Deixou claro, feito à lua que iluminava aquelas viagens sem fim, que só é gente àquele que não careça de nada, que a tudo agradece ao nosso senhor Jesus Cristo e na dor enxergue a bondade divina. Sua voz doce ainda é um canto de ninar aos ouvidos da mulher em que hoje me transformei. E trago comigo, como num cofre, cada uma daquelas paradas em que mãe e eu ficávamos a olhar a terra seca, o gado magro, o povo sofrido. Mas eu não queria aquela vida para mim, vida do sertão, doída como gado queimado a ferro, triste como menino sem escola. E diferentemente de mãe eu não acreditava no destino traçado, na sina a cumprir, na cruz a carregar. Sempre acreditei que a escolha se dá à cada passo, à cada manhã, à cada respirar, mas maínha, como eu costumava chamá-la, tinha outra crença. Dessas que fortalece o sujeito que segue sem nada questionar. E assim na primeira oportunidade vim embora. Hoje passado tantos anos a morte de maínha é só um quadro na minha memória, e eu sigo sem questionar.
domingo, 7 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
da série: "Um pouquinho de Teoria Literária”
Estamos vestidos de alfabeto, não sabemos sequer nosso nome.
Murilo Mendes
“A linguagem é dimensão da existência. Em quase todos os pulsares do nosso pensar, revelam-se nomes e verbos. Nossos gestos têm rastros de signos. Ressoam em nós redes de símbolos. Nossos corpos são feitos também com palavras. Os medos, o desejos, as lutas e os amores raramente podem ser separados de nossas vozes. No entanto, como tem estado entre nós, neste século, a relação entre a linguagem e á vida?”. M.Mendes.
Creio que fazemos coisas com as palavras e, também que as palavras fazem coisas conosco
Jorge Larrosa Bondía
“As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente raciocinar ou calcular ou argumentar, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou o sem- sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E portanto, também tem a ver como as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos , diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo isso. Aristóteles definiu o homem como “zôon lógon échon”, a tradução dessa expressão , porém, é muito mais “vivente dotado de palavra” do que “animal dotado de razão”, ou animal racional.
O homem é um vivente com palavra. E isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa, ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem é enquanto palavra, que todo humano tem a ver como a palavra,se dá em palavra, está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é homem, se dá na palavra e com a palavra. J.L.Bondía
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
da série: Tenho um amigo que disse que eu:
Bem, que eu deveria mesmo me conformar, aceitar e pronto. Eu, na hora, quase que concordo. Sabe aqueles momentos em que sentimos não valer a pena travar uma discussão, que não vai acrescentar nada, pois então. Ele percebeu minha quietude e foi logo mudando a prosa. Até gostei. Amigo tem mesmo é que conhecer o momento do outro, respeitar, pisar leve, falar manso, ou calar.
Já um outro amigo desses que nunca estão em silêncio foi logo falando: é isso mesmo aceite não há coisa melhor coisa para se fazer, não. E ainda acrescentou: “o que não tem remédio, remediado está”. Eu dei aquele meu sorrisinho de lado que nem chega a ser um sorriso é um leve mover de lábios de quem não concorda com o dito. É que tenho minhas dúvidas quanto à eficácia desses e tantos outros provérbios. Ele, como o outro, também percebeu meu espanto diante da sua colocação e foi logo tratando de deixar o ambiente. Não era para tanto, amigo tem mesmo é que sentir-se à vontade, viver a alegria da companhia, e ser uma festa só.
Já um outro amigo, sabedor das coisas da boa amizade, com seu olhar doce e um sorriso iluminado calmamente disse: os tempos são outros mesmo, minha cara, e não se trata de aceitar, não. É preciso coragem pra não permitir o mau uso da palavra, e com seu jeito leve de brincar completou: há porta e portinhola; gaiola e gaiolinha todas se abrem para algum lugar, mas os espaços são outros. Vôos e caminhos. E não está certo o mesmo nomear para tantas coisas que há. Há árvores e plantas; planaltos e planícies; vales e morros; musica e letra, projetos e planos. Cada coisa é uma coisa. Fazes é muito bem em não aceitar.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Realidade Travestida
Naquela tarde Eleonora fechou portas e janelas, desceu vagarosamente as escadas, olhou o pátio lá embaixo sentiu o aroma das flores e deixou-se ficar escondida atrás do alpendre. Não queria visitas. Não queria falar, responder, sorrir. Nada. Apenas ficar só. Reorganizar as idéias e decidir-se. Escolher. Dispensou os empregados e certificou-se com a cozinheira. Fome não estava em seus planos. Ordenou-lhe que fizesse algo especial, leve, frugal. Deu-lhe a chave da adega. Queria um bom vinho. E quando finalmente sentiu-se só, pegou da taça, sentiu a doce umidade do vinho em seus lábios e o prazer que isso lhe proporcionava. Era bom estar ali saber-se dona de toda aquela terra. Com o corpo e a mente mais leve pelo vinho deixou-se levar pelas recordações que foram naturalmente surgindo. Primeiro alguns lances da infância depois a juventude junto aos primos, os risos, os desejos, as insinuações e as festas noite adentro. O pai sempre austero, a mãe com aquele olhar sonso, agudo e finalmente seu casamento com Heitor. Derrepente um vento forte e uma janela que se abre o som dos carros, o movimento dos transeuntes, as conversas entrecortadas., os risos, os encontros, o ir e vir. A vida que corre lá fora pulsante, real. E , ela, ali, presa em seu minúsculo apartamento. No escuro de si, no vazio que construiu, enganando-se dia após dia, noite após noite. Por quê? Para que? Ficção travestida de realidade Eleonora a personagem criada, a propriedade que nunca teve a infância que sempre quis o pai que nunca conheceu e as festas que não viveu. Desejo e imaginação. Levanta-se lentamente e com toda força joga a taça de vinho. Cacos de uma vida inexistente.
domingo, 17 de outubro de 2010
"Olhar o mundo e olhar a si"
Jose Angelo Gaiarsa -1920 -2010-
psiquiatra brasileiro.
maravilhosos livros publicados
destaco:
Couraça Muscular do Caráter
O que é Corpo?
O Olhar
Sexo, Reich e Eu
A Inconsciência Coletiva
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
De beleza e partituras, ser professor.
Como disse Rita Lee, toda mulher é meio Leila Diniz. Sinto que a expressão pode ser estendida à questão da arte, do aprender e do ensinar , respeitando as devidas proporções, toda mulher, todo homem é “meio” Paulo Freire, o grande mestre. O tempo todo aprendemos com o outro e o ensinamos numa troca maravilhosa, a qual, Freire nomeou de a "Roda do saber".
