quarta-feira, 15 de julho de 2009

faz falta uma árvore sim, eu sei

da janela do meu quarto avisto
prédios, com suas variadas cores.
casas mais próximas com suas
varandas, cadeiras, vasos, flores,
e às vezes até alguém lendo
O que será que lê esse sujeito
que não conheço e,
que mora duas quadras da minha janela.

Clic. abro outra janela.
Esse sujeito eu conheço.
Conheço? Existe? Talvez.
do outro lado da calçada, o chorão.
enxergo cada folhinha.
venta sinto seu cheiro,
cheiro agridoce.
podia ser minha. Minha?
a vizinha implicou:
a folha, a sujeira, em dia de chuva.
bláblábalá
Falei tudo bem, deixa pra lá.

Plantaram em outro lugar.
Pra me consolar pensei: é só uma árvore.
É isso mesmo.
Por que esse espanto?
Não estamos todos divididos?
os que querem,
os que não.
os que lutam,
os que desistem.
os que calam,
consentem,
mentem.
os que puxam o gatilho.
os...

Chega!
estou perfeitamente adaptada,
mas faz falta uma árvore sim, eu sei.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

..."diz que se chama Saudade"

Tantos eles

tantos nomes
flutuam em minha mente.
Vidas
Belas,
Fortes,
só por elas
já vale a pena.
é Poe, é Proust, é Wagner,
Leminski, Caetano, Rodrigo,
Pessoa,
Michael,
Pedro,
Antonio.

esses nomes e tantos outros
Movem o meu ser.
eu sou, eu estou.
só por eles,
tudo tem sentido e dá sentido
é a música,
é o absurdo,
é o avesso.
a alma que não é pequena
a vida que vale a pena
São tantos eles.

domingo, 5 de julho de 2009

Uma atitude genial ??? Tenho minhas dúvidas.

não sei o que é preciso para expor-se assim e, como se sente depois disso tudo, enfim ...

______________________________________________
Revisto BRAVO! Julho/2009 - Por Armando Antenore
Investigação Sobre o Amor
Um debate na Flip, um livro e uma instalação buscam compreender por que o escritor Grégoire Bouillier terminou o namoro com Sophie Calle, a cultuada artista contemporânea francesa

...Era uma mensagem de ruptura. Um fora. Uma despedida. Nos sete parágrafos da correspondência, Grégoire respeitava em parte o script que os amantes costumam seguir quando resolvem se afastar. Proclamava que nunca esqueceria Sophie e enaltecia a relação dos dois.
No entanto, uma afirmação inusitada punha em xeque as mesuras diplomáticas, diferenciando aquele adeus de outros do gênero.

"Cuide-se"
O e-mail em que Grégoire Bouillier rompe com Sophie Calle
"Há algum tempo, venho querendo responder seu último e-mail.”
Na verdade, preferia dizer o que tenho a dizer de viva voz. No entanto, vou fazê-lo por escrito.
Você já pôde notar que não estou bem ultimamente. É como se não me reconhecesse em minha própria existência. Sinto uma espécie de angústia terrível, contra a qual não consigo fazer grande coisa, exceto seguir adiante para tentar superá-la. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a 'quarta'. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as 'outras', não achando logicamente um meio de vê-las sem transformar você em uma delas.
Pensei que isso bastasse. Pensei que amar você e que o seu amor — o mais benéfico que jamais tive — seriam suficientes. Pensei que assim aquietaria a angústia que me faz sempre querer buscar novos horizontes e me impede de ser tranquilo ou simplesmente feliz e 'generoso'. Pensei que a escrita seria um remédio, que meu desassossego se dissolveria nela para encontrar você. Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições nem sequer de lhe explicar o estado em que mergulhei. Então, nesta semana, comecei a procurar as 'outras'. Sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Nunca menti para você e não é agora que vou começar.
Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…). Com isso, jamais poderia me tornar seu amigo. Você pode, então, avaliar a importância de minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante de sua vontade, ainda que deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre os seres e a doçura com que você me trata sejam coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você do modo que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.
Mas hoje seria a pior das farsas manter uma situação que, você sabe tão bem quanto eu, se tornou irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A PALAVRA E O SILÊNCIO


A maior ou menor capacidade de nomear o mundo define a maior ou menor perplexidade e terror em relação ao mesmo.

No momento em que as coisas são nomeadas, rotuladas, deixam de ser assustadoras e passam a fazer parte do conhecido, do familiar.

O processo de apreensão do mundo pela palavra, contudo, tende a revestir a realidade com uma opacidade embrutecedora que anestesia a nossa percepção e nos induz a ver como óbvio, banal, algo que em sua essência é mágico e misterioso.

Dentro desse universo, onde a palavra deixou de habitar o mais íntimo da alma humana e perdeu, para usar uma expressão de Guimarães Rosa, a sua condição de “porta para o infinito”, a literatura constitui um elemento de transcendência, um meio de quebrar os condicionamentos limitadores do cotidiano e (re)instaurar o sentido “místico” das coisas.



Júlio César de Bittencourt Gomes. Professor de literatura, pesquisador na área de literatura e cinema, colaborador de "Teorema" - revista de cinema -, doutor em literatura brasileira pela Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), com a tese Imagens, Esquinas e Confluências: um roteiro cinematográfico baseado no romance "O quieto animal da esquina", de João Gilberto Noll.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

....como adivinhou?

Um homem anda por uma estrada próxima a uma cidade,quando percebe, a pouca distância, um balão voando baixo. O balonista acena desesperadamente, consegue fazer o balão baixar o máximo possível e grita:
-Hei você, poderia me ajudar? Prometi de pés juntos a um amigo que me encontraria com ele às duas da tarde, porém já são quatro horas da tarde e nem sei onde estou. Poderia me dizer onde me encontro?
O outro homem, com muita cortesia, respondeu:
-Mas claro que posso ajudá-lo! Você se encontra em um balão de ar quente, flutuando a uns 20 metros acima da estrada. Está a quarenta graus de latitude norte e a cinqüenta e oito graus de longitude oeste.
O balonista escuta com atenção e depois pergunta com um sorriso:
-Amigo, você trabalha com consultoria, né? -Sim, senhor, ao seu dispor! Como conseguiu adivinhar?
-Porque tudo o que você me disse está perfeito e tecnicamente correto, porém esta informação me é totalmente inútil, pois continuo perdido. Será que você não tem uma resposta mais satisfatória?
O consultor fica calado por alguns segundos e finalmente pergunta ao balonista:-E você...
É político, não?
-Sim, sou realmente. Como adivinhou?
-Ah! Foi muito fácil! Veja só: você não sabe onde está e nem para onde vai. Fez uma promessa e não tem a mínima idéia de como irá cumprir e ainda por cima espera que outra pessoa resolva o seu problema. Continua exatamente tão perdido quanto antes de me perguntar. Porém, agora, por um estranho motivo, a culpa passou a ser minha...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

"..não era pra tanto"

...não tive a intenção, senhores, disse calmamente, atitude esta que procuro colocar em pratica nessas ocasiões, se bem que sempre há uma intenção, e eu sei disso , nada é isento, nada está assim por estar, ao acaso, se bem que o caso não era pra tanto, não havia necessidade de criar tanto caso, e nesse caso resolvi me explicar:
_não falei por falar, se falei é porque realmente penso dessa maneira, e também grande merda, senhores, que penso o que penso, todo mundo pensa o que pensa, e, isso não altera em nada a ordem das coisas.
Com os ânimos alterados, mas sob controle, ainda tentei dizer:
_O que altera é..., mas não pude completar a frase, não me deixaram, a coisa começava sair fora de controle, todos falando ao mesmo tempo, percebi e, não precisava ser nenhum gênio para tal conclusão.
Algumas pessoas estavam mesmo bastante alteradas, isso me fez lembrar de meu avô, com aquele seu sorriso largo, sua voz suave a dizer:
_ pessoas com raiva são perigosas, achei sensato colocar em prática essa lição, da minha juventude, e acalmar o ânimo dos presentes.
Ah.como a gente se engana.
Que nada! o que queriam mesmo era contenda, blábláblá coisas de gente dada a mostrar-se, disputa das mais ferrenhas, alguns só faltaram puxar do bolso a carteira, na esperança de ali encontrar algum título ou documento que provasse sua formação, sua competência, como se as coisas funcionassem assim.
Ah. essa gente.
A minha vontade nessa hora não era puxar a carteira. O que eu queria, nesse momento, era sacar a.45 dar dois tecos na boca de qualquer um ali presente e mostrar que ignorância se resolve com ignorância maior, se é que isso é possível, mas de novo a imagem de meu avô com seu cigarrinho no canto da boca, a fala mole, a mostrar-me tanta sabedoria, que me contive, mesmo porque não possuo armas, muito menos carteira.
Nessa confusão toda acabei até me esquecendo do que disse, naquele espaço, que a meu ver, deveria ser o da troca das idéias.
Caro leitor (leitores)
O que será que eu disse a essa gente pra causar tanto...?




terça-feira, 16 de junho de 2009

Pequeno Poema Didático

O tempo é indivisível.
Diz: qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas, mas fica a árvore, contra o vento incerto e vário.
A vida é indivisível.
Mesmo a que se julga mais dispersa e pertence a um eterno diálogo, a mais inconseqüente conversa.
Todos os poemas são um mesmo poema,
todos os porres são o mesmo porre.
Não é de uma vez que se morre... todas as horas são extremas!

