domingo, 7 de março de 2010

Só as mulheres podem ...


Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade, até porque elas são desarmadas pela própria natureza: nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas.

Ninguém lhes dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência. As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência.

É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz.

E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d’água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas.

São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações.

Rita Lee- Título-Sueli Aduan

"Mulheres de Atenas"

"Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Vivem pros seus maridos Orgulho e raça de Atenas Quando amadas se perfumam Se banham com leite, se arrumam Suas melenas
Quando fustigadas não choram Se ajoelham, pedem imploram Mais duras penas, cadenas"
Mulheres de Atenas -Chico Buarque


Devoragem
Assim vejo a mim:
perdida dentro de um homem,
sedenta de paixão e desejo.


Uma mulher,
nua e quente.
Com a boca molhada,
entreaberta para o beijo.
Corpo e movimento.
Pernas e pêlos


Assim vejo a mim:
perdida dentro de um homem,
mãos e seios,
pulsação e orgasmo.
Na voragem o amanhecer.

quinta-feira, 4 de março de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:


Deveria investir na minha felicidade que é uma obrigação optar pelo que gosto, ou não gosto. Como, com quem e onde quero viver e blábláblá..... Que para a felicidade ser completa preciso ter sempre alguém ao meu lado. Viver um grande amor. Na hora foi me dando um sono que mal consegui disfarçar. Se bem que nem pensei nessa possibilidade, não. Bocejei em alto e bom tom, mas ele nem se deu conta. Continuou com seu rosário de atitudes em prol da minha felicidade. A cada fala sua meu sono aumentava até que, quase num delírio, relembrei minha avó com seu discurso sobre a arte do bem viver. Dizia ela - que para  se conhecer uma pessoa é preciso comer, juntos, uma carga de sal.

E, com um sorriso maroto completava: isso leva anos e anos quase à vida toda, além de que se faz necessário, quando se quer uma boa relação de amor, ou de amizade, relevar muita coisa fazer vista grossa, mas desde que isso não lhe traga tristeza, não. Foi ai que me dei conta que esse meu amigo não entendia nada de felicidade. Que não dá para ser feliz sem levar em conta a felicidade do outro.

Já um outro amigo também resolveu discursar, e veio com uma conversa de que é logo no começo de uma amizade, ou de uma paixão que se deve deixar tudo muito claro e explicar direitinho quem você é como gosta de ser tratado e por aí. Como se as coisas acontecessem dessa maneira, mecanicamente, feito a um aparelho que é só apertar um botão e ele funciona. Gente é um pouquinho mais complicado. São muitos botões e, às vezes, alguns enguiçam, outros funcionam mais do que deveriam e tudo vira uma bagunça que nem a própria pessoa entende. Escutando esse meu amigo me dou conta, com certa tristeza, que ele não entende nada da arte do bem viver.

Mas amigo é amigo e a gente não deixa de lado a bem querência porque a bem da verdade, seja lá o que isso quer dizer, é somente nestes momentos de escuta que nos damos conta das nossas semelhanças.
Um outro amigo, amigo maior, de longa data diz que em suas andanças por esse mundão sem porteira, esse grande sertão - que o que nos apazigua é saber que todos, feito a meninos, desejamos somente sermos queridos.
 
 

terça-feira, 2 de março de 2010

Presença



É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mario Quintana

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Quero saber mais...


Que é que desperta num sujeito compulsão irresistível de exprimir sua opinião sobre um assunto que nem sequer lhe interessou o bastante para que se desse o trabalho de estudá-lo? De onde vem esse impulso demencial de ensinar sem saber?
Uma vez, numa aula, como eu contestasse a noção vulgar de “história dos vencedores”, alegando que justamente os perdedores do presente vão buscar refúgio na investigação do passado, um ouvinte, indignado, protestou que “a maioria esmagadora” das obras célebres de historiografia exemplificava aquela noção. Para não perder tempo com a demonstração do óbvio, solicitei apenas que o cidadão citasse cinco títulos dessas obras célebres. Se ele pudesse apontar cinco títulos, prometi, eu admitiria que eram a maioria esmagadora. Evidentemente, ele não citou nenhum.
Mais tarde reclamaram que eu humilhei a criatura. Mas não tinham idéia de quanto pode ser humilhante, para o homem que estudou um assunto décadas, ser confrontado em pé de igualdade com o opinador ignaro, diante de uma platéia que vai nos julgar antes pelas simpatias pessoais e ideológicas do que pelo conhecimento da matéria. Nunca me saí mal dessas situações, mas a simples anuência de entrar nelas, em nome do dever de ensinar, requer da gente uma dose de humildade que as pessoas em geral estão longe de imaginar.
O que entendem por humildade é outra coisa. Humildade, neste país, consiste em arrotar opiniões sobre o que se desconhece e exigir que o sujeito que conhece as aceite como se valessem tanto quanto as dele. Humildade é complacência deleitosa com a própria ignorância, acompanhada de desprezo pelo saber. Exigir respeito pelo conhecimento, querer que o sujeito aprenda antes de opinar. Ah!, Isto é orgulho, é soberba, é pecado mortal.
Quanto mais observo os hábitos das classes falantes, mais me parece estranho e doentio. Pois eu, quando algum problema me chama a atenção, sinto o impulso exatamente oposto: quero saber mais. Faço perguntas, investigo, leio livros, obtenho o máximo de dados sobre a evolução das discussões e, uma vez de posse de uma visão suficientemente abrangente do status quaestionis, deixo que toda a complexidade e todas as contradições do assunto fiquem cozinhando dentro de mim, se preciso por anos a fio, até obter alguma intuição que me permita reordenar os dados na forma de uma solução.
Durante toda essa incubação, não sinto nenhum, nenhum impulso de falar a respeito, ao menos para um público maior, precisamente porque tenho a consciência de que qualquer coisa que eu dissesse aí não será mais que uma ejaculação precoce, expressão da minha confusão interior, que na melhor das hipóteses arriscaria persuadir o ouvinte sem ter-me persuadido a mim mesmo.
O desejo de falar só nasce depois que alcancei o insight. Mesmo um insight, no entanto, não é prova de nada e a mera posse dele não me autoriza nem me impele de maneira alguma a assumir minha opinião polemicamente, a defendê-la com brio contra as hipóteses correntes. Isto só acontece muito tempo depois, quando uma sucessão de insights convergentes me deu um sentimento de certeza razoável, sobrevivente ao teste das contradições.
E mesmo assim, porca miséria, pode dar tudo errado

