quinta-feira, 29 de julho de 2010

Velhos sapatos.. longas caminhadas...

Imagem: fotomontagem dos sapatos pintados por Van Gogh.
by Imaginário Poético

Escrito no período de 1776, Os devaneios do caminhante solitário, até a véspera de sua morte, em 1778, o livro é um contundente e tocante registro dos derradeiros devaneios que ocuparam as andanças solitárias de Rousseau por Paris e seus arredores.

Já no primeiro capítulo, Rousseau deixa claro que este é um diário de suas reflexões, no qual pretende examinar seu afastamento e sua resignação frente à sociedade. Nestes ensaios, ele apresenta sua visão filosófica da felicidade: a dedicação exclusiva aos simples prazeres da vida ordinária, como a contemplação da natureza por meio de longas e solitárias caminhadas. Reflexivo, divertido e poético, Os devaneios do caminate solitário é uma fascinante exploração do pensamento do filósofo, que revê alguns dos momentos mais marcantes de sua vida a fim de justificar suas ações e se defender dos críticos que o condenaram ao esquecimento.

Publicado postumamente, este grande testamente inacabado é considerado pelo próprio autor como a conclusão de sua obra. Diferente de seus outros escritos, marcados por discursos inflamados, Os devaneios são relatos líricos e serenos, que retratam sua sensação de isolamento e estranheza pelas críticas à sua obra e às suas posições humanistas. Os textos, compostos por dez capítulos denominados “caminhadas”, combinam argumentos filosófico com saborosas anedotas que expõem as considerações do filósofo sobre a natureza do homem, sua individualidade e conduta.

Os devaneios do caminhante solitário
de Jean-Jacques Rousseau
Tradução de Julia da Rosa Simões
 Coleção L&PM POCKET – 144 páginas


domingo, 25 de julho de 2010

"Ser o que sê é...


 
Essa clareza que me chega, lentamente, chega com a noite à lua já alta, traz consigo o cheiro da terra molhada, de flores minúsculas, de ervas do campo, de girassóis distantes, de sons e silêncios.
Mostra-me a vida que palpita no mundo e também no coração dos homens. Um saber que alegra meu corpo toca no profundo de mim, e diz, que não é preciso sorrir o sorriso falso, alardear aventuras inexistentes, e ser o que não se é.
Essa clareza, senhora de si, tem no viver reminiscências das conversas que o dia ouve e produz, dos livros lidos no cansaço dos olhos, das palavras soltas gravadas na memória, e a indiferença aos que sonham sonhos alheios.
Porque sabe que é preciso a busca, seja de uma paisagem, de uma flor, de uma idéia, de um homem ou de uma mulher.
Essa luz, esse saber, fez morada no meu peito, dorme e se levanta comigo e, feito o poeta, me diz bem baixinho:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”


poesia: Ricardo Reis- heterônimo de Fernando Pessoa
texto sueliaduan

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um par de óculos e uma centena de lentes


A relação do homem com o mundo é sempre mediada por suas ferramentas. Ele constrói, apreende e interpreta a realidade a partir dos instrumentos que lhe são fornecidos pela cultura. Tecelão quase compulsivo de si próprio, borda sem cessar teias de significados para dar sentido ao mundo. (GEERTZ, 1989)
Essas teias, onde se misturam pontos abertos e fechados, novos e antigos, e linhas de todas as cores, é a cultura. É a partir desse véu da cultura, dessas lentes, que vemos então as coisas, os outros, e a nós mesmos. Cada cultura, entretanto, teria seu par de lentes próprio, ou, no máximo, certo número de lentes utilizáveis, certo leque de possibilidades de formas de ver o mundo. As lentes de uma sociedade nunca são as mesmas de outra. (BENEDICT, 1997)
Ainda que tenham semelhanças, são encontradas certas nuanças e particularidades. O que pode ser considerado ponto comum entre todos os homens é a armação, a existência dos óculos em si. As lentes, sempre diferentes, vão variar em espessura, cor e formato.
Uma vez vendo os outros por detrás dessas lentes, e a partir de uma visão de mundo, há uma tendência em considerar nossa forma de ver e fazer as coisas como a mais correta, ou mesmo a única correta. Tal postura etnocêntrica consiste em tomar o que é nosso como o verdadeiro, e o que é do outro (e o que é o outro) como digno de reprovação, dando assim aos nossos valores um suposto caráter de universalidade.
Uma vez estando ao nosso lado todas as verdades e a certezas, estaríamos autorizados a interferir, em nome de nossa bondade e piedade, no que é do outro. (TODOROV, 1993)

