Não devia ficar preocupada com tantas coisas, não. Que tudo é muito passageiro, que quando menos se espera, cada coisa toma o seu lugar, que não vale a pena todo o desgaste e blábláblá. Mas, o que sabe ele das coisas com as quais me preocupo? E como assim, tantas coisas? Ele me conhece pouco, muito pouco, mesmo. Sou é muito sossegada, até por demais, água morna dura de ferver, como dizia meu avô. Mas, uma coisa aprendi, temos sempre que escolher. Não tem jeito, não. Ou isto, ou aquilo, rosas ou margaridas, vermelho ou azul, como dizia o poeta.
Um outro amigo, desses todo prosa, disse que é exatamente isso mesmo, que só quando decidimos é que respiramos aliviados. E que a palavra já diz tudo. Com um risinho todo maroto, completou: - Veja bem, o caso da palavra preocupação, ou seja, ocupar a mente antes pra quê, entendem?
Como se a gente não entendesse o que acaba de escutar, falei toda cheia de mim. E não entende, não, minha caríssima, disse um outro amigo já puxando a cadeira pronto para argumentar. Como assim, perguntei eu toda curiosa? E ele foi logo respondendo todo satisfeito, feito um professor diante do aluno.
É que as palavras têm muitos sentidos, cada um as interpreta à sua maneira, às vezes, disse ele:- o silêncio é o melhor mensageiro. Nessa hora, como num passe de mágica, ficamos todos numa quietude de dar gosto, prontos para ouvir àquele amigo, que com voz mansa foi logo dizendo: - Difíceis as nossas escolhas e, às vezes, nos sentimos de mãos atadas, a nos perguntar por que não conseguimos decidir: falta-nos coragem, sobra o muito ruminar.
E, ali sentados, totalmente despreocupados, embevecidos diante de tanta sabedoria ouvíamos nosso amigo, esse amante das palavras e do silêncio. Sabedor de que é preciso ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução, a qual ele delicadamente chama de literatura.




