Mário Quintana (1906 - 1994) nasceu em Alegrete - RS.
Pertencente à segunda geração do Modernismo, é chamado de poeta das coisas simples, despreocupado com a crítica. Em suas poesias percebe-se bom-humor e coloquialismo.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ser Zen


A filosofia budista pode às vezes nos levar às últimas fronteiras do pensamento abstrato, com conceitos como "vazio" e "iluminação", mas a Verdade de seus ensinamentos só pode ser encontrada na nossa vida cotidiana.
Ser Zen não significa fazer algo especial, mas realizar conscientemente todas as atividades cotidianas.
Certa vez perguntaram ao mestre Nan-ch'uan: "O que é Zen?"
E ele respondeu: "A mente comum é completamente Zen."

domingo, 7 de junho de 2009

De Paris a Bom Jesus de Pirapora

É de não acreditar mesmo, mas ao mesmo tempo é muito comum, acontece a todas as pessoas, todos os dias, pra não dizer todo instante, a umas mais outras menos. Mas ninguém reclama, também reclamar a quem.
De Paris a Bom Jesus de Pirapora não há escape, criança, jovem, velho, rico, pobre. Aí parece que a justiça existe, e a distribuição, se não é igual, pelo menos todos experimentam. Basta estar vivo.
É o imprevisto, a surpresa, o inesperado.
Eu estava hiper ansiosa, finalmente a editora tinha um parecer, pô já era alguma coisa, muita coisa, isso depois de trozentos e-mails, intermediações, depois de muito quazquazquaz, revisões, anotações etc.etc.etc.
Levantei afobadíssima, um clic e pronto, o trabalho de anos, anos, e anos, e que num pau do computador, perdeu-se.
Não deu pra recuperar foram às palavras do técnico, e ,assim tranquilamente:
_aquela pasta que a senhora falou já era. A senhora num custuma fazer backup?
Porque será que as pessoas escolhem o pior momento com perguntinhas, pois é, respondi sempre deixo pra depois, isso aqui tb não é uma empresa não é? Completei. Ele não deixou por menos, mas é sempre bom, canja e caldo de galinha não faz mal a ninguém. Ai maldito ditado popular, tão certo.
A saída foi levar o original, á única cópia, de 318 páginas. Levei.
Qual era a minha sina aquele dia? Naquele dia, dei mole pro azar, ou o nome que se queira dar a isso tudo: mandinga, urucubaca, carma, catiça de Maria negrinha, praga de parteira, coisa do tinhoso.
Porque não há outra explicação pro sucedido, como diz o caboclo. Foi eu virar a esquina e aquele pacote caiu com tudo na única poça d’água na rua. Choveu só ali, pelo jeito.
Quem colocou essa poça aqui gritei. Já em quase delírio. Quase?
Qual o mistério em tudo isso, o que está por trás. Nada, nadica, só o viver pura e simplesmente. Será?
Tenho um amigo que diz que é a dinâmica da gente, que é só perceber qual é a sua, que elimina essa repetição de coisas,digamos ,filhas de uma puta, que acontece na nossa vida. Fácil assim di-nâ-mi-ca. Minha vontade era meter-lhe um soco. Contive, afinal eu que contei toda a história, dias depois.
Há os psicólogos de plantão pra dizer que é coisa de infância ou algo não resolvido na sua sexualidade, que gera essas situações de auto-sabotagem. Sabotagem, cada uma.
Há também a turma da espiritualidade, uma amiga, quando lhe contei disse: que talvez eu não me ache merecedora de viver situações alegres. Caramba mais essa agora. Então eu gosto de sofrer. Meus amigos sei não, é porque gosto muito deles. Mas não se salva um. O cambada de malucos
No fundo, no fundo eu sempre soube que de Paris a Bom Jesus de Pirapora... pobres, ricos, jovem .... que acontece a todos , todos os dias....esse mistério do viver que nos traz o bom e o ruim...e que tanto um como outro passam.
Só não acho justo, tenho um amigo que falou que justiça....

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
Fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios

Manoel de Barros-do livro “Memórias Inventadas”

terça-feira, 26 de maio de 2009

FAROL DE MILHA- III Capítulo

Faz muito, muito tempo mesmo que não vejo a Tereza, estávamos morando em casa separada.
Sr. Adalberto não estou perguntando nada.
Claro, claro, só estou querendo colaborar.
Vamos por parte, então o senhor estava na casa da sua amiga, militante política com um plano para seqüestrar o presidente em sua visita ao Rio, correto?
Sim.
Pelo amor de Deus homem, como posso acreditar numa loucura dessas. Porque não confessa que assassinou sua mulher, que ela o traía, que perdeu a cabeça. Essas coisas acontecem, sabe. E ademais confessando, a pena será menor.
O doutor está me acusando sem provas, quero dar um telefonema, falar com meus advogados.
O telefone está sem linha, chove muito, em dias assim é quase impossível conseguir uma ligação.
Porque o senhor correu quando avistou a polícia?
Não corri da polícia, é que quis alcançar Conceição.
Ela estava fugindo do senhor, o que houve? desentenderam-se, são amantes, ela é bonitinha.?
Por favor, delegado, vamos com calma.
Calma, o que ? Já cansei dessa sua lenga-lenga.
Guardas algemem o homem.
Adalberto acordou com dores nas costas, noite mal dormida, que sonho terrível. Tereza ensangüentada, um cachorro lambia-lhe os lábios, cheiro de urina. Foi quando percebeu que estava todo molhado. Como aconteceu aquilo, não se lembrava. Será que mijei dormindo? Melhor confessar tudo, não estou suportando, capaz de ter um treco. Não. Não posso confessar. É preciso manter a serenidade. Seus joelhos doíam muito:
guarda preciso de ajuda não consigo levantar-me.
O senhor pensa que todo mundo aqui é idiota, e?
Não claro que não, só preciso ficar em pé.
É uma jogada sua.
Mas é óbvio que não, sou um cidadão, não sou um marginal.
Por que o sujeito aí pensa que é melhor que os outros é, só porque é estudado?
O que você sabe da minha vida?
Sabemos tudo doutorzinho de merda.
O delegado teve uma conversinha com sua mãe.
O que?
É, e nem precisou intimação não, foi só um telefonema, ela veio rapidinho.
Deve gostar muito do meninão aí.
Lindos olhos os dela. E como fala bonito, falou foi muito. O senhor é mesmo nervosinho desde criança, e pelo jeito chegado numa malvadeza, ver bicho morrer, cheirar sangue.
Alguma tara doutor?
Vá à merda.
Solta, solta meu pescoço, tenho meus direitos, senhor policial.
Então porque o sujeito aí não desembucha, quem sabe eu entenda.
Não tenho nada a falar com o senhor.
Azar o seu, vai apodrecer nesta cela.
Por um momento Adalberto pensou em confessar, chamar o delegado explicar direitinho o que realmente aconteceu, talvez ele compreendesse, era um homem. E Tereza deixava qualquer um louco.
Não, não podia esperar por compreensão, de nada adiantaria apelar para honra, dizer que perdeu a cabeça, que a amava, que não conseguia viver com a traição. Falar de suas tardes de angústia, enquanto Tereza retocava o batom, seu cheiro doce ainda na memória, suas pernas levemente bronzeadas, os cabelos molhados, a imagem do amante. Eles juntos.
Não, no fundo sabia-se um fraco, um conservador, arraigado a velhos costumes, velhas idéias.
O jeito era negar, negar, não fora ele e pronto. Limpou tudo antes de sair, a mesa, a garrafa de vinho, as taças, admirava sua organização, seu jeito excessivamente detalhista.
Só não mexeu mesmo no corpo estendido no meio da sala, o punhal encravado no ventre, a poça de sangue que se formou, e o último olhar de Tereza. Porque será que aquele olhar, feito o da mãe, incomodava-lhe tanto.
Ainda hoje, passado tanto tempo, sentado em frente ao mar, relembra cada detalhe, a amiga Ceição, Tereza, a mãe, os bichos, a infância, as noites na prisão.
Solidão e tristeza, mas nada, nada se compara ao azul daquele olhar, ou seria verde, como o mar.

sábado, 23 de maio de 2009

FAROL DE MILHA capítulo II

- não pensaram em mim, é? Ele Beto, que nunca esconderá, desde garoto, sua queda para herói, queria o papel de destaque, sentia-se pronto. Com ar de superioridade abordaria o presidente logo que este desse os primeiros passos junto à comitiva. Se preciso usaria da força física, coisa que, sempre fez questão de demonstrar.
Procurar Conceição encheu-lhe de confiança. Não podia contar-lhe a encrenca em que se metera. Não agora, melhor mesmo era ficar quieto e seguir em frente. O jeito era fingir sono, dizer boa noite. Foi o que fez. Dormiu profundamente e acordou com a amiga trazendo-lhe uma bandeja com bolachas e café forte. Afetuosamente ela alisou-lhe os cabelos. Apanhado de surpresa não atinou de imediato com o motivo de tanto carinho. Ela mesma se encarregou de mostrar a razão:
O que está escondendo, Adalberto? Não confia mais em mim, somos amigos, não? Desorientado, sem saber como proceder, o olhar cravado no corpo de Conceição, que de camisola, insinuava-se, começou a balbuciar algumas palavras e numa evolução rápida articulando idéias que finalmente explodiram numa confissão, declarou:
Afundei o punhal no ventre de Tereza, talvez a polícia já saiba.
Conceição tomada de espanto ouviu atentamente o relato que se seguiu, as palavras ditas eram frias, sem emoção. Havia naquele corpo sadio de homem uma mente perversa, doente, alimentada pelo prazer da morte, do sangue.
Perplexa pela crueza, pela descoberta, os olhos de Ceição expressavam a descrença quanto às possibilidades do velho companheiro participar do seqüestro do presidente.
Ao desviar o olhar do corpo da amiga, Adalberto sentiu-se como o menino frente ao olhar da mãe. Perdido ensaiou um sorriso sem muita convicção, última estratégia na tentativa de comove - lá. Ela não se deixou enganar. Não fora criada para sentir dó ou medo.
Tudo o que sabia era que na sua frente tinha um homem, não um qualquer, um amigo, que puxou uma faca, não uma faca qualquer, um punhal, e encostou no peito da mulher desceu até o ventre com numa dança macabra e cravou na companheira, na amada. Nada justificava esse ato. Violência nunca fez parte da sua vida.
Conceição acalentava um sonho, era quase uma imagem, a chuva molhava o verde do campo, o campo de seus pais, da sua infância, de seu país, os campos de sua vida, fartura e alegria, juntas. Esse sonho foi amadurecendo junto com os companheiros do partido. Ter uma conversa cara a cara com o presidente, sensibilizá-lo, persuadi-lo, usar do poder das palavras era sua meta.
Numa arrancada súbita, Conceição se deslocou quase solene em direção à porta, logo freando o passo, virou-se e pediu a chave do apartamento.
Tirem as algemas.
Quer água?
Não. Tem certeza?
Certo. Vamos ver se eu entendi direito, Sr. Adalberto.
O senhor disse que estava parado uns tempos na casa de sua amiga.
Como é mesmo o nome dela?
Conceição. Ah, é isso. Conceição. Tereza era sua esposa, correto?
Respiração descompassada, mãos trêmulas, Adalberto, olhou firmemente para o delegado e disse:

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Farol de Milha- (em três capítulos)

Capítulo I
Desligou o motor. Tirou as chaves guardou-as no bolso. Encostou lentamente a cabeça no banco, escorregou um pouco o corpo, os pés quase tocaram o acelerador. Esse incidente alegrou seu coração. Ligar novamente o motor, um pisão forte e bum... ribanceira abaixo. Quando encontrassem o carro, se o encontrassem, pensariam que foi um acidente. Mas era isso que queria? Tinha dúvidas, estrada perigosa em noites frias como esta quase impossível dirigir. Bom ter encostado um pouco, pôr as idéias em ordem. Seguir o conselho da mãe, na despedida, insistiu muito:-
Adallberto, por favor. Por favor, hein! Faça outro caminho. Quem sabe a BR 116, ou então use os faróis, aqueles, os de milha.
Mãe, eu já lhe expliquei. Farol de milha... - ela erguia um pouco o olhar, os olhares encontravam-se e ele se fechava, não falava mais.
Porque será que esse olhar exercia tanto poder sobre ele, quando criança ficava horas olhando para esses mesmos olhos, e na sua inocência de menino pensava que eram um pedacinho do mar.
Os olhos da minha mãe são azuis da cor do mar. O mar é verde, retrucava Conceição. Ele bravo gritava, na rua, na escola pros amigos:
Azul, azul, azul e azul. Ria muito.
A mãe, era uma mulher magra, pele morena, um olhar sonso e agudo. Dava-lhe surras quando o ouvia falando assim com os meninos.
Dizia que não se pode humilhar os outros. Como se fosse obrigação ter olhos claros.
Pobre moleque. Às vezes escondia-se no fundo do quintal embaixo da velha paineira. Lá, no silêncio da noite, fazia planos. Era sempre o herói alegre, sorridente, mesmo quando em suas mãos, presenciava a morte de algum dos bichos. O sangue escorrendo não o incomodava, sentia uma coisa esquisita que não sabia explicar. Mãe sim, ficava com os olhos cheios d’água. Momento mais inoportuno para recordações.
Olhou o relógio 4 horas. Logo a polícia localizaria o carro. Alguém já deveria ter encontrado o corpo. Pensamento besta. Uma noite fria dessas, impossível. Sossegou. Ligou o rádio na procura de alguma notícia, nada. Só música.
Balançou o corpo ao som do bolero, sorrindo cantarolou: “Dois pra lá, dois pra cá, a cuba libre dá coragem, a dama de lilás”... . Há quanto tempo não dançava não se divertia. Vidinha pobre.
“Dois pra lá, dois pra, cá.”, parou de repente, um estalo bombardeou sua mente Como não pensei antes, Ceição, por que não procura-lá? Certamente ela ajudaria. Era uma mulher generosa, sempre envolvida em favor das minorias, dos excluídos, como costumava dizer nos comícios acreditava na mudança, na bondade do ser humano e nessas baboseiras todas. Sempre achei isso tudo um porre.
Decidido ligou o carro, e arrancou a toda, praia de Copacabana, lembrava exatamente do prédio. Não poderia ter sido outro o local escolhido. Tudo tão à mão, o morro, saídas estratégicas, a avenida principal e acima de tudo o povo, uma gente dada à alegria, à descontração. Ideal para misturar-se, ficar uns tempos escondido até a poeira baixar. Trêmulo, sem saber exatamente o que falar, tocou a campainha, depois de um longo abraço e um breve fitar de olhos foi Conceição quem falou.
Um novo plano, dessa vez sem erros. Adalberto não pestanejou, nem poderia, instalou-se confortavelmente no velho sofá e a noite, após o jantar, dirigiu-se a uma saletinha existente no fim do corredor. Ao lado uma janelinha com cortinas brancas, um vaso verde com flores, uma mesa de madeira tentavam dar ao ambiente um clima de lar. Apartamento pequeno, simples.
È, a gente se acostuma com a pobreza, a morar em apartamentos de fundos, ficar sem ver a rua, comer pouco. Eram os pensamentos de Adalberto quando Conceição, vindo da cozinha, sorrindo, entregou-lhe um amontoado de papéis. Meio sem jeito como se ela tivesse percebido seus devaneios, esticou as mãos e começou rapidamente a leitura.
Peça chave do esquema, ela deveria afastar-se uns dias do apartamento para reaparecer no momento exato. Maneco e Luís ficariam no carro atentos ao movimento da avenida. Detalhes, nomes de pessoas, horários, gráficos, tudo devidamente organizado.
Acabada a leitura, Adalberto fitou Conceição por algum tempo, em silêncio e fechando a cara disse:

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O descaminho daquele que conhece

...É a curiosidade, em todo o caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo.
De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição de conhecimento e não, de certa maneira, e tanto quanto possível o descaminho daquele que conhece?
Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir.
M. Foucault

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Uma escuta necessária

no começo eu não percebi nada sabe, é que também as coisas foram acontecendo bem lentamente, um equívoco aqui, outro ali, mas havia uma cumplicidade, e isto conta muito.
Normalmente eram quase duas horas seguidas, algumas interrupções, as posições mudavam pouco, parecia até que eu estava ali sozinha, olhando pro teto e, ouvindo o eco da minha própria voz. E estava mesmo.
Foi justamente aí que comecei a desconfiar da eficiência da coisa, eu tinha minhas dúvidas, muitas, algumas continuam. Algumas? Deixa pra lá.
Enfim eu estava numa posição confortável, e também poder falar sempre foi o melhor. Nossa como eu falava, se bem que tudo ali propiciava. Mas cheguei num ponto que não deu mais, eu passei a falar cada vez mais alto, mais alto, e tudo virava confusão.
_Doutor....... é essa aflição.
-Hã?
_A-fli-ção.
- Bom ter cão,muito bom.
_que cão? Ai Caramba. Tá tive um cãozinho. Eu, eu gosto de ficar muito tempo só. Não pelo amor de Deus, não cheiro pó. Eu sei o senhor já falou, semana passada, lucidez.
Surdez e lucidez duraram anos. Outro dia o vi descendo a mesma rua, chamei, chamei, nada.
É preciso ouvir, dizia ele. Quanta lucidez, obrigada doutor...
A surdez foi sempre minha, mas que muito do que ali se deu foi no grito, lá isso foi.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Tributo a Mantovani:

As suas palavras, que também são minhas,
e, penso eu, deveriam ser de muitos de nós:

...[...] “se eu que sou assalariado posso fazer arte o que não poderia o poder público, sempre achei tão simples, tão barato, a gente descia... o Zezé levava as tintas, seus quadros, o pessoal ia chegando, as poesias penduradas feito um varal, tudo tão lindo na tarde, uma festa dionisíaca, um ritual mesmo, pintávamos o rosto, as mãos. [...]"- (documento-acervo-oficina otelo)

Mantovani sempre foi um provocador, instigava os atores às descobertas cênicas que ele propunha em seus trabalhos, um artista completo, sua morte deixa uma lacuna, um espaço que ficará eternamente vazio na cena artística sorocabana,

à mim, deixou também, como diz o poeta, “uma saudade que corta feito aço de navalha, o coração fica aflito bate uma ou outra faia e o zoio se enche d’água”.

Mantovani 1951
08/05/2003 -6.35 h. a matéria virou luz e é toda energia.

EVOÉ MANTO,

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Seja paciente- Rainer Maria Rilke

Quero lhe implorar
Para que seja paciente
Com tudo o que não está resolvido em seu coração
e tente amar
As perguntas como quartos trancados
e como livros escritos em língua estrangeira.
Não procure respostas que não podem ser dadas
porque não seria capaz de vivê-las.
E a questão é viver tudo.
Viva as perguntas agora.
Talvez assim, gradualmente, você sem perceber,
viverá a resposta num dia distante.
---------------------
Rainer Maria Rilke nasceu em Praga em 4 de dezembro de 1875. Foi um dos poetas mais importantes da lingua alemã, participou de movimentos literários do início do século XX, como o existencialismo. É autor de "Cartas à um jovem escritor", entre outros.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Perdidos e Achados