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Receita para arrancar poemas presos:



você pode arrancar poemas com pinças
buchas vegetais, óleos medicinais
com as pontas dos dedos, com as unhas
com banhos de imersão
com o pente, com uma agulha
com pomada basilicão
alicate de cutículas
massagens e hidratação
mas não use bisturi nunca


em caso de poemas difíceis use a dança.
a dança é uma forma de amolecer os poemas
endurecidos do corpo.
uma forma de soltá-los
das dobras dos dedos dos pés, das vértebras
dos punhos, das axila,do quadril
são os poema cóccix. os poema virilha
os poema olho, os poema peito
os poema sexo, os poema cílios


ultimamente ando gostando de pensamento chão
pensamento chão é poema que nasce do pé
é poema de pé no chão
poema de pé no chão é poema de gente normal
gente simples
gente de espírito santo
eu venho do espírito santo
eu sou do espírito santo
traga a vitória do espírito santo
santo é um espírito capaz de operar milagres
sobre si mesmo

Viviane Mosé- Psicóloga e psicanalista- Mestra e doutora em filosofia.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

"Licença de brincar"

Imagem- presente da Danapaulinelli

Eu quero uma licença de brincar.

Bordar caminhos e subir ao céu.

Mastigar a lua,

Beijar estrelas,

Pular nas nuvens,

Sorrir lá do alto. 

E,até gargalhar.

Ver teus olhos brilharem. 

Espantando de enxergar no céu uma

mulher, menina, que ama

Imaginar.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Como tornar-se um poeta! – Primeira lição

