quarta-feira, 25 de agosto de 2010

AULA - II parte-


 

Este deslocamento se fez porque a sociedade intelectual mudou, quanto mais não fosse pela ruptura de maio de 68. Por outro lado, o próprio poder como categoria discursiva, se dividia, se estendia como uma água que escorre por toda parte.
Uma reflexão torna-se necessária sobre a força de fugir da palavra gregária através do texto lugares, em que, a escritura e a semiologia se conjugam e se corrigem uma à outra. Fugir da palavra gregária não por que a semiologia negue o signo (apofática), mas porque nega que seja possível atribuir lhes caracteres positivos. fixos, a-históricos, a-corpóreos, em suma: científicos .
Segundo o pensador, esse apofatismo acarreta duas conseqüências que interessam, diretamente, ao ensino da semiologia:
a) não pode ser uma metalinguagem; toda relação de exterioridade de uma linguagem com respeito a outra é insustentável. O que sou obrigado a assumir falando dos signos com signos é o próprio espetáculo dessa bizarra coincidência ;
b) ter uma relação com a ciência, mas não é uma disciplina. Mas, que relação? uma relação ancilar: ela pode ajudar certas ciências.
Ao fundamentar-se na Semiologia, Barthes abre, a meu ver, caminhos para libertar a linguagem para o prazer do texto e renova, desse modo, a maneira de manter um discurso sem o impor; pois o que pode ser opressivo em um ensino não é o saber ou a cultura que ele veicula, são as formas discursivas através das quais ele é proposto. Entendendo-se que para uma mesma formação ideológica há diferentes formas enunciativas, pois o enunciado pode ser repetido em situações estritas, a enunciação jamais; o que permite ao enunciador se deslocar de acordo com o seu(s) interlocutor(es), isto é, o discurso pode ser o mesmo, porem, sua forma enunciativa é diferente.
Desse modo, o autor desloca as palavras, desfocaliza significantes de significados, desnivela a enunciação estabelece um jogo marginaliza um assunto e enfatiza outro. É nesse domínio do léxico que ele age. É, ao mesmo tempo, polido, modesto e irônico. A sua prática de escrever se ritualiza não em uma comunicação imediata, o que justifica as várias vírgulas, dois pontos, hífens, paralelismos gramatical, etc. Porém, o discurso em Barthes se constitui, me é crível, na recusa de um modelo pragmático e, assim, trapaceia coma língua, fazendo do texto a Aula uma demonstração de como jogar com os signos lingüísticos. Ao mesmo tempo em que fala da semiosis, a usa como exemplo do que afirma, reafirma, teima, desloca-se e, até joga com a possibilidade de abjurar. E, essa competência, me faz vê-lo como uma espécie de singularidade mística enquanto discurso,é claro.   

 BARTHES,Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone Moisés. São Paulo: Cultrix, 1988         
             



domingo, 22 de agosto de 2010

AULA


Na concepção barthesiana falar é, com maior razão, discorrer, não é comunicar; é sujeitar: toda língua é uma reição generalizada . Então, penso eu, pobre mortal, como sobreviver a isso? Barthes indica um caminho: esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução, eu chamo, quanto a mim; literatura (Parece-nos, assim, que a liberdade humana só é possível fora da linguagem. No entanto, só existimos dentro dela, uma vez que não há separação entre homem e linguagem. Estudar a linguagem fora do humano é, explicitamente, destituir o sujeito da linguagem e vice-versa. Estaríamos desse modo, condenados à prisão perpétua, nessa rede de poder que constitui os discursos de saber? Essas vontades de verdade que há muito se perfilam e são formuladas, reformuladas e reempregadas no caminhar humano? E aqui entra, creio eu, a idéia barthesiana de trapaça, de logro magnífico com a língua. Não podemos destruí-la, nem viver em seu exterior, contudo, podemos desviá-la de seus sentidos articulados, estereotipados, destituindo, dessa maneira, os mecanismos de poder perpassados nos interstícios sígnicos, ou para ir mais longe ainda, nos vários conjuntos de enunciados.
Barthes nos leva a refletir sobre as forças de liberdade que existem na literatura a prática da escrita. Essas forças são articuladas sobre três conceitos gregos: mathesis, mimesis e semiosis.
A primeira força corresponde à força dos saberes, visto que todas as ciências estão presentes no monumento literário. E nesse sentido, a literatura é o próprio fulgor do real. Ela faz girar os saberes não fixa, não fetichiza nenhum deles; ela lhes dá um lugar indireto, e esse indireto é precioso. Mas Barthes nos mostra os dois lados dessa força: a) a permissividade para designar saberes possíveis insuspeitos, irrealizados; b) o saber que mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro.
A segunda força da literatura é sua força de representação. É, justamente, por querer representá-la que há uma história da literatura. Entretanto, o real pode ser apenas uma espécie de demonstração, e é por que há o real (pluridimensional) e a linguagem (unidimensional) que se produz a literatura. Barthes afirma: desde os tempos antigos até as tentativas da vanguarda, a literatura se afaina da representação de uma coisa. O quê? Direi brutalmente: o real . Ora, podemos fugir dessa história da literatura? Se rompermos com o elo entre o real e a linguagem. É possível? Talvez, através de existentes-não-reais somente existentes nas tentativas virtuais, na pluralidade de (im) possíveis olhares.
A terceira força da literatura é a que fora indagada acima; é um método de jogo. Teimar e deslocar-se, isto é, instituir no próprio seio da linguagem servil uma verdadeira heteronímia. Nessa perspectiva, surge a semiologia objetivando estudar a linguagem trabalhada pelo poder. Daí deslocou-se, coloriu-se. Este deslocamento.....
Em outro post!!!!

BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1988

Roland Barthes, na aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária que proferiu no Colégio de França, em 7 de janeiro de 1977, fez esta afirmativa que renova a crença nas pessoas que acreditam no poder da literatura:

"Se, por não sei que excesso de socialismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto numa, é a disciplina literária que devia ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário". (Aula: 1978 p. 18)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

FOGO ERA ONTEM

I num é que Dordélia perdeu. Não se conformou. Sentou-se ali mesmo no chão, e muito lentamente foi tirando os sapatos. Primeiro um, depois o outro, devagar alheia a tudo. Como num ritual, desabotoou a fivelinha apertada dos sapatos de Marcelina.
Na memória cada palavra da prima doía mais que ferro quente em gado marcado:
_ocê sabe, né, Delia? Esse sapatinho branco é mágico, feito a rosa mogorim que a gente infeita tudo a casa, i sem sabe como tudo di ruim vai pra longe... trôce é muita sorte esse danadinho. Era pôr nos pé, e tudo virava pro meu lado. Imprestu procê cum gosto.
_Marcelina, ocê credita im cada uma.
_Ocê que é uma descrente. Ocê nunca ficô cumo eu, perto de vô. Cuidei muito tempo dele, e apesar de toda trabaeira foi é muito bão. Aprendi por demais.
Aprendi a crê na vida, a te pacência, sabê esperá a hora certa das coisa. Vô sempre gostô de conta istória. As veis parava de falá, levantava aquele zoião como querendo vê disconfiança i mim, mai nunca incontrô, sabia que eu era atenta as coisa do mundo, i tem muito que nóis num sabe. Achu inté qui nem ele sabia.
Agora, ali sozinha, Dordélia também queria crer, pelo menos um pouco.
De repente pôs-se a chorar, com tanta força que nem sabia que tinha... chorou, chorou, chorou, seus olhos ficaram vermelhos , vermelhos como a terra em volta, vermelhos como o fogo.
O fogo que Guilhermano dizia sentir, que não se apagaria nunca. Eterno.
E pela primeira vez Dordélia benzeu-se.
Por que confiou em Guilhermano? Como não confiar? Seu jeito doce, seus olhos claros, sua fala mansa, as juras de amor sussurrada aos seus ouvidos, os lábios a roçar-lhe o pescoço, os beijos ardentes, tudo tão forte, tão intenso que ela até ruborizava, ardia mesmo, um calor tão bom.
Ele gostava. Ela sabia. Não era mais uma menina.
Quanto mais sua pele ia ficando vermelha mais ele a apertava, mais encostava seu corpo contra o dela, apertando-a contra a cerca.
Cerca que o pai fizera com tanto carinho. Por um momento sentiu-se culpada, como se tivesse traindo o pai.
A imagem da cerca vermelha, a casinha branca ao fundo, o pai gritando com o gado, a mãe ali parada na porta fingindo cuidar das plantas da varanda, aumentavam ainda mais sua tristeza.
E tudo vinha à mente de Dordélia. Ela só queria entender.
_Mãe sabia. Por que, então, acobertava? Não era muié fogosa, era até meio caladona, vivia dizendo:
- Muié tem qui si dá u respeitu, num tem tanta precisão de hóme.
_uai, pru que, intão, ficava ali oiando. Será que era vuntade?
Vontade que Dordélia e Guilhermano tinham de sobra. Era só o olhar de um cruzar o olhar do outro e pronto. Corriam lá pra cerca...
E agora o que ia ser da vida dela? E do filho que esperava? Guilhermano teria fugido, ficou com medo? Não. Não era possível. Ele mesmo falou na noite anterior:
-Delinha, tá tudu acertado cum o padre. Ele vai lá pros lado do ribeirão, sabe donde qui é?
_sei sim, i já gostei da escoia do lugar. É tão lindo, Guilhermano. A gente vê os jequetibá, as perobeira e até caneleira. Que mata que belezura... Pena né, nóis não podê cunvida ninguém, tem portância, não. To é muito feliz, vou tá toda de branco, até os sapato.
Ele não veio. Ela sabia. Não era mais uma menina.
Nada é eterno, Dordélia se enganara.
Fogo era ontem.


