terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

"Licença de brincar"

Imagem- presente da Danapaulinelli

Eu quero uma licença de brincar.

Bordar caminhos e subir ao céu.

Mastigar a lua,

Beijar estrelas,

Pular nas nuvens,

Sorrir lá do alto. 

E,até gargalhar.

Ver teus olhos brilharem. 

Espantando de enxergar no céu uma

mulher, menina, que ama

Imaginar.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Como tornar-se um poeta! – Primeira lição

Como tornar-se um poeta? Você, um aspirante a poeta, deve, agora, estar se perguntando o seguinte: Por onde devo começar? Você, na verdade, já começou, pois está, neste exato momento, lendo este fantástico artigo. Vou ser famoso? Não, não será. Infelizmente todos os poetas que um dia poderiam alcançar o estrelato morreram no século XX. Os melhores morreram no século XIX. Que merda! Então para que serei poeta? Quiçá, para de quando em vez, poder falar assim: eu sou poeta. Publicarei meu livro um dia? Claro que sim! Se você puder pagar todo custo de produção dum livro, você será publicado! Não desanime, até mesmo os melhores já fizeram isso. O Manuel Bandeira, por exemplo, pagou do próprio bolso para lançar um livro.Que bom, então serei tipo o Manuel Bandeira, um poeta foda! Não, não será. Lembre-se que todos os poetas fodas morreram no século XX. Eu quero ser poeta assim mesmo, foda-se! Certo! Então comecemos agora!
1. O nome Para tornar-se um poeta, você precisa dum bom nome. Recorrer a pseudônimos é uma boa alternativa principalmente quando você não tem um sobrenome, cuja primeira letra seja igual à dum poeta famoso. Vamos a exemplos: João Carlos Zurel: Péssimo nome, não há poetas tão famosos com sobrenomes que começam com a letra Z. Marcelo Nunes Gonzaga: Bem melhor, não? Seu livro ficará ao lado dum poeta árcade, Tomás Antônio Gonzaga. Bom, acho que você entendeu o espírito da coisa.
2. Escolha uma escola Todo poeta deve se filiar a uma escola. Não tente bancar o fodão, o moderninho, o alternativo, querendo criar algo diferente. Simplesmente isso é impossível, não dá. Os movimentos poéticos, na verdade, deveriam ser divididos apenas em somente três: Clássico, Romântico e Moderno. Veja o por quê. Clássicos: Homero, Camões, Gregório de Matos, Cláudio Manoel da Costa, Olavo Bilac etc. Interessante, não? Há uma explicação. Levando em consideração que Homero foi um dos grandes poetas clássicos, os outros citados, apesar de terem participado de escolas diferentes, apenas imitavam os clássicos. Camões: Classicismo - cópia dos clássicos em pleno século XVI; Gregório de Matos: Barroco-cópia dos clássicos em pleno século XVII; Claudio Manoel da Costa: Arcadismo – cópia dos clássicos em pleno século XVIII Olavo Bilac: Parnasianismo – cópia dos clássicos em pleno século XIX. Românticos: Byron, Alexandre Herculano, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Castro Alves, Alphonsus de Guimaraens, Florbela Espanca etc. O que o Alphonsus está fazendo aí, o que a Florbela está fazendo aí? Bom, eles são considerados Simbolistas. Esses podem ser chamados de românticos amadurecidos. É isso! Modernos: Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Haroldo de Campos e todos os outros que vieram depois. Concretismo e demais movimentos faziam o mais do mesmo, são modernos e mais nada. Qual devo escolher? Indicamos para você, um jovem juvenil garoto iniciante no Parnaso, a escola Modernista, ela é a melhor para leigos, visto que: - Você pode usar versos livres, isto é, não precisa saber as regras de métrica. - Você pode escrever prosa e falar que ela é um poema. Veja um exemplo: Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? — O que eu vejo é o beco. Porra! Acho que isso não é um poema! Errado! Na visão dos modernistas, o que está escrito em itálico é um poema. - Você pode usar e abusar dos versos brancos (esse recurso pode ser utilizado nas escolas clássicas e românticas).
- Você pode fazer poema com objetos idiotas. Por exemplo: escrever um monte de palavras e pregar num guarda-chuva! Belo, não? Você ainda será considerado um poeta de Vanguarda. Porém, lembre-se, você não está criando nada inédito. - E, inclusive, pode não saber escrever poemas. Boa parte dos modernos faziam justamente isso! Ok escolhi minha escola! Parabéns, agora escolham uma doença uma mutilação! 3. Doenças Todo poeta que se preze deve, até mesmo você, meu caro jovem juvenil aspirante a poeta, deve escolher uma doença. Indicamos para os iniciantes a Tuberculose. Essa enfermidade foi sucesso no século XIX e fez vítimas também durante o século XX. É algo retrô! Algo que nunca sai de moda. Tuberculose é uma boa pedida para os jovens poetas. Não gostou da Tuberculose? Ok, sem problemas! Seja um devasso! Escolha Sífilis, Gonorreia e demais DSTs. Quer algo mais hardcore? Ok vamos lá! Que tal seguir a onda do poeta luso Camões? Fure um de seus olhos! Não gostou? Ok sem problemas! Então, faça como Castro Alves, dê um tiro no próprio pé! Não gostou? Quebre um de seus pés, seja coxo, tal como Byron (recomendado àqueles que escolheram a escola Romântica).

Por Lauro Drummond
Literatura em foco

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A partida


Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu.
Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar à distância uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele não sabia de nada e não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve e perguntou: – Para onde cavalga senhor? – Não sei direito – eu disse –, só sei que é para fora daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar; só assim posso alcançar meu objetivo. – Conhece então o seu objetivo? – perguntou ele. – Sim – respondi – Eu já disse: “fora - daqui”, é esse o meu objetivo. – O senhor não leva provisões – disse ele. – Não preciso de nenhuma – disse eu. – A viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no caminho. Nenhuma provisão pode me salvar. Por sorte esta viagem é realmente imensa.

