sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Passos firmes, decididos"


Ela anda em direção à praia. Seus passos são firmes e decididos. Não é bonita, nem feia. Um rosto daqueles que a gente vê e nem percebe.O corpo é magro em contraste com os seios fartos. As pernas são compirdas, os cabelos soltos. Ela anda em direção á praia...  Os olhos, grandes e vazios,olham só para frente e guiam automaticamente os sesu passos.

Por que eu, Meu Deus?
Porque logo comigo?

As mãos crispadas apertam o papel, na testa, gota de suor dão um brilho saltado ao reflexo do sol. Ela chega a praia, atravessa a areia e atinge o mar. Olha em volta, ninguém. Joga o papel na água, leva as mãos à cabeça tentando prender o cabelo num gesto mecânico e sem própostio. Olha mais uma vez em volta e, sem qualquer hesitação mergulha em direção ao ignorado.


Fred Nabhan- poeta, e ex- integrante do  grupo "O Tablado", é meu aluno na Oficina em Tatui. O texto é fruto de um exercício proposto em aula,  releitura de "As bailarinas do Teatro São João" de Paulo Setúbal.   Parabéns, Fred. ADOREI!!!!  “O TABLADO” contribuiu para a formação de toda uma geração de atores, diretores, figurinistas, cenógrafos, iluminadores e músicos do teatro carioca.
ver rmais:

quinta-feira, 19 de maio de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Tenho um parafuso a menos. Na hora fiquei tão feliz, mas tão feliz que abri aquele sorrisão. Ele até se assustou. Expliquei: — sempre tive comigo que eram muitos. Ele riu e disse que não, imagine. Isso é tudo da tua cabeça. Na hora fiquei séria, mas tão seria que franzi a testa. Ele até se assustou. Mas nem perdi tempo explicando. É claro que é da minha cabeça. Vai ser de quem? Se sou eu quem está dizendo. Amigo é amigo e a gente releva, mas cada um viu.

Já um outro amigo disse que não é nada disso. É que provavelmente eu pertença ao grupo dos DDA. Olhei-o dos pés à cabeça. Mas nem ousei sorrir, muito menos ficar séria. Fiquei entre indiferente e curiosa. Uma oscilação de sentimentos tomou conta de mim. Ele percebeu e com todo cuidado que lhe é peculiar começou a tecer algumas explicações. É médico e dos bons. Entregou-me uma folha com várias perguntas. Dias depois respondi e fiquei toda satisfeita. Iidentifiquei-me apenas com cinco das oitena e cinco. Iupiiiii gritei pra ele no telefone que gentilmente perguntou: — as cinco últimas, é? Não entendi bem esse “é”? Só depois de me orientar para algumas práticas relaxantes é que completou: — irremediavelmente uma DDA e em plena ascensão. Mas como sei que ele é também um grande brincalhão, relevei.

Já um outro amigo desses que chegam sorrateiramente, olhando lá no fundo dos olhos da gente, e devagarzinho começam a conversar como quem conta um conto, uma história de antigamente. Como quem fala do rio e a gente sente toda a umidade em volta, como quem fala das árvores e logo a gente se vê saboreando uma goiaba, um pêssgo ou uma fruta qualquer. Ou de um pássaro e a gente ganha asas. Delicadamente me disse que não é nem uma coisa nem outra. Não é falta de parafuso, ou DDA, ou TOC, ou o nome que se queira dar. Mas simplesmente um viver que não conhece outra forma a não ser a do sentir o que verdadeiramente sente. E, ainda por todos os poros, imensamente.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Como num transe"

Pablo Picasso 

É preciso desligar-se do mundo dos objetos, do convívio com as pessoas, do corre-corre cotidiano. Momento de puro prazer em que o nosso corpo pede um ausentar-se de tudo e de todos. A mim, esse momento apoderou-se do meu corpo como num transe, e tornou-se uma necessidade constante. Feito pássaro livre, em seu vôo matinal, adentro lentamente no mundo da linguagem. Busco na harmonia, no jogo das palavras construir meus personagens, minhas histórias, meus poemas.

Alimento das minhas noites. Regozijo de meus dias. Prazer dos prazeres. E no silêncio reinante onde o único barulho existente é o ronronar de gatos, que se abre um vasto mundo de sonhos e fantasias, e meus dedos correm sobre o teclado.

Estou em Paris e numa fração de segundo já no Haiti, choro com o menino baleado na calçada e rio com o palhaço que a cidade contratou. Beijo loucamente um grande amor na praça iluminada com neón, e em outro capítulo à despedida iminente faz escuro o dia mais radiante. Sou previsível, sou dissimulada, sou Capitu, sou Pagu. Sou todas e nenhuma. Há em mim todas as dores do mundo. Mas também todos os risos. Uso palavras que outros usaram, narrativas de outros tempos. Fadas e reis, príncipes e princesas, heróis e vilões. Histórias antigas, modernas, contemporâneas povoam minha mente.