terça-feira, 10 de agosto de 2010

“Mundo e corpo - sujeito e objeto”

Quando minha mão direita toca a esquerda, sinto-a como uma coisa física, mas no mesmo instante, se eu quiser, um acontecimento extraordinário se produz: eis que minha mão esquerda também se põe a sentir a mão direita. Nele (meu corpo) e por ele não há somente um relacionamento em sentido único daquele que sente com aquilo que ele sente: ocorre uma reviravolta na relação, a mão tocada torna-se tocante, obrigando-me a dizer que o tato está espalhado por todo o corpo, que o corpo é ‘coisa sensitiva’, sujeito e objeto. A mão direita é sujeito? A esquerda é objeto? Ou ambas sujeito e objeto? Parece que tais questões deixam de ter importância quando nos preocupamos com a experiência sensível ou com a busca do ser bruto. A experiência tátil, o tocar e o ser tocado, bem como a experiência visível, ver e ser visto, emergem de um mesmo tipo de ser. O corpo pertence às duas ordens do sujeito e do objeto ao mesmo tempo. Tal relação pode ser transposta para a relação corpo e mundo. O corpo também pertence à ordem das coisas assim como as coisas também pertencem à ordem do corpo. É também no plano do sensível que estará a possibilidade de percepção do outro. O outro habita um mesmo campo sensível, embora não habite a mesma consciência. Mas a experiência sensível é uma espécie de entendimento anterior à qualquer clivagem sujeito-objeto ou consciência-mundo.
Mundo e corpo são simultaneamente sujeito e objeto. (M.Ponty)




Maurice Merleau-Ponty escritor e filósofo líder do pensamento fenomenológico na França, nasceu em 14 de março de 1908, em Rochefort, e faleceu em 4 de maio de 1961, em Paris. Estudou na Ecóle Normale Supérieure em Paris, graduando-se em filosofia em 1931.
Em 1955 publicou"As Aventuras da Dialética".

domingo, 8 de agosto de 2010

A POESIA E O MITO DE CURA


Muitas vezes ficamos perplexos diante do que nos acontece na vida. Estamos sempre à pro-cura disto e daquilo e até, essencialmente, de nós mesmos. O que nos move na pro-cura é a Cura. Cura, do latim, assinala o Cuidado.
A Cura impulsiona todo nosso agir. Agir se diz em grego poiein, de onde nos vem poiesis, a essência do agir, a poesia. Poesia só é linguagem quando se torna verbo-ação-poiesis. Toda poesia nos advém a partir de Cura. É essa a fala do mito “Cura”.
A fala do mito é a linguagem do sagrado, por isso nele agem e falam deuses. O ser-humano (Entre-ser / Da-sein), a poesia e a linguagem pro-vêm da Cura.
É o que nos narra o mito Cura. Ele nos foi assinalado por Higino, escravo egípcio de César Augusto, que morreu no ano 10 da nossa era. Eis a sua saga:

C U R A
"Certa vez, atravessando um rio, Cuidado (Cura) viu um pedaço de terra argilosa: cogitando, tomou um pedaço e começou a fingir/ficcionar (fingere). Enquanto deliberava sobre o que criara, interveio Júpiter [Zeus]. Cuidado (Cura) pediu que lhe desse espírito, o que ele fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado (Cura) quis dar-lhe nome a partir de si mesmo, Júpiter proibiu e dita que lhe deve ser dado o seu nome. Enquanto Cuidado (Cura) e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também a Terra (Tellus), querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram Saturno [Cronos/Tempo] como árbitro. Este tomou a seguinte decisão aparentemente eqüitativa:
"Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito, e tu, Terra, por teres dado o corpo, deves receber o corpo”. Como, porém, foi Cuidado (Cura) quem primeiro o fingiu/ficcionou (finxit), deverá pertencer-lhe enquanto ele viver. Como, no entanto, sobre o nome há controvérsia, chame-se Homem, pois foi feito de "humus" (Terra)".
Profº Manuel Antônio de Castro 
Ciência da Literatura, na Área de Poética,
Faculdade de Letras da UFRJ


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O que existe, os poetas fundam - Hölderlin

A poesia está nas ruas, assim como nas coisas. A poesia está em gestos involuntários. Entre frases obscuras. Na parede das cozinhas. Nos anéis da seiva, no tenteio dos filhotes, nas asas que latejam. Nos resíduos dos amantes, misturados com estrelas. A poesia está nos restos dos dias. Nos silêncios. Pouco percebida, a poesia verte sua secreta alquimia: transfigurar os sinais de menos, as marcas da miséria, o rumor do que poderia ter sido. Resgatar a dança de esperanças perdidas, o frescor das bocas, as mãos em luta amante com a matéria do mundo. Água vital das origens e das utopias, e sede infinita, a poesia está em tudo. No entanto, em paradoxo: a poesia é raríssima. Dificílima. Poucas, raras vezes a poesia emerge da natureza das palavras e transforma-se em poemas. Poucas, raras vezes os verbos e os nomes se fazem a carne absoluta da poesia, som e sentido em unidade mágica que recria o real, inventando-o. Milhares e milhares de versos, para algumas palavras de poesia. Muitas toneladas de matéria-prima-para alguns gramas de poema (Maiakovski).

