quarta-feira, 4 de maio de 2011

Dentro do peito - A língua portuguesa-


Uma palavra veemente, e ao mesmo tempo suave, que muitas vezes ouvi quando menina: — leitura. Ler tornou-se, assim, algo constante em minha vida. A princípio somente uma maneira deliciosa de afastar-me de tudo e de todos. Mas como o tempo tornou-se uma necessidade vital. Ler, então, era o meu maior prazer.

Passava horas e horas na biblioteca, ou mesmo no fundo do quintal embaixo da velha mangueira com o livro que, às vezes, chegava a cair das minhas mãos tamanho o cansaço. Acordava assustada com minha mãe que sorrindo fechava o livro. E eu seguia cambaleando para dentro de casa a sonhar como o final da história.

Ouvi também muitas e muitas vezes comentários, preocupações carinhosas de alguns vizinhos sobre essa difícil escolha:- ficar só. Difícil para eles que não tinham descoberto, ainda, a riqueza contida nas páginas de um livro. E, hoje na distância do tempo constato que silêncio e solidão foram determinantes na minha vida. Uma área mágica que trago guardado dentro do peito.

E nessa quietude vivo uma grande emoção, uma festa, um quase ritual orgíaco sentido em cada verso do poema, em cada conto, romance, crônica de escritores fabulosos dessa belíssima língua que tanto me encanta: — a língua portuguesa.
 
 
 

domingo, 1 de maio de 2011

Dança - A vida que pulsa

É noite. A dança acontece. O pensamento se vai. No ar, os tambores, a voz, a paixão, a música a sedução. O burburinho das conversas aos poucos se dilui. O salão, como num passe de mágica, ganha dimensões espetaculares.

E, meu corpo desliza leve sobre a pista feito à bailarina de que fala Mallarmé: — Ela não dança, é uma metáfora onde o movimento se dá a ver.Semelhante à bailarina do poeta, então, também me deixo ver e sou toda movimento. Sou toda sentimento, toda alegria nos requebros e remeleijos do quadril, no balançar das mãos, no arrastar dos pés.

A noite vai alta o corpo cansa, mas quer continuar e num quase ritual gira, gira, gira em puro delírio. Delírio da dança, beleza de ser um corpo entre tantos outros corpos que, em pleno movimento sente a vida que pulsa e pulsando vive.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu

 
Faço parte desse grupo de pessoas de temperamentos desensofridos, e apesar de ter comentado comigo, em uma outra oportunidade, essa sua teoria me fiz de rogada só pelo prazer em ouvi-lo. Ele, então, não perdeu a oportunidade e entusiasticamente discursou: — Veja bem, cara amiga, há no mundo somente dois tipos de pessoas: — os de temperamentos desensofridos, os quais estão sempre prontos a zombar vão da pilhéria à bofetada com a rapidez de um salto, mas ao mesmo tempo conservam o bom humor; e os de temperamentos sofridos totalmente sem humor, carregam o mundo nas costas.

Já um outro amigo disse que a dor é a condição sine qua non para subirmos os degraus da evolução espiritual, mas que em mim a dor virou pura ventania. Concordei porque gosto mesmo de olhar minhas mazelas não como ventania que gela o corpo, mas feito palito de fósforo aceso. Fogo rápido. Queima somente quando seguramos tempo demais. E aproveitei da oportunidade já que meu amigo, o criador da teoria, me olhava como quem espera uma resposta. Aí não me fiz de rogada, não. E arrematei: — não se chega ao grupo dos desensofridos sem o muito sofrer.

Já um outro amigo com a serenidade dos que sabe que a dor queima feito fogo, mas que também gela feito ventania, trouxe na sua prosa a beleza da poesia e disse que, quer pertença ao grupo dos sofridos ou desensofridos, como eu amanheço e anoiteço no mundo das palavras nada disso importa. Dor, alegria, fogo, ventania tudo vira fantasia. Concordei porque, como ele, acredito no poder da palavra transformando nossas vidas. Ele conhecedor do que vai fundo em mim riu um risinho de quem sabe a dor que provocaria sua partida.

sábado, 16 de abril de 2011

O HOMEM QUE COMIA PALAVRAS

O Homem Que Comia Palavras
O Homem Que Comia
O Homem Que
O Homem

O

Godiva

Dionísio era o seu nome. Nome de deus grego amante de festas e orgias. Mas este Dionísio da história era diferente. Avesso a qualquer agrupamento humano, solitário, só tinha uma mania que o distinguia dos comuns mortais: comia palavras.
Foi assim desde criança, quando começou a falar. No início, comia sílabas, depois passou a devorar vocábulos inteiros.
“– Qual o seu nome, menino?”
E ele respondia:
“– Dio.”
“– Dio? Que lindo!”
Na escola, ele levava o dicionário na lancheira. Enquanto a criançada, no recreio, se empanturrava de sorvete e hot-dog, ele simplesmente abria os seus verbetes preferidos no livrinho e comia com os olhos: “Pão-de-ló. S. m. [............], Chocolate. S. m. [............], Orchata. S. f. [............]. Huuummm!!!”
Assim, fazendo dos olhos parte do seu sistema digestivo, devorava o que melhor lhe apetecia.
Os pais o levaram a psicólogos, que logo identificaram sua estranha doença como “verbofagia crônica irreversível”.
Sim, o seu mal não tinha cura, pois, para o tratamento era necessário isolá-lo de livros, jornais e de qualquer material ou objeto que apresentasse palavras impressas. Ou seja, uma missão impossível.
Dessa maneira, Dionísio foi crescendo à sua moda, escolhendo sua alimentação nos cardápios dos melhores restaurantes da cidade. Ele entrava, pedia ao maître o menu e se deliciava com um refinado “canard aux oranges”, um “einsbein”ou um prosaico “beef steak”. Dionísio era um autêntico verbofágico poliglota, um fenômeno de paranormalidade glutônica multinacional.
Essa sua curiosa peculiaridade e seu modo conciso de falar fizeram de Dionísio um verdadeiro deus: Dio.
Como já dizia a bíblia, no princípio era o verbo. E o verbo, a palavra, o signo escrito, era o combustível vital desse estranho ser.
Aos 33 anos, Dio já havia experimentado todas as iguarias de todos os povos da terra. Um gourmand completo, pós-graduado em gastronomia e nutricionismo virtual. Era consultado por especialistas, que o procuravam para conhecer a receita de pratos exóticos, da Conchinchina ao Afeganistão. Ele respondia por escrito, pois era a única forma através da qual conseguia se comunicar.
Nessa altura da vida, Dionísio começou a evitar leituras de qualquer espécie e iniciou um processo auto-destrutivo. Fez greve de palavras e, consequentemente, greve de fome.
Primeiro, perdeu peso. Depois, os cabelos. E, sem usar mais caneta e papel ou computador, isolou-se do mundo.
Bastaram alguns dias para que de sua boca saíssem apenas duas sílabas, pronunciadas num sopro: “Di-o”!
Nas vésperas de sua morte, balbuciava incessantemente: “Io, Io, Io”...
Até que, já agonizando, emitiu o mantra dos mantras, o som vazio, circular, redondo e perfeito: “O”.
Arregalou os olhos e descansou em paz.