Desço rapidamente à rua. Sinto que meus pés não estão no chão. Levito? Isso são horas para ironias. O momento não é para piadas, ainda mais, de mau gosto. Coração acelerado aperto o passo. O suor já começou a escorrer. Um tremor percorre todo meu corpo já molhado.
E se realmente perdi? Bom, se perdi posso achar.
Como era que brincávamos, mesmo?
_ São Longuinho, São Longuinho, se eu achar dou três pulinhos. Saudade da Rita, tão linda e, e nada, diacho. Malditos pensamentos, não me dão sossego, não paro de pensar. Será normal? Olha aí, cada passo um pensamento, um questionamento.
Vai ver, é assim com todo mundo. Deve ser. À semana passada, aqui mesmo na ladeira, comecei observar às pessoas andando sozinhas, o olhar distante, gestos rápidos, algumas até moviam os lábios numa animada conversa chegando até a sorrir.
Talvez estivessem a recordar uma situação passageira que eu, em minha observação, captei. Só isso.
Mas comigo penso que é diferente, meu vôo vai longe, como dizia mãe:
_Voando menino, cuidado que pode cair, hem? Mulher boa, a mãe, lembro de seus cabelos negros caídos sobre os ombros, a voz macia, o andar ligeiro, pronta pro trabalho.. Sempre fingindo não ver Rita e eu, escondidinhos, lá no milharal trocando beijos. Gostava de olhar. Era com ternura que espionava a gente.
O quê que deu em mim agora? Que nostalgia é essa? O que está acontecendo comigo? Preciso me concentrar, relembrar o trajeto feito. Como o trajeto feito? Sempre subo a 42. Será que mudei todo o trajeto e nem percebi? Como vou saber às ruas que andei? E se andei a esmo? O que é isso agora, delírio? Com andei a esmo? Basta. Não ouço mais essa maldita voz. Estou ou não no comando? Exijo de mim concentração, parar de tagarelar, silenciar esses ruídos interiores.
Os orientais dizem que os amantes nada dizem por que no seu silêncio mora um mundo, uma imagem imobilizada num momento eterno. Então a Rita nunca me amou, como falava, as juras de amor sussurrada aos meus ouvidos, os lábios a roçar-me o pescoço, os beijos ardentes, tudo tão forte, tão intenso.
Que bom que era ouvir sua voz, principalmente, quando me chamava:
_Titooo, Titooo, Vamos. Não gosto de chegar com as luzes apagadas. Íamos toda terça na sessão das quatro, único dia da semana que passava bons filmes.
Rita ficou encantada com “Passagem para a Índia”, não parava de falar, dias depois ainda comentava as cenas mais marcantes, as mais belas falas dos personagens. Seus olhos ficavam cheios d’ água, a voz embarcada.
Outro que a impressionou: “O Desaparecimento de Lorca”, com Andy Garcia no papel de Frederico Garcia Lorca. Este sim, mexeu com ela e, quando Andy Garcia/Lorca com terno branco, chapéu cinza, gravata vermelha, desceu magistralmente às escadas,chorou copiosamente.
Sabia os poemas. Ouvi baixinho, Rita, declamando Lorca. Que emoção.
Engraçado, só hoje, percebo que Rita pronunciava meu nome acentuando o “o” do Tito, como se estivesse cantando.
Será que ela queria ser cantora? Quanta se perdeu da Rita, em mim, com o tempo? E o que eu nem cheguei a conhecer? Rita pintava, nunca mostrou-me seus quadros. Também a gente nunca falou de cores, falávamos de tudo, das ondas do mar, das mais variadas espécimes animais e vegetais com seus caminhos rochosos, desertos, coníferas, dálias, girassóis, begônias, folhas das macaúbas, do canto de um rouxinol, do arganaz-do-campo, dos olhares, dos caminhos dos descaminhos. Cores nunca.
Só depois do acontecido é que soube, até guardei um quadro de lembrança. Vai ver pintava declamando Lorca.
Quer dizer então, que eu vou ficar aqui descendo e subindo a ladeira, relembrando perdas?
Lembrar-me da Rita, recordar seu jeito doce dói e, o fato não resolvido, martela na minha cabeça, a própria polícia não soube explicar.
Quanta coisa se perde nesta vida, ou não. Quantos encontros.
O que é que realmente fica em nós? Uma moringa de barro, um cesto de vime, uma chaleira de estanho, uma garrafa de vinho, toalhas brancas com dobras bem marcadas dos finos restaurantes, um guardanapo amarrotado, o tecido colorido do papel de parede, a superfície nua da mesa de madeira, os aromas, os cheiros das ruas, das casas, a morte de Rita, o documento perdido.
O vento empurra a manhã. Silenciosa profusão de coisas acontecidas.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Tomás de Aquino e a saudade

O pensamento e a vida estão mais ligados à linguagem do que em geral supomos. A força viva da palavra não só transmite, mas até mesmo gera e preserva, em interação dinâmica, o que pensamos e sentimos o que podemos pensar e sentir...
Sem a palavra, nossa percepção da realidade é confusa ou nem sequer chega a ocorrer.
Sem a posse da palavra “Kitsch” nos é muito mais difícil reparar que há, no fundo, qualquer coisa de comum entre o pingüim da geladeira, o anãozinho do jardim e o quadro de cores fosforescentes.
O empobrecimento do léxico é assim, hoje, um dos principais problemas da educação, na medida em que gera um círculo, literalmente, vicioso: a falta de linguagem viva embota a visão e o vivenciamento da realidade; o definhamento da realidade esvazia (ou deforma) as palavras...
Faltam-nos os conceitos, faltam-nos os juízos, falta-nos acesso à realidade.
Certamente ocorre, antes da formação do conceito em nossa mente, aquilo que Tomás de Aquino chama de collatio, um ajuntamento e comparação de impressões, uma pré-abstração, feita pela "capacidade cogitativa”.
A interação palavra-vida torna-se ainda mais decisiva quando se trata de atingir sentimentos mais sutis e complexos do coração humano: neste caso, cada povo costuma gerar a palavra que se apropria do sentimento que é mais conatural e, reciprocamente: o sentimento se torna como que conatural porque a palavra se apodera do falante desde a infância.
Nesse sentido, Portugal e Brasil têm a sua palavra por excelência, que certeiramente penetra nos meandros do coração e atinge aquele complexo agridoce que chamamos saudade.
Tomás, no século XIII (quando mal havia português e não estava formada a palavra saudade), fez um agudo diagnóstico - em que inclui até a explicação causal - da saudade: a dor, diz ele:
É por si contrária ao prazer, mas pode acontecer que um efeito colateral (per accidens) da dor seja deleitável, como quando produz a recordação daquilo (pessoa, terra, etc.) que se ama e faz perceber o amor daquilo por cuja ausência nos doemos. E assim, sendo o amor algo deleitável, a dor e tudo quanto provém desse amor também o serão. Luiz Jean Lauand
Se a caracterização em si já é perfeita, ela se mostra mais genial ainda quando nos lembramos que São Tomás não era português nem brasileiro.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Multicolorida

Eu disse.
_Não disse.
Disse sim. Você que não escutou.
Como assim, o que importa?
É claro que importa.
Não. Não vou por no blog,
Também não vou enviar por e-mail.
Twitter, nem pensar.
Eu disse que...
_Já disse:
você não disse nada
Eu tava pensando...
Então:
Olha aí você que não clicou direito.
Olha lá na tela chegando,
Meu pensamento? Não. Não pode ser.
_Já pode sim.
Verde (que horror)
Não tinha outra cor, pra você escolher, não?
(que mau gosto)
Salve. Salve rápido.
Pronto perdeu.
Mas você é lenta mesmo.
Não, não sou eu que sou lenta,
é meu pensamento que não cabe nesta...
_respire fundo, fundo... acalme-se
Agora sim , você escolheu bem.
Escolhi?
Não tá vendo chegando.
Olha, olha rápido na tela:
sua respiração,
multicolorida, linda, linda.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Melancolia

Por quê?
a geometria não exclui a melancolia.
Quero o triunfo da linha reta,
garantia de um ponto fixo.
Continuarei meu caminho como?
Como um Édipo errante.
Quero algo certo.
ou a certeza de que no mundo
nada é certo.
Paralizo-me.
E não é sono, preguiça.
É pensamento, perplexidade.
Incoerência da vida.
Tudo: quantidade e volume.
A esfera me faz sofrer.

terça-feira, 21 de abril de 2009

uma hora socrática

Cada vez que uma comunidade tenta, através da censura, do ostracismo ou da morte, silenciar um dissidente moral ou intelectual, amordaçá-lo ou de alguma outra forma impedir que faça “suas perguntas”, essa comunidade vive uma hora socrática.
Porém, concomitantemente, o pensador, o cientista, o artista, o satirista que insiste, em suas “dúvidas descontrutivas” que permanece fiel ao que julga ser uma verdade maior que as crenças herdadas para a manutenção do status quo da cidade ,este sim, repete a provocação socrática.

sábado, 18 de abril de 2009

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A verdade das Mentiras

...mas a imaginação concebeu um paliativo astuto e sutil para esse divórcio inevitável entre a nossa realidade limitada e os nossos apetites desmedidos: a ficção. Graças a ela somos mais e somos outros, sem deixar de ser nós mesmos. Nela nos dissolvemos e nos multiplicamos, vivendo diversas outras vidas além da que temos e que poderíamos viver se permanecêssemos no verídico, sem sair do cárcere da história.
Mario Vargas Llosa: “A verdade das Mentiras

terça-feira, 14 de abril de 2009

a luz do conhecimento

será a clareira de Heidegger
ou
a análise do discurso:
Pêcheux? Chomsky?
ou
controle de poder
Foucault? Lacan?
ou
ou ou ou
ô
quê você acha?
quem eu?
hum: prazer do texto, subverter, grau zero,
fálico, significante...

eu? eu acho que, bem que,
vejamos: pode ser em alemão?
é que eu analiso melhor.

zreid büim zeitboca paraf
iüzeta,

(rebimboca da parafuzeta)

domingo, 12 de abril de 2009

noite chegou outra vez

Bar Depois.
Blues,
do Mad Dog Blues.
a voz do Boi na noite,
é um sonho, Eric Clapton,
na minha memória.

Os olhos brilham.
Merlin levanta, é toda personagem.
(Navalha na Carne)
na minha memória.

a letra , Rolando, vai ser sua
quase pronta, quase Chico? (não)
quase quando outra vez
na minha memória.

a voz,os olhos,
a cena, o som,
a mesa, a vida, a noite
Salut! Bebo (emos).
muito tudo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Ciência e sapiência- Rubem Alves

Fernando Pessoa escreveu um curto
poema em que descreve a sua compaixão.

“Aquele arbusto fenece, e vai com ele parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo.
Nem distingue a memória do que vi do que fui”.

A falta de compaixão é uma perturbação do olhar. Olhamos, vemos, mas a coisa que vemos fica fora de nós. Vejo os velhos e posso até mesmo escrever uma tese sobre eles, se eu for um professor universitário. Mas a tristeza do velho é só dele, não entra dentro de mim. Durmo bem. Nossas florestas vão aos poucos se transformando em desertos, mas isso não me faz sofrer. Não as sinto como uma ferida na minha carne. Vejo as crianças mendigando nos semáforos, mas não me sinto uma criança mendigando num semáforo. Vejo os meus alunos nas salas de aulas, mas meu dever de professor é dar o programa e não sentir o que os meus alunos estão sentindo.
De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico. Parece que a inteligência dos maus é mais poderosa que a inteligência dos bons.
Sabemos como ensinar saberes. Há muita ciência escrita sobre isso. Mas não me lembro de nenhum texto pedagógico que se proponha a ensinar a compaixão. Talvez o livrinho de Janucz Korczak Como amar uma criança. Mas Korczak é uma exceção. Ele sabia que para se ensinar algo a uma criança é preciso amá-la primeiro. Korczak era um romântico... Por isso o amo...
Lemos estórias para as crianças e para nós mesmos não só para ensinar a língua, mas para ensinar a compaixão.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

odalisca andróide

..improviso mundos molhados,
aciono gametas guardados...
eu sou a transmutação de alguma
coisa eletrônica

sábado, 4 de abril de 2009

que hora era aquela?

lembro de um natal.
levantei, o café pronto,
mas não gosto de natal.
o cesto,
o menino Jesus,
os reis magos andando, andando...
a estrela.

vai ver ,
não gosto é de caminhar

é, é isso sim , sabe aquela pressão:
caminhar é bom pra saúde,
usar o tênis adequado,
o design, combinar cores,
criar um estilo: (vai que encontre alguém)
canso antes mesmo de sair,
daí também não vou.

tenho uma amiga que diz que
não se deve ficar reclamando,
que chega um dia, que a gente não faz mais nada,
nesse lugar – o lugar de não fazer nada,
é só alegria,
paz, flores, jardins.
e é eterno.

vai ver ,
não gosto é do eterno.

