sexta-feira, 15 de julho de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu...


Deveria descansar mais que não é bom dormir pouco que o sono repõe as energias gastas e, óbvio, acabou partindo para o discurso em nome de uma vida saudável. Só faltou sugerir que eu mudasse totalmente a alimentação. Não, não faltou. Sugeriu: — saladas de rúcula, acelga, alface... Foi me dando um sono.

Já um outro amigo disse que não é nada disso e, que cada um é cada um. Nossa que percepção. Não consegui esconder meu risinho que, como já sabem, começa no cantinho esquerdo da boca vai lentamente se abrindo, mal parece sorriso, na verdade é um leve mover de lábios. Se bem que não tive a intenção de esconder não. Amigo que é amigo não se melindra da gente demonstrar o que sente.

Já um outro amigo adepto do “Carpe Diem”, todo sorridente, foi logo dizendo que é isso mesmo : — devemos aproveitar ao máximo todos os momentos sem nos preocuparmos com o amanhã, pois não sabemos o que nos reserva o destino. O que importa é o presente e que dessa vida nada se leva mesmo e que... E que... Bem, amigo a gente gosta e pronto, independentemente se o sujeito é esquisitão, gosta de frases feita, clichês..

Já um outro amigo, poeta de mão cheia, entrou na conversa e não teceu nenhum comentário não. Só nos olhou profundamente e, com sua voz doce, relembrou o grande escritor e suas sábias palavras: — “amigo é só isto a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e todos sacrifícios . Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é .”

Com os olhos marejados de lágrimas e o sorriso escancarado esbanjamos saúde e com um bom vinho alongamos o prazer do viver.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nenhuma palavra

Paul klee

Eu não sei bem o que ele pensou, se é que pensou, mas uma atitude daquela por certo que não. Será que é possível alguém não pensar em nada? O não pensamento, o esvaziar a mente de que falam os iniciados. Em minhas andanças aprendi que é justamente o contrário, dizem os budistas que a mente deve estar sempre cheia de pensamentos, mas alertam : — bons pensamentos que tornam a mente vazia.

Observação e leveza, completam. Procuro colocar esses e alguns outros ensinamentos em prática e, às vezes, me pego no finalzinho da tarde a olhar pela janela e observar o vai e vem das pessoas apressadas em seu viver.

Quando chove, então, o corre-corre aumenta, a avenida fica uma balbúrdia, táxis que param em lugares inadequados, pessoas bravas com alguns motoristas de ônibus que não param nos pontos, buzinas... É a cidade. É o fim do dia. É também a hora da Ave-Maria. E no meio disso tudo escuto longe o sino da igreja chamando os fiéis.

E mais uma vez penso no não pensar, no desligar-se proposto por algumas seitas ou no religar atribuído ao significado da palavra religião. Eu não sei bem o que ele pensou, se é que pensou, mas uma atitude daquela por certo que não. Nenhuma palavra, nenhuma carta. Nada. Somente o vazio. Vazio da mente, do corpo. Transcendência, morte.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Era para mim.


Não sei se começo pelo que vai dentro ou fora; pelo paletó ou pela camisa. Na realidade não se trata de paletó, e muito menos camisa. Explico: — é só mesmo um velho hábito de denominar, tratar coisas diferentes como se elas fossem iguais. Paletó, blazer, casco, jaqueta. E, bastou cair à temperatura que lá estou eu procurando um blazer para vestir. Mas não uso com camisa, não. Uso mesmo é com uma camiseta, pois além de ser prático penso eu, fica mais feminino. E gosto muito.

Mas apesar da minha dúvida no começo dessa narrativa, a bem da verdade, o que importa aqui é o que vai dentro, ou melhor, o que ficou guardado dentro, no fundo de mim. Foi tudo muito rápido. Hoje, no finalzinho da tarde quando virava à esquina Moreira Cesar avistei um grupo de jovens senhoras sorridentes. Na hora não me dei conta que o sorriso era para mim. Demorei uns segundos até reconhecê-las. E, quase no meio da rua, eufóricas nos abraçamos.

As jovens senhoras foram professoras, na Escola Estadual Francisco Eufrásio Monteiro, e na época eu era a Coordenadora Pedagógica na mesma escola. Trabalhamos juntas durante três anos e nas nossas reuniões semanais, os famosos HTPCs, eu sempre procurava ler um poema, um texto literário ou comentar algum filme interessante antes de começarmos as discussões dos temas propriamente pedagógicos.