Elizabete Leite: professora de Inglês, moradora de Tatui. Atualmente minha aluna na Oficina de Literatura (em Tatui). Adorável perguntou-me "se leva jeito para escrever contos/crônicas...", preciso responder :o)

domingo, 10 de abril de 2011

Do homem cordial à sinuca de bico.


Às vezes, muitas, ficamos numa sinuca de bico, saia justa mesmo. E somos cordiais, aqui vale lembrar "O homem cordial', um capítulo da obra "Raízes do Brasil", de Sérgio buarque de Holanda, onde o tema é belíssimamente tratado , certeiro, e não há como discordar. Perfeito.
E se a prática é a da cordialidade seremos taxados ,com toda razão, de coniventes com o que ai está, hipócritas, manipuladores...

E se optamos, corajosamente, pela franqueza, pelo embate, pelo esclarecimento do que entendemos, do que está acontecendo conosco , ou com o nosso entorno seremos taxados de  problématicos, mal amados, um caso a parte, um sujeito suspeitíssimo. Bipolar, tão na moda. Carente, solitário.  Um louco!

O que nos resta?  Um fechar- se em si mesmo? Um sorrisinho amarelo? Um tapinha nas costas. Alguns, a maioria,  com certeza seguiram esse caminho. Não diria mais fácil, talvez mais elegante, mais apropriado, mais lucrativo, mais... sempre mais.   Eu me contento com menos, bem menos :  - um elegante e sonoro va à merda, meu caro. Um preço que  sempre estive disposta a pagar.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Que eu não meço as palavras. Medir, medir, eu meço sim. O que esse amigo não sabe é que não há uma medida e nem por isso uma desmedida. Cada momento exige de nós uma medida, completei. Ele me olhou dos pés à cabeça numa atitude de quem quer medir forças. E vi no seu olhar o espanto dos que acreditam que é possível usar a mesma medida para tudo. Medir, medir, eu meço sim. E essa hora exigia uma medida dita em alto e bom tom. Caro amigo que merda é essa que está a me dizer.

Já um outro amigo diante desse fato disse que não é nada disso. A verdade é que sou muito exigente comigo e com as palavras. Como se um coisa estivesse separada da outra, eu disse. E isso com um risinho já velho conhecido de todos, mas que não chega a ser irônico apenas provocativo. Sou, e a medida de exigência é a mesma para mim e para com o outro. Mas a maioria das pessoas não gosta dessa exigência. É sempre uma para si e outra para o outro.

Já um outro amigo disse que isso acontece porque tudo é sem medida, imensurável, relativo. Hum! Essa é daquelas certezas feitas às pressas totalmente sem medida, descabível. É claro que não só podemos como medimos o tempo todo. Mas será que ele pensou que eu me referia às pessoas. Dei uma medida nele que sem jeito saiu à francesa, mas não era minha intenção, não. Amigo a gente gosta de qualquer jeito mesmo quando não concordamos.

Já um outro amigo desses que sabe a exata medida das coisas. Disse que cada um gosta a sua maneira. Gosta muito, largo infinito, mas também pequeno e raso. E que eu não precisava ficar triste, não. Se meu amigo foi embora só porque não concordei com suas palavras é porque essa era a medida dele. E completou: — É que para nós, diferentemente da maioria, pessoas e palavras são uma coisa só.

Medir, medir eu meço sim, e fecho com o grande poeta ... “e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem...”


terça-feira, 15 de março de 2011

Água vital, poesia.


Um pensamento surge bem devagar toma corpo em meu corpo, permeia minha mente, mexe com meus sentidos transforma o momento comum em rara beleza.  Apenas uma palavra dita por mim, ou mesmo por outro para que esse fato singular aconteça. E um mundo se abre à minha frente.

Avenidas movimentadas, girassóis nos campos, uma mulher, uma criança, um pássaro, um funeral. Os que por mim passam percebem uma mudança no olhar. Vago diriam alguns, sonhador diriam outros.
E há os exagerados, que afirmam ser um olhar demente.

Eu mesma não sinto assim. Nem vago, nem sonhador, nem demente. Somente o olhar de quem se sabe pleno, inteiro.  Eu um vivente das palavras que mal rompe a manhã saio a colhê-las nas ruas, nos bares, nos escritórios, nas feiras.
Em todo o canto, ouço seu canto. São azuis, negras, vermelhas.
De amor ou de ódio. De prosa e de verso.
Palavra poética, água vital.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Escapo, feito água, pelos vãos dos dedos. Será que ele pensa que eu quero estar entre os vãos dos dedos de alguém, entrelaçada? Não, penso que não. Ele me conhece pouco, mas conhece, e já percebeu que sou menos líquida e mais rarefeita, solta.
Já um outro amigo disse que não é nada disso, que nem líquida, nem rarefeita, que sou sólida, feito pedra. Desejo de brilho. Na hora, juro que levei um susto. Não imaginava que alguém me visse assim, sempre tive a vaga sensação de que sou vista como um vento forte, desses que traz tempestade, derruba portas e janelas, desnuda todos e tudo, mas que no fim deixa tudo limpo.
Já um outro amigo, desses que enxerga em cada um a natureza toda, disse que eu derramo, não feito água, mas em palavras, e que por isso mesmo não gosto de entrelaçar, ficar presa, que transbordo em versos livres, que não caibo em mim porque sou múltipla.
E eu sorri levemente, mas eis que chega meu amigo, amigo de longa data, conhecedor profundo do que trago no peito, olhando-me fundo nos olhos disse que eu sou líquida na paixão, sólida como uma flor na terra, etérea junto ao corpo amado. Então suas palavras ecoaram na sala, testemunhando o que há muito eu já vivia, a paixão de ser como se é.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

KOA´E -

Livro: KOA´E
Autor: Luís Serguilha
Capa: Aquarela de Ivani Ranieri

Música ocular de Serguilha
Marcelo Moraes Caetano
Escritor, crítico literário, doutorando em literatura comparada
(Julia Kristeva,Universidade Sorbonne)

A obra de Serguilha não teria subjacentemente, o papel de elo entre a matéria clássica e exata e a nova matéria arquetípica e antiqüíssima das físicas e matemáticas inexatas e a filosofia, a teologia e as artes? Teoria-ontologia-TEOLOGIA?Acaso não se percebe, nos significantes e na sua emergência, em Serguilha, uma harmonia desarmônica e/ou enarmônica entre Ciência, Teologia, Artes e Filosofia? Definitivamente, sim. Em outras palavras, assim como a gênese da física quântica aponta para um aparente paradoxo e pressupõe o conhecimento do classicismo em termos de física (a mecânica e a álgebra, aritmética e geometria clássicas) assim também são os significantes de Serguilha: buscam no Arché clássico a plenipotência para transcender-se a mecânica e, mecanicamente, ir ao estado de ondulações em que o que está em pequena escala se comporta de modo diferente do que está em grande escala, mas de modo que, exatamente por sua diferença, os iguala nisto: o universo é diferença e só na diferença das diferenças (a arquimetalinguagem vista por outro telescópio ou por outro microscópio?) sobrevive a plenitude a que se chega pela música ocular de Serguilha
Eis o poeta em seu vôo cósmico
Sueli Aduan