Como tornar-se um poeta? Você, um aspirante a poeta, deve, agora, estar se perguntando o seguinte: Por onde devo começar? Você, na verdade, já começou, pois está, neste exato momento, lendo este fantástico artigo. Vou ser famoso? Não, não será. Infelizmente todos os poetas que um dia poderiam alcançar o estrelato morreram no século XX. Os melhores morreram no século XIX. Que merda! Então para que serei poeta? Quiçá, para de quando em vez, poder falar assim: eu sou poeta. Publicarei meu livro um dia? Claro que sim! Se você puder pagar todo custo de produção dum livro, você será publicado! Não desanime, até mesmo os melhores já fizeram isso. O Manuel Bandeira, por exemplo, pagou do próprio bolso para lançar um livro.Que bom, então serei tipo o Manuel Bandeira, um poeta foda! Não, não será. Lembre-se que todos os poetas fodas morreram no século XX. Eu quero ser poeta assim mesmo, foda-se! Certo! Então comecemos agora!
1. O nome Para tornar-se um poeta, você precisa dum bom nome. Recorrer a pseudônimos é uma boa alternativa principalmente quando você não tem um sobrenome, cuja primeira letra seja igual à dum poeta famoso. Vamos a exemplos: João Carlos Zurel: Péssimo nome, não há poetas tão famosos com sobrenomes que começam com a letra Z. Marcelo Nunes Gonzaga: Bem melhor, não? Seu livro ficará ao lado dum poeta árcade, Tomás Antônio Gonzaga. Bom, acho que você entendeu o espírito da coisa.
2. Escolha uma escola Todo poeta deve se filiar a uma escola. Não tente bancar o fodão, o moderninho, o alternativo, querendo criar algo diferente. Simplesmente isso é impossível, não dá. Os movimentos poéticos, na verdade, deveriam ser divididos apenas em somente três: Clássico, Romântico e Moderno. Veja o por quê. Clássicos: Homero, Camões, Gregório de Matos, Cláudio Manoel da Costa, Olavo Bilac etc. Interessante, não? Há uma explicação. Levando em consideração que Homero foi um dos grandes poetas clássicos, os outros citados, apesar de terem participado de escolas diferentes, apenas imitavam os clássicos. Camões: Classicismo - cópia dos clássicos em pleno século XVI; Gregório de Matos: Barroco-cópia dos clássicos em pleno século XVII; Claudio Manoel da Costa: Arcadismo – cópia dos clássicos em pleno século XVIII Olavo Bilac: Parnasianismo – cópia dos clássicos em pleno século XIX. Românticos: Byron, Alexandre Herculano, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Castro Alves, Alphonsus de Guimaraens, Florbela Espanca etc. O que o Alphonsus está fazendo aí, o que a Florbela está fazendo aí? Bom, eles são considerados Simbolistas. Esses podem ser chamados de românticos amadurecidos. É isso! Modernos: Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Haroldo de Campos e todos os outros que vieram depois. Concretismo e demais movimentos faziam o mais do mesmo, são modernos e mais nada. Qual devo escolher? Indicamos para você, um jovem juvenil garoto iniciante no Parnaso, a escola Modernista, ela é a melhor para leigos, visto que: - Você pode usar versos livres, isto é, não precisa saber as regras de métrica. - Você pode escrever prosa e falar que ela é um poema. Veja um exemplo: Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? — O que eu vejo é o beco. Porra! Acho que isso não é um poema! Errado! Na visão dos modernistas, o que está escrito em itálico é um poema. - Você pode usar e abusar dos versos brancos (esse recurso pode ser utilizado nas escolas clássicas e românticas).
- Você pode fazer poema com objetos idiotas. Por exemplo: escrever um monte de palavras e pregar num guarda-chuva! Belo, não? Você ainda será considerado um poeta de Vanguarda. Porém, lembre-se, você não está criando nada inédito. - E, inclusive, pode não saber escrever poemas. Boa parte dos modernos faziam justamente isso! Ok escolhi minha escola! Parabéns, agora escolham uma doença uma mutilação! 3. Doenças Todo poeta que se preze deve, até mesmo você, meu caro jovem juvenil aspirante a poeta, deve escolher uma doença. Indicamos para os iniciantes a Tuberculose. Essa enfermidade foi sucesso no século XIX e fez vítimas também durante o século XX. É algo retrô! Algo que nunca sai de moda. Tuberculose é uma boa pedida para os jovens poetas. Não gostou da Tuberculose? Ok, sem problemas! Seja um devasso! Escolha Sífilis, Gonorreia e demais DSTs. Quer algo mais hardcore? Ok vamos lá! Que tal seguir a onda do poeta luso Camões? Fure um de seus olhos! Não gostou? Ok sem problemas! Então, faça como Castro Alves, dê um tiro no próprio pé! Não gostou? Quebre um de seus pés, seja coxo, tal como Byron (recomendado àqueles que escolheram a escola Romântica).

Por Lauro Drummond
Literatura em foco

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A partida


Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu.
Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar à distância uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele não sabia de nada e não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve e perguntou: – Para onde cavalga senhor? – Não sei direito – eu disse –, só sei que é para fora daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar; só assim posso alcançar meu objetivo. – Conhece então o seu objetivo? – perguntou ele. – Sim – respondi – Eu já disse: “fora - daqui”, é esse o meu objetivo. – O senhor não leva provisões – disse ele. – Não preciso de nenhuma – disse eu. – A viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no caminho. Nenhuma provisão pode me salvar. Por sorte esta viagem é realmente imensa.

Tradução de Modesto Carone

    Miniconto de Kafka  -
CARVALHO, Olavo. O antileviatã - O náufrago e a bóia. In Revista Bravo, 2001.
Título: Quero saber mais...-Sueli Aduan

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O CORPO NOUTRO CORPO


Simplesmente sinto.
Na retina dos meus olhos,
a imagens de um homem:
terno, amante, amigo.

Era quase silêncio.
Alucinados os gestos,
dos nossos corpos,
entre lençóis e cortinas.

Segredos de cama, lentamente, descobertos
O corpo noutro corpo.
Instante de infinito.
Além de nós e da vida.

O fogo, o mel, o orgasmo.
Morremos um no outro
paz dos deuses.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

"Há o que se diz e o que se quer dizer"