Verso e prosa. É  Camões, é Pessoa, é Machado, é Baudelaire. Tantos. Mestres da palavra. Fonte de minha inspiração.  A noite vai alta, o vinho é doce e no exercício o oficio de escrever.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Risos de vingança

A bailarina- Edgar Degas

Um acontecimento que lhe parecia surreal. Sua vontade era esgueirar-se pelas ruas rindo alto, alto demais que nem a reconhecessem por tamanha ousadia, ou desrespeito - como era mais provável que denominassem. A rainha Dona Mana, em vida, detestara Dona Carlota Joaquina. Dona Carlota por sua vez, detestara a rainha. Não se toleraram nunca. E agora, eis que ela olhava a velha louca no caixão, aquela a quem tanto xingou em seus pensamentos e para quem, pela primeira vez, gostaria de sorrir sinceramente, um sorriso de vitória, de alívio, de prazer! Mas infelizmente não podia. Não naquele momento.

Contendo sua falta de sofrimento, ela volta a si e fita a Senhora Viscondessa do Real Agrado e Dona Margarida Sofia de Castello Branco, ambas velando com fundos respeitos o corpo real. Com ar sombrio ela pensa que essas são umas bajuladoras sem porquê. Mal sabem os maus bocados, infortúnios e desconfortos que passara por conta da doida. Se soubessem, matraqueariam com ela sobre a alegria daquele dia.

Ela encara novamente o corpo como enamorada por tal momento, e vê tudo aquilo, aqueles lutos, aqueles cortesões fúnebres, aqueles coches recobertos de crepe. Fechava os olhos e se perdia no próprio entusiasmo. Ao se recompor voltava à pasmaceira do decorrer do velório como que abduzida, sem saber ao certo de onde e para onde voltara.

Acabado o funeral, foi se deitar como uma criança que conseguiu o que queria. Feliz como jamais imaginaria sentir-se com o fardo de ser casada com Dom João VI. E um som invade sua paz tirando-lhe a paciência:
-“Qui est-lá?”
- Sou eu!
-Dona Maria?
- E então o que pensas? Levanta-te bigoduda, já não te suporto sã, qual com essa cara de aparição!
E Maria, a louca, ria alto, alto demais para que Carlota Joaquina conseguisse se recompor da própria desventura quando abrupta e palpitante ela acorda levantando o dorso para encarar a realidade. Mais feliz do que quando foi dormir passou a gargalhar. Passado o frenesi, Carlota encara o nada com um meio sorriso e desabafa:
-Velha louca! Bigoduda são tuas partes!

Patrícia Milão- estágiária de Jornalismo - e minha aluna  na Oficina de Literatura em Tatui  "Do Romance de Paulo Setúbal aos minicontos- Exercício proposto uma releitura do conto "A bailarina do Teatro São João" de Paulo Sétubal-  "Belissimo trabalho, Patrícia. É uma alegria  postá-lo.

sábado, 7 de maio de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Deveria pensar mais a respeito do assunto, já que também sou mãe. E que é no parque de diversões que podemos saber quem realmente tem esse dom. O dom de ser mãe. Na hora não quis contrariá-lo, ele estava tão empolgado em sua fala que deixei passar. Não deveria. Acabou indo embora todo sorridente. Com aquele sorriso, fruto de quem pensa que sabe e não sabe. Não que eu saiba tudo,ao contrário, mas, pelo menos não fico rindo à toa.

Já um outro amigo falou que não é nada disso, que para nos conhecermos, ou conhecermos o outro é preciso silêncio e observação. Coisas impossíveis nos parques de hoje, com esses brinquedos velozes e barulhentos. Concordei, em parte, mesmo porque, acho tão pouco só silêncio e observação em se tratando de nos conhecermos. Imagine, então, conhecer o outro. É preciso mais disse um outro amigo, e nesse momento fechei meus olhos voltei à minha infância ao lado de minha mãe no parque de diversão. Senti o perfume que exalava de seus belos cabelos negros e a força do olhar que sempre teve sobre mim. Naquela época era sim possível saber quem e como eram as mães só pelo jeito como brincavam no silêncio reinante da balança, com seus movimentos de ir e vir, da barca puxada por cordas, do chapéu mexicano com suas voltas vertiginosas. Algumas empurram os filhos como que se através da balança eles realmente pudessem ir embora pra sempre ou a barca afundasse imaginariamente num mar de águas profundas. Eu felizmente sorria ao ver a alegria de minha mãe correndo comigo para aproveitarmos todos os brinquedos. Mesmo sem saber o que era dom, aquela mulher vivia sua maternidade com todas as forças, talvez porque vivesse todas as outras coisas da vida com a mesma intensidade. Não era só minha mãe no parque. Ali estava uma pessoa inteira. Uma mulher com vida própria, sabedora de seus desejos mais simples,consciente de que na vida é preciso escolher.