Mas, não podemos esquecer de forma alguma que ser professor é uma profissão, e como toda profissão exige dedicação, conhecimento e acima de tudo paixão, uma imensa paixão. Ou, como disse o mestre Rubem Alves:
"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes"
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Nenhuma palavra dita
Saciada a sua ira e satisfeito o seu ódio Beatriz observava seus pés nos degraus. A chuva doce e mansa caia devagar seus pingos a bater na vidraça. A mudança de humor, os passos na escada, a observância desses pés e os movimentos de seu corpo era tudo o que possuía. Queria mais. A vida lhe negou ou ela não soube escolher. Já não sabia e isso era o que mais pesava o descobrir-se perdida, sem forças para a luta e amarga em seu viver. Figura carismática, boca carnuda, roupas claras e de chapéu Firmina esperava-a de braços abertos. Esse fato também pesava. A generosidade de Firmina, sua alegria contagiante, seu ser singular e exótico. Parada na ponta da escada com o luar a iluminar-lhe o semblante sorria. Um sorriso de boneca ou da boca que se alarga e toma conta do rosto inteiro. Beatriz nunca descobriu. A bem da verdade chegou a pensar que não era nenhum nem outro. Era só mesmo o brilho que Firmina possuía e que tanto a incomodava. Tornaram-se inimigas sem nenhuma palavra dita. E por mais que Firmina buscasse uma aproximação tudo era frio e distante. Com o tempo desistiu. E agora ali na sua frente depois de tantos anos Beatriz dissimulava todo o seu rancor, fingia uma vida que não teve e tagarelava coisas e fatos inexistentes. Firmina ouvia calada o relato da amiga, relembrava outros tempos , momentos da infância quando ambas rindo corriam para a praça ver o teatro chegar. Eram noites de muita alegria quando assistiam ao espetáculo. Beatriz vibrava com a bailarina, com seus sapatos prateados o corpo a girar, girar lentamente. Mas tudo também se transformou lentamente. Em que momento Beatriz ficou assim? Qual acontecimento desencadeou esse sentir, ou melhor, esse não sentir? Impossível sabê-lo.
Apenas que Beatriz é nada. É um corpo adormecido. Já não sorri, não vibra com bailarinas, danças, sapatos prateados. Agora tudo o que precisa é do brilho do olhar de Firmina.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
"Um "pouquinho" de Teoria Literária"
“O homem é o ser que se criou ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo.”
Octávio Paz.
Uma das maiores crises de nosso tempo é a crise da linguagem. A perda da palavra, a perda da expressão própria, a perda da comunicação autêntica, a perda de uma linguagem pessoa e criadora. Essa é uma das mais profundas desfigurações da segunda metade do século XX. E um dos maiores paradoxos da nossa era: vivemos cercados de sistemas de comunicação, temos os maiores e mais complexos instrumentais da comunicação e toda a história, e ao mesmo tempo, nunca tivemos tão pouco a palavra própria, a expressão pessoal, uma linguagem que expressasse e encarnasse nossa identidade pessoal, uma comunicação verdadeira em que mutuamente nos reconhecêssemos. A perda da palavra. A morte da linguagem. As falas cada vez mais neutralizadas. Uniformizadas, Cada vez mais insignificantes. Estereotipadas. Reduzidas ao informe homogêneo. Cada vez mais sem voz, o homem contemporâneo tem dissolvida sua linguagem e sua identidade pessoal e pública. A inconsistência da linguagem, das imagens, da história , da vida.
Penso em Ítalo Calvino
“Ás vezes me parece que uma epidemia pestilenta tenha atingido a humanidade inteira em sua faculdade mais característica, ou seja, no uso da palavra, consistindo essa peste da linguagem uma perda de força cognoscitiva e de imediaticidade, como um automatismo que tendesse a nivelar a expressão em fórmulas mais genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados, a embotar os pontos expressivos, a extinguir toda centelha que crepite no encontro das palavras com novas circunstâncias. O vírus ataca a vida das pessoas e a história das nações, torna todas as histórias uniformes, fortuitas, confusas, sem princípio nem fim. Meu mal-estar advém da perda da forma que constato na vida, à qual procuro opor a única defesa que consigo imaginar-uma idéia de literatura”. Ítalo Calvino
É preciso redescobrir e revivificar a linguagem. Renascer a linguagem significa também renascer a dimensão que se revela ao mesmo tempo raiz e utopia das palavras, e que tem tido imemorialmente – o nome de poesia.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
"A surpresa do ser"
Se a filosofia nunca soube ao certo o que é o ser (a metafísica ocidental só fez oculta-lo ainda mais), em Heidegger ele ressurge iluminado pela linguagem poética. A poesia é a “casa do ser”; só através dela é possível comemorá-lo sem perdê-lo de vista; só ela é capaz de evocá-lo em seu movimento fulgurante. O ser é uma surpresa que os poemas ajudam a vislumbrar. Seis séculos antes de Cristo, a filosofia nasce justamente em confronto com a poesia (e seus mitos), que antes de emancipar-se como forma autônoma destinava-se à revelação do sagrado. A idéia heideggeriana de que a poesia nos lembra o ser encontra-se em sua “Carta sobre o humanismo”, a qual se encerra com estas palavras: “na presente indigência do mundo é necessário: menos filosofia e mais desvelo do pensar, menos literatura e mais cultivo da letra”. Orides Fontela provavelmente pensava nisso quando disse num depoimento: ‘Nossa época é terrível, somos poetas em tempo de desgraça”. Orides se foi. Já não presencia os infortúnios de nosso tempo nem deles participa, mas sua poesia cristalina continua exercendo o “desvelo do pensar” e o “cultivo da letra”, de que fala Heidegger, provocando o ser à luz da linguagem. Aliás, do que mais se ocupam seus poemas? Orides fontela, como Paul Celan, é daqueles artífices que clareiam o ser ao mesmo tempo em que propõem uma indagação essencial sobre o ser da própria poesia. Ler sua obra é constatar que o ser em geral, no sentido heideggeriano, questão sempre aberta, e o ser lucífugo da poesia têm idêntica irradiação. Ambos podem nomear-se como aquilo que não se sabe ao certo o que é, mas que se deixa perceber no mesmo instante em que se furta como pedra filosofal da leitura. “Natureza ama ocultar-se”, conforme o célebre fragmento de Heráclito.
Referências bibliográficas:
BORGES, Contador. A surpresa do ser. In Revista Cult/novembro 1999.