Guimarães Rosa lembra que "o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber",ou seja, a leitura nos faz depararmo-nos com o que está para além do escrito/dito pelo sujeito. Há algo veiculado na palavra que não se reduz a ela, ou que, ainda mais, não se encontra nela e será retomado pelo leitor, o qual, a partir de sua posição subjetiva, fará dela uma sua palavra. Um provérbio francês testemunha que "a palavra pertence metade a quem fala e metade a quem ouve".
Clarice Lispector, sobre sua experiência ao escrever, diz que se trata de traduzir o desconhecido para uma língua que desconhece. A idéia de metade leva a valorizarmos o que Lispector introduz de incompletude no texto, remetendo ao desconhecido, que ainda assim é o móvel do trabalho com o texto.
Um trabalho que implica algo para além do que a palavra traz de informação se lançando além do que diz literalmente. É o ponto em que surpreendemos a oralidade permeando e, ainda mais, fazendo das palavras texto.
Fernando Pessoa fala dos contos herdados, prazeres que são nada, mas não queremos querer outros. Veiculando esse nada que são prazeres, Pessoa fala da metade desconhecida e inacessível que ainda assim persiste no poema, fazendo-se a voz do texto.
Lacan atesta que as pessoas têm necessidade de ler escritos que não compreendem e de ir onde se fala do que não se entende.
Para Manoel de Barros, é preciso não saber nada, é preciso entrar no estado de palavra para enxergar as coisas sem feitio que não foram recortadas, portanto, não existem - a sabedoria se tira das coisas que não existem, pois o que resta de grandeza são os desconheceres”.
É o poeta encontrando-se com a palavra sem feitio, que justamente por sua face de desconhecimento, só vem a ser texto através da articulação operada pela dimensão da oralidade.
Lacan afirma que há dois planos em toda produção em palavras.
Há o que se diz e o que se quer dizer, pois, separando o querer e o dizer, há a intenção.

recortes/pesquisa-sueliaduan
A disciplina de leitura: ritmo e oralidade na voz do texto.
Juliana de Miranda e Castro; Anna Carolina Lo Bianco.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:

Acredito é por demais na vida, nas mudanças, nas pessoas, e que ele não consegue compreender. Com um sorriso maroto nos lábios me diz: - Se ainda fosse naqueles velhos tempos das discussões, dos sonhos, das lutas. Em que nós, ingenuamente, nos envolvíamos, ainda vá.
Ah! Esse meu amigo é danado. Vive quieto no seu canto, amante da solidão e da boa música. Às vezes aparece com essa de querer compreender. Não só a mim, claro, mas aquela época em que vivemos e do pouco que restou. Fico brava e ele acaba indo embora antes mesmo do delicioso cafezinho da Ciça.
É que não gosto de nostalgia, não. Recordar sim, mas ficar achando que aquele era o nosso tempo, o bom tempo. Aí também não.
E como diz o poeta: o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Já um outro amigo, também quieto, mas com a mente centrada no aqui e agora, esse diz que estou certíssima, que devemos sim acreditar na vida, nas mudanças, nas pessoas e que tudo vale a pena.
Ri, um sorriso desses em que os lábios vão devagarzinho se abrindo para derrepente tomar conta do nosso rosto todo. Isso não passou em branco para o meu amigo, um observador nato. E fui logo me explicando, antes que fosse embora também, não precisa arregalar esses belos olhos, não. É que me lembrei de um verso do Pessoa: “Tudo vale a pena. Se a alma não é pequena.”
E conclui: o poeta tem sempre razão. É que em seu olhar mora um mundo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

"Afinal, a realidade...."


Porque o fundamental é saber "o que é a poesia". Você nunca chegará a Teresina se não souber pra que lado fica Teresina. Eu não digo que a poesia seja uma coisa definível, mas você tem de saber o que é isto: "aonde eu quero chegar"; ou seja, esse "aonde eu quero chegar" tem de existir. Eu me lembro quando li Fernando Pessoa, Drummond, Valéry, e alguns versos me marcaram ao me mostrar o que era a poesia, como quando Valéry dizia: "Beau Ciel, vrai ciel, regardez-moi, qui change". Isso não é apenas uma idéia, mas a sua colocação diante da realidade...
Este é um poeta que me interessa, nesse momento, por me parecer extremamente cerebral, de uma poesia muito elaborada, Ele é cerebral, mas também existe uma lenda em tomo de Valéry. O poema "Le Cimetíère Marin" (0 Cemitério Marinho), por exemplo é um poema altamente comovido. Veja bem, uma coisa é a elaboração, é a atitude do poeta em relação à poesia e aos seus meios de expressão, que em alguns é mais cerebral, mais racionalizado, mas, seja de quem for, se ele não se comove não existe poesia. Porque a única coisa que a poesia faz é comover. A poesia não cura dor de dente, não resolve problema econômico, não desintegra o átomo, não serve para nada. A única coisa que ela faz é comover. Porque não há um conhecimento, algo que se ganhe através da poesia, o que ela faz é nos comover. É uma mentira que nos comove. Afinal, a realidade do mundo é insuportável. Por isso se faz poesia, se faz arte, se faz música, etc.
— Eu não diria que é uma forma de fuga, porque ao mesmo tempo ela procura tomar a vida possível. Ela não quer sair da vida. O homem não faz poesia para sair da vida, ele faz poesia para ter coragem de viver.
Este é o mundo em que vivemos banal e delirante, mas onde se torna cada dia mais clara a necessidade de despertar e cultivar o que há de humano no homem. Os poetas podem ajudar nisso. E não por mistificar a realidade, mas, pelo contrário, por revelá-la na sua verdade, que é prosaica e, ao mesmo tempo, fascinante. O poeta sonha no concreto o sonho de todos. Ele sabe que a poesia brota da banalidade do mesmo modo que o poema nasce da linguagem comum. Está na tua boca, na minha boca, a palavra que eventualmente se converterá em beleza. Ou não.