Já um outro amigo, amigo de cabeceira, conhecedor dos mistérios que nos envolve, diz:─  “Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes”.

Mãe, pai, filho, avô, tio... O que importa? Só precisamos mesmo, como canta o poeta, sermos inteiros.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Dentro do peito - A língua portuguesa-


Uma palavra veemente, e ao mesmo tempo suave, que muitas vezes ouvi quando menina: — leitura. Ler tornou-se, assim, algo constante em minha vida. A princípio somente uma maneira deliciosa de afastar-me de tudo e de todos. Mas como o tempo tornou-se uma necessidade vital. Ler, então, era o meu maior prazer.

Passava horas e horas na biblioteca, ou mesmo no fundo do quintal embaixo da velha mangueira com o livro que, às vezes, chegava a cair das minhas mãos tamanho o cansaço. Acordava assustada com minha mãe que sorrindo fechava o livro. E eu seguia cambaleando para dentro de casa a sonhar como o final da história.

Ouvi também muitas e muitas vezes comentários, preocupações carinhosas de alguns vizinhos sobre essa difícil escolha:- ficar só. Difícil para eles que não tinham descoberto, ainda, a riqueza contida nas páginas de um livro. E, hoje na distância do tempo constato que silêncio e solidão foram determinantes na minha vida. Uma área mágica que trago guardado dentro do peito.

E nessa quietude vivo uma grande emoção, uma festa, um quase ritual orgíaco sentido em cada verso do poema, em cada conto, romance, crônica de escritores fabulosos dessa belíssima língua que tanto me encanta: — a língua portuguesa.
 
 
 

domingo, 1 de maio de 2011

Dança - A vida que pulsa

É noite. A dança acontece. O pensamento se vai. No ar, os tambores, a voz, a paixão, a música a sedução. O burburinho das conversas aos poucos se dilui. O salão, como num passe de mágica, ganha dimensões espetaculares.

E, meu corpo desliza leve sobre a pista feito à bailarina de que fala Mallarmé: — Ela não dança, é uma metáfora onde o movimento se dá a ver.Semelhante à bailarina do poeta, então, também me deixo ver e sou toda movimento. Sou toda sentimento, toda alegria nos requebros e remeleijos do quadril, no balançar das mãos, no arrastar dos pés.

A noite vai alta o corpo cansa, mas quer continuar e num quase ritual gira, gira, gira em puro delírio. Delírio da dança, beleza de ser um corpo entre tantos outros corpos que, em pleno movimento sente a vida que pulsa e pulsando vive.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu

 
Faço parte desse grupo de pessoas de temperamentos desensofridos, e apesar de ter comentado comigo, em uma outra oportunidade, essa sua teoria me fiz de rogada só pelo prazer em ouvi-lo. Ele, então, não perdeu a oportunidade e entusiasticamente discursou: — Veja bem, cara amiga, há no mundo somente dois tipos de pessoas: — os de temperamentos desensofridos, os quais estão sempre prontos a zombar vão da pilhéria à bofetada com a rapidez de um salto, mas ao mesmo tempo conservam o bom humor; e os de temperamentos sofridos totalmente sem humor, carregam o mundo nas costas.

Já um outro amigo disse que a dor é a condição sine qua non para subirmos os degraus da evolução espiritual, mas que em mim a dor virou pura ventania. Concordei porque gosto mesmo de olhar minhas mazelas não como ventania que gela o corpo, mas feito palito de fósforo aceso. Fogo rápido. Queima somente quando seguramos tempo demais. E aproveitei da oportunidade já que meu amigo, o criador da teoria, me olhava como quem espera uma resposta. Aí não me fiz de rogada, não. E arrematei: — não se chega ao grupo dos desensofridos sem o muito sofrer.

