segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ah! Esse Guimarães...

Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago...foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.




segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"Se você parar para pensar"


Na correria do dia-a-dia, o urgente não vem deixando tempo para o importante. Essa constatação, carregada de estranha obviedade, obriga-nos quase a tratar como uma circunstância paralela e eventual aquela que deve ser considerada a marca humana por excelência: a capacidade de reflexão e consciência. Aliás, em alguns momentos, as pessoas usam até uma advertência (quando querem afirmar que algo não vai bem ou está errado): "Se você parar para pensar..." Por que parar para pensar? Será tão difícil pensar enquanto continua fazendo outras coisas ou, melhor ainda, seria possível fazer sem pensar e, num determinado momento, ter de parar? Ora, pensar é uma atitude contínua, e não um evento episódico! Não é preciso parar – nem se deve fazê-lo – sob pena de romper com nossa liberdade consciente. Isso, de certa forma, retoma uma séria brincadeira feita pelo escritor francês Anatole France (Nobel de Literatura em1921, um mestre da ironia e do ceticismo) quando dizia: "O pensamento é uma doença peculiar de certos indivíduos, que, a propagar-se, em breve acabaria com a espécie".Talvez "pensar mais" não levasse necessariamente ao"término da espécie", mas, com muita probabilidade,dificultaria a presença daqueles no mundo dos negócios e da comunicação que só entendem e tratam as pessoas como consumidores vorazes e insanos. Talvez um "pensar mais” nos levasse a gritar que basta de tantos imperativos. Compre!Olhe! Veja!Faça! Leia! Sinta! E a vontade própria e o desejo em contornos? E (ainda lembra?) a liberdade de decidir, escolher, optar, aderir? Será um basta do corpo e da mente que não mais agüentam tantas medicinas, tantas dietas compulsórias, tantas ordens da moda e admoestações da mídia; corpo e mente que carecem cada dia mais, de horas de sono complementares, horas de lazer suplementares e horas de sossego regulamentares, quase esgotados na capacidade de persistir, combater e evitar o amortecimento dos sentidos e dos sonhos pessoais e sinceros. Essa demora em "pensar mais", esse retardamento da reflexão como uma atitude continuada e deliberada, vem produzindo um fenômeno quase coletivo: mais e mais pessoas querendo desistir, largar tudo com vontade imensa de sumir, na ânsia demudar de vida, transformar-se, livrando-se das pequenas situações que as torturam que as amarguram que as esvaem. Vêm à tona impulsos de romper as amarras da civilidade e partir, céleres, em direção ao incerto, ao sedutor repouso oferecido pela irracionalidade e pela inconseqüência. Desejo "grandão" de experimentar o famoso “primeiro a gente enlouquece e, depois, vê como é que fica...” Cansaço imenso de um grande sertão com diminutas veredas?Quando o inglês (nascido na Índia) George Orwell, no final dos anos 40 do século passado, publicou a obra "1984" - uma assustadora utopia negativa quanto ao futuro das sociedades, nas quais não haveria liberdade, individualidade e privacidade –, despontou no Ocidente um disfarçado e ansiado consenso (apoiado em uma simulada expectativa):tudo aquilo que ele colocara no livro jamais poderia acontecer nem se relacionava com o porvir do mundo capitalista. No entanto a macabra história sobre uma sociedade totalitária vai além de fatos abstratos e atinge hoje, em cheio, o terreno da “mercadolatria". Orwell disse que, numa sociedade como a que prenunciou, "o crime de pensar não implica a morte, crime de pensar é a própria morte”. Pouco importa, dado que ser humano é ser capaz de dizer "não" ao que parece não ter alternativa. Apesar dos constrangimentos e da tentativa de seqüestro da nossa subjetividade, pensar não é, de fato, crime e, por isso, claro,não se deve parar.

CORTELLA, Mário Sérgio. Se você parar para pensar. Folha de São Paulo, 24 de maio de 2001. Folha Equilíbrio, p.15

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

"E criar, a grande redenção".