é, é isso sim ,sabe aquela dor no peito.
Canso só de pensar no sem fim.

o cesto
o menino Jesus,
os reis magos
a estrela
a eternidade.

mas não é que, justo naquela tarde, a confusão foi geral.
o barulho das patas dos cavalos no paralelepípedo,
a rua fechada, os soldados,
os meninos correndo,
os papéis voando.

Não era hora de cesto
Não era hora de menino Jesus
Não era hora de reis magos
Que hora era aquela?

quarta-feira, 1 de abril de 2009

muitos outros

gosto de pensar
um pensamento bobo:
eu aqui descendo essa rua
vejo uma árvore.
a garotinha, lá no Nepal, vê uma outra
que, talvez não seja tão outra, mesmo não sendo a mesma
Azerbaijão, Canadá, Japão
todos os olhos não olham na mesma direção

gosto de pensar um pensamento, mas esse já não acho tão bobo
enquanto, no meu prato:
arroz e feijão ( poucos comem salmão)
em muitos outros: o prato está vazio.
não é o mesmo prato: o cheio , o pouco, o vazio, mas
talvez não seja outro, mesmo não sendo o mesmo.
só é muito, só é pouco, só é vazio
Vazio meu coração fica com esse pensamento
ora bobo, ora não.

terça-feira, 31 de março de 2009

Josefina

Tua silhueta fina
é que me deixa
nessa cina

Sem saber se fico
em cima na hora do amor
que horror

Com esse calor
Colocas cobertor
esfria todo amor interior

qu’i minina, me beija
com a boca de nicotina
fecha a cortina
e essa luz reluz

Tua silhueta fina
que saudade
das pernas
da falecida Josefina
sú-

segunda-feira, 30 de março de 2009

só uma palavrinha....

...aos que temem a ditadura da razão; é tempo de arquivar de uma vez por todas a máxima obscurantista de que cinzenta é toda teoria, e verde apenas a árvore esplêndida da vida. Ela só pode ser sustentada, paradoxalmente, pelas naturezas não-passionais, insensíveis ao erotismo de pensar.
Quem, lendo um poema de Drumond, um livro de Tolstoi ou um tratado de Hegel, acha que está se afastando da vida, não começou ainda a viver. Sem pensamento, a vida não é verde: é cinzenta.
Não é a razão que é castradora, e sim o poder repressivo. S.Rouanet
..dura caminhada..mas vou. se vou.

quarta-feira, 25 de março de 2009

L.A.

ele ali parado na minha frente
fiquei indecisa, essas coisas acontecem.
na hora, confesso, pensei em falar
mas também falar, o quê?
qualquer coisa. não, isso não.
o que seria bom ele ouvir?
Tem isso?
ele precisa ouvir alguma coisa,
ou ele precisa de outra coisa,
e eu sei que coisa é essa.
hã, hã, deveria! sei.
depois de tantos anos,
tantos livros, propostas.
que bosta.
mas foi de repente sabe,
não, não. não estou me desculpando.
assumo. Falhei, meus mestres,
o projeto político pedagógico, às reuniões,
infindáveis discussões, considerações.
cartas ao sr.reitor
perdão.
mas, sabe, aquele garoto,
mostrando o papel , insistindo comigo:
então, dona sou
-sou L.A.
-hum ?
-Liberdade assistida.
-quase consegui, se o cano não falha ,meto bala, era só sangue.
-e ai, dona , era nóis na fita..te dava até carona, vento bom...
500 cilindrada,meu, tá ligada., tó solto, o doutor conseguiu
também, quase 4 paus.
O que eu podia fazer?
ele parado na minha frente,
nos olhos uma dor enviesada, no sorriso de pouco dentes
a alegria , o sonho de garoto, um cisco no peito,
uma falta de tudo.
então, saiu assim, de repente,
displicentemente:
Que bom, cara, você deu sorte.
Falô professora. Bate aqui.
estendi minha mão.

terça-feira, 24 de março de 2009

...vidraça

de um lado essa vida besta,
de outro: mínimas epifanias.

o que faz parte das coisas que me movem.
galinhas brancas?
chuva na vidraça?

a via turva,
a outra via,
via crucis
na via,
na veia,
na vala,
realidade?

mediocridade criada.
grandes paixões
cada dia, uma
história contada

terça-feira, 17 de março de 2009

O corpo da poesia a poesia do corpo-


(a dança do homem primeiro)


dança pássaro guerreiro,
dança que sua pena (pele) é poesia,
palavra texto
corpo, símbolo do sagrado
corpo nu,
linha a linha
no registro do verso.
marcas do tempo, tempo do homem, corpo da poesia,
poesia no corpo, deuses e
demônios
sons e silêncios

sábado, 14 de março de 2009

quinta-feira, 12 de março de 2009

uma batida.... sú

eu descia a então, Rua XV de Novembro na altura da, não mais existente, “Lojas Singer Máquinas de Costura -Novas e Semi-novas”, ia em minha caminhada rotineira com destino certo e enfadonho: o colégio.
Com o pensamento longe, feito a pássaro livre em seu vôo matinal, eu seguia desatenta a tudo, na distância encantatória entre as coisas e o homem. Quando uma batida forte, alucinante vinda da loja de discos...
alterou os meus passos,
acelerou meu coração,
e em mim, como disse o poeta: a anatomia ficou louca,
tornei-me toda coração.
Inesquecível manhã, semáforo fechado,
vermelho
também dentro de mim,
apenas uma batida e toda uma nova harmonia,
momento epifânico esse,
quando ouvi pela primeira vez:
“HELP”

segunda-feira, 9 de março de 2009

A criança objeto (a) rever Lacan- os quatro discursos-

A psicanálise atualmente lida com situações muito diferentes das da época do mestre Freud. Que sujeitos do inconsciente se apresentam a nossa escuta nestes tempos? Qual o lugar de uma criança na família, na sociedade, na ciência de hoje?
O conceito criança sempre foi um enigma a ser decifrado.
Platão, por exemplo, supunha poder proteger as crianças da má influência dos pais, entregando ao Estado a tarefa de educá-las. Por outro lado, com o golpe desferido por Copérnico, Darwin e Freud nas ilusões humanas, a terra, o homem e o inconsciente passaram a ter novo estatuto. Com as mudanças no tecido social, o “eu passou a ser um outro”, como dizia o poeta Rimbaud.
Sujeito criança, objeto adulto, objeto criança, sujeito adulto. Recortemos o significante criança, já que o infantil não tem tamanho – (mesmo que o Código do Menor surgido nos anos vinte ou o Estatuto da Criança de 1927 tragam em seu texto uma “pré-ocupação” com os cada vez maiores problemas do "menor"). Cohen, H.R.
Qual o real estatuto da criança hoje?
Criança do Shopping Center, do playground, do condomínio fechado, da rua, do mato, da prostituição nas cidades, dos berços onde aparecem mortas nas maternidades.
De que criança falamos?
No conjunto Brasil, o que é uma criança brasileira? Que significantes identificam-nas como presas ao discurso da família ou presas da política do Estado brasileiro?
Do tempo que não tem tempo para compreender e, muito menos, para concluir. Estamos sob a égide do instante do olhar.
Como responder a esse mal-estar senão com aquilo que as crianças são mestres na arte de saber-fazer? ....
O lúdico, o infantil, a fantasia, são anteparos ao desejo do outro devorador, com sua demanda irrespondível.

terça-feira, 3 de março de 2009

Alegria... potência de ação

Espinosa diz que tudo que existe são encontros e a capacidade de você afetar e ser afetado por esse encontro. Se esses encontros aumentarem minha potência de ação eu experimento a alegria; o contrário se esses encontros diminuirem minha potência de ação experimento tristeza.
“Boas Misturas” diz Espinosa, que é trabalhar esse encontro respeitando-se a essência do outro.
...depois outros também falaram.... Nietzsche... a vontade de potência.... blá, blá, blá..

...e Gilberto Gil, poeticamente diz, talvez,o mesmo.
Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê chorar

segunda-feira, 2 de março de 2009

...ir além dos sons das palavras... Escutar

...Se o dizer não se esgota na expressão sonora dos vocábulos, o escutar também não se restringe à captação auditiva dessas sonoridades. Escutar é um recolher-se concentrado na palavra que nos é dirigida. É um ouvir recolhido. Só escutamos verdadeiramente, quando “somos todo ouvidos”. Para escutar é preciso fazer parte do que se escuta, ou seja, sentir no mesmo sentido (homologein). Logein literalmente significa “dizer o mesmo que um outro diz”, ou seja, confirmar o que um outro diz.
Por isso, no escutar, o légein (dizer) desdobra-se em um homologein (estar de acordo com o mesmo dizer). Para que as coisas presentes brilhem e apareçam na presença, o légein-dizer desdobra-se em um homologein da escuta.

Heidegger interpreta o homologein como uma escuta obediente ao lógos, que consiste em dizer o que o lógos diz. Escutar na obediência é tornar-se obediente ao dizer que nos vem ao encontro, dizer este a que já pertencemos. Um escutar assim, como já sabemos, é um ir além do som das palavras.
É sintonizar com aquele que fala. M.Chauí
Talvez se pudesse acrescentar: só se ouve bem o que se ama.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Vou-me embora pra Helix -NGC 2685...sem medo



Vou- me embora
Vou- me embora
o poeta disse:
em pasárgada
sou amigo do rei
montarei em burro brabo
subirei no pau de sebo
tomarei banhos de mar
....
poeta maior perdoa-me
é que a existência não é
mais uma aventura
não há histórias
pra acordar os homens
e adormecer as crianças
e o rei está morto

vou- me embora
vou- me embora
pra NGC 2685
e lá, 650 anos luz da Terra.
entre nuvens de poeira e gases
pular,correr, rodopiar
voltar a ser menino
envolvido em estrelas
sem medo (os)
o grande olho?
é só um cilindro
e eu? apenas um homem

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Se eu não olhasse...