Já um outro amigo com a serenidade dos que sabe que a dor queima feito fogo, mas que também gela feito ventania, trouxe na sua prosa a beleza da poesia e disse que, quer pertença ao grupo dos sofridos ou desensofridos, como eu amanheço e anoiteço no mundo das palavras nada disso importa. Dor, alegria, fogo, ventania tudo vira fantasia. Concordei porque, como ele, acredito no poder da palavra transformando nossas vidas. Ele conhecedor do que vai fundo em mim riu um risinho de quem sabe a dor que provocaria sua partida.

sábado, 16 de abril de 2011

O HOMEM QUE COMIA PALAVRAS

O Homem Que Comia Palavras
O Homem Que Comia
O Homem Que
O Homem

O

Godiva

Dionísio era o seu nome. Nome de deus grego amante de festas e orgias. Mas este Dionísio da história era diferente. Avesso a qualquer agrupamento humano, solitário, só tinha uma mania que o distinguia dos comuns mortais: comia palavras.
Foi assim desde criança, quando começou a falar. No início, comia sílabas, depois passou a devorar vocábulos inteiros.
“– Qual o seu nome, menino?”
E ele respondia:
“– Dio.”
“– Dio? Que lindo!”
Na escola, ele levava o dicionário na lancheira. Enquanto a criançada, no recreio, se empanturrava de sorvete e hot-dog, ele simplesmente abria os seus verbetes preferidos no livrinho e comia com os olhos: “Pão-de-ló. S. m. [............], Chocolate. S. m. [............], Orchata. S. f. [............]. Huuummm!!!”
Assim, fazendo dos olhos parte do seu sistema digestivo, devorava o que melhor lhe apetecia.
Os pais o levaram a psicólogos, que logo identificaram sua estranha doença como “verbofagia crônica irreversível”.
Sim, o seu mal não tinha cura, pois, para o tratamento era necessário isolá-lo de livros, jornais e de qualquer material ou objeto que apresentasse palavras impressas. Ou seja, uma missão impossível.
Dessa maneira, Dionísio foi crescendo à sua moda, escolhendo sua alimentação nos cardápios dos melhores restaurantes da cidade. Ele entrava, pedia ao maître o menu e se deliciava com um refinado “canard aux oranges”, um “einsbein”ou um prosaico “beef steak”. Dionísio era um autêntico verbofágico poliglota, um fenômeno de paranormalidade glutônica multinacional.
Essa sua curiosa peculiaridade e seu modo conciso de falar fizeram de Dionísio um verdadeiro deus: Dio.
Como já dizia a bíblia, no princípio era o verbo. E o verbo, a palavra, o signo escrito, era o combustível vital desse estranho ser.
Aos 33 anos, Dio já havia experimentado todas as iguarias de todos os povos da terra. Um gourmand completo, pós-graduado em gastronomia e nutricionismo virtual. Era consultado por especialistas, que o procuravam para conhecer a receita de pratos exóticos, da Conchinchina ao Afeganistão. Ele respondia por escrito, pois era a única forma através da qual conseguia se comunicar.
Nessa altura da vida, Dionísio começou a evitar leituras de qualquer espécie e iniciou um processo auto-destrutivo. Fez greve de palavras e, consequentemente, greve de fome.
Primeiro, perdeu peso. Depois, os cabelos. E, sem usar mais caneta e papel ou computador, isolou-se do mundo.
Bastaram alguns dias para que de sua boca saíssem apenas duas sílabas, pronunciadas num sopro: “Di-o”!
Nas vésperas de sua morte, balbuciava incessantemente: “Io, Io, Io”...
Até que, já agonizando, emitiu o mantra dos mantras, o som vazio, circular, redondo e perfeito: “O”.
Arregalou os olhos e descansou em paz.

Elizabete Leite: professora de Inglês, moradora de Tatui. Atualmente minha aluna na Oficina de Literatura (em Tatui). Adorável perguntou-me "se leva jeito para escrever contos/crônicas...", preciso responder :o)

domingo, 10 de abril de 2011

Do homem cordial à sinuca de bico.


Às vezes, muitas, ficamos numa sinuca de bico, saia justa mesmo. E somos cordiais, aqui vale lembrar "O homem cordial', um capítulo da obra "Raízes do Brasil", de Sérgio buarque de Holanda, onde o tema é belíssimamente tratado , certeiro, e não há como discordar. Perfeito.
E se a prática é a da cordialidade seremos taxados ,com toda razão, de coniventes com o que ai está, hipócritas, manipuladores...

E se optamos, corajosamente, pela franqueza, pelo embate, pelo esclarecimento do que entendemos, do que está acontecendo conosco , ou com o nosso entorno seremos taxados de  problématicos, mal amados, um caso a parte, um sujeito suspeitíssimo. Bipolar, tão na moda. Carente, solitário.  Um louco!