Ler Serguilha é como adentrar a mata densa na origem dos tempos, a lua já alta, trazendo consigo o cheiro da terra molhada, de flores minúsculas, de ervas do campo, de girassóis distantes, de sons e silêncios. Ouso dizer que não o lemos com os olhos, mas com o corpo todo numa vibração frenética, solvendo cada palavra, signo dos signos, imagem das imagens, correspondências que nos fala Baudelaire, cheiros e cores, vida e morte, forma da formas. Eis o poema, eis o poeta, eis o corpo. E no corpo do homem a linguagem. Linguagem essa que é a busca desse poeta, incansável em sua trajetória, em seu mergulho no inexprimível, no indizível, no desconhecido, na gestação obscura para procurar a sua origem, o seu silêncio, sempre num processo regenerador, mitológico. O sonho poético reanimando o mundo das primeiras palavras como sugeriu Bachelard e que com propriedade completaria: “No sonho cósmico nada fica inerte, nem o mundo nem o sonhador. Tudo vive uma vida secreta de que tudo fala sinceramente”. A mesma propriedade do poeta Luís Serguilha, que vestido da leveza de quem anda descalço pelas areias da praia e sente o fino grão tocar-lhes os pés, nos diz: apenas tento enfrentar o infinito, a indeterminação, o não-sentido, com a respiração do desejo e da transgressão imaginária. Nessa sua caminhada em que muitos, como eu, buscam de longe acompanhar na ânsia de que pequenas gotas do mar que é Luís Serguilha venha refrescar nossos corpos sedentos de fusão libertadora, da vida verdadeira, que está ausente, relembrando Rimbaud. Com palavras que são travessias da dança cósmica, Serguilha vai nesse movimento equilibrado perpetuando sua escritura, palavras grávidas de símbolos. Linguagem viva e criadora, pulsares de paixões, o sonho dos signos, o sonho das células, o sonho dos amantes, no falar de Novalis. Serguilha sabe que é preciso conviver com o poema inteiro, com seus ritmos pulsando, com as iluminações de suas imagens, com as estruturas e suas geometrias, com as conteslações de seus significados, os múltiplos sentidos tão belamente expostos nos poemas de Quintana, e que muito provavelmente o poeta português tenha conhecimento, ainda com escritas tão díspares. Construtores da palavra, tanto um quanto outro, Quintana com seu verso: “Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês”. Poemas – Borboletas, Mario Quintana. E Serguilha em seu vôo cósmico, Condor feito homem, homem poeta na dança da noite e do dia que está para nascer.

LUIS SERGUILHA nasceu em Vila Nova de Famalicão, Portugal. Poeta e ensaísta, suas obras são: O périplo do cacho (1998), O outro (1999), Lorosa´e Boca de sândalo (2001), O externo tatuado da visão (2002), O murmúrio livre do pássaro (2003), Embarcações (2004), A singradura do capinador (2005), Hangares do vendaval (2007), As processionárias (2008), Roberto Piva e Francisco dos Santos: na sacralidade do deserto, na autofagia idiomática-pictórica, no êxtase místico e na violenta condição humana (2008), KORSO (2010), Possui textos publicados em diversas revistas de literatura no Brasil, na Espanha e em Portugal. Alguns dos seus textos foram traduzidos para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão e catalão.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"O Compadre da Morte"- Um belo espetáculo-


Com um elenco primoroso, um figurino impecável, e contando com a direção de movimento de Merlin Kern, mais a preparação vocal de Edmo Perandim, e a produção: de Richard Santos, O espetáculo “O compadre da Morte”, texto e direção de Mario Pérsico, vem provar a máxima que estudo, disciplina e dedicação são ingredientes fundamentais para que o sucesso aconteça.
E, mais uma vez a Cia. Clássica de Repertório presenteia a cidade de Sorocaba com um belíssimo trabalho, marca registrada dessa trupe de atores, atrizes, pesquisadores, produtores, músicos pessoas realmente comprometida com a arte cênica.
Tive o privilégio de acompanhar alguns ensaios e pude observar o rigor com que o trabalho é executado. A começar pelo horário cumprido a risca, as pequenas pausas, a troca de idéias, o debate, e por fim o ensaio propriamente dito de horas e horas ininterruptamente.
O Compadre da Morte surge, diz Mário Pérsico: — para a CIA CLÁSSICA DE REPERTÓRIO como um aprofundamento de uma pesquisa sobre o universo mítico do caipira, das lendas e causos extraídos do folclore brasileiro. Pesquisa esta que começou no ano de 2006, com o Projeto “De Feiras de Muares à Revolução Industrial”, quando a Cia. Clássica de Repertório foi agraciada com o Prêmio Funarte de teatro Myriam Muniz.
O Projeto, como um todo, é um resgate dessa cultura partindo-se de lendas e causos que povoam o inconsciente brasileiro. O texto nascido dessa pesquisa partiu basicamente das histórias e causos recolhidos por Câmara Cascudo. O texto, dentro desta proposta explora o lúdico.

Na tarde da estréia, 05/02 com um público que lotou as escadarias da Oficina Otelo o silêncio foi quebrado apenas pelos risos da platéia diante de cenas deliciosas de muito humor e ironia, mas que voltava a imperar em cenas de rara beleza poética como o canto da sereia, momento singular do espetáculo. O espetáculo é todo composto de cenas maravilhosas, de falas marcantes, de gestos preciosos, e de um cenário pertinente à proposta teatro de rua.
Um excelente espetáculo que recomendo na certeza de que desfrutaram de momentos de magia, beleza, reflexão.
A todos, meus parabéns.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Fração de segundos



Ainda ontem pensei sobre o fato e o que poderia ter dito no momento, no momento a gente nunca diz, tudo é sempre depois. Na hora, o que me veio foi tirar a faca da mão dele e limpá-la. Porque tudo foi também rápido, o cão ao lado o chapéu caído, o amigo morto. E não havia mesmo outra coisa a ser feita. A não ser poupá-lo, pelo menos, por enquanto do que viria pela frente, indubitavelmente. Passei-lhe as mãos sobre sua cabeça numa tentativa de afago, mais precisamente em sua testa, um passar de dedos, um deslizar, como quem quer aliviar a dor. Ele maquinalmente olhou-me e numa fração de segundos enxerguei o menino alegre de outrora. Sua voz num sussurro, um quase choro balbuciou:
— Adormecer, quem me dera adormecer. Ficar quieto num canto, e lentamente apagar-me do mundo dos pensamentos. Vendo-o assim perdido. Uma dor inimaginável percorreu todo meu ser. Doía de um jeito diferente das outras dores. Uma agulhada fininha seguida de um calor pelo corpo todo, um não querer fazer nada. Não me mover. Ficar ao seu lado com as mãos sobre sua testa vendo o corpo estendido no chão, o sangue se espalhando, o cheiro impregnando todo o ambiente. E, mesmo perplexa diante de tal fato, apenas não julgá-lo.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Ruminar ideias, uma catarse literária.