FONTELA, Orides. Poesia Reunida [1969-1996] São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
"Dãodão e Zé pelonga"
Voltou para casa no finalzinho da tarde, já escuro. Entrou pela porta dos fundos, bem devagarinho, com cautela. Não queria que mãe o visse. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Choro baixinho, soluço seco, engolido. Como doía, vergonha e tristeza. O calção todo sujo de barro, camiseta manchada, as vozes em sua mente, os xingamentos ganhando força na medida em que revia cada cena. Quando querem meninos são cruéis. Menino franzino, solitário, Dãodão ia passando em revista cada ato falho, cada oportunidade perdida. Sabia dos erros cometidos. Evitá-los. De que jeito? Nessas horas só uma imagem apaziguava seu coração, a figura do avô sentado em sua cadeira de balanço, pra frente, pra trás, num ritmo suave, a conversa mansa. Vô era amoroso, homem bom, sempre pronto a escutar, a contar estórias. Falava da vida difícil de menino, de gente grande sempre pronta a interromper brincadeiras tão sérias, a dar ordens sem precisão. Gente esquisita. Na época do plantio, meninos e meninas corriam cantando em meio ao campo. Só paravam mesmo no momento de colocar a semente na terra, tudo feito como numa festa. Um ritual quase religioso, não fosse a safadagem ao olhar as meninas, feito bicho cobiçando preza. Dãodão achava tudo tão natural. Vô abençoava a todos antes do plantio, seus olhos claros transmitiam tanta certeza, como se o fruto já estivesse ali. Mãe não. Mulher sofrida, só sabia obedecer ao pai, fazer tudo com presa, com medo. E pai só fazia ralhar. Dãodão gostava mesmo é de escutar o vô. Ria muito com as estórias que ele contava. Tinha a do Tibúrcio, que levara uma baita surra quando o pai o pegou escondidinho espionando Carmela se despir. Linda como a luz da lua. E vô dizia: -Qué coisa mai bunita qui vê muiê tirano ropa. Bem devagarzinho, o saiote iscurregando, as anca balançando, i a gente ficano loco. Dãodão ria, e vô falava: -Ri não muleque, muiê é coisa séria, é danação. Danação mesmo era o que Dãodão sentia agora, ali sozinho, sem a presença alegre do avô, sem suas estórias, sem seus conselhos. Tinha certeza que só vô iria acreditar que ele fez de tudo, correu, até driblou, mas não conseguiu. Mas vô tinha morrido, ou como dizia Tibéria: -Morreu não, ficou encantado lá no milharal. Dãodão não tinha medo. Medo mesmo, tinha do pai gritando todo dia: -Vai, treiná minino. Jogá bola, sê jogado, ficá rico, i imbora do Cariri. Fica aí falano suzinho, parece reza de nêga. E não é que era mesmo, quase uma oração, uma ladainha. Mal rompia a manhã, Dãodão abria a janela, e junto com o vento fresquinho elas chegavam. Como uma bola que um jogador passa ao outro, as palavras vinham rolando. E Dãodão lembrava-se novamente do avô, de sua voz rouca: -Dão, vem qui minino. Dão, vem. Vou ti insina fazê uma coisa linda que gira, gira como tudo nesse mundão. E naqueles fins de tarde sentados na varanda, ele e vô pegavam revistas, pauzinhos e o brinquedo ia surgindo. Dão, é ansim: ocê tira as foia da revista, enrola bem enroladinho, fica qui nem um canudinho. Faiz um montão, i dispôis vai culando nos pauzinho, dai sua peorra tá pronta. I é só rodá no chão. Ela roda, roda até cair. Dão olhava as revistas com seus olhos curiosos, olhava o formato de cada palavra e gostava do que via. Seus olhos brilhavam. Vô, homem sempre atento a tudo dizia: -Si preocupa não Dão. Um dia ocê vai pra escola e aprende as palavra, qui são bela cumo muiê. Cheia de força e mistério, iguar elas. Óia essa: “coração”, qui palavra qui faiz a gente pensa! Óie outra, que belezura: “pé”. I essa intão: “mão”. São tantas,qui enche essa vida doída da gente e dão uma alegria. Foi tomado por essa alegria sem explicação que Dãodão sentiu uma coisa esquentar dentro dele, bulir com ele. A lembrança da peorra, as palavras do vô ganhando força tomaram conta de seu corpo, franzino, e ele sentiu-se como um gigante. Tomado por esse mistério enxugou os olhos, abriu o guarda-roupa. De soslaio viu a peorra guardada. Pegou uma camisa limpinha, trocou o calção sujo de barro, as mãos já seguravam a bola. Abriu a porta do quarto e correu, correu, correu. Só parou quando chegou ao campinho. Os meninos a olharem para ele. Zé Pelonga com um sorriso maroto. A desforra chegara. Dãodão colocou a bola no chão, deu o primeiro chute, a partida recomeçava. Foi uma passa-passa, um corre-corre, olho no olho. O amigo Zé Pelonga fez o passe. De frente pro gol, Dãodão chutou. A bola entrou lentamente, girando, girando: Goooooooooooool. Golaaaaaaaaço.Uma mistura de alegria e tristeza naquele fim de tarde. Vô tinha razão, as palavras têm força e mistério. E tudo gira no mundo .Foi de goleada, vô.
sábado, 18 de setembro de 2010
Seria uma Ópera.
Eu poderia tecer longos comentários sobre sua figura, a começar pelo seu porte perfeito, músculos definidos e belos, andar altivo, passos firmes sobre a rua pedregosa. Depois, lentamente, me deleitar observando a textura da sua pele, ou ainda rir das suas mãos soltas a tremer de frio, naquela tarde de julho.
Poderia falar sem nenhuma dificuldade do seu olhar límpido e sereno a transmitir uma infinita ternura, e do perfume que exalava de seus cabelos caídos sobre os ombros. Da sua alegria ao escutar as maritacas naquele fim de tarde, ou ainda do seu sorriso largo ao olhar no céu o barrilete, que o menino alegremente empinava. Essas e outras tantas coisas poderia eu falar, mas nenhuma palavra, nenhum verso, nenhuma poesia seriam suficientes para descrever tua figura infinitamente amada. E se eu tivesse o dom da musica, tua figura serviria tão somente de ponto de partida.
E se eu me dispusesse a cantar, tua figura seria uma ópera a preencher a minha vida.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
da série: Tenho um amigo que disse que eu:
Preciso modificar alguns hábitos, ou melhor, arrancar todos eles, os quais delicadamente nomeou de síndrome “habimort”, ou seja, “hábitos que matam”. Foi como me explicou e segundo ele, para o meu próprio crescimento interior. Fiquei ali parada sem saber se ria ou chorava em ver o seu empenho em me convencer. Não que eu não busque mudanças. Sei que são saudáveis. Mas as coisas não são tão simples assim. É depois todos temos hábitos. Como dizia minha sábia, avó: — Tem coisa mio di bão não, bicho di custume.
Já um outro amigo diz que não tem jeito mesmo, quando arrancamos um hábito outro devagarzinho vai se formando, e que temos que estar alertas o tempo todo. Ruminando essas idéias fico a pensar: — mais pra que mudar se logo outro vai se enraizar. O jeito, então, é ficar com o velho que, pelo menos, já conheço.
Aí um outro amigo não agüentou e disse que não é nada disso que essa coisa tão simples, mesmice, nos incomoda muito, nos deixa amargurados. E é preciso extirpá-la com um método que ele nomeou de “ou vai ou racha”. E consiste em todo dia ter algo novo para fazer. Como, por exemplo, inventar uma receita de bolo que não precise ir ao forno ou um bordado que não use linhas ou uma visita a alguém que não se conhece ou... Arregalei uns olhos dado ao inusitado da situação que ele pediu desculpas e disse que nossa conversa era um hábito que precisava extirpar. Cada um, um: — pensei. Mas é bom amigo. Fiquei sabendo que logo vai receber alta ou vai ou racha, maldade minha esse pensamento. Fazer o quê e a força do hábito.