Necessidade vital: por que tão escassa?

Por um lado, o mistério da emergência do poema, seu nascimento não redutível à consciência lógica nem à intencionalidade do sujeito que poeta. Por outro lado, há poucos instantes possíveis para o florescimento da poesia na história cotidiana.É preciso conviver com os poemas. Andar com eles. Sonhar com seus signos. Ler, reler, não sei quantas vezes. Renascer com suas palavras vivas. Expor-se à sua permanente revolução da linguagem. Deixar-se seduzir por seus cantos.


HÖLDERLIN-  foi ignorado por  Goethe e exaltado por Nietzsche. Segundo Heidegger, foi um "poeta da poesia", pois acreditava que "o que permanece, fundam-no os poetas".
 
 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Velhos sapatos.. longas caminhadas...

Imagem: fotomontagem dos sapatos pintados por Van Gogh.
by Imaginário Poético

Escrito no período de 1776, Os devaneios do caminhante solitário, até a véspera de sua morte, em 1778, o livro é um contundente e tocante registro dos derradeiros devaneios que ocuparam as andanças solitárias de Rousseau por Paris e seus arredores.

Já no primeiro capítulo, Rousseau deixa claro que este é um diário de suas reflexões, no qual pretende examinar seu afastamento e sua resignação frente à sociedade. Nestes ensaios, ele apresenta sua visão filosófica da felicidade: a dedicação exclusiva aos simples prazeres da vida ordinária, como a contemplação da natureza por meio de longas e solitárias caminhadas. Reflexivo, divertido e poético, Os devaneios do caminate solitário é uma fascinante exploração do pensamento do filósofo, que revê alguns dos momentos mais marcantes de sua vida a fim de justificar suas ações e se defender dos críticos que o condenaram ao esquecimento.

Publicado postumamente, este grande testamente inacabado é considerado pelo próprio autor como a conclusão de sua obra. Diferente de seus outros escritos, marcados por discursos inflamados, Os devaneios são relatos líricos e serenos, que retratam sua sensação de isolamento e estranheza pelas críticas à sua obra e às suas posições humanistas. Os textos, compostos por dez capítulos denominados “caminhadas”, combinam argumentos filosófico com saborosas anedotas que expõem as considerações do filósofo sobre a natureza do homem, sua individualidade e conduta.

Os devaneios do caminhante solitário
de Jean-Jacques Rousseau
Tradução de Julia da Rosa Simões
 Coleção L&PM POCKET – 144 páginas


domingo, 25 de julho de 2010

"Ser o que sê é...


 
Essa clareza que me chega, lentamente, chega com a noite à lua já alta, traz consigo o cheiro da terra molhada, de flores minúsculas, de ervas do campo, de girassóis distantes, de sons e silêncios.
Mostra-me a vida que palpita no mundo e também no coração dos homens. Um saber que alegra meu corpo toca no profundo de mim, e diz, que não é preciso sorrir o sorriso falso, alardear aventuras inexistentes, e ser o que não se é.
Essa clareza, senhora de si, tem no viver reminiscências das conversas que o dia ouve e produz, dos livros lidos no cansaço dos olhos, das palavras soltas gravadas na memória, e a indiferença aos que sonham sonhos alheios.
Porque sabe que é preciso a busca, seja de uma paisagem, de uma flor, de uma idéia, de um homem ou de uma mulher.
Essa luz, esse saber, fez morada no meu peito, dorme e se levanta comigo e, feito o poeta, me diz bem baixinho:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”


poesia: Ricardo Reis- heterônimo de Fernando Pessoa
texto sueliaduan

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um par de óculos e uma centena de lentes


A relação do homem com o mundo é sempre mediada por suas ferramentas. Ele constrói, apreende e interpreta a realidade a partir dos instrumentos que lhe são fornecidos pela cultura. Tecelão quase compulsivo de si próprio, borda sem cessar teias de significados para dar sentido ao mundo. (GEERTZ, 1989)
Essas teias, onde se misturam pontos abertos e fechados, novos e antigos, e linhas de todas as cores, é a cultura. É a partir desse véu da cultura, dessas lentes, que vemos então as coisas, os outros, e a nós mesmos. Cada cultura, entretanto, teria seu par de lentes próprio, ou, no máximo, certo número de lentes utilizáveis, certo leque de possibilidades de formas de ver o mundo. As lentes de uma sociedade nunca são as mesmas de outra. (BENEDICT, 1997)
Ainda que tenham semelhanças, são encontradas certas nuanças e particularidades. O que pode ser considerado ponto comum entre todos os homens é a armação, a existência dos óculos em si. As lentes, sempre diferentes, vão variar em espessura, cor e formato.
Uma vez vendo os outros por detrás dessas lentes, e a partir de uma visão de mundo, há uma tendência em considerar nossa forma de ver e fazer as coisas como a mais correta, ou mesmo a única correta. Tal postura etnocêntrica consiste em tomar o que é nosso como o verdadeiro, e o que é do outro (e o que é o outro) como digno de reprovação, dando assim aos nossos valores um suposto caráter de universalidade.
Uma vez estando ao nosso lado todas as verdades e a certezas, estaríamos autorizados a interferir, em nome de nossa bondade e piedade, no que é do outro. (TODOROV, 1993)