 Acordava antes de todos. Descia as escadas pé ante pé o mínimo barulho seria fatal. Sabia que iriam reclamar implicar mesmo com sua mania de sair cedinho. O que fazer? Esse era seu método de trabalho. Caminhar pelas ruelas tranqüilas, encher-se da paisagem, do silêncio, observar o início de mais um dia, das poucas pessoas que cruzavam seu caminho, dos gatos tombando latas de lixo, do cheiro do pão, e muito mais. Depois, muito depois, com a caneta e o papel em branco, às vezes, sentado defronte ao teclado: - ruminar ideias, elaborar frases, jogar com as palavras, escolher uma a uma como se escolhesse feijão. Escrever suas impressões, seu sentir, seu espanto perante um mundo em eterno movimento. Assim era seu ofício. Ofício de escritor.Às tardes eram, então, dedicadas à leitura, à pesquisa, sabedor que era de que não há somente inspiração, mas como costumava dizer: — eclosão, de que nada se cria sem técnica e disciplina, sem trabalho e persuasão. Como era lindo esse ritual, quase religioso. Uma verdadeira devoção. Dia após dia lá estava ele, um sujeito comum igual a tantos outros, e não um sonhador como muitos pensavam, um lunático. Apenas um homem que via na arte da escrita o verdadeiro sentido das coisas e dizia: — uma só vida, para mim, não basta eu preciso inventar, criar histórias. E nesse ato criativo sonhar, rir, chorar com os personagens, com toda trama em que me deleito. E, que meu leitor possa também se deleitar.  Uma catarse literária em que ambos vislumbrem a própria vida.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Caminhos trilhados


Tinha o hábito, gostava mesmo, de pensar na morte, mas isso não a incomodava, não a deprimia , ao contrário, aprendera há muito tempo atrás com um velho professor que pensar na morte era pensar na vida. Viver.  Isso também fazia muito, muito tempo, uma época em que os professores ainda ensinavam que o fundamental era... Ah! Pensou: — deixa pra lá. Gostava de deitar na rede, aquela brisa gostosa, e  na pausa da leitura ficar observando a morte de uma formiga, de uma aranha, de uma planta, um objeto quebrado. A transformação de tudo. E pensar na sua própria transformação. Da menina curiosa que tinha sido à mulher determinada que se transformou. Da jovem sonhadora à adulta realista, engajada, questionadora, provocadora.  Mas sabia, sentia, que jamais perdera a ternura  conquistada em muitos caminhos trilhados. Agora mais envelhecida e com um coração infinitamente jovem abria-se para um novo pensar. Uma quase brincadeira que fazia consigo mesma: — morte rápida dizia sorrindo. Morte súbita para tudo que entristece, paralisa, desalegra, contamina, petrifica, envenena...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Sórdida convivência


Imagem: Sergio Cajado

Fitou-me por algum tempo em silêncio, antes que voltasse a falar. Derrepente, por mais absurdo que me parecesse, começou a gargalhar. Ria alto chamando a atenção de todos ao nosso redor. Eu por minha vez não resisti e esbocei um leve sorriso, com os olhos ávidos cravados nele conjeturava a possibilidade de uma simples faquinha em minha bolsa. Pensamento acalentado há tanto tempo, mas sempre adiado. Desejava não ter esse desejo, essa necessidade diária de dar um fim nessa onvivência sórdida, mesquinha, vil. No entanto, quando ele me olhava, feito um menino, eu me sentia toda iluminada. Comprendia que nascemos um para o outro, feitos sobre medida. Traiçoeiros e vulgares. Esquecia-me de nossos  rompantes, de nossa bôemia, de nossos amantes. E, toda amor esquecia-me também  da bolsa e  da possibilidade de uma simples faquinha. Sonhava com uma vida inteira  juntos,  e  nossa sórdida conviência como alimento necessário.  Olhei-o em silêncio. E, gargalhei! 

O ínico (1º parágrafo) desse texto postei no Tempus. Lá ganhou outro título e, claro, com a participação de outras  pessoas tornou-se  uma  outra narrativa.(Linda,por sinal.:o)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu:

 
Sou muito exagerada nas coisas que faço, falo, vivo, observo... E, olhando com aquele ar de quem sabe do que está falando complementou: — ou é tudo ou é nada. Bem, não é bem assim, não. Respondi, com um sorrisinho que é quase imperceptível um leve movimento de lábios, é que dentro de mim tudo borbulha, exige, pulsa. Sou intensa. Quando rio, rio. Mas também quando choro, meu Deus, lembro uma carpideira. Ele riu, olhou bem fundo nos meus olhos, e, espantado com uma faceta que desconhecia concordou balançando a cabeça. Acho que ele nunca tinha me visto assim.
Já um outro amigo desses que não se espantam com nada foi logo dizendo: — que não é bom ser assim, não. Mas, coitado, ele nem deve tempo de explicar o porquê não seria bom. Um outro amigo desses que chegam sorrateiramente e ávido em participar foi logo falando: — Quem diz isso não sabe do que está falando, ou melhor, acredita que há um jeito bom para o sentir. E, entusiasmado com a própria fala, gesticulando muito continuou: — é preciso viver, sorrir, chorar, gritar, pular, correr. Hum! Amigo é amigo, não é? E a gente sabe que nessas horas a empolgação toma conta do sujeito.
Já um outro amigo, amigo maior, desses que sempre tem algo a nos dizer e sabedor que na poesia reside toda a verdade, delicadamente, declamou Fernando Pessoa:
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Eu rindo chorei muito.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ah! Esse Guimarães...

Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago...foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.




segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"Se você parar para pensar"


Na correria do dia-a-dia, o urgente não vem deixando tempo para o importante. Essa constatação, carregada de estranha obviedade, obriga-nos quase a tratar como uma circunstância paralela e eventual aquela que deve ser considerada a marca humana por excelência: a capacidade de reflexão e consciência. Aliás, em alguns momentos, as pessoas usam até uma advertência (quando querem afirmar que algo não vai bem ou está errado): "Se você parar para pensar..." Por que parar para pensar? Será tão difícil pensar enquanto continua fazendo outras coisas ou, melhor ainda, seria possível fazer sem pensar e, num determinado momento, ter de parar? Ora, pensar é uma atitude contínua, e não um evento episódico! Não é preciso parar – nem se deve fazê-lo – sob pena de romper com nossa liberdade consciente. Isso, de certa forma, retoma uma séria brincadeira feita pelo escritor francês Anatole France (Nobel de Literatura em1921, um mestre da ironia e do ceticismo) quando dizia: "O pensamento é uma doença peculiar de certos indivíduos, que, a propagar-se, em breve acabaria com a espécie".Talvez "pensar mais" não levasse necessariamente ao"término da espécie", mas, com muita probabilidade,dificultaria a presença daqueles no mundo dos negócios e da comunicação que só entendem e tratam as pessoas como consumidores vorazes e insanos. Talvez um "pensar mais” nos levasse a gritar que basta de tantos imperativos. Compre!Olhe! Veja!Faça! Leia! Sinta! E a vontade própria e o desejo em contornos? E (ainda lembra?) a liberdade de decidir, escolher, optar, aderir? Será um basta do corpo e da mente que não mais agüentam tantas medicinas, tantas dietas compulsórias, tantas ordens da moda e admoestações da mídia; corpo e mente que carecem cada dia mais, de horas de sono complementares, horas de lazer suplementares e horas de sossego regulamentares, quase esgotados na capacidade de persistir, combater e evitar o amortecimento dos sentidos e dos sonhos pessoais e sinceros. Essa demora em "pensar mais", esse retardamento da reflexão como uma atitude continuada e deliberada, vem produzindo um fenômeno quase coletivo: mais e mais pessoas querendo desistir, largar tudo com vontade imensa de sumir, na ânsia demudar de vida, transformar-se, livrando-se das pequenas situações que as torturam que as amarguram que as esvaem. Vêm à tona impulsos de romper as amarras da civilidade e partir, céleres, em direção ao incerto, ao sedutor repouso oferecido pela irracionalidade e pela inconseqüência. Desejo "grandão" de experimentar o famoso “primeiro a gente enlouquece e, depois, vê como é que fica...” Cansaço imenso de um grande sertão com diminutas veredas?Quando o inglês (nascido na Índia) George Orwell, no final dos anos 40 do século passado, publicou a obra "1984" - uma assustadora utopia negativa quanto ao futuro das sociedades, nas quais não haveria liberdade, individualidade e privacidade –, despontou no Ocidente um disfarçado e ansiado consenso (apoiado em uma simulada expectativa):tudo aquilo que ele colocara no livro jamais poderia acontecer nem se relacionava com o porvir do mundo capitalista. No entanto a macabra história sobre uma sociedade totalitária vai além de fatos abstratos e atinge hoje, em cheio, o terreno da “mercadolatria". Orwell disse que, numa sociedade como a que prenunciou, "o crime de pensar não implica a morte, crime de pensar é a própria morte”. Pouco importa, dado que ser humano é ser capaz de dizer "não" ao que parece não ter alternativa. Apesar dos constrangimentos e da tentativa de seqüestro da nossa subjetividade, pensar não é, de fato, crime e, por isso, claro,não se deve parar.

CORTELLA, Mário Sérgio. Se você parar para pensar. Folha de São Paulo, 24 de maio de 2001. Folha Equilíbrio, p.15

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

"E criar, a grande redenção".


Nossa cultura não nos incentiva a lutar, mas a chorar, a nos vitimar. Valorizamos e protegemos os fracos ao mesmo tempo criticamos os ousados, criativos. Consideramos o trabalho uma penalidade, e nosso sonho maior é sempre descansar. Mas a vida é sempre o resultado de uma luta. O fim da luta é a morte. E criar, a grande redenção. Para Nietzsche criar, mais do que um gesto individual, é um processo de integração e participação na vida. A vida cria em suas constantes transformações, em seu eterno jogo de vida e morte. Ao homem cabe dizer sim ou não a este processo, isto o define como homem. Ao dizer sim ao que os gregos chamavam de devir, o vir-a-ser constante das coisas, o homem se vê inserido em um processo que necessariamente leva à criação. Criar é suportar as contradições e intensidades da vida no corpo, é transformar em signo este movimento excessivo que é viver.

A PALAVRA

é uma roupa que a gente veste
uns gostam de palavra curtas
outros usam roupa em excesso
existem os que jogam palavra fora
pior são os que usam em desalinho
cores brigando,substantivo em luta
alguns usam palavra rara
poucos ostentam palavras caras
tem quem nunca troca
tem quem usa a dos outros
a maioria não sabe o que veste
alguns sabem e fingem que não
uns nunca usam a roupa certa para a ocasião
tem os que se ajeitam bem com pouca peça
outros se enrolam em um vocabulário de muitas
eu adoro usar palavra limpa
tem gente que estraga tudo que usa
com quais palavra você se despe?
Viviane Mosé

Viviane Mosé - É psicóloga e psicanalista-Mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro

sábado, 4 de dezembro de 2010

Talvez seja, e daí?


À medida que caminhava percebeu que seria impossível levar toda aquela bagagem. Distante do embarque e sem ninguém para ajudá-la tomou rapidamente uma decisão. Era uma pessoa de movimentos rápidos, porém de imensa serenidade na execução deles. O que lhe conferira imensa graciosidade.
Assim, soltou no chão o baú maior, a bolsa foi escorregando naturalmente sem que precisasse fazer o mínimo esforço. Sentou-se totalmente à vontade na esperança que um táxi, ou  uns momentos de descanso fossem suficientes para continuar a trajetória.
E, passados alguns minutos uma impaciência, coisa rara em sua vida, começou a tomar conta de sua mente. A sensação era péssima. Procurou na bolsa os óculos e não achou. Só pra ajudar  tinha esquecido.
E do que ia adiantar, agora, estar com eles. Por acaso estou cega, conjecturou? Ou será que pretendo aqui no meio do nada ler? Era só o que faltava. Diabos, por que é que na pior das situações me vem esses pensamentos: ler, colocar óculos, comer chocolate, vai ver é assim com todo mundo. Talvez seja. E daí? O que isso ajuda?
Nossa já é noite. Agora sim vou precisar dos malditos óculos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Quis acordá-la, mas não.