recortes /sueliaduan - Ferreira Gullar - Conta Tudo/ 2005

sábado, 6 de fevereiro de 2010

"Da liberdade de amar"

....“Eras para mim a mais maternal das mulheres,
eras um amigo como são os homens,
eras, a te olhar, mulher realmente,
mas também, muitas vezes, criança.
Eras o que conheci de mais terno
e mais duro com que tenho lutado.
Eras a altura que me abençoou –
te fizeste abismo e naufraguei.”
Trecho do Poema de Rilke para Lou Andréas Salomé

Rubem Alves responde sobre o amor

L:Aprender a viver junto é aprender, primeiro, a viver só?
  Rubem Alves – As pessoas que não sabem viver sozinhas estão o tempo todo mendigando aprovação das outras. É preciso aprender a viver só, aprender a fazer silêncio, para poder conviver com o outro, porque dentro de cada um mora uma grande solidão. Há um lugar dentro da gente que ninguém vai, somente nós.

L:O poeta Drummond diz que “amor com amor não se paga”, o que pode ser traduzido também pelo verso da música “Amor e Sexo” da Rita Lee: “Amor é um, sexo é dois.” Amar é solitário?
  Rubem Alves – O poema do Drummond diz que todas as coisas do amor são gratuitas, você não paga nada. O caso é o seguinte: quando estou amando, posso amar sem ser amado. O amor pode ser solitário. O amor pode ser um ou pode ser dois. O amor que é apenas um é triste, pois não tem correspondência. A felicidade vem exatamente quando você tem os dois. Aí sexo fica sendo coisa de dois, porque é coisa do amor.

"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?.."
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Arquivo Poesia Experimental

Luisella Carreta
Itália
"Paravolo"

postado no twitter -danapaulinelli
"Essa  pessoa, DANA, inteligênica e sensibilidade"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Corpo lugar da alegria

Houve um tempo em que a alegria era pura mania. As palavras usadas eram efetivamente vividas na loucura do dia-a dia, e do encontro como parte da vida.


Essa mania. Um Bom delírio.
Delírio do poeta,
Delírio do contemplador,
Delírio do pintor que descobre a cor.
Era só o que existia
Alegria,
Cor
Magia

Como uma bailarina que gira, gira, gira.
E dança na ausência do pensar.
 Ausência do saber-se finita.
Medo da morte.
Perde-se no movimento corpo,
Corpo lugar da alegria.


..."É melhor ser alegre que ser triste
A alegria e a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração..." V.M.


Recortes/ sueliaduan "Um pensar em: Deleuze e Vinícius"

sábado, 30 de janeiro de 2010

"Ser o que sê é...


Essa clareza que me chega, lentamente, chega com a noite à lua já alta, traz consigo o cheiro da terra molhada, de flores minúsculas, de ervas do campo, de girassóis distantes, de sons e silêncios.
Mostra-me a vida que palpita no mundo e também no coração dos homens. Um saber que alegra meu corpo toca no profundo de mim, e diz, que não é preciso sorrir o sorriso falso, alardear aventuras inexistentes, e ser o que não se é.
Essa clareza, senhora de si, tem no viver reminiscências das conversas que o dia ouve e produz, dos livros lidos no cansaço dos olhos, das palavras soltas gravadas na memória, e a indiferença aos que sonham sonhos alheios.

Porque sabe que é preciso a busca, seja de uma paisagem, de uma flor, de uma idéia, de um homem ou de uma mulher.
Essa luz, esse saber, fez morada no meu peito, dorme e se levanta comigo e, feito o poeta, me diz bem baixinho:


“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"Do tamanho da paz..."



No vale, Vale  da Ribeira.
caminhado entre pedras e trilhas
O som e o silêncio.
 ser  e estar
 lá? aqui?
verde chão.
movimento/asfalto
Um dia ainda volto!
Do tamanho da paz

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Era noite em mim.


Um homem passou ao meu lado
na noite barulhenta.
Era noite em Londres, em Madagascar,
na América.
Era noite em mim.
Era encontro um quase esbarrão


era o choque
era o não romântico
era antes a crispação
de um desejo súbito.
Imperioso


Era o instantâneo erótico,
era o talvez nunca.
Para onde iria fugidia beleza
Daquele olhar que me fez renascer?
Ousada toca de olhares anônimos.


Transitoriedade
cidade
noite.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Uma plenitude mais acabada...