Tradução de Modesto Carone

    Miniconto de Kafka  -
CARVALHO, Olavo. O antileviatã - O náufrago e a bóia. In Revista Bravo, 2001.
Título: Quero saber mais...-Sueli Aduan

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O CORPO NOUTRO CORPO


Simplesmente sinto.
Na retina dos meus olhos,
a imagens de um homem:
terno, amante, amigo.

Era quase silêncio.
Alucinados os gestos,
dos nossos corpos,
entre lençóis e cortinas.

Segredos de cama, lentamente, descobertos
O corpo noutro corpo.
Instante de infinito.
Além de nós e da vida.

O fogo, o mel, o orgasmo.
Morremos um no outro
paz dos deuses.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

"Há o que se diz e o que se quer dizer"

Guimarães Rosa lembra que "o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber",ou seja, a leitura nos faz depararmo-nos com o que está para além do escrito/dito pelo sujeito. Há algo veiculado na palavra que não se reduz a ela, ou que, ainda mais, não se encontra nela e será retomado pelo leitor, o qual, a partir de sua posição subjetiva, fará dela uma sua palavra. Um provérbio francês testemunha que "a palavra pertence metade a quem fala e metade a quem ouve".
Clarice Lispector, sobre sua experiência ao escrever, diz que se trata de traduzir o desconhecido para uma língua que desconhece. A idéia de metade leva a valorizarmos o que Lispector introduz de incompletude no texto, remetendo ao desconhecido, que ainda assim é o móvel do trabalho com o texto.
Um trabalho que implica algo para além do que a palavra traz de informação se lançando além do que diz literalmente. É o ponto em que surpreendemos a oralidade permeando e, ainda mais, fazendo das palavras texto.
Fernando Pessoa fala dos contos herdados, prazeres que são nada, mas não queremos querer outros. Veiculando esse nada que são prazeres, Pessoa fala da metade desconhecida e inacessível que ainda assim persiste no poema, fazendo-se a voz do texto.
Lacan atesta que as pessoas têm necessidade de ler escritos que não compreendem e de ir onde se fala do que não se entende.
Para Manoel de Barros, é preciso não saber nada, é preciso entrar no estado de palavra para enxergar as coisas sem feitio que não foram recortadas, portanto, não existem - a sabedoria se tira das coisas que não existem, pois o que resta de grandeza são os desconheceres”.
É o poeta encontrando-se com a palavra sem feitio, que justamente por sua face de desconhecimento, só vem a ser texto através da articulação operada pela dimensão da oralidade.
Lacan afirma que há dois planos em toda produção em palavras.
Há o que se diz e o que se quer dizer, pois, separando o querer e o dizer, há a intenção.

recortes/pesquisa-sueliaduan
A disciplina de leitura: ritmo e oralidade na voz do texto.
Juliana de Miranda e Castro; Anna Carolina Lo Bianco.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:

Acredito é por demais na vida, nas mudanças, nas pessoas, e que ele não consegue compreender. Com um sorriso maroto nos lábios me diz: - Se ainda fosse naqueles velhos tempos das discussões, dos sonhos, das lutas. Em que nós, ingenuamente, nos envolvíamos, ainda vá.
Ah! Esse meu amigo é danado. Vive quieto no seu canto, amante da solidão e da boa música. Às vezes aparece com essa de querer compreender. Não só a mim, claro, mas aquela época em que vivemos e do pouco que restou. Fico brava e ele acaba indo embora antes mesmo do delicioso cafezinho da Ciça.
É que não gosto de nostalgia, não. Recordar sim, mas ficar achando que aquele era o nosso tempo, o bom tempo. Aí também não.
E como diz o poeta: o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Já um outro amigo, também quieto, mas com a mente centrada no aqui e agora, esse diz que estou certíssima, que devemos sim acreditar na vida, nas mudanças, nas pessoas e que tudo vale a pena.
Ri, um sorriso desses em que os lábios vão devagarzinho se abrindo para derrepente tomar conta do nosso rosto todo. Isso não passou em branco para o meu amigo, um observador nato. E fui logo me explicando, antes que fosse embora também, não precisa arregalar esses belos olhos, não. É que me lembrei de um verso do Pessoa: “Tudo vale a pena. Se a alma não é pequena.”
E conclui: o poeta tem sempre razão. É que em seu olhar mora um mundo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

"Afinal, a realidade...."