A Arte de Sensibilizar o Olhar ou Por que ensinar Antropologia?
D. Krischke Leitão.

domingo, 18 de julho de 2010

Versos Alheios


No papel quem me dera palavras.
Chamo Pessoa ele não me escuta.
Quero versos.
Quero também ser do tamanho da minha aldeia.
Quero falar dos sentimentos das pedras.
São só pedras.
Poetas, poetas.


As palavras sufocam.
As idéias morrem.
E o papel ficará em branco.
Branco como a morte.
Lispector empresta-me borboletas.
Quero também voar,
Voar no mundo das palavras


Mas não sou poeta.
Sou um severino,
um sertanejo.
Para mim tudo é
terra,
gente,
fome.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ainda não era

O quintal já não bastava. Os netos, as brincadeiras, o aroma do pé de tamarindo, as aves, o fruto doce, a natureza toda ali presente em seu existir silencioso.
Ainda assim precisava adentrar na mata ouvir os diversos pássaros, escutar a melodia de seus cantos, ver o correr das águas límpidas do rio, ouvir o farfalhar dos animais em seu caminhar, o movimento das árvores ao vento. Dança e magia.
Mesmo com a idade avançada sentia-se como um menino curioso, olhar travesso, peralta, olhar de pássaro. Visão fontana.
E mal rompia a manhã lá estava ele caminhando. Era um andarilho. Saía percorrendo as vielas, olhando as casas, o pouco movimento em volta. Subia e descia morros, parava um pouco, respirava fundo e seguia calmamente.
Ouvir, ver, cheirar, tocar, era tudo que queria, parecia mesmo um ritual quase religioso. Uma devoção.
Quando avistava o rio, como que hipnotizado, lentamente descia até as margens e ali sentado, olhos fechados, sentia o cheiro bom da terra, o barulhinho das águas. Tudo estava bem. E a vida era boa. Nem tanto.
E, assim em alucinados gestos se deixava possuir pela natureza ali presente.
Feito bicho, gritava , pulava, dançava. Ainda não era. Só vivia

sábado, 10 de julho de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:



Fico toda vermelha, rubra, quando ele olha para mim, e completa: olha no fundo de mim. Eu rio, mas o que ele não sabe é que essa vermelhidão toda não é exatamente por conta do motivo que ele pensa, ou melhor, pelo que eu penso que ele deve estar a pensar. Trata-se não do olhar e sim do falar. Desde muito jovem eu já reagia assim. Minha respiração ficava lenta e meu corpo todo mole. Sempre tive uma vaga impressão que ia desfalecer, bastava ouvir algo que me entristecesse ou que me causasse espanto e a tonalidade da minha pele mudava, às vezes ficava só levemente avermelhada. Dependia muito do que escutava.
—que nada, mente pra ela, não é sua mãe? Mãe perdoa, boba (ficava rosa claro);
—mas é da Manoela... Ela nem vai perceber, pega logo, é só um bombom (vermelhinho);
—comigo não, mulher que traí merece bala (vermelho rubro);
—essa gente... Pobre é tudo vagabundo (vermelho intenso).
—coisa de veado (vermelho, rubro intenso)
Cresci assim, depois com a idade fui agregando outros tons, oscilando entre vermelho fraco e forte, líquido ou com um sorriso disfarçado.
Um outro amigo, desses que percebem no ar uma situação delicada, veio em meu socorro e de um fôlego só disse: - fica feliz, amiga, a maioria das pessoas não se espanta mais com nada, imagina, então, ruborizar. Mas, além de prestativo, ele também é muito curioso e queria saber o porquê de tanta vermelhidão. Eu até ia explicar, dizer da minha estranheza frente a um mundo tão desigual, imprevisível, triste e belo. Belo como o vermelho da rosa que o amante levou para sua amada, triste como o sangue do menino baleado na esquina, surpreendente como o vermelho dos meus cabelos brancos, mas não tive nem tempo, não.
Derrepente, lá estava o amigo maior, desses que nunca deixam a gente vermelha, mas que nos colocam em brasa, tamanha sabedoria.
E, foi logo dizendo: — Ela é assim mesmo, jóia rara! Eu rio.