A Arte de Sensibilizar o Olhar ou Por que ensinar Antropologia?
D. Krischke Leitão.

domingo, 18 de julho de 2010

Versos Alheios


No papel quem me dera palavras.
Chamo Pessoa ele não me escuta.
Quero versos.
Quero também ser do tamanho da minha aldeia.
Quero falar dos sentimentos das pedras.
São só pedras.
Poetas, poetas.


As palavras sufocam.
As idéias morrem.
E o papel ficará em branco.
Branco como a morte.
Lispector empresta-me borboletas.
Quero também voar,
Voar no mundo das palavras


Mas não sou poeta.
Sou um severino,
um sertanejo.
Para mim tudo é
terra,
gente,
fome.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ainda não era

O quintal já não bastava. Os netos, as brincadeiras, o aroma do pé de tamarindo, as aves, o fruto doce, a natureza toda ali presente em seu existir silencioso.
Ainda assim precisava adentrar na mata ouvir os diversos pássaros, escutar a melodia de seus cantos, ver o correr das águas límpidas do rio, ouvir o farfalhar dos animais em seu caminhar, o movimento das árvores ao vento. Dança e magia.
Mesmo com a idade avançada sentia-se como um menino curioso, olhar travesso, peralta, olhar de pássaro. Visão fontana.
E mal rompia a manhã lá estava ele caminhando. Era um andarilho. Saía percorrendo as vielas, olhando as casas, o pouco movimento em volta. Subia e descia morros, parava um pouco, respirava fundo e seguia calmamente.
Ouvir, ver, cheirar, tocar, era tudo que queria, parecia mesmo um ritual quase religioso. Uma devoção.
Quando avistava o rio, como que hipnotizado, lentamente descia até as margens e ali sentado, olhos fechados, sentia o cheiro bom da terra, o barulhinho das águas. Tudo estava bem. E a vida era boa. Nem tanto.
E, assim em alucinados gestos se deixava possuir pela natureza ali presente.
Feito bicho, gritava , pulava, dançava. Ainda não era. Só vivia

sábado, 10 de julho de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:



Fico toda vermelha, rubra, quando ele olha para mim, e completa: olha no fundo de mim. Eu rio, mas o que ele não sabe é que essa vermelhidão toda não é exatamente por conta do motivo que ele pensa, ou melhor, pelo que eu penso que ele deve estar a pensar. Trata-se não do olhar e sim do falar. Desde muito jovem eu já reagia assim. Minha respiração ficava lenta e meu corpo todo mole. Sempre tive uma vaga impressão que ia desfalecer, bastava ouvir algo que me entristecesse ou que me causasse espanto e a tonalidade da minha pele mudava, às vezes ficava só levemente avermelhada. Dependia muito do que escutava.
—que nada, mente pra ela, não é sua mãe? Mãe perdoa, boba (ficava rosa claro);
—mas é da Manoela... Ela nem vai perceber, pega logo, é só um bombom (vermelhinho);
—comigo não, mulher que traí merece bala (vermelho rubro);
—essa gente... Pobre é tudo vagabundo (vermelho intenso).
—coisa de veado (vermelho, rubro intenso)
Cresci assim, depois com a idade fui agregando outros tons, oscilando entre vermelho fraco e forte, líquido ou com um sorriso disfarçado.
Um outro amigo, desses que percebem no ar uma situação delicada, veio em meu socorro e de um fôlego só disse: - fica feliz, amiga, a maioria das pessoas não se espanta mais com nada, imagina, então, ruborizar. Mas, além de prestativo, ele também é muito curioso e queria saber o porquê de tanta vermelhidão. Eu até ia explicar, dizer da minha estranheza frente a um mundo tão desigual, imprevisível, triste e belo. Belo como o vermelho da rosa que o amante levou para sua amada, triste como o sangue do menino baleado na esquina, surpreendente como o vermelho dos meus cabelos brancos, mas não tive nem tempo, não.
Derrepente, lá estava o amigo maior, desses que nunca deixam a gente vermelha, mas que nos colocam em brasa, tamanha sabedoria.
E, foi logo dizendo: — Ela é assim mesmo, jóia rara! Eu rio.


terça-feira, 6 de julho de 2010

Melancolia


Por quê?