Porque o fundamental é saber "o que é a poesia". Você nunca chegará a Teresina se não souber pra que lado fica Teresina. Eu não digo que a poesia seja uma coisa definível, mas você tem de saber o que é isto: "aonde eu quero chegar"; ou seja, esse "aonde eu quero chegar" tem de existir. Eu me lembro quando li Fernando Pessoa, Drummond, Valéry, e alguns versos me marcaram ao me mostrar o que era a poesia, como quando Valéry dizia: "Beau Ciel, vrai ciel, regardez-moi, qui change". Isso não é apenas uma idéia, mas a sua colocação diante da realidade...
Este é um poeta que me interessa, nesse momento, por me parecer extremamente cerebral, de uma poesia muito elaborada, Ele é cerebral, mas também existe uma lenda em tomo de Valéry. O poema "Le Cimetíère Marin" (0 Cemitério Marinho), por exemplo é um poema altamente comovido. Veja bem, uma coisa é a elaboração, é a atitude do poeta em relação à poesia e aos seus meios de expressão, que em alguns é mais cerebral, mais racionalizado, mas, seja de quem for, se ele não se comove não existe poesia. Porque a única coisa que a poesia faz é comover. A poesia não cura dor de dente, não resolve problema econômico, não desintegra o átomo, não serve para nada. A única coisa que ela faz é comover. Porque não há um conhecimento, algo que se ganhe através da poesia, o que ela faz é nos comover. É uma mentira que nos comove. Afinal, a realidade do mundo é insuportável. Por isso se faz poesia, se faz arte, se faz música, etc.
— Eu não diria que é uma forma de fuga, porque ao mesmo tempo ela procura tomar a vida possível. Ela não quer sair da vida. O homem não faz poesia para sair da vida, ele faz poesia para ter coragem de viver.
Este é o mundo em que vivemos banal e delirante, mas onde se torna cada dia mais clara a necessidade de despertar e cultivar o que há de humano no homem. Os poetas podem ajudar nisso. E não por mistificar a realidade, mas, pelo contrário, por revelá-la na sua verdade, que é prosaica e, ao mesmo tempo, fascinante. O poeta sonha no concreto o sonho de todos. Ele sabe que a poesia brota da banalidade do mesmo modo que o poema nasce da linguagem comum. Está na tua boca, na minha boca, a palavra que eventualmente se converterá em beleza. Ou não.

recortes /sueliaduan - Ferreira Gullar - Conta Tudo/ 2005

sábado, 6 de fevereiro de 2010

"Da liberdade de amar"

....“Eras para mim a mais maternal das mulheres,
eras um amigo como são os homens,
eras, a te olhar, mulher realmente,
mas também, muitas vezes, criança.
Eras o que conheci de mais terno
e mais duro com que tenho lutado.
Eras a altura que me abençoou –
te fizeste abismo e naufraguei.”
Trecho do Poema de Rilke para Lou Andréas Salomé

Rubem Alves responde sobre o amor

L:Aprender a viver junto é aprender, primeiro, a viver só?
  Rubem Alves – As pessoas que não sabem viver sozinhas estão o tempo todo mendigando aprovação das outras. É preciso aprender a viver só, aprender a fazer silêncio, para poder conviver com o outro, porque dentro de cada um mora uma grande solidão. Há um lugar dentro da gente que ninguém vai, somente nós.

L:O poeta Drummond diz que “amor com amor não se paga”, o que pode ser traduzido também pelo verso da música “Amor e Sexo” da Rita Lee: “Amor é um, sexo é dois.” Amar é solitário?
  Rubem Alves – O poema do Drummond diz que todas as coisas do amor são gratuitas, você não paga nada. O caso é o seguinte: quando estou amando, posso amar sem ser amado. O amor pode ser solitário. O amor pode ser um ou pode ser dois. O amor que é apenas um é triste, pois não tem correspondência. A felicidade vem exatamente quando você tem os dois. Aí sexo fica sendo coisa de dois, porque é coisa do amor.

"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?.."
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Arquivo Poesia Experimental

Luisella Carreta
Itália
"Paravolo"

postado no twitter -danapaulinelli
"Essa  pessoa, DANA, inteligênica e sensibilidade"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Corpo lugar da alegria

Houve um tempo em que a alegria era pura mania. As palavras usadas eram efetivamente vividas na loucura do dia-a dia, e do encontro como parte da vida.


Essa mania. Um Bom delírio.
Delírio do poeta,
Delírio do contemplador,
Delírio do pintor que descobre a cor.
Era só o que existia
Alegria,
Cor
Magia

Como uma bailarina que gira, gira, gira.
E dança na ausência do pensar.
 Ausência do saber-se finita.
Medo da morte.
Perde-se no movimento corpo,
Corpo lugar da alegria.


..."É melhor ser alegre que ser triste
A alegria e a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração..." V.M.


Recortes/ sueliaduan "Um pensar em: Deleuze e Vinícius"

sábado, 30 de janeiro de 2010

"Ser o que sê é...


Essa clareza que me chega, lentamente, chega com a noite à lua já alta, traz consigo o cheiro da terra molhada, de flores minúsculas, de ervas do campo, de girassóis distantes, de sons e silêncios.
Mostra-me a vida que palpita no mundo e também no coração dos homens. Um saber que alegra meu corpo toca no profundo de mim, e diz, que não é preciso sorrir o sorriso falso, alardear aventuras inexistentes, e ser o que não se é.
Essa clareza, senhora de si, tem no viver reminiscências das conversas que o dia ouve e produz, dos livros lidos no cansaço dos olhos, das palavras soltas gravadas na memória, e a indiferença aos que sonham sonhos alheios.

Porque sabe que é preciso a busca, seja de uma paisagem, de uma flor, de uma idéia, de um homem ou de uma mulher.
Essa luz, esse saber, fez morada no meu peito, dorme e se levanta comigo e, feito o poeta, me diz bem baixinho:


“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"Do tamanho da paz..."



No vale, Vale  da Ribeira.
caminhado entre pedras e trilhas
O som e o silêncio.
 ser  e estar
 lá? aqui?
verde chão.
movimento/asfalto
Um dia ainda volto!
Do tamanho da paz

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Era noite em mim.


Um homem passou ao meu lado
na noite barulhenta.
Era noite em Londres, em Madagascar,
na América.
Era noite em mim.
Era encontro um quase esbarrão


era o choque
era o não romântico
era antes a crispação
de um desejo súbito.
Imperioso


Era o instantâneo erótico,
era o talvez nunca.
Para onde iria fugidia beleza
Daquele olhar que me fez renascer?
Ousada toca de olhares anônimos.


Transitoriedade
cidade
noite.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Uma plenitude mais acabada...