O que nos resta?  Um fechar- se em si mesmo? Um sorrisinho amarelo? Um tapinha nas costas. Alguns, a maioria,  com certeza seguiram esse caminho. Não diria mais fácil, talvez mais elegante, mais apropriado, mais lucrativo, mais... sempre mais.   Eu me contento com menos, bem menos :  - um elegante e sonoro va à merda, meu caro. Um preço que  sempre estive disposta a pagar.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Que eu não meço as palavras. Medir, medir, eu meço sim. O que esse amigo não sabe é que não há uma medida e nem por isso uma desmedida. Cada momento exige de nós uma medida, completei. Ele me olhou dos pés à cabeça numa atitude de quem quer medir forças. E vi no seu olhar o espanto dos que acreditam que é possível usar a mesma medida para tudo. Medir, medir, eu meço sim. E essa hora exigia uma medida dita em alto e bom tom. Caro amigo que merda é essa que está a me dizer.

Já um outro amigo diante desse fato disse que não é nada disso. A verdade é que sou muito exigente comigo e com as palavras. Como se um coisa estivesse separada da outra, eu disse. E isso com um risinho já velho conhecido de todos, mas que não chega a ser irônico apenas provocativo. Sou, e a medida de exigência é a mesma para mim e para com o outro. Mas a maioria das pessoas não gosta dessa exigência. É sempre uma para si e outra para o outro.

Já um outro amigo disse que isso acontece porque tudo é sem medida, imensurável, relativo. Hum! Essa é daquelas certezas feitas às pressas totalmente sem medida, descabível. É claro que não só podemos como medimos o tempo todo. Mas será que ele pensou que eu me referia às pessoas. Dei uma medida nele que sem jeito saiu à francesa, mas não era minha intenção, não. Amigo a gente gosta de qualquer jeito mesmo quando não concordamos.

Já um outro amigo desses que sabe a exata medida das coisas. Disse que cada um gosta a sua maneira. Gosta muito, largo infinito, mas também pequeno e raso. E que eu não precisava ficar triste, não. Se meu amigo foi embora só porque não concordei com suas palavras é porque essa era a medida dele. E completou: — É que para nós, diferentemente da maioria, pessoas e palavras são uma coisa só.

Medir, medir eu meço sim, e fecho com o grande poeta ... “e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem...”


terça-feira, 15 de março de 2011

Água vital, poesia.


Um pensamento surge bem devagar toma corpo em meu corpo, permeia minha mente, mexe com meus sentidos transforma o momento comum em rara beleza.  Apenas uma palavra dita por mim, ou mesmo por outro para que esse fato singular aconteça. E um mundo se abre à minha frente.

Avenidas movimentadas, girassóis nos campos, uma mulher, uma criança, um pássaro, um funeral. Os que por mim passam percebem uma mudança no olhar. Vago diriam alguns, sonhador diriam outros.
E há os exagerados, que afirmam ser um olhar demente.

Eu mesma não sinto assim. Nem vago, nem sonhador, nem demente. Somente o olhar de quem se sabe pleno, inteiro.  Eu um vivente das palavras que mal rompe a manhã saio a colhê-las nas ruas, nos bares, nos escritórios, nas feiras.
Em todo o canto, ouço seu canto. São azuis, negras, vermelhas.
De amor ou de ódio. De prosa e de verso.
Palavra poética, água vital.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Escapo, feito água, pelos vãos dos dedos. Será que ele pensa que eu quero estar entre os vãos dos dedos de alguém, entrelaçada? Não, penso que não. Ele me conhece pouco, mas conhece, e já percebeu que sou menos líquida e mais rarefeita, solta.
Já um outro amigo disse que não é nada disso, que nem líquida, nem rarefeita, que sou sólida, feito pedra. Desejo de brilho. Na hora, juro que levei um susto. Não imaginava que alguém me visse assim, sempre tive a vaga sensação de que sou vista como um vento forte, desses que traz tempestade, derruba portas e janelas, desnuda todos e tudo, mas que no fim deixa tudo limpo.
Já um outro amigo, desses que enxerga em cada um a natureza toda, disse que eu derramo, não feito água, mas em palavras, e que por isso mesmo não gosto de entrelaçar, ficar presa, que transbordo em versos livres, que não caibo em mim porque sou múltipla.
E eu sorri levemente, mas eis que chega meu amigo, amigo de longa data, conhecedor profundo do que trago no peito, olhando-me fundo nos olhos disse que eu sou líquida na paixão, sólida como uma flor na terra, etérea junto ao corpo amado. Então suas palavras ecoaram na sala, testemunhando o que há muito eu já vivia, a paixão de ser como se é.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

KOA´E -

Livro: KOA´E
Autor: Luís Serguilha
Capa: Aquarela de Ivani Ranieri

Música ocular de Serguilha
Marcelo Moraes Caetano
Escritor, crítico literário, doutorando em literatura comparada
(Julia Kristeva,Universidade Sorbonne)