...se eu não tivesse do mundo a apreensão pelo olhar, só o aprendesse pelo tato, pelos ouvidos, pelo olfato, pelo gosto, se eu só o aprendesse assim, que noção eu teria, por exemplo, da manhã? O que seria a manhã, o amanhecer, o dia, e o entardecer, a noite? Que visão teria eu dessa realidade, se eu não apreendesse o mundo pelo olhar? A textura, a corporeidade das coisas, dos objetos, é diferente se eu apenas os tocar com os dedos. Mas quando eu olho, a riqueza que a minha percepção recebe do olhar é uma coisa incomparável com relação à que os outros sentidos me permitem aprender.
Então me parece que a construção do mundo humano deve muito ao fato de que o homem vê a realidade, de que ele aprende a realidade inclusive e principalmente pelo olhar. Ele é quase a base do conhecimento. Mas se o olhar tem essa importância, é verdade também que eu aprendo pelo olhar elementos que pertencem a outros sentidos, e os outros sentidos aprendem coisas que pertencem ao campo do olhar.
Por que é que eu digo “som agudo”? Agudo é uma impressão tátil. Ou “era um som áspero”. Áspero é tátil. “Era um som escuro”, escuro é visual .”Era uma voz doce ,é gustativo. F.Gullar
Merleau Ponty diz: “Os sentidos se traduzem uns aos outros sem precisar intérprete”.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O olhar – ver e falar

Raras vezes, despertam atenção as palavras de nosso cotidiano. Falamos em amor à primeira vista, sem que nos preocupe havermos, assim atribuídos poder mágico aos olhos, poder em que acreditamos (alguns) se falarmos em mau olhado. Aceitamos discordâncias dizendo que cada qual tem direito ao seu ponto de vista ou à sua perspectiva, sem causar-nos estranheza o crermos que a origem das opiniões dependa do lugar de onde vemos as coisas e sem que nos detenha a palavra “perspectiva”.
Se pretendemos assegurar que algo é efetivamente verdadeiro, dizemos ser “evidente’ e “sem sombra de dúvida”, porém não indagamos por que teríamos feito a verdade equivalente à visão perfeita, já que não pensamos com os olhos, nem por que teríamos associado “dúvida e sombra”, associação que transparece quando enfatizamos nossa certeza com um “mas é claro”.
Se desejamos expressar agrado e espanto, exclamamos: “ é espetacular”, “é fenomenal”.
No entanto, não nos demoramos a pensar de onde viriam as palavras espetáculo e fenômeno, nem porque esta última é tão curiosa, pois o cientista ao falar em fenômenos da natureza, refere-se a regularidades naturais enquanto, no cotidiano, reservamos seu uso para o que é excepcional. Também não nós parece curioso falar em “investigação” para designar tanto a atividade do cientista quanto a do policial e não nos indagamos se ambos teriam algo a ver com um olhar que espia, espreita e espiona. Aliás, não nos surpreende usarmos a expressão “ter (ou não ter) algo a ver” ao pretendermos afirmar (ou negar) relações entre coisas, pessoas ou fatos.
Pouca atenção prestamos à relação que espontaneamente fazemos entre“ ver e falar” quando, acautelando alguém , dizemos: “veja o que diz”.
Assim como, não nos demoramos na relação entre “ver e escutar” quando, em vez de “escute”, dizemos “olhe aqui”.
Relações que estabelecemos quando chamamos aos profetas, “videntes”, sem indagarmos por que ouviriam vendo, nem por que mensagens e prodígios sagrados tendem a procurar nossos olhos, de onde vem a palavra milagre? , nem porque nossa persuasão seria obtida privilegiadamente pelo ver, não foi essa a exigência de são Tomé?
Falamos em visão de mundo.... falamos em revisão...
Porque cremos nas palavras e nelas cremos porque cremos em nossos olhos: cremos que as coisas e os outros existem porque os vemos e que os vemos porque existem. (Chaui,M.)
Somos, pois, espontaneamente realistas.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009







o olho que me olha
olha com medo
olha, entreolha,reolha
o olho que me olha
olha com desdém
olha por olhar
o olho que me olha
olha sem ver
olha sem perceber
que sou eu quem olha
olhos que não vêem
espelho de minha imagem

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O homem, esse esquecedor-

Se perguntássemos à milenar tradição do pensamento pelos fundamentos filosóficos da educação, os antigos dar-nos-iam esta sentença - tão simples - para meditar: "O homem é um ser que esquece"!
No Ocidente, já entre os gregos (de Hesíodo a Aristóteles, de Safo a Platão), encontramos constantemente um extraordinário papel dado à memória (por vezes personificada em Mnemosyne), na antropologia e na educação.
Um dos pontos altos dessa tradição dá-se com o poeta grego Píndaro. Seu Hino a Zeus - um poema que é, ao mesmo tempo, um tratado de educação - parece apresentar todas as características de uma das maiores obras-primas de todos os tempos.
A cena descrita por Píndaro é clara: Zeus resolve intervir no caos. Toda a confusão e deformidade vai, então, dando lugar à harmonia e à ordem: kosmos. E quando, finalmente, o mundo atinge seu estado de perfeição (estreando a terra, os rios, os animais, o homem...), Zeus oferece um banquete para mostrar aos demais deuses - atônitos ante tanta beleza - a sua criação...
Mas, para surpresa geral, um dos imortais pede a palavra e aponta a Zeus um grave e inesperado defeito: estão faltando criaturas que louvem e reconheçam a grandeza divina desse mundo...
...Pois o homem é um ser que esquece! O homem, saiu mal feito, mal acabado, ele tende ao embotamento, à insensibilidade... ao esquecimento!
É a partir dessa constatação - dessa trágica constatação de nossa condição ontológica (também ela, hoje, esquecida...) - que se edifica toda a educação ocidental.
Claro que ao afirmar o caráter esquecidiço do homem, não estamos dizendo que ele se esqueça de tudo, mas, principalmente - e é até uma constatação de ordem empírica - do essencial. Pois, na verdade, o homem lembra-se de muitas coisas: naturalmente, ele, "criatura trivial" (como diz Guimarães Rosa), não se esquece da data do depósito bancário, não se esquece de comprar sua revista predileta, da final do campeonato, nem das comezinhas realidades que compõem nosso rotineiro quotidiano. Esquece-se, sim, da sabedoria do coração, do caráter sagrado do mundo e do homem...
Na língua árabe, a palavra para designar o ser humano é Insan. (Insan - deriva do verbo nassa/yansa, esquecer -) e significa: aquele que esquece.
No Alcorão Deus se apresenta - em contraposição ao homem - como "Aquele que não esquece", e o mesmo acontece na tradição judaica. L.J. Lauand
Cabe aqui uma observação sobre a linguagem. Em diversas línguas, o lembrar, o memorizar está associado (não só...) a um processo intelectual, mas ao coração: saber de memória é, em inglês, by heart; em francês, par coeur; e esquecer-se de alguém, em italiano, é scordarsi, sair do coração... Lembramos - sabemos de cor - o que está em nosso coração.
Tomás de Aquino, o grande pensador do Ocidente, explica, agudamente, a razão profunda do lembrar e do esquecer: ele faz a ligação entre amar e lembrar: inesquecível é o que amamos!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Tributo à Maria Ivone- sú

a Maria?
a Maria era minha amiga
quando ela foi embora pra Parati
e São Paulo, que ainda, era o mundo todo
ficou pequenininha
do tamanho da nossa rua.
a Zapata, a Maria Antonia, a palavra,
o sonho.. enquanto ouvíamos Chico:
....apesar de você amanhã há de ser outro dia
eu pergunto a você .... quando o galo insistir em cantar...
...esse meu sofrimento vou cobrar com juro, juro
...todo esse amor reprimido, esse grito contido......
hoje que a Maria morreu,
e São Paulo ficou lá longe
e o amanhã nunca foi o outro dia
eu pergunto
e agora Maria?
que importa se um dia você achou que o mar era lindo,
se sonhou tocar violino
agora tudo findo
está completa
nada mais lhe falta.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Perguntaram-me
Sú:
Por que tanta ficção?
Na hora, confesso,fiquei sem ação.
Vindo embora e, aquele leve torpor passado.
putz, por que não lembrei...
Esbocei um sorriso...
Ah. O vinho.
Tua resposta, meu amigo,
Busco no velho Borges:
“O mal da ficção é que ela faz sentido demais.
A realidade nunca faz sentido".

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009


Radmila Zygouris, num belo texto acerca do estrangeiro nos alerta que o genocídio não ocorre entre os animais; ele é específico dos humanos, pois só é cometido quando apoiado num discurso.
Oxalá o nosso deixe de banalizar a violência!