                                           
Nos Cadernos íntimos dos últimos anos, Lou Andreas-Salomé dá um balanço de sua vida. Em fevereiro de 1934, isto é, três anos antes de morrer, ela escreve:

"Distingue-se entre os humanos aqueles que se sentem divididos em um passado e um futuro e aqueles que vivem o presente com cada vez mais densidade, sempre mais plenitude. Os orientais acham natural insistir menos sobre a morte do que se passa do que sobre a perfeição do que se acaba, como aprofundamento da realidade. Nós, ao contrário, começamos a ver aquilo que nos chega, apenas sob o aspecto sempre mais sinistro da morte - como tudo o que se observa de um olhar exterior, logo mortífero."

E um pouco mais adiante:

"Sempre não tive a idéia fixa de que a velhice me traria muito? Em meus jovens anos escrevi em algum lugar: primeiro nós vivemos nossa juventude, em seguida nossa juventude vive em nós. Não sei bem, ainda hoje, o que eu queria dizer com isso outrora. Mas eu tinha realmente medo de não atingir a idade de viver esta experiência; eu o sabia profundamente, uma longa vida, com todas as suas dores, vale ser vivida,. Claro, o valor da vida pode nos ficar escondido pelos desgastes sofridos pela nossa carne, nosso espírito (...) do mesmo modo que a juventude mais empreendedora pode se ver entravada em sua felicidade e em seu sucesso, por um fatal concurso de circunstâncias; mas, por além das perdas, a velhice adquire muito mais que a famosa aptidão à serenidade e à lucidez: ela permite que se chegue a uma plenitude mais acabada."

A velhice pode ser, assim, uma volta àquela espécie de paz inicial e retorno do indivíduo a um estado de não-divisão, de fusão primitiva do eu para consigo mesmo, o corpo parece se acalmar relativizando-se; ...
Num ensaio de 1901, escrito aos 40 anos e intitulado A velhice e a eternidade, Lou afirmava: "O velho está liberto de todos os seus limites pessoais e escrúpulos mesquinhos. Retirado lentamente da vizinhança imediata dos outros seres vivos, ele se vê, progressivamente, reintroduzido no grande encadeamento universal".

É preciso amar a vida em todas as suas fases e amar até mesmo a morte.
Aqui Eros e Thanatos se dão as mãos - são forças complementares e não contrárias.


Do Livro: Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia de Letras, 1987.


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

“Uma prática de paixão”


Lou Salomé: uma prática de paixão; alguém que viveu a paixão com paixão, e talvez por isso mesmo provocou, até uma idade avançada, o nascimento da paixão nos seres que encontrou em seu caminho: Rilke, Nietzsche, Paul Rée, Tausk e, ao que parece, até mesmo Wagner sucumbiram ao seu encanto e à alegria de viver que transpirava em cada um de seus gestos - e o próprio Freud não parece ter sido indiferente à graça da discípula que ele qualificou de "raio de sol”.

A paixão de Lou pela vida transparecia em seu próprio físico. Freud lhe escreveu um dia: "você tem um olhar como se fosse Natal". E a escritora Helena Klinkberg (citado por Peters): "O sol se levantava quando Lou entrava numa sala". Era um ser luminoso, transparente e lúcido, daquela lucidez talvez de que fala João Cabral de Melo Neto a respeito de Monsieur Teste: "uma lucidez que tudo via, como se à luz ou de dia". Um ser humano para quem a felicidade é condição natural e destino do homem: "dentro da felicidade eu estou em casa". E ainda: "A única perfeição é a alegria".

Essa paixão pela vida, ela a transmitia aos outros, fazendo com que as pessoas ao seu contato desenvolvessem e dessem o melhor delas próprias. O que fez alguém escrever: "Quando Lou se interessa apaixonadamente por um homem, nove meses depois este homem dá à luz um livro”. Um interesse pelo outro que o leva a crescer e produzir - mesmo quando esse crescimento e essa produção implicam o sofrimento.

Pois Lou Andreas-Salomé conseguiu realizar, em seus 76 anos de vida, o que nós todos gostaríamos e deveríamos fazer sempre - e não o fazemos por descaso, indolência, medo: tornar a vida o exercício apaixonada de uma busca. Sua exploração em todos os possíveis. Isto que requer a fruição intensa e incessante de coisas e pessoas que nos cercam, de modo que o mundo exterior em nós penetre e a nós se incorpore. Pois a vida, como o dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, "está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso".

Antes mesmo do seu encontro com Rilke, Louise von Salomé já intuía essa verdade: desde muito cedo encontramos nela um grande apetite de aprender e de amar - e o objeto de sua atenção podia ser a psicanálise, a curtição de uma paisagem, de uma flor, de um esquilo na floresta ou de um corpo amado.

Do Livro: Os Sentidos da Paixão. Ed. (Cia de Letras, 1987, págs. 359-373).

sábado, 16 de janeiro de 2010

..."Nos enche a alma inteira... "


O ato amoroso "nos enche a alma inteira (...) de ilusões e de idealizações espirituais, forçando-nos o mesmo tempo a nos chocar brutalmente, sem possibilidade de se esquivar,
ao dispensador de uma tal desordem; ao corpo".

E Lou escreve:
"Pois, sobretudo, resulta no indivíduo uma espécie de interação ébria e exuberante das mais altas energias criadoras do seu corpo e a exaltação mais alta da alma. Enquanto nossa consciência se interessa vagamente, habitualmente, por nossa vida psíquica, como por um mundo que conhecemos mal e que controlamos ainda pior, que ao que parece forma um com ela, mas com o qual normalmente ela se entende mal - eis que se produz subitamente entre eles uma tal comunhão de enervação que todos os seus desejos, todas as suas aspirações se inflamam ao mesmo tempo."