terça-feira, 6 de julho de 2010

Melancolia


Por quê?

a geometria não exclui a melancolia.
Quero o triunfo da linha reta,
garantia de um ponto fixo.
Continuarei meu caminho como?
Como um Édipo errante.
Quero algo certo.
ou a certeza de que no mundo,
nada é certo.
Paralizo-me.
E não é sono, preguiça,
É pensamento, perplexidade.
Incoerência da vida.
Tudo: quantidade e volume.
A esfera me faz sofrer.

sábado, 3 de julho de 2010

Serventias da Literatura


Quem milita com Literatura neste mundo de coisas utilitárias, às vezes se vê instigado a responder de pronto: Para que serve mesmo a Literatura? A resposta parece óbvia, mas na hora de responder assim de chofre e de forma objetiva, acaba-se caindo em apuros.
Em primeiro lugar, para se dar uma resposta que convença minimamente, será preciso admitir que há certos fatores que entram na composição das forças do mundo que são, digamos, imateriais. Como a força do Papa, por exemplo, que não tem nenhuma divisão de brigada, mas conseguiu interferir em muitas guerras ao longo da História. São forças não passíveis de avaliação imediatamente em peso, medida ou valor monetário. São coisas que não entram no cálculo do PIB, mas são primordiais. Como o ar , que ninguém calcula o seu preço, mas sem ele não existiríamos para dar preços às outras coisas. Com uma diferença significativa: o ar é natural; a Literatura é invenção da cultura humana.
Seja como for, valendo-me de um ensaio de Umberto Eco, aí vão alguns exemplos de utilidade da Literatura que consegui elencar:
1º — A Literatura contribui para a formação, estabilização e desenvolvimento de uma língua, como patrimônio coletivo. O que seria da língua portuguesa sem Luiz de Camões? O que seria do Italiano sem Dante Alighieri? O que seria do Espanhol sem Cervantes? O que seria do Inglês sem Shakespeare? O que seria da Civilização e da língua grega sem Homero? O que seria da língua russa sem Puchkin? É bom lembrar que línguas que não tiveram uma Literatura que sobressaísse entraram em decadência sem alcançar o apogeu.
2º — A Literatura mantém o exercício, o arejamento, o frescor da língua, que é o principal fator de criação de identidade, de noção de comunidade, do sentimento de pátria e pertencimento a uma placenta cultural que nos acolhe e nos dá sentido à vida tanto individual quanto coletivamente.
3º — A Literatura proporciona o aprendizado, de uma forma lúdica e segura, ao mesmo tempo em que permite o acesso das novas gerações aos valores universalmente aceitos como válidos, como a honestidade, o respeito ao próximo, a importância da cultura, enfim a transmissão de valores morais, bons ou ruins e o senso crítico de escolha entre eles ou rejeitá-los.
4º — A Literatura expande a rede neural do leitor, possibilitando a diversidade das idéias, a capacidade de reflexão, a noção de flexibilidade e a tolerância para com o diferente.
5º — A Literatura enseja o surgimento e a disseminação de valores estéticos, introduzindo na vida das pessoas o verdadeiro sentido do belo, distinguindo-nos da fauna geral.
6º — A confabulação da literatura nem sempre segue o caminho desejado pelo leitor, possibilitando a ele entrar em contado com a frustração ficcional, como exercício das frustrações impostas pela vida de fatos, às quais é bom que resista.
7º — A Literatura, como toda arte, amplia a visão da realidade e cria realidade nova.
8° — Pelo que foi elencado, a Literatura não é uma panacéia — um remédio para todos os males —, mas a base, a plataforma de lançamento de cidadãos melhores, numa sociedade do tipo que todas as pessoas de boa vontade desejam ver implantada.
Certamente o leitor verá “utilidades” diferentes ou mesmo complementares a estas.