A obra de Serguilha não teria subjacentemente, o papel de elo entre a matéria clássica e exata e a nova matéria arquetípica e antiqüíssima das físicas e matemáticas inexatas e a filosofia, a teologia e as artes? Teoria-ontologia-TEOLOGIA?Acaso não se percebe, nos significantes e na sua emergência, em Serguilha, uma harmonia desarmônica e/ou enarmônica entre Ciência, Teologia, Artes e Filosofia? Definitivamente, sim. Em outras palavras, assim como a gênese da física quântica aponta para um aparente paradoxo e pressupõe o conhecimento do classicismo em termos de física (a mecânica e a álgebra, aritmética e geometria clássicas) assim também são os significantes de Serguilha: buscam no Arché clássico a plenipotência para transcender-se a mecânica e, mecanicamente, ir ao estado de ondulações em que o que está em pequena escala se comporta de modo diferente do que está em grande escala, mas de modo que, exatamente por sua diferença, os iguala nisto: o universo é diferença e só na diferença das diferenças (a arquimetalinguagem vista por outro telescópio ou por outro microscópio?) sobrevive a plenitude a que se chega pela música ocular de Serguilha
Eis o poeta em seu vôo cósmico
Sueli Aduan

Ler Serguilha é como adentrar a mata densa na origem dos tempos, a lua já alta, trazendo consigo o cheiro da terra molhada, de flores minúsculas, de ervas do campo, de girassóis distantes, de sons e silêncios. Ouso dizer que não o lemos com os olhos, mas com o corpo todo numa vibração frenética, solvendo cada palavra, signo dos signos, imagem das imagens, correspondências que nos fala Baudelaire, cheiros e cores, vida e morte, forma da formas. Eis o poema, eis o poeta, eis o corpo. E no corpo do homem a linguagem. Linguagem essa que é a busca desse poeta, incansável em sua trajetória, em seu mergulho no inexprimível, no indizível, no desconhecido, na gestação obscura para procurar a sua origem, o seu silêncio, sempre num processo regenerador, mitológico. O sonho poético reanimando o mundo das primeiras palavras como sugeriu Bachelard e que com propriedade completaria: “No sonho cósmico nada fica inerte, nem o mundo nem o sonhador. Tudo vive uma vida secreta de que tudo fala sinceramente”. A mesma propriedade do poeta Luís Serguilha, que vestido da leveza de quem anda descalço pelas areias da praia e sente o fino grão tocar-lhes os pés, nos diz: apenas tento enfrentar o infinito, a indeterminação, o não-sentido, com a respiração do desejo e da transgressão imaginária. Nessa sua caminhada em que muitos, como eu, buscam de longe acompanhar na ânsia de que pequenas gotas do mar que é Luís Serguilha venha refrescar nossos corpos sedentos de fusão libertadora, da vida verdadeira, que está ausente, relembrando Rimbaud. Com palavras que são travessias da dança cósmica, Serguilha vai nesse movimento equilibrado perpetuando sua escritura, palavras grávidas de símbolos. Linguagem viva e criadora, pulsares de paixões, o sonho dos signos, o sonho das células, o sonho dos amantes, no falar de Novalis. Serguilha sabe que é preciso conviver com o poema inteiro, com seus ritmos pulsando, com as iluminações de suas imagens, com as estruturas e suas geometrias, com as conteslações de seus significados, os múltiplos sentidos tão belamente expostos nos poemas de Quintana, e que muito provavelmente o poeta português tenha conhecimento, ainda com escritas tão díspares. Construtores da palavra, tanto um quanto outro, Quintana com seu verso: “Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês”. Poemas – Borboletas, Mario Quintana. E Serguilha em seu vôo cósmico, Condor feito homem, homem poeta na dança da noite e do dia que está para nascer.

LUIS SERGUILHA nasceu em Vila Nova de Famalicão, Portugal. Poeta e ensaísta, suas obras são: O périplo do cacho (1998), O outro (1999), Lorosa´e Boca de sândalo (2001), O externo tatuado da visão (2002), O murmúrio livre do pássaro (2003), Embarcações (2004), A singradura do capinador (2005), Hangares do vendaval (2007), As processionárias (2008), Roberto Piva e Francisco dos Santos: na sacralidade do deserto, na autofagia idiomática-pictórica, no êxtase místico e na violenta condição humana (2008), KORSO (2010), Possui textos publicados em diversas revistas de literatura no Brasil, na Espanha e em Portugal. Alguns dos seus textos foram traduzidos para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão e catalão.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"O Compadre da Morte"- Um belo espetáculo-