Eu já estava quase desistindo de querer entender quando apareceu meu velho amigo, amigo maior, desses que ficam enraizados no nosso coração. E ele disse, daquele seu jeito habitual de dizer as coisas: — que quando menos se espera, quando a hora chega e o nosso coração transborda ,ele, sabe que precisa de novas aventuras, novas vivências. E o que é velho, o que fica ali nos incomodando e nos tornando amargurados vai embora como num passe de mágica. Não deu nem tempo de arregalar meus olhos. E, ele já veio logo se explicando, conhecedor de meus pequenos hábitos, mas que essa mágica é a gente mesmo quem faz. E é muito simples não precisa de método, nem nomes, nem nada.
Só é preciso aprender a olhar para dentro de si. E escolher a cada dia o que se quer, como se quer, para que se quer, e permitir-se o espanto consigo e com o outro.
sábado, 11 de setembro de 2010
"O desejo de liberdade"
Carta enviada ao SATED -SP. Sábado, 29 de agosto de 2010.
AO
SATED -SP
ATT: Diretoria,
Acredito no sindicato e na força e poder político que ele tem em prol da classe por ele representada. E também defendo a regularização da profissão, pois só vejo vantagens e benefícios nela. Mas também acredito nas soluções negociadas. No ocorrido em relação ao festival de teatro de Sorocaba, havia uma negociação sendo mediada entre nossa representação local e um membro da diretoria da ATS sobre a questão da regularização dos participantes e embora com objeções estava caminhando a contento. Com a intervenção do SATED-SP as coisas acabaram tomando o rumo que tomou e o conseqüente cancelamento do festival pela prefeitura.
Eu contava poder participar do Festival com o espetáculo O Ébrio e já estava com tudo pronto, faltando apenas duas Autorizações de Trabalho já em andamento. Foi frustrante não realizar essa apresentação. Sobretudo ouvir as opiniões da Ângela Barros (jurada e amiga antiga) Penso que nossa intervenção deva ser sempre fomentadora. Isso me faz lembrar Cacilda Becker como presidente do Sindicato dos Artistas abrindo teatros fechados pela policia militar, ou Lélia Abramo sempre mais à esquerda e usando essa força política em prol da classe. Como disse no discurso de posse na Câmara de Sorocaba em março. Acredito, repito na profissionalização e nos benefícios que ela engloba. Mas se a classe não quer, fazer o que? Paciência. Não vou impor a profissionalização à fórceps, ou como dizia Figueiredo: Vou fazer a democracia, nem que para isso eu tenha que prender e arrebentar” Conheci pessoas muito boas e muito bem intencionadas nessa curta aventura sindical. Berta Zemmel, que prazer ouvi-la e só nela já vão mais de 50 anos de teatro.Celso Curi, que maravilha foi revê-lo no sindicato. E embora agindo com amparo da lei se estabeleceu aqui nesse episódio o mesmo conflito que Sófocles tão bem expõe em Antígone. Há uma lei que foi descumprida por Antígone, mas até que ponto essa lei é justa. A tragédia Antígone discute o conflito entre o Direito Natural – o Direito considerado pelos antigos como sendo de origem divina e aceito ipso facto como costumeiro – e o Direito que toma forma jurídica nas leis estabelecidas pelo governante, tradicionalmente denominado Direito Positivo. Houve nessa questão do festival o mesmo conflito entre Direito Positivo – a lei e o direito natural de se realizar o festival. Penso que dentro do Sindicato eu poderia fazer mais pela cidade, como foi minha participação na comissão do Proac deste ano, que findou com 4 espetáculos de Sorocaba e talvez ano que vem isso pudesse ser ainda maior. Quiçá dobrar esse número, porque não? Enfim, acabou. Acredito que talvez isso possa servir para o próprio SATED como auto critica afim de rever alguns procedimentos operacionais mais rígidos e até que ponto eles trazem benefícios ou prejuízo a própria imagem do Sindicato.
Mario Persico- é autor, ator e diretor, e há seis anos coordena o Núcleo de Artes Cênicas da Fundec - Fundação de Desenvolvimento Cultural de Sorocaba, onde também atua como professor desde 2001
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
O desejo de liberdade
Representar é um ato natural
Sonhos não são vendidos no mercado. Representar é um ato de vida. Direitos: ser amador ou ser profissional. Escolha de cada artista.
Saudações culturais.
Myrna Ely Atalla Senise da Silva
ACADEMIA SOROCABANA DE LETRAS Cadeira nº- 3 -Patrono: João Guimarães Rosa
Acadêmica- Myrna Ely Atalla Senise da Silva
terça-feira, 7 de setembro de 2010
"O desejo de liberdade ... ".
Confraria dos Artistas de Sorocaba
Diante de uma terrível tempestade que assola os meios artísticos na atual situação de Sorocaba, com todas suas chuvas de mágoas, ventos de desgosto e trovoadas de ódio, e perante de tais elementos se nos perguntassem quais sentimentos nos dominam neste instante em que acompanhamos estarrecidos esta borrasca, principiado por tal SATED, nós diríamos que são da vergonha e da revolta, e por que não medo, já que toda tempestade trás piores prejuízos. Portanto eu, Santiago Ribeiro, venho por meio desta carta e representando toda a classe dos artistas plásticos de Sorocaba, notificar nosso repúdio e indignação contra esta verdadeira prostituição da arte que infelizmente vem contaminando com a ditadura da censura todos os meios artísticos locais.
Um dia eu aprendi que de ma forma geral, a palavra "liberdade" significa a condição de um indivíduo não ser submetido ao domínio de outro e, por isso, pleno poder sobre si mesmo e sobre seus atos. O desejo de liberdade é um sentimento profundamente arraigado no ser humano. Situações como: a escolha da profissão, o casamento e ter o compromisso político ou religioso, fazem o homem enfrentar a si mesmo e exigem dele uma decisão responsável quanto a seu próprio futuro.....
O Teatro assim como toda arte pictórica, musical e rítmico é a essência vital do oficio da paixão pela liberdade de expressar-se. É o Teatro uma forma de arte cuja especificidade a torna insubstituível como registro, difusão e reflexão do imaginário de um povo.....
A atual política oficial, que rege as manifestações e os profissionais do Teatro, transfere aresponsabilidade do fomento à produção cultural para a iniciativa privada, mascara a omissão que transforma os órgãos públicos em meros intermediários de negócios, e assim vão usurpando valores financeiros à queima-roupa, sob a coivara de ameaças, impondo suas garras sujas ao direito do artista em exercer sua profissão legal. Notamos que a aparente quantidade de eventos faz supor uma efervescência, mas, na verdade, disfarça a miséria dos investimentos culturais de curto e longo prazo que visem à qualidade da produção artística. Hoje, a política oficial deixou a Cultura restrita ao mero comércio das famosas DRTs e entretenimentos de “metsos”. ...
Vergonha! Uma vergonha que um profissional ou amador seja punido por prezar pela sua liberdade de expressão e prime pelo dever cumprido. É uma vergonha que as pessoas sérias sejam afastadas e censuradas. É uma vergonha e uma revolta imaginar um dia que nós dormiremos ao som de aplausos, mas que acordamos no dia seguinte sob o estigma de criminosos e formadores de quadrilha. É uma vergonha que o capitalismo selvagem continue arrebatando nossos artistas e expurgando-lhes a democracia de fato. Vergonha! SATED! Democracia! “Liberdade ao Artista”!...