POR EDIVAL LOURENÇO EM 03/07/2010 ÀS 02:32 PM
Revista Bula

terça-feira, 29 de junho de 2010

Tomás de Aquino e a saudade

O pensamento e a vida estão mais ligados à linguagem do que em geral supomos. A força viva da palavra não só transmite, mas até mesmo gera e preserva, em interação dinâmica, o que pensamos e sentimos o que podemos pensar e sentir... Sem a palavra, nossa percepção da realidade é confusa ou nem sequer chega a ocorrer. Valem para toda a realidade humana as considerações sobre a "latência", que Moles tece em seu estudo O Kitsch. Valendo-se de uma metáfora fotográfica, ele fala de uma revelação das impressões confusas, pelo surgimento de um vocábulo: "O surgimento nas línguas germânicas de um termo preciso ("Kitsch") para designá-lo levou-as a uma primeira tomada de consciência: através da palavra, o conceito torna-se passível de apreensão, e manipulável... O trajeto científico para conhecer, começa por nomear. De fato, sem a posse da palavra Kitsch é-nos muito mais difícil reparar em que há, no fundo, qualquer coisa de comum entre o pingüim da geladeira, o anãozinho do jardim e o quadro de cores fosforescentes... É precisamente neste ponto fundamental da educação que Pieper insiste em Das Viergespann interação entre a possibilidade de percepção (e vivenciamento da realidade moral) e a existência de linguagem viva. O empobrecimento do léxico é assim, hoje, um dos principais problemas da educação, na medida em que gera um círculo, literalmente, vicioso: a falta de linguagem viva embota a visão e o vivenciamento da realidade; o definhamento da realidade esvazia (ou deforma) as palavras... Faltam-nos os conceitos, faltam-nos os juízos, falta-nos acesso à realidade. Certamente ocorre, antes da formação do conceito em nossa mente, aquilo que Tomás de Aquino chama de collatio, um ajuntamento e comparação de impressões, uma pré-abstração, feita pela "capacidade cogitativa" (para usar uma vez mais a linguagem do Aquinate). Contudo, enquanto não há conceito e palavra, andamos inquietos à busca deles, ou passamos à margem da realidade sem nem sequer a ver. Aquela inquietude que se manifesta tão claramente na teimosia com que nos esforçamos por trazer à memória um nome esquecido. A interação palavra-vida torna-se ainda mais decisiva quando se trata de atingir sentimentos mais sutis e complexos do coração humano: neste caso, cada povo costuma gerar a palavra que se apropria do sentimento que é mais conatural e, reciprocamente: o sentimento se torna como que conatural porque a palavra se apodera do falante desde a infância. Nesse sentido, Portugal e Brasil têm a sua palavra por excelência, que certeiramente penetra nos meandros do coração e atinge aquele complexo agridoce que chamamos saudade. Como, por exemplo, traduzir para outra língua o verso da canção de Isolda: "Das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de ter...?" Tomás, no século XIII (quando mal havia português e não estava formada a palavra saudade), fez um agudo diagnóstico - em que inclui até a explicação causal - da saudade: a dor - diz ele - é por si contrária ao prazer, "mas pode acontecer que um efeito colateral (per accidens) da dor seja deleitável, como quando produz a recordação daquilo (pessoa, terra, etc.) que se ama e faz perceber o amor daquilo por cuja ausência nos doemos. E assim, sendo o amor algo deleitável, a dor e tudo quanto provém desse amor também o serão. Se a caracterização em si já é perfeita, ela se mostra mais genial ainda quando nos lembramos que São Tomás não era português nem brasileiro.