                                           
Nos Cadernos íntimos dos últimos anos, Lou Andreas-Salomé dá um balanço de sua vida. Em fevereiro de 1934, isto é, três anos antes de morrer, ela escreve:

"Distingue-se entre os humanos aqueles que se sentem divididos em um passado e um futuro e aqueles que vivem o presente com cada vez mais densidade, sempre mais plenitude. Os orientais acham natural insistir menos sobre a morte do que se passa do que sobre a perfeição do que se acaba, como aprofundamento da realidade. Nós, ao contrário, começamos a ver aquilo que nos chega, apenas sob o aspecto sempre mais sinistro da morte - como tudo o que se observa de um olhar exterior, logo mortífero."

E um pouco mais adiante:

"Sempre não tive a idéia fixa de que a velhice me traria muito? Em meus jovens anos escrevi em algum lugar: primeiro nós vivemos nossa juventude, em seguida nossa juventude vive em nós. Não sei bem, ainda hoje, o que eu queria dizer com isso outrora. Mas eu tinha realmente medo de não atingir a idade de viver esta experiência; eu o sabia profundamente, uma longa vida, com todas as suas dores, vale ser vivida,. Claro, o valor da vida pode nos ficar escondido pelos desgastes sofridos pela nossa carne, nosso espírito (...) do mesmo modo que a juventude mais empreendedora pode se ver entravada em sua felicidade e em seu sucesso, por um fatal concurso de circunstâncias; mas, por além das perdas, a velhice adquire muito mais que a famosa aptidão à serenidade e à lucidez: ela permite que se chegue a uma plenitude mais acabada."

A velhice pode ser, assim, uma volta àquela espécie de paz inicial e retorno do indivíduo a um estado de não-divisão, de fusão primitiva do eu para consigo mesmo, o corpo parece se acalmar relativizando-se; ...
Num ensaio de 1901, escrito aos 40 anos e intitulado A velhice e a eternidade, Lou afirmava: "O velho está liberto de todos os seus limites pessoais e escrúpulos mesquinhos. Retirado lentamente da vizinhança imediata dos outros seres vivos, ele se vê, progressivamente, reintroduzido no grande encadeamento universal".

É preciso amar a vida em todas as suas fases e amar até mesmo a morte.
Aqui Eros e Thanatos se dão as mãos - são forças complementares e não contrárias.


Do Livro: Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia de Letras, 1987.


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

“Uma prática de paixão”


Lou Salomé: uma prática de paixão; alguém que viveu a paixão com paixão, e talvez por isso mesmo provocou, até uma idade avançada, o nascimento da paixão nos seres que encontrou em seu caminho: Rilke, Nietzsche, Paul Rée, Tausk e, ao que parece, até mesmo Wagner sucumbiram ao seu encanto e à alegria de viver que transpirava em cada um de seus gestos - e o próprio Freud não parece ter sido indiferente à graça da discípula que ele qualificou de "raio de sol”.

A paixão de Lou pela vida transparecia em seu próprio físico. Freud lhe escreveu um dia: "você tem um olhar como se fosse Natal". E a escritora Helena Klinkberg (citado por Peters): "O sol se levantava quando Lou entrava numa sala". Era um ser luminoso, transparente e lúcido, daquela lucidez talvez de que fala João Cabral de Melo Neto a respeito de Monsieur Teste: "uma lucidez que tudo via, como se à luz ou de dia". Um ser humano para quem a felicidade é condição natural e destino do homem: "dentro da felicidade eu estou em casa". E ainda: "A única perfeição é a alegria".

Essa paixão pela vida, ela a transmitia aos outros, fazendo com que as pessoas ao seu contato desenvolvessem e dessem o melhor delas próprias. O que fez alguém escrever: "Quando Lou se interessa apaixonadamente por um homem, nove meses depois este homem dá à luz um livro”. Um interesse pelo outro que o leva a crescer e produzir - mesmo quando esse crescimento e essa produção implicam o sofrimento.

Pois Lou Andreas-Salomé conseguiu realizar, em seus 76 anos de vida, o que nós todos gostaríamos e deveríamos fazer sempre - e não o fazemos por descaso, indolência, medo: tornar a vida o exercício apaixonada de uma busca. Sua exploração em todos os possíveis. Isto que requer a fruição intensa e incessante de coisas e pessoas que nos cercam, de modo que o mundo exterior em nós penetre e a nós se incorpore. Pois a vida, como o dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, "está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso".

Antes mesmo do seu encontro com Rilke, Louise von Salomé já intuía essa verdade: desde muito cedo encontramos nela um grande apetite de aprender e de amar - e o objeto de sua atenção podia ser a psicanálise, a curtição de uma paisagem, de uma flor, de um esquilo na floresta ou de um corpo amado.

Do Livro: Os Sentidos da Paixão. Ed. (Cia de Letras, 1987, págs. 359-373).

sábado, 16 de janeiro de 2010

..."Nos enche a alma inteira... "


O ato amoroso "nos enche a alma inteira (...) de ilusões e de idealizações espirituais, forçando-nos o mesmo tempo a nos chocar brutalmente, sem possibilidade de se esquivar,
ao dispensador de uma tal desordem; ao corpo".

