quase religioso. Uma verdadeira devoção. Dia após dia lá estava ele, um sujeito comum igual a tantos outros, não um sonhador como muitos pensavam, um lunático, não.Apenas um homem que via na arte da escrita o verdadeiro sentido das coisas e dizia: — uma vida só pra mim não basta eu preciso inventar, criar histórias. E nesse ato criativo sonhar, rir, chorar com os personagens, com toda trama em que me deleito e que meu leitor se reconheça.
Uma catarse literária em que ambos vislumbrem a própria vida


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

da série- Tenho um amigo que disse que eu:



Não devia ficar preocupada com tantas coisas, não. Que tudo é muito passageiro, que quando menos se espera, cada coisa toma o seu lugar, que não vale a pena todo o desgaste e blábláblá. Mas, o que sabe ele das coisas com as quais me preocupo? E como assim, tantas coisas? Ele me conhece pouco, muito pouco, mesmo. Sou é muito sossegada, até por demais, água morna dura de ferver, como dizia meu avô. Mas, uma coisa aprendi, temos sempre que escolher. Não tem jeito, não. Ou isto, ou aquilo, rosas ou margaridas, vermelho ou azul, como dizia o poeta.
Um outro amigo, desses todo prosa, disse que é exatamente isso mesmo, que só quando decidimos é que respiramos aliviados. E que a palavra já diz tudo. Com um risinho todo maroto, completou: - Veja bem, o caso da palavra preocupação, ou seja, ocupar a mente antes pra quê, entendem?
Como se a gente não entendesse o que acaba de escutar, falei toda cheia de mim. E não entende, não, minha caríssima, disse um outro amigo já puxando a cadeira pronto para argumentar. Como assim, perguntei eu toda curiosa? E ele foi logo respondendo todo satisfeito, feito um professor diante do aluno.
É que as palavras têm muitos sentidos, cada um as interpreta à sua maneira, às vezes, disse ele:- o silêncio é o melhor mensageiro. Nessa hora, como num passe de mágica, ficamos todos numa quietude de dar gosto, prontos para ouvir àquele amigo, que com voz mansa foi logo dizendo: - Difíceis as nossas escolhas e, às vezes, nos sentimos de mãos atadas, a nos perguntar por que não conseguimos decidir: falta-nos coragem, sobra o muito ruminar.
E, ali sentados, totalmente despreocupados, embevecidos diante de tanta sabedoria ouvíamos nosso amigo, esse amante das palavras e do silêncio. Sabedor de que é preciso ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução, a qual ele delicadamente chama de literatura.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

AULA - II parte-


 

Este deslocamento se fez porque a sociedade intelectual mudou, quanto mais não fosse pela ruptura de maio de 68. Por outro lado, o próprio poder como categoria discursiva, se dividia, se estendia como uma água que escorre por toda parte.
Uma reflexão torna-se necessária sobre a força de fugir da palavra gregária através do texto lugares, em que, a escritura e a semiologia se conjugam e se corrigem uma à outra. Fugir da palavra gregária não por que a semiologia negue o signo (apofática), mas porque nega que seja possível atribuir lhes caracteres positivos. fixos, a-históricos, a-corpóreos, em suma: científicos .
Segundo o pensador, esse apofatismo acarreta duas conseqüências que interessam, diretamente, ao ensino da semiologia:
a) não pode ser uma metalinguagem; toda relação de exterioridade de uma linguagem com respeito a outra é insustentável. O que sou obrigado a assumir falando dos signos com signos é o próprio espetáculo dessa bizarra coincidência ;
b) ter uma relação com a ciência, mas não é uma disciplina. Mas, que relação? uma relação ancilar: ela pode ajudar certas ciências.
Ao fundamentar-se na Semiologia, Barthes abre, a meu ver, caminhos para libertar a linguagem para o prazer do texto e renova, desse modo, a maneira de manter um discurso sem o impor; pois o que pode ser opressivo em um ensino não é o saber ou a cultura que ele veicula, são as formas discursivas através das quais ele é proposto. Entendendo-se que para uma mesma formação ideológica há diferentes formas enunciativas, pois o enunciado pode ser repetido em situações estritas, a enunciação jamais; o que permite ao enunciador se deslocar de acordo com o seu(s) interlocutor(es), isto é, o discurso pode ser o mesmo, porem, sua forma enunciativa é diferente.
Desse modo, o autor desloca as palavras, desfocaliza significantes de significados, desnivela a enunciação estabelece um jogo marginaliza um assunto e enfatiza outro. É nesse domínio do léxico que ele age. É, ao mesmo tempo, polido, modesto e irônico. A sua prática de escrever se ritualiza não em uma comunicação imediata, o que justifica as várias vírgulas, dois pontos, hífens, paralelismos gramatical, etc. Porém, o discurso em Barthes se constitui, me é crível, na recusa de um modelo pragmático e, assim, trapaceia coma língua, fazendo do texto a Aula uma demonstração de como jogar com os signos lingüísticos. Ao mesmo tempo em que fala da semiosis, a usa como exemplo do que afirma, reafirma, teima, desloca-se e, até joga com a possibilidade de abjurar. E, essa competência, me faz vê-lo como uma espécie de singularidade mística enquanto discurso,é claro.   