Nossa cultura não nos incentiva a lutar, mas a chorar, a nos vitimar. Valorizamos e protegemos os fracos ao mesmo tempo criticamos os ousados, criativos. Consideramos o trabalho uma penalidade, e nosso sonho maior é sempre descansar. Mas a vida é sempre o resultado de uma luta. O fim da luta é a morte. E criar, a grande redenção. Para Nietzsche criar, mais do que um gesto individual, é um processo de integração e participação na vida. A vida cria em suas constantes transformações, em seu eterno jogo de vida e morte. Ao homem cabe dizer sim ou não a este processo, isto o define como homem. Ao dizer sim ao que os gregos chamavam de devir, o vir-a-ser constante das coisas, o homem se vê inserido em um processo que necessariamente leva à criação. Criar é suportar as contradições e intensidades da vida no corpo, é transformar em signo este movimento excessivo que é viver.

A PALAVRA

é uma roupa que a gente veste
uns gostam de palavra curtas
outros usam roupa em excesso
existem os que jogam palavra fora
pior são os que usam em desalinho
cores brigando,substantivo em luta
alguns usam palavra rara
poucos ostentam palavras caras
tem quem nunca troca
tem quem usa a dos outros
a maioria não sabe o que veste
alguns sabem e fingem que não
uns nunca usam a roupa certa para a ocasião
tem os que se ajeitam bem com pouca peça
outros se enrolam em um vocabulário de muitas
eu adoro usar palavra limpa
tem gente que estraga tudo que usa
com quais palavra você se despe?
Viviane Mosé

Viviane Mosé - É psicóloga e psicanalista-Mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro

sábado, 4 de dezembro de 2010

Talvez seja, e daí?


À medida que caminhava percebeu que seria impossível levar toda aquela bagagem. Distante do embarque e sem ninguém para ajudá-la tomou rapidamente uma decisão. Era uma pessoa de movimentos rápidos, porém de imensa serenidade na execução deles. O que lhe conferira imensa graciosidade.
Assim, soltou no chão o baú maior, a bolsa foi escorregando naturalmente sem que precisasse fazer o mínimo esforço. Sentou-se totalmente à vontade na esperança que um táxi, ou  uns momentos de descanso fossem suficientes para continuar a trajetória.
E, passados alguns minutos uma impaciência, coisa rara em sua vida, começou a tomar conta de sua mente. A sensação era péssima. Procurou na bolsa os óculos e não achou. Só pra ajudar  tinha esquecido.
E do que ia adiantar, agora, estar com eles. Por acaso estou cega, conjecturou? Ou será que pretendo aqui no meio do nada ler? Era só o que faltava. Diabos, por que é que na pior das situações me vem esses pensamentos: ler, colocar óculos, comer chocolate, vai ver é assim com todo mundo. Talvez seja. E daí? O que isso ajuda?
Nossa já é noite. Agora sim vou precisar dos malditos óculos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Quis acordá-la, mas não.


Desço a rua tranqüilo. Olho o relógio. Seis horas. À rua deserta escuto o farfalhar de meus passos sobre o chão, cadenciado passo, dança e música misturadas ao silêncio existente. Na mente nenhum pensamento ordenado ocorre. Trajeto feito todos os dias, hábito enraizado, é só seguir em frente.
Em alguns dias a atenção volta-se para o andar, em outros para a respiração, há ainda aqueles dias em que se fixa nos cheiros, nos aromas das casas, nos lixos tombados, no latido do cão, e finalmente no gato fugindo sorrateiramente.
Feito a pássaro livre em seu vôo matinal, ela muda rapidamente. O que determina essa atenção? Nenhuma escolha prévia. Nada.
Somente o olhar e o sentir. Distância encantatória entre as coisas e o homem. Foi numa dessas manhãs, que inexplicavelmente e numa fração de segundos passei do sentir ao pensar. Um único pensamento tomou conta de todo o meu ser. Perdi a tranqüilidade, o silêncio, a música, a dança, o chão. À medida que caminhava percebi que seria impossível viver sem resolver tamanho tormento. Pessoa de extremos voltei para casa. Olhei teu corpo na cama, passei-lhe suavemente as mãos pelos cabelos negros. Quis acordá-la, mas não. Para quê? Sobre o móvel deixei-lhe a chave.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:


Poderia ficar em casa e tecer um lindo bordado, e depois também poderia fazer um gostoso bolo e depois de um tempo, mais descansada, poderia molhar as plantas, brincar com os gatos, dar banho no cachorro e depois... E depois... Olhei-o no fundo dos olhos buscando entender qual o motivo, se é que existe um, dessas sugestões. Mas nada consegui. Vai ver esse meu amigo tem a capacidade de contrariar a máxima de que os olhos são a janela da alma. Não vi nada de alma nessas sugestões tão estapafúrdias.
Já um outro amigo, estudante de psicologia, desses que gostam  de tudo explicadinho com os pingos nos seus devidos “is”. Veio com essa:  é preciso conciliar os afazeres, diversificar, ser criativo e impostando a voz continuou todo seguro de si, ou seja, entre um bordado e outro, um bolo e outro deve-se visitar um museu, ler um bom livro, assistir um bom filme. Como se não fizéssemos isso e muito mais. Pronto, pensei com meus botões, está aí à chave da felicidade. Diversifica-se e tudo resolvido. Na hora fiquei com uma vontade imensa de sugerir um novo olhar sobre seus conceitos, mas pensei com meus botões: vai que ele se ofenda, e se tem uma coisa que aprendi e respeitar a ignorância alheia, já com a inteligência não precisamos ir com tanta cautela, não. E a boa discussão corre solta.
Já um outro amigo, esse sim, um questionador nato. Disse-me que somos feitos para o encontro, que é só no encontro com o outro que reside à possibilidade de nos conhecermos melhor, de aceitarmos nossos limites, reconhecermos nossas fraquezas, superarmos as nossas mazelas. E que na verdade seja homem, mulher, jovem, velho, criança não gostamos do automatismo no viver, mas que não basta pular de uma coisa para a outra, não. E brincalhão que só ele, sorridente, diz: não é porque descendemos do macaco que basta pular de um galho a outro. E calmo olhando fundo nos meus olhos completa: seres singulares que somos cada qual escolhe seu jeito de caminhar, mas nada sabemos de antemão e aí reside a beleza do viver. Enxergo no seu olhar à janela da alma, na sua voz serena a imensa sabedoria daqueles que sabem que a palavra está dentro de nós,  que somos produtos da linguagem. Linguagem escrita no nosso corpo. Lugar dos nossos desejos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

É só um café. Será?

É que foi acontecendo devagar dia após dias, eu mesma no começo não percebi. Sabe quando se bebe água sem muita sede só porque sabemos que é preciso. Bebe-se devagar saboreando cada gole lentamente. É, talvez seja isso. Devagar eu fui saboreando esse cansaço. Cansaço de sair da cama todas as manhãs, cansaço de falar até as coisas mais banais. _ Bom Dia, Lucinha você já trouxe os pães? Ah! Que ótimo. Pão doce? Gosto tanto. Também poderia não dizer nada. Calar-me ou simplesmente dizer: _Lucinha, hoje, teremos convidados para o jantar. Faça algo diferente. E se ela coloca um laxante em meu suco? Ou até algo mais forte só de raiva. Acontece. Só eu para pensar isso. Será? Em algum momento da vida de cada um deve ter ocorrido esse tipo de pensamento. E se eu não for mais agradável com todos. Condescendente, compreensiva, tolerante, amiga, mãe, filha, nora, amante. E se me mandam embora do trabalho, se me evitam, se meus filhos nunca gostaram de mim, se aquela vizinha tão boa, voz tão meiga, é a primeira a falar de mim, e se, e se. A diferença é que comigo isso atingiu proporções absurdas, para cada gesto, cada situação cotidiana um questionamento sem fim. Cansaço das coisas tidas normais. E se eu demonstrasse. Não sorrisse mais ao cumprimentar os colegas no trabalho, não aceitasse os convites, faltasse ao encontro com os amigos, não visitasse aos domingos minha mãe, minha sogra, minha tia, se pouco ligasse se os filhos gostam ou não gostam de mim, se não quisesse mais falar com ninguém. Isolasse-me? Por quê, não? E é no fundo de mim  que esse mistério  do pensar se instalou , me fez sorrir e cada vez mais sólida numa quase demência fecho todas as portas. Vagarosamente bebo meu café.