Akira Kurosawa assim nos contou um de seus sonhos
O Túnel
O homem caminha e está para entrar num túnel quando de dentro dele surge um cachorro que o ameaça. Amedrontado, percorre o túnel e, ao sair, é surpreendido pela presença de um recruta. "Comandante, fui realmente morto em combate?" "Não acredito que tenha sido morto. Fui para casa. Comi os bolinhos de arroz de minha mãe." O comandante, surpreso e assustado, explica-lhe que ele fora ferido, tivera um sonho – com a casa dos pais, mas depois morrera em seus braços. O recruta aponta para a casa dos pais dizendo que eles o esperam. "Eu acredito mas, meus pais não acreditam que morri. Continuam esperando por mim." O Comandante se compadece mas sabe que só sob suas ordens ele pode se retirar. Ordena-lhe, então, que volte para o lugar de onde viera.
Vai seguir seu caminho quando surgem novos passos atrás dele. É todo o terceiro batalhão que se apresenta. "Terceiro batalhão retornando sem baixas". Todos vocês foram mortos em combate. Mandei-os para a morte. Eu poderia responsabilizar a estupidez da guerra. Mas não posso desculpar a minha negligência e incompetência... Sinto sua amargura e sofrimento. São chamados de heróis, mas morreram como cães.
Na guerra, no combate, não há lugar para sofrimento... Os fantasmas só desaparecem quando o comandante se re-apropria de sua função: "Terceiro Pelotão! Meia volta volver!". Mas o cão raivoso (que era como ele havia descrito a morte de seu pelotão) continua a atormentá-lo.
Questão crucial apontada por Kurosawa: como pode um soldado, um comandante, sobreviver à morte de seus parceiros já que os fantasmas dos que morreram dificilmente o deixarão sossegar? Como pode um filho morrer se seus pais ainda estão vivos e o esperam? A morte das crianças e dos jovens traz, além da dor que lhe é inerente, algo mais, também inaceitável: os filhos não morrem antes dos pais! É toda a possibilidade de esperança e de futuro que fica ameaçada.
Como sobrevivemos nós a um cotidiano tão ameaçador para a vida? Que custo isso nos traz? Estes que morrem nas ruas, nas chacinas, nos assaltos, não são nossos parceiros de guerra?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Fogo era Ontem sueliaduan

I num é que Dordélia perdeu. Não se conformou. Sentou-se ali mesmo no chão, e muito lentamente foi tirando os sapatos. Primeiro um, depois o outro, devagar, alheia a tudo. Como num ritual, desabotoou a fivelinha apertada dos sapatos de Marcelina.
Na memória, cada palavra da prima doía mais que ferro quente em gado marcado:
_ocê, sabe, né Delia, esse sapatinho branco é mágico, feito a rosa mogorim que a gente infeita tudo a casa i sem sabe como, tudo di ruim vai pra longe... trôce é muita sorte esse danadinho, era pôr nos pé, e tudo virava pro meu lado. Imprestu procê cum gosto.
_Marcelina, ocê credita im cada uma.
_Ocê que é uma descrente. Ocê nunca ficô cumo eu, perto de vô. Cuidei muito tempo dele, e apesar de toda trabaeira, foi é muito bão, aprendi por demais.
Aprendi a crê na vida, a te pacência, sabê esperá a hora certa das coisa. Vô sempre gostô de conta istória. As veis parava de falá, levantava aquele zoião, como querendo vê disconfiança i mim, mai nunca incontrô, sabia que eu era atenta as coisa do mundo, i tem muito que nóis num sabe.,àchu inté qui nem ele sabia.
Agora, ali sozinha, Dordélia também queria crer, pelo menos um pouco.
De repente pôs-se a chorar com tanta força, que nem sabia que tinha... chorou, chorou, chorou, seus olhos ficaram vermelhos , vermelhos como a terra em volta, vermelhos como o fogo.
O fogo que Guilhermano dizia sentir, que não se apagaria nunca. Eterno.
E pela primeira vez, Dordélia benzeu-se.
Por que confiou em Guilhermano? Como não confiar? Seu jeito doce, seus olhos claros, sua fala mansa, as juras de amor sussurrada aos seus ouvidos, os lábios a roçar-lhe o pescoço, os beijos ardentes, tudo tão forte, tão intenso que ela até ruborizava, ardia mesmo, um calor tão bom.
Ele gostava. Ela sabia. Não era mais uma menina.
Quanto mais sua pele ia ficando vermelha, mais ele a apertava, mais encostava seu corpo contra o dela, apertando-a contra a cerca.
Cerca que o pai fizera com tanto carinho. Por um momento sentiu-se culpada, como se tivesse traindo o pai.
A imagem da cerca vermelha, a casinha branca ao fundo, o pai gritando como o gado, a mãe ali parada na porta, fingindo cuidar das plantas da varanda, aumentavam ainda mais sua tristeza.
E tudo vinha à mente de Dordélia. Ela só queria entender.
_Mãe sabia, por que então acobertava? Não era muié fogosa, era até meio caladona, vivia dizendo:
- Muié tem qui si dá u respeitu, num tem tanta precisão de hóme.
_uai, pru que intão, ficava ali oiando. Será que era vuntade?
Vontade que Dordélia e Guilhermano tinham de sobra. Era só o olhar de um,cruzar o olhar do outro e pronto. Corriam lá pra cerca...
E agora o que ia ser da vida dela? E do filho que esperava? Guilhermano teria fugido, ficou com medo? Não. Não era possível. Ele mesmo falou na noite anterior:
-Delinha, tá tudu acertado cum o padre, ele vai lá pros lado do ribeirão, sabe donde qui é?
_sei sim, i já gostei da escoia do lugar. É tão lindo, Guilhermano, a gente vê os jequetibá, as perobeira e até caneleira. Que mata que belezura... Pena né, nóis não podê cunvida ninguém, tem portância, não, to é muito feliz, vou tá toda de branco, até os sapato.
Ele não veio. Ela sabia. Não era mais uma menina.
Nada é eterno, Dordélia se enganara.
Fogo era ontem.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Transitoriedade sueliaduan


Um homem passou ao meu lado
na noite barulhenta.
Era noite, em Londres, em Madagascar,
na América.
Era noite em mim.
Era encontro, um quase esbarrão,
era o choque,
era o não romântico,
era antes a crispação
de um desejo súbito.
Imperioso
Era o instantâneo erótico,
era o talvez, nunca.
Para onde iria fugidia beleza
Daquele olhar que me fez renascer?
Ousada toca de olhares anônimos.
Transitoriedade,
cidade,
noite.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Um homem sem trabalho é como uma árvore sem fruto- sueliaduan

Entro no beco como todos os dias, no finalzinho do dia ao entardecer, o sol se pondo e uma leve brisa pairando no ar.
Entro no beco como quem caminha por uma imensa avenida e, perplexo depara-se com um girassol.
Não há girassóis nas avenidas, não há becos sem melancolia.
Há um marasmo, uma lentidão nos movimentos, uma falta de energia, uma desocupação tardia.
Há homens parados nas portas dos bares, há crianças descalças pelas ruelas com suas bolinhas de vidro, sonhos quebrados. Mulheres com suas panelas. Algumas vazias.
Um aroma de tabaco, fumaça e comida.
Longe do beco há movimento, ocupação.
Um homem sem trabalho é como uma árvore sem fruto, um corpo sem alma. Um dia vou ter uma profissão.
É um sonho que acalento desde menino, quando via meu avô com suas ferramentas, seu sorriso largo, a inventar coisas. Vô era homem sábio, quieto, não conversava muito.
Gostava mesmo era de contar causos, histórias. Algumas vezes cheguei a sentir medo das suas crenças, suas rezas. Coisas de menino da cidade.
Ele percebia e me acalmava. É só uma história, Dão Dão, falava com seu jeito carinhoso, e mudando de assunto dizia:
_ ocê sabe, minino, qui gente tem qui gostá du qui faiz, anssim trabaia cum gostu.
Eu sorria. E ele pegava o serrote delicadamente. Encostava-se à madeira e começava a trabalhar. Quase um ritual. Parecia até que ia tocar um instrumento, assim como um violino. Sabe que o som parecia mesmo uma melodia.
Eu fechava meus olhos e, ali sentado no banquinho ficava a me embalar com o ritmo do serrote na madeira. Imaginando o dia em que eu, com minha oficina faria muitos, muitos, muitos trabalhos.
No meu sonho de menino via meu nome em letras bem grandes:
Marcenaria do Dão Dão
Como diziam os vizinhos meu avô era um artesão de mão cheia. Ele era um criador, dizia minha mãe.
E eu, no meu entendimento de criança, pensava, meu avô é Deus. Esse pensamento deixava-me feliz, alegre mesmo, saber que a gente pode trabalhar e criar coisas. Ser Deus.
O tempo passou, meu avô morreu e, a marcenaria foi só um sonho. Não aprendi a ser um criador, um fazedor como ele falava.
Entro no beco como todos os dias, no finalzinho da tarde o sol...
Volto da cidade. Trago comigo a alegria contagiante da ocupação, do vai -e -vêm das pessoas, das lojas, das oficinas, do burburinho dos cafés, dos homens engravatados, das mulheres elegantes, dos restaurantes com seus aromas.
Tabaco, fumaça e comida.
Trago comigo o sonho de menino de ser um criador, um fazedor de mão cheia.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

REPONDO


Compor, repor, depor.
Compor a vida.
Repor as perdas.
Depor a favor, sempre,
da alegria,
da festa,
da amizade.
É preciso reinventar:
figuras amadas, cidades verdes.
Calar a noite.
Trégua.
Ouvir o silêncio,
a chuva.
Ser
paz

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

"o meu filho .....' "Angela Barros"

Observância - sueliaduan

Observo a xícara,
que sinto ao observá-la?
Uma xícara.
Apenas uma xícara,
apenas um quadro,
apenas uma fresta,
Apenas esse som melancólico.
Apenas o existir.
O tempo parado nesse quarto.
A solidão do ser.
A certeza de ser só, só
com o sentido das palavras,
explicação do mundo.
E a xícara?
Branca, porcelana.
O bem - estar do chá.
A dor do pensamento.
Não cabe na xícara, não sai pela fresta.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Não nos damos conta, Quitéria- sueliaduan