Com um elenco primoroso, um figurino impecável, e contando com a direção de movimento de Merlin Kern, mais a preparação vocal de Edmo Perandim, e a produção: de Richard Santos, O espetáculo “O compadre da Morte”, texto e direção de Mario Pérsico, vem provar a máxima que estudo, disciplina e dedicação são ingredientes fundamentais para que o sucesso aconteça.
E, mais uma vez a Cia. Clássica de Repertório presenteia a cidade de Sorocaba com um belíssimo trabalho, marca registrada dessa trupe de atores, atrizes, pesquisadores, produtores, músicos pessoas realmente comprometida com a arte cênica.
Tive o privilégio de acompanhar alguns ensaios e pude observar o rigor com que o trabalho é executado. A começar pelo horário cumprido a risca, as pequenas pausas, a troca de idéias, o debate, e por fim o ensaio propriamente dito de horas e horas ininterruptamente.
O Compadre da Morte surge, diz Mário Pérsico: — para a CIA CLÁSSICA DE REPERTÓRIO como um aprofundamento de uma pesquisa sobre o universo mítico do caipira, das lendas e causos extraídos do folclore brasileiro. Pesquisa esta que começou no ano de 2006, com o Projeto “De Feiras de Muares à Revolução Industrial”, quando a Cia. Clássica de Repertório foi agraciada com o Prêmio Funarte de teatro Myriam Muniz.
O Projeto, como um todo, é um resgate dessa cultura partindo-se de lendas e causos que povoam o inconsciente brasileiro. O texto nascido dessa pesquisa partiu basicamente das histórias e causos recolhidos por Câmara Cascudo. O texto, dentro desta proposta explora o lúdico.

Na tarde da estréia, 05/02 com um público que lotou as escadarias da Oficina Otelo o silêncio foi quebrado apenas pelos risos da platéia diante de cenas deliciosas de muito humor e ironia, mas que voltava a imperar em cenas de rara beleza poética como o canto da sereia, momento singular do espetáculo. O espetáculo é todo composto de cenas maravilhosas, de falas marcantes, de gestos preciosos, e de um cenário pertinente à proposta teatro de rua.
Um excelente espetáculo que recomendo na certeza de que desfrutaram de momentos de magia, beleza, reflexão.
A todos, meus parabéns.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Fração de segundos



Ainda ontem pensei sobre o fato e o que poderia ter dito no momento, no momento a gente nunca diz, tudo é sempre depois. Na hora, o que me veio foi tirar a faca da mão dele e limpá-la. Porque tudo foi também rápido, o cão ao lado o chapéu caído, o amigo morto. E não havia mesmo outra coisa a ser feita. A não ser poupá-lo, pelo menos, por enquanto do que viria pela frente, indubitavelmente. Passei-lhe as mãos sobre sua cabeça numa tentativa de afago, mais precisamente em sua testa, um passar de dedos, um deslizar, como quem quer aliviar a dor. Ele maquinalmente olhou-me e numa fração de segundos enxerguei o menino alegre de outrora. Sua voz num sussurro, um quase choro balbuciou:
— Adormecer, quem me dera adormecer. Ficar quieto num canto, e lentamente apagar-me do mundo dos pensamentos. Vendo-o assim perdido. Uma dor inimaginável percorreu todo meu ser. Doía de um jeito diferente das outras dores. Uma agulhada fininha seguida de um calor pelo corpo todo, um não querer fazer nada. Não me mover. Ficar ao seu lado com as mãos sobre sua testa vendo o corpo estendido no chão, o sangue se espalhando, o cheiro impregnando todo o ambiente. E, mesmo perplexa diante de tal fato, apenas não julgá-lo.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Ruminar ideias, uma catarse literária.

 Acordava antes de todos. Descia as escadas pé ante pé o mínimo barulho seria fatal. Sabia que iriam reclamar implicar mesmo com sua mania de sair cedinho. O que fazer? Esse era seu método de trabalho. Caminhar pelas ruelas tranqüilas, encher-se da paisagem, do silêncio, observar o início de mais um dia, das poucas pessoas que cruzavam seu caminho, dos gatos tombando latas de lixo, do cheiro do pão, e muito mais. Depois, muito depois, com a caneta e o papel em branco, às vezes, sentado defronte ao teclado: - ruminar ideias, elaborar frases, jogar com as palavras, escolher uma a uma como se escolhesse feijão. Escrever suas impressões, seu sentir, seu espanto perante um mundo em eterno movimento. Assim era seu ofício. Ofício de escritor.Às tardes eram, então, dedicadas à leitura, à pesquisa, sabedor que era de que não há somente inspiração, mas como costumava dizer: — eclosão, de que nada se cria sem técnica e disciplina, sem trabalho e persuasão. Como era lindo esse ritual, quase religioso. Uma verdadeira devoção. Dia após dia lá estava ele, um sujeito comum igual a tantos outros, e não um sonhador como muitos pensavam, um lunático. Apenas um homem que via na arte da escrita o verdadeiro sentido das coisas e dizia: — uma só vida, para mim, não basta eu preciso inventar, criar histórias. E nesse ato criativo sonhar, rir, chorar com os personagens, com toda trama em que me deleito. E, que meu leitor possa também se deleitar.  Uma catarse literária em que ambos vislumbrem a própria vida.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Caminhos trilhados