E Lou escreve:
No dia em que eu estiver no meu leito de morte
Faísca que se apagou -,
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra,
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua [Hino à morte]

LOU ANDREAS -SALOMÉ: A PAIXÃO VIVA (Do Livro: Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia. de Letras, 1987, págs. 359

domingo, 10 de janeiro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu...


Sempre que estivesse feliz com algum acontecimento deveria dar pulos de alegria, que isso é muito bom, tanto para o corpo, como para mente. Esse meu amigo, cá entre nós, é envolvido com uma teoria bastante exótica, a teoria do “pule e flua”, apesar de gostar muito dele, não consigo me imaginar praticando esses ditos pulos e muitos menos essa coisa de fluir, seja lá o que isso quer dizer. Mas, por outro lado, em meus momentos de conquistas e de grandes alegrias, criei a minha própria teoria: o grito de iupiiiii, com no máximo cinco “is” finais, que o som é fundamental, além de ser, por excelência, um mantra.
Concordo que essa minha teoria não tem nada de original, mas funciona bem, pelo menos a mim, apesar de que em alguns momentos muita gente se assustou.
Um outro amigo disse que essa coisa da gente assustar as pessoas é relativa, como se existisse alguma coisa que não fosse. Enfim, me explicou que há pessoas que ficam impressionadas com a nossa maneira de olhar. Será que ele pensa que há uma só maneira de olhar. E de qual olhar ele estava falando? Enfim, não compreendi seus argumentos e foi uma conversa longa a nossa. Eu tentando mostrar-lhe que o olhar está além do ver simplesmente. Os muitos olhares da  nossa existência .. .O olhar na ótica antiga... Descartes e o olho da razão... O olhar de Narciso... O espelho e eu, (nós) de nada adiantou. Estava irredutível e dizia: objetos são objetos. Apesar de gostar muito dele, acho-o muito prático.
Já um outro amigo, desses que a gente de vez em quando tem que dar uns puxões, senão levita de tanta leveza em olhar o mundo, disse que olhar é sempre uma descoberta. O que seria a manhã, o amanhecer, o dia, e o entardecer, e a noite? A construção do mundo humano deve muito ao fato de que o homem vê a realidade, de que ele apreende a realidade principalmente pelo olhar.
Não foi preciso falar nada, nossa compreensão se deu pelo brilho do nosso olhar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Encontrei a padroeira, a "Pietà" de Michelangelo"


Sobre a morte e o morrer
O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define?

Rubem Alves

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...” Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...” Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza. Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?" Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética. Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama-de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final. ir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais? Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia. Mitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03.
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sábado, 2 de janeiro de 2010