domingo, 14 de novembro de 2010

"Um som ensandecido"

 
Derrepente percebeu que não fazia o menor sentido continuar. Estava exausto e com toda certeza aquela não era a rua. Como pudera se enganar tanto? Bastou esse pensamento e, numa seqüência doentia, muitos outros afloraram: - não era esse o melhor sapato a usar. Não era esse.... Não era essa... Não era aquela... Até que se deu conta de que não era doentia essa sua forma de viver, ao contrário, justamente ao abrir esse leque de possibilidades uma nova sensação surgia. Era ele um sujeito privilegiado, divagar sempre o entusiasmava e mesmo diante do cansaço sentia-se revigorado rapidamente. Foi com esse pensamento que avistou no finalzinho da rua a casa. Não tinha dúvidas. O vaso na entrada com campânulas roxas, as preferidas dela, o portão azul recém pintado. E tudo à sua volta a lembrar-lhe outros tempos. Ah! Sempre o tempo, senhor absoluto, cobrador implacável. Com o pensamento já apaziguado resolveu tocar a campainha, mas não foi preciso. O acaso se fez presente e lá estava ela um pouco mais envelhecida também, mas não menos bela, descendo as escadas com o mesmo andar firme e decidido. E, assim de sopetão entre sorrisos, com os olhos marejados de lágrimas e com uma voz trêmula disse-lhe:-.Houve tempo — sim, houve em que me fiz duro e ameacei que não voltaria mais. Voltei. Podemos agora subir no palco dessa cidadezinha adorável e concretizar nosso velho sonho e um bom rock tocar. O que se ouviu naquela noite foi um som ensandecido de guitarra no ar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Emitia um som"

Era um sujeito de poucas palavras. Desses que encontramos raramente e quando isso se dá, penso eu, que só nos cabe o silêncio, o muito pensar.  Não posso dizer que não fiquei intrigada quando dirigiu-se a mim lentamente e quase num sussurro perguntou-me se podia fazer-lhe  a gentileza de  digitar  uma carta. O pedido me deixou sem ação, ele percebeu e com um sorriso largo foi logo se explicando. Machuquei ontem a mão, brincando com um bichinho que emitia um som: miau, miau, disse e sorriu. Diante do inusitado do relato também sorri. Sorrimos.  O que poderia eu responder? O que faria qualquer pessoa em meu lugar, diante de um homem sensível, apreciador de gatos, a não ser de pronto aceitar simples incumbência.  E foi o que fiz.  Foi quando percebi certo tremor em seu corpo e um brilho no olhar que jamais me esqueci. Estranhamente o seu olhar voltou-se para o céu estrelado, a lua indo alto, e a primeira frase da carta ditada pausadamente.  Estou voltando e levo comigo um miau.


domingo, 7 de novembro de 2010

Trago comigo

 
Deixou claro, feito à lua que iluminava aquelas viagens sem fim, que só é gente àquele que não careça de nada, que a tudo agradece ao nosso senhor Jesus Cristo e na dor enxergue a bondade divina. Sua voz doce ainda é um canto de ninar aos ouvidos da mulher em que hoje me transformei. E trago comigo, como num cofre, cada uma daquelas paradas em que mãe e eu ficávamos a olhar a terra seca, o gado magro, o povo sofrido. Mas eu não queria aquela vida para mim, vida do sertão, doída como gado queimado a ferro, triste como menino sem escola. E diferentemente de mãe eu não acreditava no destino traçado, na sina a cumprir, na cruz a carregar. Sempre acreditei que a escolha se dá à  cada passo, à cada manhã, à cada respirar, mas maínha, como eu costumava chamá-la, tinha outra crença. Dessas que fortalece o sujeito que segue sem nada questionar. E assim na primeira oportunidade vim embora. Hoje passado tantos anos a morte de maínha é só um quadro na minha memória, e eu sigo sem questionar.