Santiago Ribeiro
Presidente da Confraria dos Artistas Plásticos de Sorocaba
Optei por postar, aqui, no Blog- TRECHOS DA CARTA -sueliaduan
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Você está em análise?
Você está em análise? Etâ perguntinha difícil de responder; vejamos. Primeiro não, basta você dizer que vai a um psicanalista bem titulado, tantas vezes por semana. O carteiro do analista também vai lá com freqüência e nem por isso está em análise. Ficou conhecida a história de um paciente que após um bom tempo diz a "seu analista" que está chegando ao fim de seu trabalho. Este lhe responde: - "Engano seu, penso que o senhor está prestes a começar". Entrar em análise é mudar de posição subjetiva: a pessoa para de referir suas queixas às cenas atuais de seu cotidiano e passa a se entender em uma "Outra Cena", como dizia Freud. Isso é difícil de conseguir, pois a realidade sempre alivia o comprometimento de cada um em seu mal-estar, razão pela qual muitas pessoas adoram viver um inferno de vida. Se quisermos traduzir em conceito, entrar em análise é sair de uma moral dos costumes e instalar na ética do desejo.
Segundo, há que se conhecer a diferença entre Psicanálise e o mar de psicoterapias que são oferecidas. Se até para o profissional, nem sempre é clara, imagine para o leigo. O termo "Psicanálise" adquiriu certo valor de mercado e acaba sendo o cobertor genérico de corpos disciplinares muito diferentes, o mais das vezes, opostos. Em síntese, praticamente todas as psicoterapias seguem o modelo da ética médica: um se queixa, o outro trata; um não sabe, o outro sabe; um é paciente, o outro é atuante. Arrisquemos uma definição: no fundamento do que se chama Psicanálise está sempre - sim - sempre responsabilizar o sofredor em seu sofrimento. Não culpar, atenção, responsabilizar e de uma responsabilidade muito diferente da responsabilidade jurídica, que se baseia na consciência dos fatos. Seria até engraçado que a prática do inconsciente exigisse a responsabilidade consciente. A responsabilidade em Psicanálise, contrariamente à jurídica, é a responsabilidade frente ao acaso e à surpresa. Não dá para ninguém se safar de uma situação dizendo: - "Ah, só se foi o meu inconsciente", como se ele fosse 'um moleque irresponsável que não tem nada a ver comigo'. A Psicanálise se define por sua ética, como queria Lacan, e a ética da Psicanálise é o avesso da ética médica, por conseguinte, das psicoterapias. Isso não quer dizer que uma coisa seja melhor que a outra, mas que é fundamental reconhecer as diferenças para que haja uma colaboração efetiva entre os campos clínicos e não mútuo borrão, como soe acontecer...."
Artigo, na íntegra, publicado na Revista Psique - número 51
Jorge Forbes: é psicanalista e médico psiquiatra, em São Paulo.
É um dos principais introdutores do pensamento de Jacques Lacan no Brasil, de quem frequentou os seminários em Paris, de 1976 a 1981. Teve participação fundamental na criação da Escola Brasileira de Psicanálise, da qual foi o primeiro diretor-geral.
Preside o IPLA - Instituto da Psicanálise Lacaniana e o Projeto Análise
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Pensamento e Poesia
Heidegger, em sua “Carta sobre o Humanismo” (Questions III), diz que o “homo humanus”, além de ter um meio ambiente, como os demais seres vivos (que nele estão presos), é o único que, em sua humanidade, ex-iste — está exposto à clareira do ser”, livre para ter não um meio ambiente, mas um mundo. A convocação a pensar a Verdade do Ser, que este dirige ao homem, é o que o torna um homo humanus.
O pensamento, portanto, em seu ser verdadeiro, “não é nem teórico nem prático” —, não é nem episteme e techne, nem práxis: "Um tal pensamento não tem resultado. Não produz nenhum efeito. Satisfaz à sua essência no momento que é” O pensamento é, para Heidegger,um fazer. Mas um fazer que ultrapassa de imediato toda práxis. O pensamento é superior a qualquer ação e produção, não pela grandeza do que realiza ou pelos efeitos que produz, mas pela insignificância de sua realização que não tem resultado.
Em seu “Qu’appelle-t-on penser?” (O que se chama pensar?), Martin Heidegger afirma: “ Poesia e Pensamento não se limitam, jamais, a utilizar a linguagem, a pedir sua ajuda para declarar-se, mas Pensamento e Poesia são,em si, o falar inicial, essencial e, consequentemente, ao mesmo tempo, o falar último que a língua fala por intermédio do homem.”
Heloisa Vilhena de Araújo. São Paulo- Mandarin, 2001
Título do post- sueliaduan
Título do post- sueliaduan
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
"A arte de ouvir"
De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: "No princípio era o Verbo". Eu acrescento: "Antes do Verbo era o silêncio." É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio. Veja esse poema de Fernando Pessoa, dirigido a um poeta: "Cessa o teu canto! Cessa, que, enquanto o ouvi, ouvia uma outra voz como que vindo nos interstícios do brando encanto com que o teu canto vinha até nós. Ouvi-te e ouvia-a no mesmo tempo e diferentes, juntas a cantar. E a melodia que não havia se agora a lembro, faz-me chorar…" A magia do poema não está nas palavras do poeta. Está nos interstícios silenciosos que há entre as suas palavras. É nesse silêncio que se ouve a melodia que não havia. Aí a magia acontece: a melodia me faz chorar.
Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa para por não haver o que dizer tratamos logo de falar qualquer coisa, para por um fim no silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para encher o tempo até que o elevador pare.
Os orientais entendem melhor do que nós. Se não me engano o nome do filme é "Aconteceu em Tóquio". Duas velhinhas se visitavam. Por horas ficavam juntas, sem dizer uma única palavra. Nada diziam porque no seu silêncio morava um mundo. Faziam silêncio não por não ter nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras. A filosofia ocidental é obcecada pela questão do Ser. A filosofia oriental, pela questão do Vazio, do Nada. É no Vazio da jarra que se colocam flores..."
Rubem Alves
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Ruminar ideias
Acordava antes de todos. Descia as escadas pé ante pé o mínimo barulho seria fatal. Sabia que iriam reclamar implicar mesmo com sua mania de sair cedinho. O que fazer se esse era seu método de trabalho? Caminhar pelas ruelas tranqüilas, encher-se da paisagem, do silêncio, observar o início de mais um dia, das poucas pessoas que cruzavam seu caminho, dos gatos tombando latas de lixo, do cheiro do pão, e muito mais. Depois, muito depois, com a caneta e o papel em branco ou, às vezes, sentado defronte ao teclado, ruminar ideias, elaborar frases, jogar com as palavras, escolher uma a uma como se escolhesse feijão. Escrever suas impressões, seu sentir, seu espanto perante um mundo em eterno movimento. Assim era seu ofício. Ofício de escritor. Às tardes eram, então, dedicadas à leitura, à pesquisa, sabedor que era de que não há inspiração, mas como costumava dizer: — eclosão, de que nada se cria sem técnica e disciplina, sem trabalho e persuasão.Como era lindo esse ritual, quase religioso. Uma verdadeira devoção. Dia após dia lá estava ele, um sujeito comum igual a tantos outros, não um sonhador como muitos pensavam, um lunático, não.Apenas um homem que via na arte da escrita o verdadeiro sentido das coisas e dizia: — uma vida só pra mim não basta eu preciso inventar, criar histórias. E nesse ato criativo sonhar, rir, chorar com os personagens, com toda trama em que me deleito e que meu leitor se reconheça.