Conferências de Filosofia pesquisa:sueliaduan  
USP- 1998
L.J. Lauand

sábado, 26 de junho de 2010

Muros do silêncio

IV capítulo
Final
Era toda terra

Na volta para casa não pode deixar de olhar mais uma vez para o riacho, e  emocionar-se com os pedaços de gelo sob a  superfície formando uma espécie de manto branco.  Derrepente teve a leve sensação de já ter vivido esse momento. Observava um outro rio com águas mais escuras, e não estava só , ao seu lado um jovem trajando um paleto cinza e uma boina vermelha seguia. Gesticulava muito, apontava o dedo para o alto e, às vezes, gargalhava. Essa imagem a impressionou tanto a ponto de molhar os pés nos riacho como forma de saber-se presente, de que não estava a sonhar. Ao sentir a água gelada foi tomada por uma imensa alegria nunca sentida antes . E rindo correu pelos campos feito uma menininha  feliz ao encontro do pai. O pai que sempre esteve ausente, que nunca sorria , que sempre reclamava. 
Liu por um breve momento esqueceu-se de tudo, da vida difícil que levava ,do cesto de frutos,das mãos de sua mãe, da colina e de todo o resto. Só queria  sentir a vida fluindo ao seu redor. A aldeia viva que tanto desprezava agora pulsava dentro do seu coração. Ela era toda terra, flores, umidade e riacho.
E foi envolta numa espécie de nuvem que avistou o pai. De longe pode perceber que ele  conversava com um jovem. E para seu espanto ele trajava um paleto cinza e uma boina vermelha. Gesticulava muito, e junto com seu pai apontava o dedo para o alto, ambos gargalhavam. 
Liu sentiu o coração disparado, a boca seca, as pernas trêmulas e já não havia necessidade de explicar nada. Tudo estava claro como o branco do gelo cobrindo o rio.
Silêncio e morte entrecortados pelos muitos risos do homenzinho de boina vermelha.

 

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Muros do silêncio

 
 III capítulo
O dia amanheceu
Derrepente um pensamento surgiu em sua mente, mas tão forte, tão vivo, como se  houvesse alguém ali junto ao seu ouvindo, soprando conselhos, dando-lhe ideias. E eram boas e simples.
Num instante estava novamente vestida com sua velha bota , o casaco verde claro e um cachecol tecido pela mãe há muitos e muitos anos.
Abriu lentamente a porta do quarto e pé ante pé desceu a colina. Com passos firmes e decidido. Não poderia mesmo ser diferente. Não para ela .
Ainda que lágrimas enchem-se seus olhos, havia um sorriso se formando em seus lábios quase imperceptível ao olhar alheio. O sorriso que é fruto da  coragem e  da ousadia daqueles que escolhem o próprio caminho. 
E, foi com essa alegria que Liu se apresentou ao chefe da aldeia. Um homem de olhar penetrante, voz serena e com uma infinita capacidade de ouvir.  
Liu falou por horas e horas, juntos ali sentados de costas para o riacho viram o dia amanhecer e a neblina se dissipar como numa passe de  mágica.
Liu já não queria mais ir embora da aldeia. O sonho há tanto acalentado também se dissipou. Tudo o que queria ,agora, era voltar para casa e explicar ao pai. 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Muros do silêncio


II capítulo
A difícil jornada 
Triste também era olhar a terra e assistir lentamente a morte das plantas. O suor de tantos meses ali perdido, junto a  fome e a miséria do povo da aldeia. Liu sofria com tudo isso e sabia: - Era preciso fazer alguma coisa. Mas o quê? Pai  reclamava ,reclamava, mas não queria ir embora, tentar novos rumos. Era apegado ao lugar. Liu lembrava da infância, da mãe descendo a colina com o cesto carregado de frutas e seus olhos enchiam-se de lágrimas. Recordar a mãe segurando sua mão, entoando lindas cantigas com voz forte e serena, era o que fortalecia e apaziguava seu coração para a difícil jornada .
Assim passaram -se anos. Mae e filha descendo e subindo a colina todos os dias, regando,colhendo e  vendendo as flores e os  frutos da terra.  Com a morte da mãe, agora seu caminho era feito com o pai. Não era o mesmo caminhar. Nem o caminho era o mesmo. Não havia cantigas no ar e as mãos iam balançando junto ao corpo num abandono só.
Liu olhava  nos olhos de seu pai, desviava o olhar rapidamente e  com o coração apertado sonhava com um outro viver, um outro mundo. Sabia  que un dia, não muito distante, não estaria mais ali. E isso era tudo o que queria.
Mas porque,então, perdeu o controle? E como seguir adiante sem resolver o acontecido. Esses pensamentos ,naquela noite fria, era o que preenchiam sua mente.