a geometria não exclui a melancolia.
Quero o triunfo da linha reta,
garantia de um ponto fixo.
Continuarei meu caminho como?
Como um Édipo errante.
Quero algo certo.
ou a certeza de que no mundo,
nada é certo.
Paralizo-me.
E não é sono, preguiça,
É pensamento, perplexidade.
Incoerência da vida.
Tudo: quantidade e volume.
A esfera me faz sofrer.

sábado, 3 de julho de 2010

Serventias da Literatura


Quem milita com Literatura neste mundo de coisas utilitárias, às vezes se vê instigado a responder de pronto: Para que serve mesmo a Literatura? A resposta parece óbvia, mas na hora de responder assim de chofre e de forma objetiva, acaba-se caindo em apuros.
Em primeiro lugar, para se dar uma resposta que convença minimamente, será preciso admitir que há certos fatores que entram na composição das forças do mundo que são, digamos, imateriais. Como a força do Papa, por exemplo, que não tem nenhuma divisão de brigada, mas conseguiu interferir em muitas guerras ao longo da História. São forças não passíveis de avaliação imediatamente em peso, medida ou valor monetário. São coisas que não entram no cálculo do PIB, mas são primordiais. Como o ar , que ninguém calcula o seu preço, mas sem ele não existiríamos para dar preços às outras coisas. Com uma diferença significativa: o ar é natural; a Literatura é invenção da cultura humana.
Seja como for, valendo-me de um ensaio de Umberto Eco, aí vão alguns exemplos de utilidade da Literatura que consegui elencar:
1º — A Literatura contribui para a formação, estabilização e desenvolvimento de uma língua, como patrimônio coletivo. O que seria da língua portuguesa sem Luiz de Camões? O que seria do Italiano sem Dante Alighieri? O que seria do Espanhol sem Cervantes? O que seria do Inglês sem Shakespeare? O que seria da Civilização e da língua grega sem Homero? O que seria da língua russa sem Puchkin? É bom lembrar que línguas que não tiveram uma Literatura que sobressaísse entraram em decadência sem alcançar o apogeu.
2º — A Literatura mantém o exercício, o arejamento, o frescor da língua, que é o principal fator de criação de identidade, de noção de comunidade, do sentimento de pátria e pertencimento a uma placenta cultural que nos acolhe e nos dá sentido à vida tanto individual quanto coletivamente.
3º — A Literatura proporciona o aprendizado, de uma forma lúdica e segura, ao mesmo tempo em que permite o acesso das novas gerações aos valores universalmente aceitos como válidos, como a honestidade, o respeito ao próximo, a importância da cultura, enfim a transmissão de valores morais, bons ou ruins e o senso crítico de escolha entre eles ou rejeitá-los.
4º — A Literatura expande a rede neural do leitor, possibilitando a diversidade das idéias, a capacidade de reflexão, a noção de flexibilidade e a tolerância para com o diferente.
5º — A Literatura enseja o surgimento e a disseminação de valores estéticos, introduzindo na vida das pessoas o verdadeiro sentido do belo, distinguindo-nos da fauna geral.
6º — A confabulação da literatura nem sempre segue o caminho desejado pelo leitor, possibilitando a ele entrar em contado com a frustração ficcional, como exercício das frustrações impostas pela vida de fatos, às quais é bom que resista.
7º — A Literatura, como toda arte, amplia a visão da realidade e cria realidade nova.
8° — Pelo que foi elencado, a Literatura não é uma panacéia — um remédio para todos os males —, mas a base, a plataforma de lançamento de cidadãos melhores, numa sociedade do tipo que todas as pessoas de boa vontade desejam ver implantada.
Certamente o leitor verá “utilidades” diferentes ou mesmo complementares a estas.