Uma catarse literária em que ambos vislumbrem a própria vida
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
da série- Tenho um amigo que disse que eu:
Não devia ficar preocupada com tantas coisas, não. Que tudo é muito passageiro, que quando menos se espera, cada coisa toma o seu lugar, que não vale a pena todo o desgaste e blábláblá. Mas, o que sabe ele das coisas com as quais me preocupo? E como assim, tantas coisas? Ele me conhece pouco, muito pouco, mesmo. Sou é muito sossegada, até por demais, água morna dura de ferver, como dizia meu avô. Mas, uma coisa aprendi, temos sempre que escolher. Não tem jeito, não. Ou isto, ou aquilo, rosas ou margaridas, vermelho ou azul, como dizia o poeta.
Um outro amigo, desses todo prosa, disse que é exatamente isso mesmo, que só quando decidimos é que respiramos aliviados. E que a palavra já diz tudo. Com um risinho todo maroto, completou: - Veja bem, o caso da palavra preocupação, ou seja, ocupar a mente antes pra quê, entendem?
Como se a gente não entendesse o que acaba de escutar, falei toda cheia de mim. E não entende, não, minha caríssima, disse um outro amigo já puxando a cadeira pronto para argumentar. Como assim, perguntei eu toda curiosa? E ele foi logo respondendo todo satisfeito, feito um professor diante do aluno.
É que as palavras têm muitos sentidos, cada um as interpreta à sua maneira, às vezes, disse ele:- o silêncio é o melhor mensageiro. Nessa hora, como num passe de mágica, ficamos todos numa quietude de dar gosto, prontos para ouvir àquele amigo, que com voz mansa foi logo dizendo: - Difíceis as nossas escolhas e, às vezes, nos sentimos de mãos atadas, a nos perguntar por que não conseguimos decidir: falta-nos coragem, sobra o muito ruminar.
E, ali sentados, totalmente despreocupados, embevecidos diante de tanta sabedoria ouvíamos nosso amigo, esse amante das palavras e do silêncio. Sabedor de que é preciso ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução, a qual ele delicadamente chama de literatura.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
AULA - II parte-
Uma reflexão torna-se necessária sobre a força de fugir da palavra gregária através do texto lugares, em que, a escritura e a semiologia se conjugam e se corrigem uma à outra. Fugir da palavra gregária não por que a semiologia negue o signo (apofática), mas porque nega que seja possível atribuir lhes caracteres positivos. fixos, a-históricos, a-corpóreos, em suma: científicos .
Segundo o pensador, esse apofatismo acarreta duas conseqüências que interessam, diretamente, ao ensino da semiologia:
a) não pode ser uma metalinguagem; toda relação de exterioridade de uma linguagem com respeito a outra é insustentável. O que sou obrigado a assumir falando dos signos com signos é o próprio espetáculo dessa bizarra coincidência ;
b) ter uma relação com a ciência, mas não é uma disciplina. Mas, que relação? uma relação ancilar: ela pode ajudar certas ciências.
Ao fundamentar-se na Semiologia, Barthes abre, a meu ver, caminhos para libertar a linguagem para o prazer do texto e renova, desse modo, a maneira de manter um discurso sem o impor; pois o que pode ser opressivo em um ensino não é o saber ou a cultura que ele veicula, são as formas discursivas através das quais ele é proposto. Entendendo-se que para uma mesma formação ideológica há diferentes formas enunciativas, pois o enunciado pode ser repetido em situações estritas, a enunciação jamais; o que permite ao enunciador se deslocar de acordo com o seu(s) interlocutor(es), isto é, o discurso pode ser o mesmo, porem, sua forma enunciativa é diferente.
Desse modo, o autor desloca as palavras, desfocaliza significantes de significados, desnivela a enunciação estabelece um jogo marginaliza um assunto e enfatiza outro. É nesse domínio do léxico que ele age. É, ao mesmo tempo, polido, modesto e irônico. A sua prática de escrever se ritualiza não em uma comunicação imediata, o que justifica as várias vírgulas, dois pontos, hífens, paralelismos gramatical, etc. Porém, o discurso em Barthes se constitui, me é crível, na recusa de um modelo pragmático e, assim, trapaceia coma língua, fazendo do texto a Aula uma demonstração de como jogar com os signos lingüísticos. Ao mesmo tempo em que fala da semiosis, a usa como exemplo do que afirma, reafirma, teima, desloca-se e, até joga com a possibilidade de abjurar. E, essa competência, me faz vê-lo como uma espécie de singularidade mística enquanto discurso,é claro.
BARTHES,Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone Moisés. São Paulo: Cultrix, 1988
BARTHES,Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone Moisés. São Paulo: Cultrix, 1988
domingo, 22 de agosto de 2010
AULA
Na concepção barthesiana falar é, com maior razão, discorrer, não é comunicar; é sujeitar: toda língua é uma reição generalizada . Então, penso eu, pobre mortal, como sobreviver a isso? Barthes indica um caminho: esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução, eu chamo, quanto a mim; literatura (Parece-nos, assim, que a liberdade humana só é possível fora da linguagem. No entanto, só existimos dentro dela, uma vez que não há separação entre homem e linguagem. Estudar a linguagem fora do humano é, explicitamente, destituir o sujeito da linguagem e vice-versa. Estaríamos desse modo, condenados à prisão perpétua, nessa rede de poder que constitui os discursos de saber? Essas vontades de verdade que há muito se perfilam e são formuladas, reformuladas e reempregadas no caminhar humano? E aqui entra, creio eu, a idéia barthesiana de trapaça, de logro magnífico com a língua. Não podemos destruí-la, nem viver em seu exterior, contudo, podemos desviá-la de seus sentidos articulados, estereotipados, destituindo, dessa maneira, os mecanismos de poder perpassados nos interstícios sígnicos, ou para ir mais longe ainda, nos vários conjuntos de enunciados.
Barthes nos leva a refletir sobre as forças de liberdade que existem na literatura a prática da escrita. Essas forças são articuladas sobre três conceitos gregos: mathesis, mimesis e semiosis.
A primeira força corresponde à força dos saberes, visto que todas as ciências estão presentes no monumento literário. E nesse sentido, a literatura é o próprio fulgor do real. Ela faz girar os saberes não fixa, não fetichiza nenhum deles; ela lhes dá um lugar indireto, e esse indireto é precioso. Mas Barthes nos mostra os dois lados dessa força: a) a permissividade para designar saberes possíveis insuspeitos, irrealizados; b) o saber que mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro.