Desço a rua tranqüilo. Olho o relógio. Seis horas. À rua deserta escuto o farfalhar de meus passos sobre o chão, cadenciado passo, dança e música misturadas ao silêncio existente. Na mente nenhum pensamento ordenado ocorre. Trajeto feito todos os dias, hábito enraizado, é só seguir em frente.
Em alguns dias a atenção volta-se para o andar, em outros para a respiração, há ainda aqueles dias em que se fixa nos cheiros, nos aromas das casas, nos lixos tombados, no latido do cão, e finalmente no gato fugindo sorrateiramente.
Feito a pássaro livre em seu vôo matinal, ela muda rapidamente. O que determina essa atenção? Nenhuma escolha prévia. Nada.
Somente o olhar e o sentir. Distância encantatória entre as coisas e o homem. Foi numa dessas manhãs, que inexplicavelmente e numa fração de segundos passei do sentir ao pensar. Um único pensamento tomou conta de todo o meu ser. Perdi a tranqüilidade, o silêncio, a música, a dança, o chão. À medida que caminhava percebi que seria impossível viver sem resolver tamanho tormento. Pessoa de extremos voltei para casa. Olhei teu corpo na cama, passei-lhe suavemente as mãos pelos cabelos negros. Quis acordá-la, mas não. Para quê? Sobre o móvel deixei-lhe a chave.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:


Poderia ficar em casa e tecer um lindo bordado, e depois também poderia fazer um gostoso bolo e depois de um tempo, mais descansada, poderia molhar as plantas, brincar com os gatos, dar banho no cachorro e depois... E depois... Olhei-o no fundo dos olhos buscando entender qual o motivo, se é que existe um, dessas sugestões. Mas nada consegui. Vai ver esse meu amigo tem a capacidade de contrariar a máxima de que os olhos são a janela da alma. Não vi nada de alma nessas sugestões tão estapafúrdias.
Já um outro amigo, estudante de psicologia, desses que gostam  de tudo explicadinho com os pingos nos seus devidos “is”. Veio com essa:  é preciso conciliar os afazeres, diversificar, ser criativo e impostando a voz continuou todo seguro de si, ou seja, entre um bordado e outro, um bolo e outro deve-se visitar um museu, ler um bom livro, assistir um bom filme. Como se não fizéssemos isso e muito mais. Pronto, pensei com meus botões, está aí à chave da felicidade. Diversifica-se e tudo resolvido. Na hora fiquei com uma vontade imensa de sugerir um novo olhar sobre seus conceitos, mas pensei com meus botões: vai que ele se ofenda, e se tem uma coisa que aprendi e respeitar a ignorância alheia, já com a inteligência não precisamos ir com tanta cautela, não. E a boa discussão corre solta.
Já um outro amigo, esse sim, um questionador nato. Disse-me que somos feitos para o encontro, que é só no encontro com o outro que reside à possibilidade de nos conhecermos melhor, de aceitarmos nossos limites, reconhecermos nossas fraquezas, superarmos as nossas mazelas. E que na verdade seja homem, mulher, jovem, velho, criança não gostamos do automatismo no viver, mas que não basta pular de uma coisa para a outra, não. E brincalhão que só ele, sorridente, diz: não é porque descendemos do macaco que basta pular de um galho a outro. E calmo olhando fundo nos meus olhos completa: seres singulares que somos cada qual escolhe seu jeito de caminhar, mas nada sabemos de antemão e aí reside a beleza do viver. Enxergo no seu olhar à janela da alma, na sua voz serena a imensa sabedoria daqueles que sabem que a palavra está dentro de nós,  que somos produtos da linguagem. Linguagem escrita no nosso corpo. Lugar dos nossos desejos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

É só um café. Será?

É que foi acontecendo devagar dia após dias, eu mesma no começo não percebi. Sabe quando se bebe água sem muita sede só porque sabemos que é preciso. Bebe-se devagar saboreando cada gole lentamente. É, talvez seja isso. Devagar eu fui saboreando esse cansaço. Cansaço de sair da cama todas as manhãs, cansaço de falar até as coisas mais banais. _ Bom Dia, Lucinha você já trouxe os pães? Ah! Que ótimo. Pão doce? Gosto tanto. Também poderia não dizer nada. Calar-me ou simplesmente dizer: _Lucinha, hoje, teremos convidados para o jantar. Faça algo diferente. E se ela coloca um laxante em meu suco? Ou até algo mais forte só de raiva. Acontece. Só eu para pensar isso. Será? Em algum momento da vida de cada um deve ter ocorrido esse tipo de pensamento. E se eu não for mais agradável com todos. Condescendente, compreensiva, tolerante, amiga, mãe, filha, nora, amante. E se me mandam embora do trabalho, se me evitam, se meus filhos nunca gostaram de mim, se aquela vizinha tão boa, voz tão meiga, é a primeira a falar de mim, e se, e se. A diferença é que comigo isso atingiu proporções absurdas, para cada gesto, cada situação cotidiana um questionamento sem fim. Cansaço das coisas tidas normais. E se eu demonstrasse. Não sorrisse mais ao cumprimentar os colegas no trabalho, não aceitasse os convites, faltasse ao encontro com os amigos, não visitasse aos domingos minha mãe, minha sogra, minha tia, se pouco ligasse se os filhos gostam ou não gostam de mim, se não quisesse mais falar com ninguém. Isolasse-me? Por quê, não? E é no fundo de mim  que esse mistério  do pensar se instalou , me fez sorrir e cada vez mais sólida numa quase demência fecho todas as portas. Vagarosamente bebo meu café.

domingo, 14 de novembro de 2010

"Um som ensandecido"

 
Derrepente percebeu que não fazia o menor sentido continuar. Estava exausto e com toda certeza aquela não era a rua. Como pudera se enganar tanto? Bastou esse pensamento e, numa seqüência doentia, muitos outros afloraram: - não era esse o melhor sapato a usar. Não era esse.... Não era essa... Não era aquela... Até que se deu conta de que não era doentia essa sua forma de viver, ao contrário, justamente ao abrir esse leque de possibilidades uma nova sensação surgia. Era ele um sujeito privilegiado, divagar sempre o entusiasmava e mesmo diante do cansaço sentia-se revigorado rapidamente. Foi com esse pensamento que avistou no finalzinho da rua a casa. Não tinha dúvidas. O vaso na entrada com campânulas roxas, as preferidas dela, o portão azul recém pintado. E tudo à sua volta a lembrar-lhe outros tempos. Ah! Sempre o tempo, senhor absoluto, cobrador implacável. Com o pensamento já apaziguado resolveu tocar a campainha, mas não foi preciso. O acaso se fez presente e lá estava ela um pouco mais envelhecida também, mas não menos bela, descendo as escadas com o mesmo andar firme e decidido. E, assim de sopetão entre sorrisos, com os olhos marejados de lágrimas e com uma voz trêmula disse-lhe:-.Houve tempo — sim, houve em que me fiz duro e ameacei que não voltaria mais. Voltei. Podemos agora subir no palco dessa cidadezinha adorável e concretizar nosso velho sonho e um bom rock tocar. O que se ouviu naquela noite foi um som ensandecido de guitarra no ar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Emitia um som"

Era um sujeito de poucas palavras. Desses que encontramos raramente e quando isso se dá, penso eu, que só nos cabe o silêncio, o muito pensar.  Não posso dizer que não fiquei intrigada quando dirigiu-se a mim lentamente e quase num sussurro perguntou-me se podia fazer-lhe  a gentileza de  digitar  uma carta. O pedido me deixou sem ação, ele percebeu e com um sorriso largo foi logo se explicando. Machuquei ontem a mão, brincando com um bichinho que emitia um som: miau, miau, disse e sorriu. Diante do inusitado do relato também sorri. Sorrimos.  O que poderia eu responder? O que faria qualquer pessoa em meu lugar, diante de um homem sensível, apreciador de gatos, a não ser de pronto aceitar simples incumbência.  E foi o que fiz.  Foi quando percebi certo tremor em seu corpo e um brilho no olhar que jamais me esqueci. Estranhamente o seu olhar voltou-se para o céu estrelado, a lua indo alto, e a primeira frase da carta ditada pausadamente.  Estou voltando e levo comigo um miau.