E Lou escreve:
"Pois, sobretudo, resulta no indivíduo uma espécie de interação ébria e exuberante das mais altas energias criadoras do seu corpo e a exaltação mais alta da alma. Enquanto nossa consciência se interessa vagamente, habitualmente, por nossa vida psíquica, como por um mundo que conhecemos mal e que controlamos ainda pior, que ao que parece forma um com ela, mas com o qual normalmente ela se entende mal - eis que se produz subitamente entre eles uma tal comunhão de enervação que todos os seus desejos, todas as suas aspirações se inflamam ao mesmo tempo."

E Lou escreve:
No dia em que eu estiver no meu leito de morte
Faísca que se apagou -,
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra,
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua [Hino à morte]

LOU ANDREAS -SALOMÉ: A PAIXÃO VIVA (Do Livro: Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia. de Letras, 1987, págs. 359

domingo, 10 de janeiro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu...


Sempre que estivesse feliz com algum acontecimento deveria dar pulos de alegria, que isso é muito bom, tanto para o corpo, como para mente. Esse meu amigo, cá entre nós, é envolvido com uma teoria bastante exótica, a teoria do “pule e flua”, apesar de gostar muito dele, não consigo me imaginar praticando esses ditos pulos e muitos menos essa coisa de fluir, seja lá o que isso quer dizer. Mas, por outro lado, em meus momentos de conquistas e de grandes alegrias, criei a minha própria teoria: o grito de iupiiiii, com no máximo cinco “is” finais, que o som é fundamental, além de ser, por excelência, um mantra.
Concordo que essa minha teoria não tem nada de original, mas funciona bem, pelo menos a mim, apesar de que em alguns momentos muita gente se assustou.
Um outro amigo disse que essa coisa da gente assustar as pessoas é relativa, como se existisse alguma coisa que não fosse. Enfim, me explicou que há pessoas que ficam impressionadas com a nossa maneira de olhar. Será que ele pensa que há uma só maneira de olhar. E de qual olhar ele estava falando? Enfim, não compreendi seus argumentos e foi uma conversa longa a nossa. Eu tentando mostrar-lhe que o olhar está além do ver simplesmente. Os muitos olhares da  nossa existência .. .O olhar na ótica antiga... Descartes e o olho da razão... O olhar de Narciso... O espelho e eu, (nós) de nada adiantou. Estava irredutível e dizia: objetos são objetos. Apesar de gostar muito dele, acho-o muito prático.
Já um outro amigo, desses que a gente de vez em quando tem que dar uns puxões, senão levita de tanta leveza em olhar o mundo, disse que olhar é sempre uma descoberta. O que seria a manhã, o amanhecer, o dia, e o entardecer, e a noite? A construção do mundo humano deve muito ao fato de que o homem vê a realidade, de que ele apreende a realidade principalmente pelo olhar.
Não foi preciso falar nada, nossa compreensão se deu pelo brilho do nosso olhar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Encontrei a padroeira, a "Pietà" de Michelangelo"


Sobre a morte e o morrer
O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define?

Rubem Alves

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...” Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...” Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza. Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?" Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética. Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama-de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final. ir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais? Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia. Mitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03.
Título da postagem-sueliaduan