POR EDIVAL LOURENÇO EM 03/07/2010 ÀS 02:32 PM
Revista Bula

terça-feira, 29 de junho de 2010

Tomás de Aquino e a saudade

O pensamento e a vida estão mais ligados à linguagem do que em geral supomos. A força viva da palavra não só transmite, mas até mesmo gera e preserva, em interação dinâmica, o que pensamos e sentimos o que podemos pensar e sentir... Sem a palavra, nossa percepção da realidade é confusa ou nem sequer chega a ocorrer. Valem para toda a realidade humana as considerações sobre a "latência", que Moles tece em seu estudo O Kitsch. Valendo-se de uma metáfora fotográfica, ele fala de uma revelação das impressões confusas, pelo surgimento de um vocábulo: "O surgimento nas línguas germânicas de um termo preciso ("Kitsch") para designá-lo levou-as a uma primeira tomada de consciência: através da palavra, o conceito torna-se passível de apreensão, e manipulável... O trajeto científico para conhecer, começa por nomear. De fato, sem a posse da palavra Kitsch é-nos muito mais difícil reparar em que há, no fundo, qualquer coisa de comum entre o pingüim da geladeira, o anãozinho do jardim e o quadro de cores fosforescentes... É precisamente neste ponto fundamental da educação que Pieper insiste em Das Viergespann interação entre a possibilidade de percepção (e vivenciamento da realidade moral) e a existência de linguagem viva. O empobrecimento do léxico é assim, hoje, um dos principais problemas da educação, na medida em que gera um círculo, literalmente, vicioso: a falta de linguagem viva embota a visão e o vivenciamento da realidade; o definhamento da realidade esvazia (ou deforma) as palavras... Faltam-nos os conceitos, faltam-nos os juízos, falta-nos acesso à realidade. Certamente ocorre, antes da formação do conceito em nossa mente, aquilo que Tomás de Aquino chama de collatio, um ajuntamento e comparação de impressões, uma pré-abstração, feita pela "capacidade cogitativa" (para usar uma vez mais a linguagem do Aquinate). Contudo, enquanto não há conceito e palavra, andamos inquietos à busca deles, ou passamos à margem da realidade sem nem sequer a ver. Aquela inquietude que se manifesta tão claramente na teimosia com que nos esforçamos por trazer à memória um nome esquecido. A interação palavra-vida torna-se ainda mais decisiva quando se trata de atingir sentimentos mais sutis e complexos do coração humano: neste caso, cada povo costuma gerar a palavra que se apropria do sentimento que é mais conatural e, reciprocamente: o sentimento se torna como que conatural porque a palavra se apodera do falante desde a infância. Nesse sentido, Portugal e Brasil têm a sua palavra por excelência, que certeiramente penetra nos meandros do coração e atinge aquele complexo agridoce que chamamos saudade. Como, por exemplo, traduzir para outra língua o verso da canção de Isolda: "Das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de ter...?" Tomás, no século XIII (quando mal havia português e não estava formada a palavra saudade), fez um agudo diagnóstico - em que inclui até a explicação causal - da saudade: a dor - diz ele - é por si contrária ao prazer, "mas pode acontecer que um efeito colateral (per accidens) da dor seja deleitável, como quando produz a recordação daquilo (pessoa, terra, etc.) que se ama e faz perceber o amor daquilo por cuja ausência nos doemos. E assim, sendo o amor algo deleitável, a dor e tudo quanto provém desse amor também o serão. Se a caracterização em si já é perfeita, ela se mostra mais genial ainda quando nos lembramos que São Tomás não era português nem brasileiro.

Conferências de Filosofia pesquisa:sueliaduan  
USP- 1998
L.J. Lauand

sábado, 26 de junho de 2010

Muros do silêncio

IV capítulo
Final
Era toda terra

Na volta para casa não pode deixar de olhar mais uma vez para o riacho, e  emocionar-se com os pedaços de gelo sob a  superfície formando uma espécie de manto branco.  Derrepente teve a leve sensação de já ter vivido esse momento. Observava um outro rio com águas mais escuras, e não estava só , ao seu lado um jovem trajando um paleto cinza e uma boina vermelha seguia. Gesticulava muito, apontava o dedo para o alto e, às vezes, gargalhava. Essa imagem a impressionou tanto a ponto de molhar os pés nos riacho como forma de saber-se presente, de que não estava a sonhar. Ao sentir a água gelada foi tomada por uma imensa alegria nunca sentida antes . E rindo correu pelos campos feito uma menininha  feliz ao encontro do pai. O pai que sempre esteve ausente, que nunca sorria , que sempre reclamava. 
Liu por um breve momento esqueceu-se de tudo, da vida difícil que levava ,do cesto de frutos,das mãos de sua mãe, da colina e de todo o resto. Só queria  sentir a vida fluindo ao seu redor. A aldeia viva que tanto desprezava agora pulsava dentro do seu coração. Ela era toda terra, flores, umidade e riacho.
E foi envolta numa espécie de nuvem que avistou o pai. De longe pode perceber que ele  conversava com um jovem. E para seu espanto ele trajava um paleto cinza e uma boina vermelha. Gesticulava muito, e junto com seu pai apontava o dedo para o alto, ambos gargalhavam. 
Liu sentiu o coração disparado, a boca seca, as pernas trêmulas e já não havia necessidade de explicar nada. Tudo estava claro como o branco do gelo cobrindo o rio.
Silêncio e morte entrecortados pelos muitos risos do homenzinho de boina vermelha.