O Prazer de Ler: Sobre Leitura e Burrice


Ler pode ser uma fonte de inteligência. Freqüentemente é uma fonte de emburrecimento. Muitas, pessoas, inteligentes por nascimento, ficaram burras por excesso de leitura. Essa afirmação contraria aquilo que os professores dizem e fazem. Eles acreditam que livros, quanto mais, melhor. E a partir desse princípio, emprestado por analogia da antiga etiqueta culinária mineira, obrigam os seus alunos a ler lista infindáveis de livros - provas da seriedade de seu saber e do rigor de seus cursos: Na antiga culinária mineira era assim: vinha a dona da casa e enchia o prato da gente - e a gente comia com prazer. Aí, quando o prato estava raspado e limpo, a gente feliz com a barriga cheia, vinha ela com outra concha cheia e, sem pedir licença, reenchia o prato vazio que a gente era obrigado a comer. Essa prática se baseava em duas pressuposições. A primeira dizia que os estômagos são muito maiores do que parecem. A Segunda dizia que as pessoas sempre querem comer mais, e não o fazem por acanhamento. "Livros, quanto mais, melhor" é tão verdadeiro quanto "comida, quanto mais, melhor".
Nietzsche disse que leva muito tempo para a gente ter coragem de dizer o que sabe. Faz muito tempo que sei que o excesso de leitura faz mal para a inteligência, mas nunca me atrevi a dizê-lo. Tinha medo de ser condenado à fogueira. A coragem me veio quando descobri um aliado: um livrinho muito pequeno - pode ser lido em meia hora -, Sobre livros e leitura. Autor: Arthur Schopenhauer. Como ninguém se atreverá a acusar o filósofo inimigo da leitura e do pensamento, transcrevo o que ele escreveu: "Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental. Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios". Em outras palavras: ler é um exercício de alienação. Alienação é a palavra que os ativistas políticos de eras passadas cobriram de excrementos. Nome feio e malcheiroso. Foi identificada com um estado no qual a pessoa não tem consciência do que está acontecendo no mundo em que vive, o oposto da tão louvada "consciência crítica", expressão obrigatória em todo o documento sobre educação. A palavra vem do latim, alius, "outro". O alienado é uma pessoa que está fora de si, caminha num mundo que não é o seu; é de outro. Para ler é preciso fazer "parar meu mundo". Se o mundo que me é próprio não for "desligado", não poderei entrar no mundo que se encontra no livro. Abro o livro. Desligo meu mundo. Começo a leitura. Entro num mundo que não é meu; é de outro. A alienação é uma das fontes do prazer da leitura. Por meio dela sou capaz, ainda que por um curto espaço de tempo, de sair de minha realidade e viver a realidade do outro. Ainda ontem, relendo a parte final do livro Zorba, comecei a chorar. O feitiço da leitura faz com que eu me esqueça de meu mundo e me transporte para o lado de Zorba. Esse exercício voluntário de alienação é parte da boa saúde mental, e quem não consegue fazê-lo é porque está meio enlouquecido. Mas aquilo que é remédio, no varejo, vira veneno, no atacado. Schopenhauer continua: " Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria. Porque quanto mais lemos menos rastro deixa no espírito o que lemos: é como um quadro negro, no qual muitas coisas foram escritas, uma sobre as outras. Assim, não se chega à ruminação: é só com ela que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma como a comida não nos nutre pelo comer mas pela digestão". Ele continua: "É por isso que, no que se refere as nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante". Por vezes, ao ver as listas de livros indigestos e sem sabor que os professores obrigam seus alunos a ler, tenho visões infernais de um buffet imenso, centenas de pratos - que os alunos são obrigados a comer (digerir e assimilar é outra coisa. Via de regra a refeição acadêmica termina em vômito ou diarréia. O engolido é esquecido). “Esse é o caso de muitos eruditos: leram até ficarem estúpidos”. “Porque a leitura continua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto nos próprios pensamentos”. Nietzsche pensava o mesmo. Eis o que ele disse no Ecce Homo: "Os eruditos, que hoje nada mais fazem que dedar livros (ir virando as páginas com o dedo), acabam por perder inteiramente a capacidade de pensar por eles mesmos. Enquanto vão lendo não pensam. Os eruditos gastam todas as suas energias dizendo Sim e Não na crítica daquilo que outros pensaram - eles mesmos não têm mais a capacidade de pensar. Vi com meus próprios olhos: pessoas bem-dotadas e com liberdade de espírito que, aos trinta anos, já haviam lido a ponto de se arruinar..." É um equívoco imaginar que a quantidade de livros lidos desenvolve a capacidade de pensar. Comida ingerida em grande quantidade prova perturbações digestivas ou obesidade. Eruditos, com freqüência, são obesos de espírito. Livros lidos em grande quantidade provocam perturbações no pensamento. Borges, numa conferência sobre "O livro", cita Sêneca, quem censura o dono de uma biblioteca de cem livros. "Quem", ele pergunta, "é capaz de ler cem livros?" Nietzsche, no mesmo espírito, diz que ele se contentava em ler poucos livros. E acrescenta: "Uma sala de leitura (salas enormes, nas bibliotecas, onde se vai ler) me deixa doente".Pelo que conheço das práticas escolares, esse é o resultado das leituras,nas escolas. Os alunos aprendem que as coisas importantes estão escritas em livros, e com isso eles são desencorajados de pensar seus próprios pensamentos. Pesquisar é fazer resumos dos artigos da Barsa. Num trabalho acadêmico, tudo o que o aluno diz tem de ser confirmado por aquilo que outro disse num livro – um nome e uma data entre parênteses. Os alunos terminam por pensar que a educação é parar de pensar seus próprios pensamentos e pensar os pensamentos de outros - pelos quais eles não têm o menor interesse. Valendo-me das metáforas culinárias, atrevo-me a dizer, com freqüência, as chamadas avaliações escolares (as provinhas) são ocasiões pós-refeição em que provocam vômitos intelectuais nos alunos, para verificar se o vomitado é idêntico ao que foi engolido. Eu me alimento de alguns livros diariamente: eles podem ser maravilhosos. Mas é preciso que sejam comidos com prazer para fazer bem à inteligência. E note que "prazer" não quer dizer "facilidade". Existe um prazer imenso em escalar uma montanha... Livros comidos com prazer são livros a serem ruminados pelo resto da vida. Livros não-ruminados são livros esquecidos. Não entraram no sangue, não viraram carne. Mas ruminação é virtude que se deve aprender com as vacas. Rumina-se num tempo de vagabundagem, de paciência e pachorra, tempo quando não se pasta. Mas essas são virtudes que os educadores não conseguiram incluir em suas pedagogias e psicologias.

Texto extraído do livro "Entre a Ciência e a Sapiência: O Dilema da Educação", de Rubem Alves, Ed. Loyola.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"Não há piedade nos signos"


Fala
Orides Fontela

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)

Orides Fontela nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em 21 de abril de 1940. Começou a escrever poemas aos sete anos de idade. Formada em Filosofia pela USP, foi professora do primário e bibliotecária em escolas da rede estadual de ensino. Publicou Transposição, Helianto, Alba, Rosácea, Trevo 1969-1988 e Teia. Recebeu o prêmio Jabuti, em 1983; e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte

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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Um outro olhar sobre o mundo


Faces da sifilização do ethos brasilienses
Sob aquela velha opinião formada sobre tudo...

O conceito de "folha" surge do fato de igualarmos todas as folhas. Acreditamos saber algo das coisas mesmas... e no entanto não possuímos nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem.

O homem possui a faculdade de apreender a realidade e criar signos, estruturando-os em universos culturais e semiológicos. É capaz de dar sentido ao que carece de sentido, e também ao desconhecido. E o faz por meio da linguagem. Sem a projeção do homem, os fenômenos naturais existem apenas em estado amorfo. Em outras palavras, se não são recortados culturalmente pelo homem, permanecem desprovidos de sentido; não passam de uma abstração, sem limites de apreensibilidade. Se há limites, esses são dados pela formação do homem, cuja vida cotidiana está enraizada numa cultura e numa história as quais influenciam sua própria visão de mundo.
No início do século XX, disse F. Saussure aos discípulos: "é o ponto de vista que cria o objeto". Diante de um mesmo evento, as apreensões do objeto são diferentes e geralmente conflitantes entre si, podendo haver tantos pontos de vista, quantos forem os recortes do mundo. Se esses são limitados, resultam de limitações próprias à (de) formação do informador, ou da visão parcial de mundo dos recortes. Não é a realidade que muda, mas apenas o modo de observá-la, por isso os sistemas conceptuais variam de língua para língua, de acordo com o modo e visão de mundo diante da observação da realidade.
Assim, condicionada pela língua, nossa concepção de mundo é "apenas uma das muitas possíveis". A fonte de maior heresia seria, então, não reconhecer os limites de nossa visão de mundo, mutável e conflituosa, ignorando as contradições que lhe são inerentes, com a adoção "consensual" de uma única e parcial visão da floresta. Conforme alerta Luís Milanesi, o consenso rápido e o consenso duradouro são suspeitos.
De outro modo, para suprir os limites de uma equivocada leitura de mundo, é imperativo desconfiar de tudo. Além de simplesmente ordenar o caos informativo por meio de um rosário de técnicas, cumpre cultivar a dúvida e, sobretudo, desconfiar permanentemente da ordem, destruindo os "edifícios já construídos", revelando a força dos antagonismos em choque; eventuais males de origem que remetem ao mito fundador da Terra sem mal: “a verbiagem oca, inútil e vã, a retórica, ora técnica, ora pomposa, a erudição míope”, aparatos de saber fundados à custa de hierarquias e privilégios, ignorância e alienação, perpetuadas por quem decide o que convém saber. Neste mundo vasto mundo, "a visão da floresta é fundamental para compreender a folha"