domingo, 7 de novembro de 2010

Trago comigo

 
Deixou claro, feito à lua que iluminava aquelas viagens sem fim, que só é gente àquele que não careça de nada, que a tudo agradece ao nosso senhor Jesus Cristo e na dor enxergue a bondade divina. Sua voz doce ainda é um canto de ninar aos ouvidos da mulher em que hoje me transformei. E trago comigo, como num cofre, cada uma daquelas paradas em que mãe e eu ficávamos a olhar a terra seca, o gado magro, o povo sofrido. Mas eu não queria aquela vida para mim, vida do sertão, doída como gado queimado a ferro, triste como menino sem escola. E diferentemente de mãe eu não acreditava no destino traçado, na sina a cumprir, na cruz a carregar. Sempre acreditei que a escolha se dá à  cada passo, à cada manhã, à cada respirar, mas maínha, como eu costumava chamá-la, tinha outra crença. Dessas que fortalece o sujeito que segue sem nada questionar. E assim na primeira oportunidade vim embora. Hoje passado tantos anos a morte de maínha é só um quadro na minha memória, e eu sigo sem questionar.

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

da série: "Um pouquinho de Teoria Literária”



Estamos vestidos de alfabeto, não sabemos sequer nosso nome.
Murilo Mendes
“A linguagem é dimensão da existência. Em quase todos os pulsares do nosso pensar, revelam-se nomes e verbos. Nossos gestos têm rastros de signos. Ressoam em nós redes de símbolos. Nossos corpos são feitos também com palavras. Os medos, o desejos, as lutas e os amores raramente podem ser separados de nossas vozes. No entanto, como tem estado entre nós, neste século, a relação entre a linguagem e á vida?”. M.Mendes.

Creio que fazemos coisas com as palavras e, também que as palavras fazem coisas conosco
Jorge Larrosa Bondía

“As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente raciocinar ou calcular ou argumentar, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou o sem- sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E portanto, também tem a ver como as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos , diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo isso. Aristóteles definiu o homem como “zôon lógon échon”, a tradução dessa expressão , porém, é muito mais “vivente dotado de palavra” do que “animal dotado de razão”, ou animal racional.
O homem é um vivente com palavra. E isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa, ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem é enquanto palavra, que todo humano tem a ver como a palavra,se dá em palavra, está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é homem, se dá na palavra e com a palavra. J.L.Bondía

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:


Bem, que eu deveria mesmo me conformar, aceitar e pronto. Eu, na hora, quase que concordo. Sabe aqueles momentos em que  sentimos não valer a pena travar uma discussão, que não vai acrescentar nada, pois então. Ele percebeu minha quietude e foi logo mudando a prosa. Até gostei. Amigo tem mesmo é que conhecer o momento do outro, respeitar, pisar leve, falar manso, ou calar.
Já um outro amigo desses que nunca estão em silêncio foi logo falando: é isso mesmo aceite não há coisa melhor coisa para se fazer, não. E ainda acrescentou: “o que não tem remédio, remediado está”. Eu dei aquele meu sorrisinho de lado que nem chega a ser um sorriso é um leve mover de lábios de quem não concorda com o dito. É que tenho minhas dúvidas quanto à eficácia desses e tantos outros provérbios. Ele, como o outro, também percebeu meu espanto diante da sua colocação e foi logo tratando de deixar o ambiente. Não era para tanto, amigo tem mesmo é que sentir-se à vontade, viver a alegria da companhia, e ser uma festa só.
Já um outro amigo, sabedor das coisas da boa amizade, com seu olhar doce e um sorriso iluminado calmamente disse: os tempos são outros mesmo, minha cara, e não se trata de aceitar, não. É preciso coragem pra não permitir o mau uso da palavra, e com seu jeito leve de brincar completou: há porta e portinhola; gaiola e gaiolinha todas se abrem para algum lugar, mas os espaços são outros. Vôos e caminhos. E não está certo o mesmo nomear para tantas coisas que há. Há árvores e plantas; planaltos e planícies; vales e morros; musica e letra, projetos e planos. Cada coisa é uma coisa. Fazes é muito bem em não aceitar.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Realidade Travestida


Naquela tarde Eleonora fechou portas e janelas, desceu vagarosamente as escadas, olhou o pátio lá embaixo sentiu o aroma das flores e deixou-se ficar escondida atrás do alpendre. Não queria visitas. Não queria falar, responder, sorrir. Nada. Apenas ficar só. Reorganizar as idéias e decidir-se. Escolher. Dispensou os empregados e certificou-se com a cozinheira. Fome não estava em seus planos. Ordenou-lhe que fizesse algo especial, leve, frugal. Deu-lhe a chave da adega. Queria um bom vinho. E quando finalmente sentiu-se só, pegou da taça, sentiu a doce umidade do vinho em seus lábios e o prazer que isso lhe proporcionava. Era bom estar ali saber-se dona de toda aquela terra. Com o corpo e a mente mais leve pelo vinho deixou-se levar pelas recordações que foram naturalmente surgindo. Primeiro alguns lances da infância depois a juventude junto aos primos, os risos, os desejos, as insinuações e as festas noite adentro. O pai sempre austero, a mãe com aquele olhar sonso, agudo e finalmente seu casamento com Heitor. Derrepente um vento forte e uma janela que se abre o som dos carros, o movimento dos transeuntes, as conversas entrecortadas., os risos, os encontros, o ir e vir. A vida que corre lá fora pulsante, real. E , ela, ali, presa em seu minúsculo apartamento. No escuro de si, no vazio que construiu, enganando-se dia após dia, noite após noite. Por quê? Para que? Ficção travestida de realidade Eleonora a personagem criada, a propriedade que nunca teve a infância que sempre quis o pai que nunca conheceu e as festas que não viveu. Desejo e imaginação. Levanta-se lentamente e com toda força joga a taça de vinho. Cacos de uma vida inexistente.

domingo, 17 de outubro de 2010

"Olhar o mundo e olhar a si"



Jose Angelo Gaiarsa -1920 -2010- 
psiquiatra brasileiro.
 maravilhosos livros publicados
 destaco:
Couraça Muscular do Caráter
O que é Corpo?
O Olhar
 Sexo, Reich e Eu
A Inconsciência Coletiva

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

De beleza e partituras, ser professor.