A segunda força da literatura é sua força de representação. É, justamente, por querer representá-la que há uma história da literatura. Entretanto, o real pode ser apenas uma espécie de demonstração, e é por que há o real (pluridimensional) e a linguagem (unidimensional) que se produz a literatura. Barthes afirma: desde os tempos antigos até as tentativas da vanguarda, a literatura se afaina da representação de uma coisa. O quê? Direi brutalmente: o real . Ora, podemos fugir dessa história da literatura? Se rompermos com o elo entre o real e a linguagem. É possível? Talvez, através de existentes-não-reais somente existentes nas tentativas virtuais, na pluralidade de (im) possíveis olhares.
A terceira força da literatura é a que fora indagada acima; é um método de jogo. Teimar e deslocar-se, isto é, instituir no próprio seio da linguagem servil uma verdadeira heteronímia. Nessa perspectiva, surge a semiologia objetivando estudar a linguagem trabalhada pelo poder. Daí deslocou-se, coloriu-se. Este deslocamento.....
Em outro post!!!!BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1988
Roland Barthes, na aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária que proferiu no Colégio de França, em 7 de janeiro de 1977, fez esta afirmativa que renova a crença nas pessoas que acreditam no poder da literatura:
"Se, por não sei que excesso de socialismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto numa, é a disciplina literária que devia ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário". (Aula: 1978 p. 18)
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
FOGO ERA ONTEM
I num é que Dordélia perdeu. Não se conformou. Sentou-se ali mesmo no chão, e muito lentamente foi tirando os sapatos. Primeiro um, depois o outro, devagar alheia a tudo. Como num ritual, desabotoou a fivelinha apertada dos sapatos de Marcelina.
Na memória cada palavra da prima doía mais que ferro quente em gado marcado:
_ocê sabe, né, Delia? Esse sapatinho branco é mágico, feito a rosa mogorim que a gente infeita tudo a casa, i sem sabe como tudo di ruim vai pra longe... trôce é muita sorte esse danadinho. Era pôr nos pé, e tudo virava pro meu lado. Imprestu procê cum gosto.
_Marcelina, ocê credita im cada uma.
_Ocê que é uma descrente. Ocê nunca ficô cumo eu, perto de vô. Cuidei muito tempo dele, e apesar de toda trabaeira foi é muito bão. Aprendi por demais.
Aprendi a crê na vida, a te pacência, sabê esperá a hora certa das coisa. Vô sempre gostô de conta istória. As veis parava de falá, levantava aquele zoião como querendo vê disconfiança i mim, mai nunca incontrô, sabia que eu era atenta as coisa do mundo, i tem muito que nóis num sabe. Achu inté qui nem ele sabia.
Agora, ali sozinha, Dordélia também queria crer, pelo menos um pouco.
De repente pôs-se a chorar, com tanta força que nem sabia que tinha... chorou, chorou, chorou, seus olhos ficaram vermelhos , vermelhos como a terra em volta, vermelhos como o fogo.
O fogo que Guilhermano dizia sentir, que não se apagaria nunca. Eterno.
E pela primeira vez Dordélia benzeu-se.
Por que confiou em Guilhermano? Como não confiar? Seu jeito doce, seus olhos claros, sua fala mansa, as juras de amor sussurrada aos seus ouvidos, os lábios a roçar-lhe o pescoço, os beijos ardentes, tudo tão forte, tão intenso que ela até ruborizava, ardia mesmo, um calor tão bom.
Ele gostava. Ela sabia. Não era mais uma menina.
Quanto mais sua pele ia ficando vermelha mais ele a apertava, mais encostava seu corpo contra o dela, apertando-a contra a cerca.
Cerca que o pai fizera com tanto carinho. Por um momento sentiu-se culpada, como se tivesse traindo o pai.
A imagem da cerca vermelha, a casinha branca ao fundo, o pai gritando com o gado, a mãe ali parada na porta fingindo cuidar das plantas da varanda, aumentavam ainda mais sua tristeza.
E tudo vinha à mente de Dordélia. Ela só queria entender.
_Mãe sabia. Por que, então, acobertava? Não era muié fogosa, era até meio caladona, vivia dizendo:
- Muié tem qui si dá u respeitu, num tem tanta precisão de hóme.
_uai, pru que, intão, ficava ali oiando. Será que era vuntade?
Vontade que Dordélia e Guilhermano tinham de sobra. Era só o olhar de um cruzar o olhar do outro e pronto. Corriam lá pra cerca...
E agora o que ia ser da vida dela? E do filho que esperava? Guilhermano teria fugido, ficou com medo? Não. Não era possível. Ele mesmo falou na noite anterior:
-Delinha, tá tudu acertado cum o padre. Ele vai lá pros lado do ribeirão, sabe donde qui é?
_sei sim, i já gostei da escoia do lugar. É tão lindo, Guilhermano. A gente vê os jequetibá, as perobeira e até caneleira. Que mata que belezura... Pena né, nóis não podê cunvida ninguém, tem portância, não. To é muito feliz, vou tá toda de branco, até os sapato.
Ele não veio. Ela sabia. Não era mais uma menina.
Nada é eterno, Dordélia se enganara.
Fogo era ontem.
Na memória cada palavra da prima doía mais que ferro quente em gado marcado:
_ocê sabe, né, Delia? Esse sapatinho branco é mágico, feito a rosa mogorim que a gente infeita tudo a casa, i sem sabe como tudo di ruim vai pra longe... trôce é muita sorte esse danadinho. Era pôr nos pé, e tudo virava pro meu lado. Imprestu procê cum gosto.
_Marcelina, ocê credita im cada uma.
_Ocê que é uma descrente. Ocê nunca ficô cumo eu, perto de vô. Cuidei muito tempo dele, e apesar de toda trabaeira foi é muito bão. Aprendi por demais.
Aprendi a crê na vida, a te pacência, sabê esperá a hora certa das coisa. Vô sempre gostô de conta istória. As veis parava de falá, levantava aquele zoião como querendo vê disconfiança i mim, mai nunca incontrô, sabia que eu era atenta as coisa do mundo, i tem muito que nóis num sabe. Achu inté qui nem ele sabia.
Agora, ali sozinha, Dordélia também queria crer, pelo menos um pouco.
De repente pôs-se a chorar, com tanta força que nem sabia que tinha... chorou, chorou, chorou, seus olhos ficaram vermelhos , vermelhos como a terra em volta, vermelhos como o fogo.
O fogo que Guilhermano dizia sentir, que não se apagaria nunca. Eterno.
E pela primeira vez Dordélia benzeu-se.
Por que confiou em Guilhermano? Como não confiar? Seu jeito doce, seus olhos claros, sua fala mansa, as juras de amor sussurrada aos seus ouvidos, os lábios a roçar-lhe o pescoço, os beijos ardentes, tudo tão forte, tão intenso que ela até ruborizava, ardia mesmo, um calor tão bom.
Ele gostava. Ela sabia. Não era mais uma menina.
Quanto mais sua pele ia ficando vermelha mais ele a apertava, mais encostava seu corpo contra o dela, apertando-a contra a cerca.
Cerca que o pai fizera com tanto carinho. Por um momento sentiu-se culpada, como se tivesse traindo o pai.
A imagem da cerca vermelha, a casinha branca ao fundo, o pai gritando com o gado, a mãe ali parada na porta fingindo cuidar das plantas da varanda, aumentavam ainda mais sua tristeza.