terça-feira, 15 de junho de 2010

"O imponderável"

Agustina Bessa-Luís 
(Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa-Luís)

Trecho- "A Sibila"
[... era Quina a primeira a auscultar uma conduta estranha, um gesto, uma palavra que se não previram, um passo que fugiu do equilíbrio, uma decisão falhada, uma razão que sofreu um súbito reencontro e daí surgiu o inesperado. O imponderável nas criaturas era para ela motivado pela influência de espíritos favoráveis ou malignos, sombras manifestas do além. Mercê dum sentido finíssimo para se embrenhar nos fenômenos da natureza humana ou simplesmente do meio vital, com os seus elementos, suas causas e efeitos, depressa adquiriu uma sabedoria profunda acerca de todos os ritmos da cons­ciência, do instinto, das forças telúricas que se conjugam no fatalismo da continuidade. Conhecia os homens sem o aprender jamais. Sabia, uma por uma, qual a reação que correspondia a determinado tipo, perante determina­do fato. Adivinhava-lhes os pensamentos, mesmo antes de ela os poder raciocinar. Um sorriso fazia-a pôr-se em guarda, assim como uma aranha que tecia a sua teia duma folha a outra dum pé de malva a decidia a mandar espalhar o grão na eira, ou os carolos de milho ainda úmidos da debulha. Como o que distingue para lá das montanhas qual a sombra de fumo, de pó ou de nuvem; como o que na floresta conhece o rasto do animal em tempo de caça ou tempo de amores; como o que aspira no vento o perigo, como o que pressente na atmosfera a confiança ou a traição, assim ela vivia, intensamente adaptada com essa capacidade selvagem de defesa, de astúcia, de previsão e pré-conhecimento da vida e das coisas e que o homem civilizado, unido em rebanhos pacíficos, amparado em convenções artificiais, vai perdendo ou nunca desenvolve por completo.]
1ª edição de 1954. Guimarães editores.

pesquisa e título no blog- sueli aduan

sexta-feira, 11 de junho de 2010

    Corpo lugar da Alegria
"Um pensar em Deleuze e Vinícius"
Houve um tempo, há muito, muito tempo em que a alegria era pura mania,e, as palavras usadas eram efetivamente vividas na loucura do dia-a dia e do encontro, encontro como parte da vida.
Essa mania: bom delírio, delírio do poeta, delírio do contemplador, delírio do pintor que descobre a cor, era só o que existia, feito a uma bailarina que só pode dançar na ausência do pensar, ausência do saber-se finita. Medo da morte, e então perder-se no movimento do corpo lugar da alegria.

"...é melhor ser alegre
que ser triste
a alegria é a melhor coisa que existe
é assim como a luz no coração......,
mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza,
senão, não se faz um samba não...."

quarta-feira, 9 de junho de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:


Não deveria fazer essa cara de “pôxa vida” sempre que estou triste. Tentei explicar que ele estava totalmente equivocado, não estava triste, não. E que jamais passa pela minha cabeça fazer caras e bocas. E, se estava me vendo assim, era fruto da sua própria imaginação, ou então ele mesmo é quem faz uso desses artifícios para chamar a atenção. Não tive nem tempo de completar a frase, quando dei por mim, tinha desaparecido. Vai ver ficou bravo. E o que eu posso fazer se é a mais pura verdade. Meu olhar e o formato da minha boca passam mesmo essa impressão, o da tristeza. Um quê de melancolia.
Já um outro amigo riu muito ao saber dessa história e me aconselhou a usar lápis para contornar os olhos e um bom batom vermelho. Esse recurso, disse-me, daria um brilho todo especial ao meu rosto. E eu lá quero ter um brilho que não seja o meu mesmo? Não que eu não use maquiagem. Uso, claro, sou vaidosa sim. Mas com a intenção de brilhar? Por favor.
Essas coisas vêm de dentro mesmo, falamos em uníssono, eu e outro amigo que adentrava todo feliz na conversa. E foi logo completando: minha cara, esse teu ar de melancolia é você por inteiro, como o meu é esse ar de bonachão. O que seria de nós se não fosse essa singularidade. É verdade mesmo. Numa fração de segundo revi rostos de pessoas que mal conheço e constatei o quanto nos enganamos ao julgar um olhar, um sorriso, um rosto mais tenso, uma ruga, um andar, um falar.
Já um outro amigo, amigo de cabeceira, mas nem por isso distante, com seus belos textos me ensina que é impossível mesmo nossas expressões faciais, corporais, atestarem todo o sentir. Que não nos apercebemos nem da tristeza, nem da alegria que vai dentro de cada um. Porque tudo é muito dentro, no recôndito do ser. E mesmo as palavras ditas chegam-nos de tal maneira que somos sempre remetidos a nós mesmos e a nossa visão de mundo.
Na hora me deu um vazio e até fiz uma cara de “pôxa vida”, mas seus ensinamentos, frase a frase, página a página, falaram mais alto. Nada há a fazer. É da vida, é do homem, e nisso reside toda a beleza.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