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

da série: "Um pouquinho de Teoria Literária”



Estamos vestidos de alfabeto, não sabemos sequer nosso nome.
Murilo Mendes
“A linguagem é dimensão da existência. Em quase todos os pulsares do nosso pensar, revelam-se nomes e verbos. Nossos gestos têm rastros de signos. Ressoam em nós redes de símbolos. Nossos corpos são feitos também com palavras. Os medos, o desejos, as lutas e os amores raramente podem ser separados de nossas vozes. No entanto, como tem estado entre nós, neste século, a relação entre a linguagem e á vida?”. M.Mendes.

Creio que fazemos coisas com as palavras e, também que as palavras fazem coisas conosco
Jorge Larrosa Bondía

“As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente raciocinar ou calcular ou argumentar, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou o sem- sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E portanto, também tem a ver como as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos , diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo isso. Aristóteles definiu o homem como “zôon lógon échon”, a tradução dessa expressão , porém, é muito mais “vivente dotado de palavra” do que “animal dotado de razão”, ou animal racional.
O homem é um vivente com palavra. E isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa, ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem é enquanto palavra, que todo humano tem a ver como a palavra,se dá em palavra, está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é homem, se dá na palavra e com a palavra. J.L.Bondía

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

da série: Tenho um amigo que disse que eu:


Bem, que eu deveria mesmo me conformar, aceitar e pronto. Eu, na hora, quase que concordo. Sabe aqueles momentos em que  sentimos não valer a pena travar uma discussão, que não vai acrescentar nada, pois então. Ele percebeu minha quietude e foi logo mudando a prosa. Até gostei. Amigo tem mesmo é que conhecer o momento do outro, respeitar, pisar leve, falar manso, ou calar.
Já um outro amigo desses que nunca estão em silêncio foi logo falando: é isso mesmo aceite não há coisa melhor coisa para se fazer, não. E ainda acrescentou: “o que não tem remédio, remediado está”. Eu dei aquele meu sorrisinho de lado que nem chega a ser um sorriso é um leve mover de lábios de quem não concorda com o dito. É que tenho minhas dúvidas quanto à eficácia desses e tantos outros provérbios. Ele, como o outro, também percebeu meu espanto diante da sua colocação e foi logo tratando de deixar o ambiente. Não era para tanto, amigo tem mesmo é que sentir-se à vontade, viver a alegria da companhia, e ser uma festa só.
Já um outro amigo, sabedor das coisas da boa amizade, com seu olhar doce e um sorriso iluminado calmamente disse: os tempos são outros mesmo, minha cara, e não se trata de aceitar, não. É preciso coragem pra não permitir o mau uso da palavra, e com seu jeito leve de brincar completou: há porta e portinhola; gaiola e gaiolinha todas se abrem para algum lugar, mas os espaços são outros. Vôos e caminhos. E não está certo o mesmo nomear para tantas coisas que há. Há árvores e plantas; planaltos e planícies; vales e morros; musica e letra, projetos e planos. Cada coisa é uma coisa. Fazes é muito bem em não aceitar.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Realidade Travestida


Naquela tarde Eleonora fechou portas e janelas, desceu vagarosamente as escadas, olhou o pátio lá embaixo sentiu o aroma das flores e deixou-se ficar escondida atrás do alpendre. Não queria visitas. Não queria falar, responder, sorrir. Nada. Apenas ficar só. Reorganizar as idéias e decidir-se. Escolher. Dispensou os empregados e certificou-se com a cozinheira. Fome não estava em seus planos. Ordenou-lhe que fizesse algo especial, leve, frugal. Deu-lhe a chave da adega. Queria um bom vinho. E quando finalmente sentiu-se só, pegou da taça, sentiu a doce umidade do vinho em seus lábios e o prazer que isso lhe proporcionava. Era bom estar ali saber-se dona de toda aquela terra. Com o corpo e a mente mais leve pelo vinho deixou-se levar pelas recordações que foram naturalmente surgindo. Primeiro alguns lances da infância depois a juventude junto aos primos, os risos, os desejos, as insinuações e as festas noite adentro. O pai sempre austero, a mãe com aquele olhar sonso, agudo e finalmente seu casamento com Heitor. Derrepente um vento forte e uma janela que se abre o som dos carros, o movimento dos transeuntes, as conversas entrecortadas., os risos, os encontros, o ir e vir. A vida que corre lá fora pulsante, real. E , ela, ali, presa em seu minúsculo apartamento. No escuro de si, no vazio que construiu, enganando-se dia após dia, noite após noite. Por quê? Para que? Ficção travestida de realidade Eleonora a personagem criada, a propriedade que nunca teve a infância que sempre quis o pai que nunca conheceu e as festas que não viveu. Desejo e imaginação. Levanta-se lentamente e com toda força joga a taça de vinho. Cacos de uma vida inexistente.