sábado, 2 de janeiro de 2010

O Prazer de Ler: Sobre Leitura e Burrice


Ler pode ser uma fonte de inteligência. Freqüentemente é uma fonte de emburrecimento. Muitas, pessoas, inteligentes por nascimento, ficaram burras por excesso de leitura. Essa afirmação contraria aquilo que os professores dizem e fazem. Eles acreditam que livros, quanto mais, melhor. E a partir desse princípio, emprestado por analogia da antiga etiqueta culinária mineira, obrigam os seus alunos a ler lista infindáveis de livros - provas da seriedade de seu saber e do rigor de seus cursos: Na antiga culinária mineira era assim: vinha a dona da casa e enchia o prato da gente - e a gente comia com prazer. Aí, quando o prato estava raspado e limpo, a gente feliz com a barriga cheia, vinha ela com outra concha cheia e, sem pedir licença, reenchia o prato vazio que a gente era obrigado a comer. Essa prática se baseava em duas pressuposições. A primeira dizia que os estômagos são muito maiores do que parecem. A Segunda dizia que as pessoas sempre querem comer mais, e não o fazem por acanhamento. "Livros, quanto mais, melhor" é tão verdadeiro quanto "comida, quanto mais, melhor".
Nietzsche disse que leva muito tempo para a gente ter coragem de dizer o que sabe. Faz muito tempo que sei que o excesso de leitura faz mal para a inteligência, mas nunca me atrevi a dizê-lo. Tinha medo de ser condenado à fogueira. A coragem me veio quando descobri um aliado: um livrinho muito pequeno - pode ser lido em meia hora -, Sobre livros e leitura. Autor: Arthur Schopenhauer. Como ninguém se atreverá a acusar o filósofo inimigo da leitura e do pensamento, transcrevo o que ele escreveu: "Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental. Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios". Em outras palavras: ler é um exercício de alienação. Alienação é a palavra que os ativistas políticos de eras passadas cobriram de excrementos. Nome feio e malcheiroso. Foi identificada com um estado no qual a pessoa não tem consciência do que está acontecendo no mundo em que vive, o oposto da tão louvada "consciência crítica", expressão obrigatória em todo o documento sobre educação. A palavra vem do latim, alius, "outro". O alienado é uma pessoa que está fora de si, caminha num mundo que não é o seu; é de outro. Para ler é preciso fazer "parar meu mundo". Se o mundo que me é próprio não for "desligado", não poderei entrar no mundo que se encontra no livro. Abro o livro. Desligo meu mundo. Começo a leitura. Entro num mundo que não é meu; é de outro. A alienação é uma das fontes do prazer da leitura. Por meio dela sou capaz, ainda que por um curto espaço de tempo, de sair de minha realidade e viver a realidade do outro. Ainda ontem, relendo a parte final do livro Zorba, comecei a chorar. O feitiço da leitura faz com que eu me esqueça de meu mundo e me transporte para o lado de Zorba. Esse exercício voluntário de alienação é parte da boa saúde mental, e quem não consegue fazê-lo é porque está meio enlouquecido. Mas aquilo que é remédio, no varejo, vira veneno, no atacado. Schopenhauer continua: " Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria. Porque quanto mais lemos menos rastro deixa no espírito o que lemos: é como um quadro negro, no qual muitas coisas foram escritas, uma sobre as outras. Assim, não se chega à ruminação: é só com ela que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma como a comida não nos nutre pelo comer mas pela digestão". Ele continua: "É por isso que, no que se refere as nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante". Por vezes, ao ver as listas de livros indigestos e sem sabor que os professores obrigam seus alunos a ler, tenho visões infernais de um buffet imenso, centenas de pratos - que os alunos são obrigados a comer (digerir e assimilar é outra coisa. Via de regra a refeição acadêmica termina em vômito ou diarréia. O engolido é esquecido). “Esse é o caso de muitos eruditos: leram até ficarem estúpidos”. “Porque a leitura continua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto nos próprios pensamentos”. Nietzsche pensava o mesmo. Eis o que ele disse no Ecce Homo: "Os eruditos, que hoje nada mais fazem que dedar livros (ir virando as páginas com o dedo), acabam por perder inteiramente a capacidade de pensar por eles mesmos. Enquanto vão lendo não pensam. Os eruditos gastam todas as suas energias dizendo Sim e Não na crítica daquilo que outros pensaram - eles mesmos não têm mais a capacidade de pensar. Vi com meus próprios olhos: pessoas bem-dotadas e com liberdade de espírito que, aos trinta anos, já haviam lido a ponto de se arruinar..." É um equívoco imaginar que a quantidade de livros lidos desenvolve a capacidade de pensar. Comida ingerida em grande quantidade prova perturbações digestivas ou obesidade. Eruditos, com freqüência, são obesos de espírito. Livros lidos em grande quantidade provocam perturbações no pensamento. Borges, numa conferência sobre "O livro", cita Sêneca, quem censura o dono de uma biblioteca de cem livros. "Quem", ele pergunta, "é capaz de ler cem livros?" Nietzsche, no mesmo espírito, diz que ele se contentava em ler poucos livros. E acrescenta: "Uma sala de leitura (salas enormes, nas bibliotecas, onde se vai ler) me deixa doente".Pelo que conheço das práticas escolares, esse é o resultado das leituras,nas escolas. Os alunos aprendem que as coisas importantes estão escritas em livros, e com isso eles são desencorajados de pensar seus próprios pensamentos. Pesquisar é fazer resumos dos artigos da Barsa. Num trabalho acadêmico, tudo o que o aluno diz tem de ser confirmado por aquilo que outro disse num livro – um nome e uma data entre parênteses. Os alunos terminam por pensar que a educação é parar de pensar seus próprios pensamentos e pensar os pensamentos de outros - pelos quais eles não têm o menor interesse. Valendo-me das metáforas culinárias, atrevo-me a dizer, com freqüência, as chamadas avaliações escolares (as provinhas) são ocasiões pós-refeição em que provocam vômitos intelectuais nos alunos, para verificar se o vomitado é idêntico ao que foi engolido. Eu me alimento de alguns livros diariamente: eles podem ser maravilhosos. Mas é preciso que sejam comidos com prazer para fazer bem à inteligência. E note que "prazer" não quer dizer "facilidade". Existe um prazer imenso em escalar uma montanha... Livros comidos com prazer são livros a serem ruminados pelo resto da vida. Livros não-ruminados são livros esquecidos. Não entraram no sangue, não viraram carne. Mas ruminação é virtude que se deve aprender com as vacas. Rumina-se num tempo de vagabundagem, de paciência e pachorra, tempo quando não se pasta. Mas essas são virtudes que os educadores não conseguiram incluir em suas pedagogias e psicologias.

Texto extraído do livro "Entre a Ciência e a Sapiência: O Dilema da Educação", de Rubem Alves, Ed. Loyola.