E criar, a grande redenção.

Nossa cultura não nos incentiva a lutar, mas a chorar, a nos vitimar. Valorizamos e protegemos os fracos ao mesmo tempo criticamos os ousados, criativos. Consideramos o trabalho uma penalidade, e nosso sonho maior é sempre descansar. Mas a vida é sempre o resultado de uma luta. O fim da luta é a morte. E criar, a grande redenção.
Para Nietzsche criar, mais do que um gesto individual, é um processo de integração e participação na vida. A vida cria em suas constantes transformações, em seu eterno jogo de vida e morte. Ao homem cabe dizer sim ou não a este processo, isto o define como homem. Ao dizer sim ao que os gregos chamavam de devir, o vir-a-ser constante das coisas, o homem se vê inserido em um processo que necessariamente leva à criação. Criar é suportar as contradições e intensidades da vida no corpo, é transformar em signo este movimento excessivo que é viver.

A PALAVRA
é uma roupa que a gente veste
uns gostam de palavra curtas
outros usam roupa em excesso
existem os que jogam palavra fora
pior são os que usam em desalinho
cores brigando,substantivo em luta
alguns usam palavra rara
poucos ostentam palavras caras
tem quem nunca troca
tem quem usa a dos outros
a maioria não sabe o que veste
alguns sabem e fingem que não
uns nunca usam a roupa certa para a ocasião
tem os que se ajeitam bem com pouca peça
outros se enrolam em um vocabulário de muitas
eu adoro usar palavra limpa
tem gente que estraga tudo que usa
com quais palavra você se despe?
Viviane Mosé´

Viviane Mosé - É psicóloga e psicanalista-Mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

E comíamos fruta madura


A casa abandonada, os crisântemos plantados, os retratos na parede, o relógio marcando o tempo. Tempo em que a vida era plantar e colher. Pegar a jabuticaba no pé, sentir seu sumo escorrendo pela boca à fora, correr entre os campos floridos e deitar na relva um corpo cansado, porém leve com a pluma. Olhar longe o verde da campina tendo um céu límpido como manto. Assim eram os dias, assim era a vida.
É essa imagem que trago dentro do peito, feito ferro em brasa quente a marcar o boi no pasto. E ela queima, dilacera deixa esse gosto amargo de dias parados, noites sem fim.
Onde colher, agora, o crisântemo da minha infância? Como arrancar da terra com mãos envelhecidas a flor do passado? Enfeitar o vaso da sala, e sentir o aroma da jabuticaba como se no quintal elas estivessem. Rever tua figura entrando pela porta tirando o chapéu, beijando meus cabelos negros e a noite ouvi-lo contar as histórias de seu tempo de menino. O que ficou de tudo, meu pai? Das conversas ao entardecer. Dos planos e dos sonhos. Da tosse da tia Maria no quarto ao lado, tudo tão real. E comíamos fruta madura, e raspávamos o prato de sopa. E a sopa era boa.
O que ficou?
Um nome, uma terra. Verdes campos. 