domingo, 17 de outubro de 2010

"Olhar o mundo e olhar a si"



Jose Angelo Gaiarsa -1920 -2010- 
psiquiatra brasileiro.
 maravilhosos livros publicados
 destaco:
Couraça Muscular do Caráter
O que é Corpo?
O Olhar
 Sexo, Reich e Eu
A Inconsciência Coletiva

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

De beleza e partituras, ser professor.

Como disse Rita Lee, toda mulher é meio Leila Diniz. Sinto que a expressão pode ser estendida à questão da arte, do aprender e do ensinar , respeitando as devidas proporções, toda mulher, todo homem é “meio” Paulo Freire, o grande mestre. O tempo todo aprendemos com o outro e o ensinamos numa troca maravilhosa, a qual, Freire nomeou de a "Roda do saber".

Mas, não podemos esquecer de forma alguma que ser professor é uma profissão, e como toda profissão exige dedicação, conhecimento e acima de tudo paixão, uma imensa paixão. Ou, como disse o mestre Rubem Alves:


"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes"

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Nenhuma palavra dita


Saciada a sua ira e satisfeito o seu ódio Beatriz observava seus pés nos degraus. A chuva doce e mansa caia devagar seus pingos a bater na vidraça. A mudança de humor, os passos na escada, a observância desses pés e os movimentos de seu corpo era tudo o que possuía. Queria mais. A vida lhe negou ou ela não soube escolher. Já não sabia e isso era o que mais pesava o descobrir-se perdida, sem forças para a luta e amarga em seu viver. Figura carismática, boca carnuda, roupas claras e de chapéu Firmina esperava-a de braços abertos. Esse fato também pesava. A generosidade de Firmina, sua alegria contagiante, seu ser singular e exótico. Parada na ponta da escada com o luar a iluminar-lhe o semblante sorria. Um sorriso de boneca ou da boca que se alarga e toma conta do rosto inteiro. Beatriz nunca descobriu. A bem da verdade chegou a pensar que não era nenhum nem outro. Era só mesmo o brilho que Firmina possuía e que tanto a incomodava. Tornaram-se inimigas sem nenhuma palavra dita. E por mais que Firmina buscasse uma aproximação tudo era frio e distante. Com o tempo desistiu. E agora ali na sua frente depois de tantos anos Beatriz  dissimulava todo o seu rancor,  fingia uma vida que não teve e  tagarelava coisas e fatos inexistentes. Firmina  ouvia calada o relato da amiga, relembrava outros tempos , momentos da infância quando ambas rindo corriam para a praça ver o teatro chegar. Eram noites de muita alegria quando assistiam ao espetáculo. Beatriz vibrava com a bailarina, com seus sapatos prateados o corpo a girar, girar lentamente. Mas tudo também se transformou lentamente. Em que momento Beatriz ficou assim? Qual acontecimento desencadeou esse sentir, ou melhor, esse não sentir? Impossível sabê-lo.
Apenas que Beatriz é nada. É um corpo adormecido. Já não sorri, não vibra com bailarinas, danças, sapatos prateados. Agora tudo o que precisa é do brilho do olhar de Firmina.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

"Um "pouquinho" de Teoria Literária"

“O homem é o ser que se criou ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo.”
 Octávio Paz.