Como disse Rita Lee, toda mulher é meio Leila Diniz. Sinto que a expressão pode ser estendida à questão da arte, do aprender e do ensinar , respeitando as devidas proporções, toda mulher, todo homem é “meio” Paulo Freire, o grande mestre. O tempo todo aprendemos com o outro e o ensinamos numa troca maravilhosa, a qual, Freire nomeou de a "Roda do saber".

Mas, não podemos esquecer de forma alguma que ser professor é uma profissão, e como toda profissão exige dedicação, conhecimento e acima de tudo paixão, uma imensa paixão. Ou, como disse o mestre Rubem Alves:


"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes"

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Nenhuma palavra dita


Saciada a sua ira e satisfeito o seu ódio Beatriz observava seus pés nos degraus. A chuva doce e mansa caia devagar seus pingos a bater na vidraça. A mudança de humor, os passos na escada, a observância desses pés e os movimentos de seu corpo era tudo o que possuía. Queria mais. A vida lhe negou ou ela não soube escolher. Já não sabia e isso era o que mais pesava o descobrir-se perdida, sem forças para a luta e amarga em seu viver. Figura carismática, boca carnuda, roupas claras e de chapéu Firmina esperava-a de braços abertos. Esse fato também pesava. A generosidade de Firmina, sua alegria contagiante, seu ser singular e exótico. Parada na ponta da escada com o luar a iluminar-lhe o semblante sorria. Um sorriso de boneca ou da boca que se alarga e toma conta do rosto inteiro. Beatriz nunca descobriu. A bem da verdade chegou a pensar que não era nenhum nem outro. Era só mesmo o brilho que Firmina possuía e que tanto a incomodava. Tornaram-se inimigas sem nenhuma palavra dita. E por mais que Firmina buscasse uma aproximação tudo era frio e distante. Com o tempo desistiu. E agora ali na sua frente depois de tantos anos Beatriz  dissimulava todo o seu rancor,  fingia uma vida que não teve e  tagarelava coisas e fatos inexistentes. Firmina  ouvia calada o relato da amiga, relembrava outros tempos , momentos da infância quando ambas rindo corriam para a praça ver o teatro chegar. Eram noites de muita alegria quando assistiam ao espetáculo. Beatriz vibrava com a bailarina, com seus sapatos prateados o corpo a girar, girar lentamente. Mas tudo também se transformou lentamente. Em que momento Beatriz ficou assim? Qual acontecimento desencadeou esse sentir, ou melhor, esse não sentir? Impossível sabê-lo.
Apenas que Beatriz é nada. É um corpo adormecido. Já não sorri, não vibra com bailarinas, danças, sapatos prateados. Agora tudo o que precisa é do brilho do olhar de Firmina.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

"Um "pouquinho" de Teoria Literária"

“O homem é o ser que se criou ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo.”
 Octávio Paz.


Uma das maiores crises de nosso tempo é a crise da linguagem. A perda da palavra, a perda da expressão própria, a perda da comunicação autêntica, a perda de uma linguagem pessoa e criadora. Essa é uma das mais profundas desfigurações da segunda metade do século XX. E um dos maiores paradoxos da nossa era: vivemos cercados de sistemas de comunicação, temos os maiores e mais complexos instrumentais da comunicação e toda a história, e ao mesmo tempo, nunca tivemos tão pouco a palavra própria, a expressão pessoal, uma linguagem que expressasse e encarnasse nossa identidade pessoal, uma comunicação verdadeira em que mutuamente nos reconhecêssemos. A perda da palavra. A morte da linguagem. As falas cada vez mais neutralizadas. Uniformizadas, Cada vez mais insignificantes. Estereotipadas. Reduzidas ao informe homogêneo. Cada vez mais sem voz, o homem contemporâneo tem dissolvida sua linguagem e sua identidade pessoal e pública. A inconsistência da linguagem, das imagens, da história , da vida.
Penso em Ítalo Calvino
Ás vezes me parece que uma epidemia pestilenta tenha atingido a humanidade inteira em sua faculdade mais característica, ou seja, no uso da palavra, consistindo essa peste da linguagem uma perda de força cognoscitiva e de imediaticidade, como um automatismo que tendesse a nivelar a expressão em fórmulas mais genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados, a embotar os pontos expressivos, a extinguir toda centelha que crepite no encontro das palavras com novas circunstâncias. O vírus ataca a vida das pessoas e a história das nações, torna todas as histórias uniformes, fortuitas, confusas, sem princípio nem fim. Meu mal-estar advém da perda da forma que constato na vida, à qual procuro opor a única defesa que consigo imaginar-uma idéia de literatura”. Ítalo Calvino

É preciso redescobrir e revivificar a linguagem. Renascer a linguagem significa também renascer a dimensão que se revela ao mesmo tempo raiz e utopia das palavras, e que tem tido imemorialmente – o nome de poesia.

 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"A surpresa do ser"


Se a filosofia nunca soube ao certo o que é o ser (a metafísica ocidental só fez oculta-lo ainda mais), em Heidegger ele ressurge iluminado pela linguagem poética. A poesia é a “casa do ser”; só através dela é possível comemorá-lo sem perdê-lo de vista; só ela é capaz de evocá-lo em seu movimento fulgurante. O ser é uma surpresa que os poemas ajudam a vislumbrar. Seis séculos antes de Cristo, a filosofia nasce justamente em confronto com a poesia (e seus mitos), que antes de emancipar-se como forma autônoma destinava-se à revelação do sagrado. A idéia heideggeriana de que a poesia nos lembra o ser encontra-se em sua “Carta sobre o humanismo”, a qual se encerra com estas palavras: “na presente indigência do mundo é necessário: menos filosofia e mais desvelo do pensar, menos literatura e mais cultivo da letra”. Orides Fontela provavelmente pensava nisso quando disse num depoimento: ‘Nossa época é terrível, somos poetas em tempo de desgraça”. Orides se foi. Já não presencia os infortúnios de nosso tempo nem deles participa, mas sua poesia cristalina continua exercendo o “desvelo do pensar” e o “cultivo da letra”, de que fala Heidegger, provocando o ser à luz da linguagem. Aliás, do que mais se ocupam seus poemas? Orides fontela, como Paul Celan, é daqueles artífices que clareiam o ser ao mesmo tempo em que propõem uma indagação essencial sobre o ser da própria poesia. Ler sua obra é constatar que o ser em geral, no sentido heideggeriano, questão sempre aberta, e o ser lucífugo da poesia têm idêntica irradiação. Ambos podem nomear-se como aquilo que não se sabe ao certo o que é, mas que se deixa perceber no mesmo instante em que se furta como pedra filosofal da leitura. “Natureza ama ocultar-se”, conforme o célebre fragmento de Heráclito.

Artigo postado, na minha coluna mensal, no Imaginário Poético com  o poema "Fala" de Orides Fontella.
Referências bibliográficas:
BORGES, Contador. A surpresa do ser. In Revista Cult/novembro 1999.
FONTELA, Orides. Poesia Reunida [1969-1996] São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006