E tudo vinha à mente de Dordélia. Ela só queria entender.
_Mãe sabia. Por que, então, acobertava? Não era muié fogosa, era até meio caladona, vivia dizendo:
- Muié tem qui si dá u respeitu, num tem tanta precisão de hóme.
_uai, pru que, intão, ficava ali oiando. Será que era vuntade?
Vontade que Dordélia e Guilhermano tinham de sobra. Era só o olhar de um cruzar o olhar do outro e pronto. Corriam lá pra cerca...
E agora o que ia ser da vida dela? E do filho que esperava? Guilhermano teria fugido, ficou com medo? Não. Não era possível. Ele mesmo falou na noite anterior:
-Delinha, tá tudu acertado cum o padre. Ele vai lá pros lado do ribeirão, sabe donde qui é?
_sei sim, i já gostei da escoia do lugar. É tão lindo, Guilhermano. A gente vê os jequetibá, as perobeira e até caneleira. Que mata que belezura... Pena né, nóis não podê cunvida ninguém, tem portância, não. To é muito feliz, vou tá toda de branco, até os sapato.
Ele não veio. Ela sabia. Não era mais uma menina.
Nada é eterno, Dordélia se enganara.
Fogo era ontem.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
“Mundo e corpo - sujeito e objeto”
Quando minha mão direita toca a esquerda, sinto-a como uma coisa física, mas no mesmo instante, se eu quiser, um acontecimento extraordinário se produz: eis que minha mão esquerda também se põe a sentir a mão direita. Nele (meu corpo) e por ele não há somente um relacionamento em sentido único daquele que sente com aquilo que ele sente: ocorre uma reviravolta na relação, a mão tocada torna-se tocante, obrigando-me a dizer que o tato está espalhado por todo o corpo, que o corpo é ‘coisa sensitiva’, sujeito e objeto. A mão direita é sujeito? A esquerda é objeto? Ou ambas sujeito e objeto? Parece que tais questões deixam de ter importância quando nos preocupamos com a experiência sensível ou com a busca do ser bruto. A experiência tátil, o tocar e o ser tocado, bem como a experiência visível, ver e ser visto, emergem de um mesmo tipo de ser. O corpo pertence às duas ordens do sujeito e do objeto ao mesmo tempo. Tal relação pode ser transposta para a relação corpo e mundo. O corpo também pertence à ordem das coisas assim como as coisas também pertencem à ordem do corpo. É também no plano do sensível que estará a possibilidade de percepção do outro. O outro habita um mesmo campo sensível, embora não habite a mesma consciência. Mas a experiência sensível é uma espécie de entendimento anterior à qualquer clivagem sujeito-objeto ou consciência-mundo.
Mundo e corpo são simultaneamente sujeito e objeto. (M.Ponty)
Maurice Merleau-Ponty escritor e filósofo líder do pensamento fenomenológico na França, nasceu em 14 de março de 1908, em Rochefort, e faleceu em 4 de maio de 1961, em Paris. Estudou na Ecóle Normale Supérieure em Paris, graduando-se em filosofia em 1931.
Em 1955 publicou"As Aventuras da Dialética".
domingo, 8 de agosto de 2010
A POESIA E O MITO DE CURA
Muitas vezes ficamos perplexos diante do que nos acontece na vida. Estamos sempre à pro-cura disto e daquilo e até, essencialmente, de nós mesmos. O que nos move na pro-cura é a Cura. Cura, do latim, assinala o Cuidado.
A Cura impulsiona todo nosso agir. Agir se diz em grego poiein, de onde nos vem poiesis, a essência do agir, a poesia. Poesia só é linguagem quando se torna verbo-ação-poiesis. Toda poesia nos advém a partir de Cura. É essa a fala do mito “Cura”.
A fala do mito é a linguagem do sagrado, por isso nele agem e falam deuses. O ser-humano (Entre-ser / Da-sein), a poesia e a linguagem pro-vêm da Cura.
É o que nos narra o mito Cura. Ele nos foi assinalado por Higino, escravo egípcio de César Augusto, que morreu no ano 10 da nossa era. Eis a sua saga:
C U R A
"Certa vez, atravessando um rio, Cuidado (Cura) viu um pedaço de terra argilosa: cogitando, tomou um pedaço e começou a fingir/ficcionar (fingere). Enquanto deliberava sobre o que criara, interveio Júpiter [Zeus]. Cuidado (Cura) pediu que lhe desse espírito, o que ele fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado (Cura) quis dar-lhe nome a partir de si mesmo, Júpiter proibiu e dita que lhe deve ser dado o seu nome. Enquanto Cuidado (Cura) e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também a Terra (Tellus), querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram Saturno [Cronos/Tempo] como árbitro. Este tomou a seguinte decisão aparentemente eqüitativa:
"Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito, e tu, Terra, por teres dado o corpo, deves receber o corpo”. Como, porém, foi Cuidado (Cura) quem primeiro o fingiu/ficcionou (finxit), deverá pertencer-lhe enquanto ele viver. Como, no entanto, sobre o nome há controvérsia, chame-se Homem, pois foi feito de "humus" (Terra)".
Profº Manuel Antônio de Castro
Ciência da Literatura, na Área de Poética,
Faculdade de Letras da UFRJ
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
O que existe, os poetas fundam - Hölderlin
A poesia está nas ruas, assim como nas coisas. A poesia está em gestos involuntários. Entre frases obscuras. Na parede das cozinhas. Nos anéis da seiva, no tenteio dos filhotes, nas asas que latejam. Nos resíduos dos amantes, misturados com estrelas. A poesia está nos restos dos dias. Nos silêncios. Pouco percebida, a poesia verte sua secreta alquimia: transfigurar os sinais de menos, as marcas da miséria, o rumor do que poderia ter sido. Resgatar a dança de esperanças perdidas, o frescor das bocas, as mãos em luta amante com a matéria do mundo. Água vital das origens e das utopias, e sede infinita, a poesia está em tudo. No entanto, em paradoxo: a poesia é raríssima. Dificílima. Poucas, raras vezes a poesia emerge da natureza das palavras e transforma-se em poemas. Poucas, raras vezes os verbos e os nomes se fazem a carne absoluta da poesia, som e sentido em unidade mágica que recria o real, inventando-o. Milhares e milhares de versos, para algumas palavras de poesia. Muitas toneladas de matéria-prima-para alguns gramas de poema (Maiakovski).
Necessidade vital: por que tão escassa?
Por um lado, o mistério da emergência do poema, seu nascimento não redutível à consciência lógica nem à intencionalidade do sujeito que poeta. Por outro lado, há poucos instantes possíveis para o florescimento da poesia na história cotidiana.É preciso conviver com os poemas. Andar com eles. Sonhar com seus signos. Ler, reler, não sei quantas vezes. Renascer com suas palavras vivas. Expor-se à sua permanente revolução da linguagem. Deixar-se seduzir por seus cantos.
HÖLDERLIN- foi ignorado por Goethe e exaltado por Nietzsche. Segundo Heidegger, foi um "poeta da poesia", pois acreditava que "o que permanece, fundam-no os poetas".
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