Uma das maiores crises de nosso tempo é a crise da linguagem. A perda da palavra, a perda da expressão própria, a perda da comunicação autêntica, a perda de uma linguagem pessoa e criadora. Essa é uma das mais profundas desfigurações da segunda metade do século XX. E um dos maiores paradoxos da nossa era: vivemos cercados de sistemas de comunicação, temos os maiores e mais complexos instrumentais da comunicação e toda a história, e ao mesmo tempo, nunca tivemos tão pouco a palavra própria, a expressão pessoal, uma linguagem que expressasse e encarnasse nossa identidade pessoal, uma comunicação verdadeira em que mutuamente nos reconhecêssemos. A perda da palavra. A morte da linguagem. As falas cada vez mais neutralizadas. Uniformizadas, Cada vez mais insignificantes. Estereotipadas. Reduzidas ao informe homogêneo. Cada vez mais sem voz, o homem contemporâneo tem dissolvida sua linguagem e sua identidade pessoal e pública. A inconsistência da linguagem, das imagens, da história , da vida.
Penso em Ítalo Calvino
Ás vezes me parece que uma epidemia pestilenta tenha atingido a humanidade inteira em sua faculdade mais característica, ou seja, no uso da palavra, consistindo essa peste da linguagem uma perda de força cognoscitiva e de imediaticidade, como um automatismo que tendesse a nivelar a expressão em fórmulas mais genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados, a embotar os pontos expressivos, a extinguir toda centelha que crepite no encontro das palavras com novas circunstâncias. O vírus ataca a vida das pessoas e a história das nações, torna todas as histórias uniformes, fortuitas, confusas, sem princípio nem fim. Meu mal-estar advém da perda da forma que constato na vida, à qual procuro opor a única defesa que consigo imaginar-uma idéia de literatura”. Ítalo Calvino

É preciso redescobrir e revivificar a linguagem. Renascer a linguagem significa também renascer a dimensão que se revela ao mesmo tempo raiz e utopia das palavras, e que tem tido imemorialmente – o nome de poesia.

 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"A surpresa do ser"


Se a filosofia nunca soube ao certo o que é o ser (a metafísica ocidental só fez oculta-lo ainda mais), em Heidegger ele ressurge iluminado pela linguagem poética. A poesia é a “casa do ser”; só através dela é possível comemorá-lo sem perdê-lo de vista; só ela é capaz de evocá-lo em seu movimento fulgurante. O ser é uma surpresa que os poemas ajudam a vislumbrar. Seis séculos antes de Cristo, a filosofia nasce justamente em confronto com a poesia (e seus mitos), que antes de emancipar-se como forma autônoma destinava-se à revelação do sagrado. A idéia heideggeriana de que a poesia nos lembra o ser encontra-se em sua “Carta sobre o humanismo”, a qual se encerra com estas palavras: “na presente indigência do mundo é necessário: menos filosofia e mais desvelo do pensar, menos literatura e mais cultivo da letra”. Orides Fontela provavelmente pensava nisso quando disse num depoimento: ‘Nossa época é terrível, somos poetas em tempo de desgraça”. Orides se foi. Já não presencia os infortúnios de nosso tempo nem deles participa, mas sua poesia cristalina continua exercendo o “desvelo do pensar” e o “cultivo da letra”, de que fala Heidegger, provocando o ser à luz da linguagem. Aliás, do que mais se ocupam seus poemas? Orides fontela, como Paul Celan, é daqueles artífices que clareiam o ser ao mesmo tempo em que propõem uma indagação essencial sobre o ser da própria poesia. Ler sua obra é constatar que o ser em geral, no sentido heideggeriano, questão sempre aberta, e o ser lucífugo da poesia têm idêntica irradiação. Ambos podem nomear-se como aquilo que não se sabe ao certo o que é, mas que se deixa perceber no mesmo instante em que se furta como pedra filosofal da leitura. “Natureza ama ocultar-se”, conforme o célebre fragmento de Heráclito.

Artigo postado, na minha coluna mensal, no Imaginário Poético com  o poema "Fala" de Orides Fontella.
Referências bibliográficas:
BORGES, Contador. A surpresa do ser. In Revista Cult/novembro 1999.
FONTELA, Orides. Poesia Reunida [1969-1996] São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

LITERATURA


                  
  
                                               


  
                 


segunda-feira, 27 de setembro de 2010