 BARTHES,Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone Moisés. São Paulo: Cultrix, 1988         
             



domingo, 22 de agosto de 2010

AULA


Na concepção barthesiana falar é, com maior razão, discorrer, não é comunicar; é sujeitar: toda língua é uma reição generalizada . Então, penso eu, pobre mortal, como sobreviver a isso? Barthes indica um caminho: esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução, eu chamo, quanto a mim; literatura (Parece-nos, assim, que a liberdade humana só é possível fora da linguagem. No entanto, só existimos dentro dela, uma vez que não há separação entre homem e linguagem. Estudar a linguagem fora do humano é, explicitamente, destituir o sujeito da linguagem e vice-versa. Estaríamos desse modo, condenados à prisão perpétua, nessa rede de poder que constitui os discursos de saber? Essas vontades de verdade que há muito se perfilam e são formuladas, reformuladas e reempregadas no caminhar humano? E aqui entra, creio eu, a idéia barthesiana de trapaça, de logro magnífico com a língua. Não podemos destruí-la, nem viver em seu exterior, contudo, podemos desviá-la de seus sentidos articulados, estereotipados, destituindo, dessa maneira, os mecanismos de poder perpassados nos interstícios sígnicos, ou para ir mais longe ainda, nos vários conjuntos de enunciados.
Barthes nos leva a refletir sobre as forças de liberdade que existem na literatura a prática da escrita. Essas forças são articuladas sobre três conceitos gregos: mathesis, mimesis e semiosis.
A primeira força corresponde à força dos saberes, visto que todas as ciências estão presentes no monumento literário. E nesse sentido, a literatura é o próprio fulgor do real. Ela faz girar os saberes não fixa, não fetichiza nenhum deles; ela lhes dá um lugar indireto, e esse indireto é precioso. Mas Barthes nos mostra os dois lados dessa força: a) a permissividade para designar saberes possíveis insuspeitos, irrealizados; b) o saber que mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro.
A segunda força da literatura é sua força de representação. É, justamente, por querer representá-la que há uma história da literatura. Entretanto, o real pode ser apenas uma espécie de demonstração, e é por que há o real (pluridimensional) e a linguagem (unidimensional) que se produz a literatura. Barthes afirma: desde os tempos antigos até as tentativas da vanguarda, a literatura se afaina da representação de uma coisa. O quê? Direi brutalmente: o real . Ora, podemos fugir dessa história da literatura? Se rompermos com o elo entre o real e a linguagem. É possível? Talvez, através de existentes-não-reais somente existentes nas tentativas virtuais, na pluralidade de (im) possíveis olhares.
A terceira força da literatura é a que fora indagada acima; é um método de jogo. Teimar e deslocar-se, isto é, instituir no próprio seio da linguagem servil uma verdadeira heteronímia. Nessa perspectiva, surge a semiologia objetivando estudar a linguagem trabalhada pelo poder. Daí deslocou-se, coloriu-se. Este deslocamento.....
Em outro post!!!!

BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1988

Roland Barthes, na aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária que proferiu no Colégio de França, em 7 de janeiro de 1977, fez esta afirmativa que renova a crença nas pessoas que acreditam no poder da literatura:

"Se, por não sei que excesso de socialismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto numa, é a disciplina literária que devia ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário". (Aula: 1978 p. 18)