 

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Muros do silêncio

 
 III capítulo
O dia amanheceu
Derrepente um pensamento surgiu em sua mente, mas tão forte, tão vivo, como se  houvesse alguém ali junto ao seu ouvindo, soprando conselhos, dando-lhe ideias. E eram boas e simples.
Num instante estava novamente vestida com sua velha bota , o casaco verde claro e um cachecol tecido pela mãe há muitos e muitos anos.
Abriu lentamente a porta do quarto e pé ante pé desceu a colina. Com passos firmes e decidido. Não poderia mesmo ser diferente. Não para ela .
Ainda que lágrimas enchem-se seus olhos, havia um sorriso se formando em seus lábios quase imperceptível ao olhar alheio. O sorriso que é fruto da  coragem e  da ousadia daqueles que escolhem o próprio caminho. 
E, foi com essa alegria que Liu se apresentou ao chefe da aldeia. Um homem de olhar penetrante, voz serena e com uma infinita capacidade de ouvir.  
Liu falou por horas e horas, juntos ali sentados de costas para o riacho viram o dia amanhecer e a neblina se dissipar como numa passe de  mágica.
Liu já não queria mais ir embora da aldeia. O sonho há tanto acalentado também se dissipou. Tudo o que queria ,agora, era voltar para casa e explicar ao pai. 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Muros do silêncio


II capítulo
A difícil jornada 
Triste também era olhar a terra e assistir lentamente a morte das plantas. O suor de tantos meses ali perdido, junto a  fome e a miséria do povo da aldeia. Liu sofria com tudo isso e sabia: - Era preciso fazer alguma coisa. Mas o quê? Pai  reclamava ,reclamava, mas não queria ir embora, tentar novos rumos. Era apegado ao lugar. Liu lembrava da infância, da mãe descendo a colina com o cesto carregado de frutas e seus olhos enchiam-se de lágrimas. Recordar a mãe segurando sua mão, entoando lindas cantigas com voz forte e serena, era o que fortalecia e apaziguava seu coração para a difícil jornada .
Assim passaram -se anos. Mae e filha descendo e subindo a colina todos os dias, regando,colhendo e  vendendo as flores e os  frutos da terra.  Com a morte da mãe, agora seu caminho era feito com o pai. Não era o mesmo caminhar. Nem o caminho era o mesmo. Não havia cantigas no ar e as mãos iam balançando junto ao corpo num abandono só.
Liu olhava  nos olhos de seu pai, desviava o olhar rapidamente e  com o coração apertado sonhava com um outro viver, um outro mundo. Sabia  que un dia, não muito distante, não estaria mais ali. E isso era tudo o que queria.
Mas porque,então, perdeu o controle? E como seguir adiante sem resolver o acontecido. Esses pensamentos ,naquela noite fria, era o que preenchiam sua mente.

terça-feira, 15 de junho de 2010

"O imponderável"

Agustina Bessa-Luís 
(Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa-Luís)

Trecho- "A Sibila"
[... era Quina a primeira a auscultar uma conduta estranha, um gesto, uma palavra que se não previram, um passo que fugiu do equilíbrio, uma decisão falhada, uma razão que sofreu um súbito reencontro e daí surgiu o inesperado. O imponderável nas criaturas era para ela motivado pela influência de espíritos favoráveis ou malignos, sombras manifestas do além. Mercê dum sentido finíssimo para se embrenhar nos fenômenos da natureza humana ou simplesmente do meio vital, com os seus elementos, suas causas e efeitos, depressa adquiriu uma sabedoria profunda acerca de todos os ritmos da cons­ciência, do instinto, das forças telúricas que se conjugam no fatalismo da continuidade. Conhecia os homens sem o aprender jamais. Sabia, uma por uma, qual a reação que correspondia a determinado tipo, perante determina­do fato. Adivinhava-lhes os pensamentos, mesmo antes de ela os poder raciocinar. Um sorriso fazia-a pôr-se em guarda, assim como uma aranha que tecia a sua teia duma folha a outra dum pé de malva a decidia a mandar espalhar o grão na eira, ou os carolos de milho ainda úmidos da debulha. Como o que distingue para lá das montanhas qual a sombra de fumo, de pó ou de nuvem; como o que na floresta conhece o rasto do animal em tempo de caça ou tempo de amores; como o que aspira no vento o perigo, como o que pressente na atmosfera a confiança ou a traição, assim ela vivia, intensamente adaptada com essa capacidade selvagem de defesa, de astúcia, de previsão e pré-conhecimento da vida e das coisas e que o homem civilizado, unido em rebanhos pacíficos, amparado em convenções artificiais, vai perdendo ou nunca desenvolve por completo.]
1ª edição de 1954. Guimarães editores.

pesquisa e título no blog- sueli aduan

sexta-feira, 11 de junho de 2010

    Corpo lugar da Alegria
"Um pensar em Deleuze e Vinícius"
Houve um tempo, há muito, muito tempo em que a alegria era pura mania,e, as palavras usadas eram efetivamente vividas na loucura do dia-a dia e do encontro, encontro como parte da vida.
Essa mania: bom delírio, delírio do poeta, delírio do contemplador, delírio do pintor que descobre a cor, era só o que existia, feito a uma bailarina que só pode dançar na ausência do pensar, ausência do saber-se finita. Medo da morte, e então perder-se no movimento do corpo lugar da alegria.

"...é melhor ser alegre
que ser triste
a alegria é a melhor coisa que existe
é assim como a luz no coração......,
mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza,
senão, não se faz um samba não...."