terça-feira, 1 de junho de 2010

Aquietem-se! Uma leitura cantada

O mistério das coisas, onde está ele? Onde está ele que não aparece. Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Aquietem-se!
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam dela, entristeço-me. Tudo tão cinza, apenas o amanhã a nos condenar, exigir que tudo volte feito ciranda ou vá embora para sempre.
Para sempre? Nada é para sempre.
Quem fala de hemorragia sem nunca ter sangrado é um impostor. O amanhã virá antes do que você pensa,
Quando chegar o momento esse meu sofrimento vou cobrar com juros. Juro todo esse amor reprimido esse grito contido.
Há poetas, artistas, idéias e palavras.
O que há do lado de dentro e não derrama não deságua não se espalha, nenhuma valia tem.
O que importa? O que importa é ver, ver sem estar a pensar idéias, palavras,
Basta poeta! Tua palavra salvará o mundo?
Não, mas ultrapassa o limite, adormece as crianças e acorda os homens.
É preciso.

domingo, 30 de maio de 2010

"Doces palavras"


 Por que sou escritor
 Santiago Ribeiro
Sentimentos florescendo dentro mim me levam a inútil tentativa de querer adocicar mais a minha vida. Palavras de amor solto sozinhas ao vento, há alguém que possa escutá-las? Provavelmente não! E com o decorrer dos dias tristes e cinzas não é possível perceber sequer um sussurro de amor... Talvez amar não seja a saída, talvez seja simplesmente como um óculos que melhora a nossa visão de vida. Crio romances justamente por não conseguir viver um de verdade, dessa forma as minhas histórias conseguem amenizar a minha solidão. A alma de um escritor é tão atribulada de emoções que é necessário anestesiá-los, e a minha fonte inesgotável de anestesia são as palavras, doces palavras, que tento colocar para fora do meu imprestável coração.
 Santiago Ribeiro
sorocabano
artista plástico e escritor

título no blog sueliaduan

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Panela no Fogo

No mundo do pensamento
capítulo IV

Essa era outra coisa que eu achava errada. E se de repente eu entendo melhor, só por que sou mais nova não posso? Mãe tinha cada uma.
Dona Dagmar era a professora, mas será que ela estava sempre certa? Ela falava tão bonito, eu ficava como que encantada ouvindo o som das palavras que saiam pausadamente de sua boca parecendo mais uma melodia. Música aos meus ouvidos quando ela dizia:
─Liléia, você aprende muito rápido.
Engraçado eu penso o tempo todo. Será que as outras pessoas também? Não concordo muito com D. Dagmar não, isso da gente é que faz a nossa sorte.
E tem alguém que ia escolher sofrer? Vai me dizer que o povo dali não sofria. Fartava tudo nem distração a gente tinha. Faltava. Dona Dagmar vivia me corrigindo.
Lembro-me que uma vez veio um teatro ficou pouco. Uns dias. Mas foram os dias mais felizes da minha vida. Só de escutar os poemas, olhar para os olhos brilhantes dos atores. Quanta alegria quando na escola a diretora perguntou o que tínhamos gostado, eu imediatamente comecei a repetir o poema.
─No meio do caminho tinha uma pedra
─Tinha uma pedra no meio do caminho
Que coisa essa pedra no caminho. E eu que sempre gostei de catar as pedrinhas que encontrava quando criança, quando ouvi o moço do teatro senti que não eram as mesmas pedrinhas que existiam no meu caminho.
Eram outras pedras, e que alegria ao saber que podiam ser outras as pedras, outros os caminhos.
Dona Dagmar estava certa mesmo. São muitos os caminhos que podemos trilhar. Eu fiquei no sítio mesmo. E não fiz outro caminho. Terminei a escola continuei estudando, estudando,lendo, lendo. Como disse Dona Dagmar realmente aprendi rápido e também passei a falar bonito.
Mas ainda trago dentro de mim aquela menina que não sabia falar direito, que imaginava coisas, que espionava o pai na plantação.
Já pensou se ele fosse mesmo plantado, feito a uma flor, era só regar e pronto ele estaria aqui cheio de vida. Que bobagem.
Contadas assim essas coisas parecem pitorescas e nada mais, parecem só recordações de uma velha que abre uma gaveta à procura de uma foto, uma estória, uma lembrança qualquer, como que querendo preencher seus dias. Mas não.
Elas são as minhas maiores riquezas, marcas da minha personalidade.
Meu caminho no mundo do pensamento.

FIM