Ás vezes sentimos uma tristeza, dessas que não se consegue chorar, por maior que seja nosso esforço, por mais que tentemos, secamos. Nem uma lágrima brota dos nossos olhos. Parece que qualquer movimento, um único virar de rosto, ou piscar de olhos, vai doer mais.
É como se a gente quisesse parar tudo em volta.Paralisar o tempo.
Talvez seja assim mesmo, e nós que não nos damos conta. Tudo pára dentro da gente, lá no fundo do nosso ser. Só um vazio, uma nonada, um não querer.
Foi assim que vi Quitéria naquela tarde, naquela hora da tarde mais precisamente.
O rosto fechado e o olhar parado. Com passos lentos, veio em minha direção. Tinha os cabelos escorridos, os lábios entreabertos parecendo que queria dizer algo, um andar bambeante, quase um arrasto, uma dor sem fim.
E eu fiquei ali olhando para ela, olhando através dela sem fazer nada, imóvel. Por uns momentos tive a sensação que não existia. Eu não estava vivendo. Não podia mesmo, falar nada, não havia nada a ser falado.
Minhas dores eram outras, não tão cruas, tão puras como as dela.
Havia um silêncio pairando no ar, e as poucas lojinhas da pacata cidade já estavam começando a fechar-se. O relógio da matriz marcava 17h.45. Aquele finalzinho de tarde, igual a tantas outras tardes tornou-se a mais diferente de todas as tardes de minha vida.
E ainda, hoje, passado tanto tempo, quando me recordo daquele dia, vejo que ele foi o mais marcante, o mais doloroso de todos já vividos.
E já vivi muito, mas por mais que viva nenhum outro olhar será como o de Quitéria. Nenhuma outra dor se igualará a dela. Nada, nunca.
Só seu olhar continua cravado fundo em mim, doendo em mim.
No fundo também acho que somos nós que não nos damos conta. Tudo é sempre muito igual. Os dias, o ir e vir, as horas passando, o trabalho feito O que tem valia mesmo é a nossa emoção. É o cheirinho do café passado na hora, o cãozinho latindo ao longe, uma brisa suave a nos refrescar, tardes a conversar, ouvir a chuva batendo nos telhados, escutar criança chorar. Essas coisinhas. Acho que é só isso mesmo o que conta. O resto é enfado, canseira, obra do tinhoso, como diz o povo daqui, como disse Quitéria.
E pensando bem, acho que a gente é que não se dá conta de tudo isso mesmo, e o abraço morre antes da junção dos corpos, e sobram palavras, palavras, palavras.
Hoje me pergunto por que não abracei Quitéria, não a acolhi em meus braços, acarinhei seus cabelos.
Tudo tão simples. Somos nós que não nos damos conta da simplicidade do gesto modificando a vida.
Na minha memória as palavras pausadas de Quitéria quase sussurrada, um sopro, um quase gemido, um pedido de socorro:
_quem que ponho curagem pruma barbaridade dessa, uma farta de amor tão inorme, que homê ou muiê vive despois do acontecido
E eu ali, tentando entender, raciocinar. Perplexa não derramei uma lágrima.
Mas doeu. Não sei o que me machucou o fato ou Quitéria. Acho que os dois, que tudo, a própria impotência nossa diante do imprevisto, diante da tragédia.
E foi uma tragédia.
A poeira que levantou, o barulho das patas no chão, o relinchar, os berros das pessoas, a agonia, o sangue no chão... o choro, tudo meio misturado assim mesmo. Não parecia real.
Aquele cavalo, forte, desembestado, o menino pendurado, preso pelas amarras do arreio, se debatendo entre pedras e pedregulhos, os lábios já cortados, ensangüentados, a pele das pernas já corroídas...
Nada parava aquele animal. Era obediente a ordem dada. E ela foi dada:
_ corre, corre Untu. Ele correu. Nada iria fazê-lo parar, conhecia a voz do dono gritando:
- corre, corre Untu.
Vingança estranha essa, ferir o filho pra atingir a mãe.
Quitéria chorou, chorou, chorou e, de repente, parou. Não quis mais saber do amante, tão louca era por ele. Tudo perdido. Por quê foi assim? Que sentimento era esse?
-que homê ou muiê vive despois do acontecido.
Essas palavras ainda fervilham em minha mente.
Eu vivi, Vivi?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Milton Nascimento - Caetano Veloso - Terceira Margem do Rio

ah. esse "Guimarães"...

...Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago...foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.
Grande Sertão: Veredas - J.G.ROSA.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Diotímia o corpo do livro - sueliaduan

Diotímia atravessara a rua com passos largos, mãos trêmulas, olhos atentos movendo-se de um lado a outro, respiração ofegante.
A rua em torno era ensurdecedora. Claridade e calorão. Tudo conspirava ,a loja da esquina com seu cheiro de incenso, a velha na calçada pondo os óculos. Por um momento teve a sensação que era observada.
Na verdade, Diotímia nunca se acostumara à cidade, o corre-corre das pessoas, o barulho.
Saia pouco, às vezes era necessário. E, também tinha os biscoitos que Jorge deixava pronto às terças-feiras. Pequenos prazeres a que se permitia.
O resto do tempo ficava mesmo em seu quarto. Tempo de leitura e solidão.
O quarto era iluminado, branco, paredes caiadas; uma cama, criado-mudo o guarda-roupas, os livros. Era o que tinha e lhe bastava.
No começo, quando chegou sua estranheza tinha explicação, mundo dos símbolos das palavras, a cidade assustava e, Diotímia não sabia ler. Mas agora passado tanto tempo. Como podia? Aprendera a ler, um curso à noite, desses rápidos, mas viu seu crescimento passo a passo. Mudança e alegria ao perceber o sentido das coisas, e até compreendeu melhor as lágrimas de Tarsila.
A velha firmou mais o olhar, tirou os óculos, voltou a pô-los. Diotímia tremeu, pensou em desistir em voltar, afundar-se em sua poltrona verde oliva, cobrir-se com a manta tecida pela mãe há tanto tempo, com tanto carinho.
A lembrança dessa imagem misturada à voz doce da mãe encorajou-a seguir
Não sem dor, mas seguir.
O problema está em escolher. Sempre a escolha. Isto ou aquilo, vermelho ou azul, rosas ou margaridas.
Que importa? Agora nada lhe faltava. Gostava de viver só. Nem mesmo a morte do irmão ainda pequeno; o pai cuidando do gado sozinho, consertando cerca pro boi não fugir; cortando lenha que mãe pedia, mesmo sem precisão.
Homem paciencioso pai, tia Jacobina andando a esmo pelo vale; a casa cercada de varandas e um grande céu por cima.
Nada disso afetava Diotímia em sua nova vida na cidade.
Lembrou-se de Tarsila, irmã mais nova, que comprara um vaso novo com tulipas para enfeitar a varanda na esperança que tudo se transformasse. E transformou.
Eram tardes longas, deliciosas, em que ambas sentavam confortavelmente olhando lá longe as folhas douradas das árvores caídas por todo o chão.
Tarsila lia com sua voz rouca, seu jeito de balançar a cabeça em uma ou outra parte do livro, como que emocionada pela narrativa.
Às vezes os olhos enchiam-se de lágrimas tamanha emoção, nessas horas procurava os olhos de Diotímia como um pedido de socorro, como alguém que pede um favor, um copo d´água. Diotímia empertigada na poltrona parecia feita de pedra.
Tarsila voltava rápido para a leitura. Não compreendia essa mulher ao seu lado. Mulher criada na roça com a enxada, só chorava quando não chovia, e a lavoura ardendo na terra, se perdia.
Essas imagens em sua mente. Por quê? Há tanto não pensava na irmã, na sua morte repentina.
Morte sinistra, fora encontrada com o corpo todo comido pelos bichos, as folhas das macaúbas caídas sobre seu ventre disforme. Parecia um tapete de musgos e liquens, um convite à orgia, ao amor; o povo dizia ser coisa do tinhoso, do cão.
A varanda .... as leituras .... aquela tarde triste, quando os homens chegaram, as coisas sendo carregadas no caminhão.... a sopeira de tia Jacobina, a cristaleira .... os enfeites de mãe...
Tarsila parando a leitura bruscamente, olhando nos olhos do pai de cócoras no canto da sala, que feito criança, soluçara ali mesmo. Mãe só xingando, nunca viu mãe tão brava.
Por quê meu Deus? Essas lembranças, justo no momento que estava decidida. Só podia ser do coisa ruim. Que fosse.
A faca em suas mãos luzindo, o desejo de encravá-la, de ver o sangue quente escorrendo formando uma poça, seu cheiro forte feito a boi morto. Angústia de mulher valente resgatando coisas que se perderam, diluídas no tempo.
Diotímia acelerou mais os passos com medo que todas essas imagens a detivessem e, dobrando a esquina avistou a casa. Coração apertado. Tocou a campainha.
O homem que abriu a porta tinha um olhar cansado, quase não o reconheceu.
Olharam-se sem nada falar. Diotímia recuperando-se entrou na ampla sala. As dores do passado abrindo caminho: os ciúmes da irmã, a mágoa pelo pai que desde cedo dera lhe a enxada como sina traçada.
Tudo ganhando relevo, tomando conta do espaço numa explosão de culpa, ódio, rancor.
E, novamente a voz de Tarsila, suas estórias, cheias de significado, transformando tudo em volta.
Diotímia, já não era mais aquela mulher empertigada, percebia o mundo, compreendia o coração dos homens.
Tudo lhe faltava: o irmão morto, o vaso com tulipas, a cerca pro boi, tia Jacobina, a vida da fazenda.
Experiência singular em que Diotímia abraçando o corpo do pai, descobre o corpo do livro.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Um só sentido...



Descartes professou a doutrina das idéias inatas; Etienne Bonnot de Condillac, para refutá-lo, imaginou uma estátua de mármore, organizada e conformada como o corpo de um homem, e residência de uma alma que nunca teria percebido ou pensado. Condillac começa por atribuir um só sentido à estátua: o olfativo, talvez o menos complexo de todos. Um cheiro de jasmim é o princípio da biografia da estátua; por um instante, haverá unicamente esse cheiro no universo, melhor dizendo, esse cheiro será o universo, que um instante depois, será cheiro de rosa, e depois de cravo. Que na consciência da estátua haja um cheiro único, e já teremos a atenção; que perdure um cheiro quando o estímulo tiver cessado e teremos a memória; que uma impressão atual e outra do passado ocupem a atenção da estátua e teremos a comparação; que a estátua perceba analogias e diferenças, e teremos o juízo; que a comparação e o juízo ocorram novamente, e teremos a reflexão; que uma lembrança agradável seja mais vívida que uma impressão desagradável, e teremos a imaginação. Engendradas as faculdades do entendimento, as da vontade surgirão depois: amor e ódio (atração e aversão), esperança e medo. A consciência de ter passado por diversos estados dará à noção abstrata de número; a de ser cheiro de cravo e de ter sido cheiro de jasmim, a noção do eu.
Em seguida o autor atribuirá a seu homem hipotético a audição, o paladar, a visão e por fim o tato.
Este último sentido lhe revelará que existe o espaço, e que no espaço ele estará num corpo; os sons, os cheiros e as cores, antes dessa etapa, haviam lhe parecido simples variações ou modificações de sua consciência.