Edson Santos Universidade de São Paulo/ biblioteconomia-
Outros artigos desse autor -http://www.ebah.com.br

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sábado, 19 de dezembro de 2009

Escrever, uma necessidade?



Verissimo espiona os dilemas do autor em novo livro
by Ronaldo Pelli em 18 de dezembro- Blog de O Livreiro

O que leva uma pessoa a escrever? Para o escritor Luis Fernando Verissimo, sempre foi uma questão de necessidade. Mas não uma necessidade banal, que escutamos dos poetas menores de “colocar para fora aquilo que se sente”. Não. Verissimo começou a escrever, já depois dos 30 anos, por dinheiro.
Até que, depois de décadas de editores a lhe cobrar textos, veio Os espiões, seu último livro. Após ter eleito sempre a folha em branco como sua musa, Verissimo resolveu escrever porque queria escrever. Sem encomenda, com o seu próprio tempo. Simples. E o assunto “por que alguém se senta em frente a esta mesma folha em branco e começa a preenchê-la?” permeou o seu novo trabalho.
Claro que a obra é uma homenagem/paródia aos livros de espionagem de John Le Carré. Mas essa é a primeira leitura. Na segunda olhada, para quem já acompanha o caminhar do autor gaúcho desde O jardim do diabo, já dá para perceber a reunião de várias de suas melhores qualidades: humor inteligente, referências, caricaturas de personagens, etc.
E a questão do por que escrever. É tão clara a sua necessidade de abordar o assunto que ele deixa transparecer a questão em alguns trechos. Como esse: “Todos nós merecíamos pertencer à irmandade dos que escrevem, só por querer”. Dá a entender que o narrador, um escritor frustrado que acaba como editor, não acredita na tese de escrever à toa, sem uma necessidade, sem um editor que o cobre ou uma conta a pagar.
Ou este: “O Amante Secreto (um personagem do livro) também sucumbira ao bendito ímpeto de escrever, o que fora a sua ruína. A estranha compulsão fizera mais uma vítima. O Professor Fortuna (outro personagem do livro) diz que em vez de endeusar escritores deveríamos louvar os milhões que resistem e não escrevem, e cuja grande contribuição à literatura universal são as folhas que deixam em branco”.
O escrever, este “bendito ímpeto”, é a “ruína” do Amante Secreto. Já o Professor, um desses personagens deliciosos que só o Verissimo é capaz de criar, que costuma ser do contra e que adora Nietzsche sem nunca ter lido nada do filósofo, sugere, à sua maneira niilista, homenagear a folha em branco. Como se dissesse que não é necessário escrever, não é necessário ler, não é necessário fazer nada. Exageros à parte, e de uma maneira torta, novamente estamos falando da musa do Verissimo: a folha em branco.
Os espiões mostra, ao fim, que às vezes a tentação de escrever é maior que a capacidade criativa dos escritores.

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Aos primeiros acordes



Dançar sempre foi o meu forte nunca imaginei que pudesse, naquela noite tranqüila, vir à tona algo a tanto adormecido Não, não comigo que sempre deslizei pela pista alheia a tudo ao meu redor e feliz com meu parceiro de anos e anos. Um bailarino de primeira.
Bom, talvez aquela noite fosse à reservada para mim, como dizem os místicos, para viver o que de antemão já estava previsto.
A verdade é que eu não acredito nessas coisas, não. Mas depois dessa noite tornou-se impossível viver sem uma ponta de mistério que fosse.
Como em todas as outras noites aprontei-me vagarosamente me detendo em cada detalhe procurando sentir cada gesto. Do simples passar do baton ao delicado amarrar da fivela da sandália um arrepio percorria todo meu corpo como se eu estivesse me preparando. Um quase ritual. E foi.
Aos primeiros acordes da orquestra, ele olhou-me profundamente nos olhos, puxou-me bruscamente pela cintura e senti seu braço forte me enlaçando. Depois seus lábios levemente encostaram-se ao meu rosto.
Algo adormecido em mim de há muito veio à tona.


sábado, 12 de dezembro de 2009

Diante do silêncio acusador....



Ressentir-se significa atribuir a um outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. “Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar”. Neste caso, o ressentido estabelece uma servidão inconsciente, se demite subjetivamente e não se implica como sujeito de desejo.
                             Maria Rita Kehl

A pessoa ressentida, ao se sentir ofendida, agredida, submetida ao outro, não se manifesta no ato, mas mantém a cena viva remoendo (ruminando) a ofensa repetitivamente. Maria Rita Kehl menciona que o “ressentido não é alguém incapaz de se esquecer ou de perdoar; é um que não quer se esquecer, ou que quer não se esquecer, não perdoar, não deixar barato o mal que o vitimou”.