Tinha o hábito, gostava mesmo, de pensar na morte, mas isso não a incomodava, não a deprimia , ao contrário, aprendera há muito tempo atrás com um velho professor que pensar na morte era pensar na vida. Viver.  Isso também fazia muito, muito tempo, uma época em que os professores ainda ensinavam que o fundamental era... Ah! Pensou: — deixa pra lá. Gostava de deitar na rede, aquela brisa gostosa, e  na pausa da leitura ficar observando a morte de uma formiga, de uma aranha, de uma planta, um objeto quebrado. A transformação de tudo. E pensar na sua própria transformação. Da menina curiosa que tinha sido à mulher determinada que se transformou. Da jovem sonhadora à adulta realista, engajada, questionadora, provocadora.  Mas sabia, sentia, que jamais perdera a ternura  conquistada em muitos caminhos trilhados. Agora mais envelhecida e com um coração infinitamente jovem abria-se para um novo pensar. Uma quase brincadeira que fazia consigo mesma: — morte rápida dizia sorrindo. Morte súbita para tudo que entristece, paralisa, desalegra, contamina, petrifica, envenena...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Sórdida convivência


Imagem: Sergio Cajado

Fitou-me por algum tempo em silêncio, antes que voltasse a falar. Derrepente, por mais absurdo que me parecesse, começou a gargalhar. Ria alto chamando a atenção de todos ao nosso redor. Eu por minha vez não resisti e esbocei um leve sorriso, com os olhos ávidos cravados nele conjeturava a possibilidade de uma simples faquinha em minha bolsa. Pensamento acalentado há tanto tempo, mas sempre adiado. Desejava não ter esse desejo, essa necessidade diária de dar um fim nessa onvivência sórdida, mesquinha, vil. No entanto, quando ele me olhava, feito um menino, eu me sentia toda iluminada. Comprendia que nascemos um para o outro, feitos sobre medida. Traiçoeiros e vulgares. Esquecia-me de nossos  rompantes, de nossa bôemia, de nossos amantes. E, toda amor esquecia-me também  da bolsa e  da possibilidade de uma simples faquinha. Sonhava com uma vida inteira  juntos,  e  nossa sórdida conviência como alimento necessário.  Olhei-o em silêncio. E, gargalhei! 

O ínico (1º parágrafo) desse texto postei no Tempus. Lá ganhou outro título e, claro, com a participação de outras  pessoas tornou-se  uma  outra narrativa.(Linda,por sinal.:o)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu:

 
Sou muito exagerada nas coisas que faço, falo, vivo, observo... E, olhando com aquele ar de quem sabe do que está falando complementou: — ou é tudo ou é nada. Bem, não é bem assim, não. Respondi, com um sorrisinho que é quase imperceptível um leve movimento de lábios, é que dentro de mim tudo borbulha, exige, pulsa. Sou intensa. Quando rio, rio. Mas também quando choro, meu Deus, lembro uma carpideira. Ele riu, olhou bem fundo nos meus olhos, e, espantado com uma faceta que desconhecia concordou balançando a cabeça. Acho que ele nunca tinha me visto assim.
Já um outro amigo desses que não se espantam com nada foi logo dizendo: — que não é bom ser assim, não. Mas, coitado, ele nem deve tempo de explicar o porquê não seria bom. Um outro amigo desses que chegam sorrateiramente e ávido em participar foi logo falando: — Quem diz isso não sabe do que está falando, ou melhor, acredita que há um jeito bom para o sentir. E, entusiasmado com a própria fala, gesticulando muito continuou: — é preciso viver, sorrir, chorar, gritar, pular, correr. Hum! Amigo é amigo, não é? E a gente sabe que nessas horas a empolgação toma conta do sujeito.
Já um outro amigo, amigo maior, desses que sempre tem algo a nos dizer e sabedor que na poesia reside toda a verdade, delicadamente, declamou Fernando Pessoa:
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Eu rindo chorei muito.