É muito interessante o quanto a nossa psique nos rege e que não podemos garantir que uma criança se desenvolva subjetivamente de uma ou outra maneira mesmo que a mãe (pais) tome todas as medidas nos primeiros momentos da vida. O bebê, a criança e posteriormente o adulto podem ter vivido experiências subjetivas que o fizeram assimilar de maneira muito particular. Desta forma, muitas vezes quando fazemos o possível para proporcionar amor, apoio, ajudar psicológica, financeira e emocionalmente ou de qualquer outra natureza pensando estar fazendo o melhor ao outro, na experiência de quem recebe tudo isso pode ser assimilado não com gratidão, mas sim, como uma dívida que deve ser paga. Cada ajuda adicional no decorrer da vida o faz sentir pior e mais endividado (mais empobrecido). É como se cada ato de afeto e ajuda faça com que aquele que recebe fique mais pobre, desta forma ao invés de demonstrar espontaneamente a gratidão, este se volta contra aquele que oferece algo com muita violência.
É muito difícil lidar com o ressentimento do outro....
Todos nós ainda vamos nos sentir culpados diante do silêncio acusador dos ressentidos que nos rondam.
by Carlos Alberto Alves e Silva
http://www.fashionbubbles.com/2009/vitimas-do-proprio-mal-ressentimento/
Título do texto: Sueli aduan

Maria Rita Kehl é doutora em psicanálise pelo departamento de Psicologia Clínica da PUC/SP e clinica, desde 1981, em consultório particular. É conferencista, ensaísta e poeta. Escreve artigos sobre cultura, comportamento, literatura, cinema, televisão e psicanálise para a imprensa. É autora de diversas obras, entre elas, Processos primários e Sobre ética e psicanálise.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ENTÃO, TEMOS MEDO DE QUÊ?



Pintura  Sr. do Vale

De nosso corpo, respondia Lacan. Esse medo de si mesmo se chama angústia. Os outros registros do medo se articulam aí, ou procede daí. O que é o corpo? Em francês, pelo menos, não se diz "eu sou", mas sim "eu tenho" um corpo. O corpo é um haver, uma posse que também nos possui; é algo de que gozamos - entendam gozo no seu sentido jurídico. O gozo que é gozo do corpo é aquilo que está além do prazer, que funciona como barreira. O gozo é aquilo que se pode experienciar, por exemplo, na dor. Ora, as proteções funcionam e, na maioria das vezes, nos põem ao abrigo de experienciar essa dimensão de nosso corpo. O corpo é um haver que "se introduz na economia de nosso gozo pela imagem do corpo". O estádio do espelho é paradigmático. A criança se reconhece numa imagem que lhe dá sua unidade antes mesmo que seu amadurecimento neurofisiológico o permitisse. Para que ela assuma essa imagem, para que se identifique, é necessária uma mediação: a mediação da mãe, desse Outro que a carrega nos braços, e que nomeia essa forma que a criança encontra. No olhar da mãe e em suas palavras, a criança capta que representa alguma coisa para seu desejo, mesmo assim, sem saber o quê. A mediação simbólica do Outro me confere a imagem do meu corpo, e meu eu se constitui a partir daí como um alter ego. Assim é o corpo da linguagem que faz o corpo do espelho, conferindo-o ao sujeito. A linguagem - isto é, o saber - afeta o corpo.

by Carla Wanessa-
Jacques-Marie-Émile Lacan-Paris, (13 de abril de 1901 - 9 de setembro de 1981).
Psicanalista-

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

da série tenho um amigo que disse que eu:



Deveria ser mais organizada, que ele já se cansou de atender meus telefonemas e é sempre a mesma ladainha:
_ desculpe-me querido, tinha certeza que era o do teatro. É, mas o que ele não sabe, nem imagina, é que eu fico bastante chateada com as respostas que me dá:
_ por que você não deixa uma agendinha ao lado do telefone? Assim não vai errar mais. Como se eu não tivesse uma agendinha E qual o problema em errar? Também já decidi, quando acontecer novamente, e sei que vai acontecer, vou é mudar minha voz.
Já que estudo pra ser ator mesmo, não custa treinar. Vai ser divertido e ele não vai nem perceber, tenho certeza. Pois quando decido fazer uma coisa, coloco minha alma.
Tenho um amigo que disse que eu não devia ficar brincando com essas coisas. Fingir ser uma coisa que não sou, tentei explicar a ele que não se trata de fingir, que teatro não é isso não, mas ele é cabeça-dura e ainda argumentou:
_Que serventia tem tudo isso? Olha, fiquei mais chateada com ele do que com o outro, por que errar acho que todo mundo erra mesmo, mas querer que tudo tenha uma serventia nesse mundão, ah! Aí é que não. Na hora em que ele me falou isso fiz umas caretas, botei a língua pra fora, estiquei os cabelos, pulei numa perna só, que era pra ver se ele ria. Dito e feito, eu sou mesmo engraçada. Ele riu, riu, que até perdeu o fôlego.
A desforra chegou à horinha e perguntei:
_Que serventia tem esse seu riso todo? Nunca mais vi esse amigo. Foi até bom, não era mesmo meu amigo. Amigo que é amigo acredita no trabalho da gente.
Tenho um amigo que disse que essa coisa de trabalho é complicada. Não entendi onde está a complicação, e como sou muito perguntadeira, fui logo dizendo:
_Como assim complicado?
_Pois é! A gente não vê a hora que o dia termine, e ainda completou: trabalhar é muito chato. Chato é esse meu amigo.
Já um outro amigo, desses que nem vê a hora passar, que quando o dia termina adentra a noite a trabalhar, disse que eu não sou só perguntadeira, não. Sou também trabalhadeira que errando aqui, acertando ali, descobri o prazer que dá o muito fazer.