E, hoje a tarde no friozinho da Moreira Cesar, esquina da Cesário Mota, elas recordaram desse fato. Meus olhos se encheram de lágrimas, meu coração ficou apertado, e ao mesmo tempo senti uma grande alegria com essa bela lembrança guardada lá no fundo de mim.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu...



Tenho que ser mais flexível, pois nem sempre as pessoas entendem um tipo como eu. Nossa! Como assim um tipo como eu? Percebi que ele ficou embasbacado com a minha pergunta. Não esperava, por certo. E respondeu à queima-roupa. É isso. Você faz cada pergunta.

Já outro amigo disse que não é nada disso. O problema não está na pergunta, ou melhor, nas perguntas, pois devemos sempre questionar. Se iremos encontrar respostas são outros quinhentos. Como assim outros quinhentos, perguntei sem pestanejar. Viu como estou certo, argumentou meu amigo que mal esperou o outro completar a frase. E lá ficaram os dois a confabular sobre minha esquisitice.

Foi quando entrou meu amigo das horas certas o qual, tanto eu quanto você, caro leitor, aguardamos na expectativa de que, com sua sabedoria peculiar, coloque um fim nessas saudáveis discussões entre amigos. E ele foi logo dizendo: — não há nada de estranho em ser como se é. E eu não podia deixar por menos. Como assim dá para ser como não se é?  Ele, com os olhos lagrimejando de tanto rir, respondeu: — sim, é a chamada pseudo-esquisitice. Agora sou eu quem está com os olhos lagrimejando de tanto rir, pois sou verdadeiramente esquisita.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Eu sei...


 A vida sempre está por um fio. Eu sei e você, caro leitor, também o sabe. Essa frase, lugar comum, clichê como tantos que esquecemos no corre-corre da vida moderna e só muito remotamente ousamos olhá-la de frente. Talvez por sabermos de nossa impotência, nossa precariedade frente aos mistérios do viver. Mas há dias que esse mistério, sem pedir sequer licença, sorrateiramente se instala em nosso coração.

Foi de manhãzinha, como de costume caminho até a rodoviária, o trajeto não é longo e a beleza predomina — jardins bem cuidados, flores das mais variadas, ipês amarelos, roxos. Sigo totalmente indiferente aos passantes, ao movimento da avenida, e quando dou por mim estou dentro do ônibus comodamente sentada pronta para apreciar outras belezas da estrada. E meu olhar se detém em pequenos riachos, nas plantações, nos sítios, o gado no pasto. Um homem com sua enxada, roupas nos varais, verde muito verde a perder de vista.

E, lá no fundo girassóis pequenos, grandes, balançando ao vento, imponentes, majestosos. Meus olhos, como num passe de mágica, se enchem desses pequenos sóis, meu pensamento viaja na velocidade da luz. Já não estou não sou. Tudo agora são imagens. Imagens de quando eu não mais existir. Pensamentos de que eu posso não voltar. Um acidente e a morte como fato consumado. A casa que ficou para trás, o cachecol que não terminei, o poema inacabado, o almoço aos domingos, as risadas dos filhos, os gatos, os amigos, o bar, o ir e vir, a alegria de ser. Agora não é nada.
E tudo era tão real.


 

domingo, 5 de junho de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Deveria é ser mais grata na vida e estar muito das contentes, qualquer mulher no meu lugar estaria. Bem, pensei com meus botões: — primeiro eu não sou qualquer mulher e segundo, que estória é essa de ser grata. Grata eu fico quando alguém me faz uma gentileza, mas isso pelo amor de Deus.

Já um outro amigo, que acabava de chegar, foi logo perguntando :— o que é esse “mais isso” ou seria “menos isso” ou eu quem escutou mal? Diante disso, eu só podia rir mesmo. E aquele meu rizinho, que começa no canto da boca, vai abrindo lentamente e preenche todo meu rosto. Ele, percebendo que por trás dessa alegria toda havia uma grande bronca, ficou todo curioso. Mas eu não estava pra prosa, não. E me calei.

Foi quando meu bom e velho amigo entrou, e conhecedor desse rizinho foi logo perguntando: — qual a indignação dessa vez, hein? Ah! Eu não podia ficar calada, não. Amigo, como esse é raro. A gente sente aquela vontade danada de se abrir, falar o que vai lá no fundo do coração. E, assim como quem conta uma estória, fui logo falando: — Ontem alguém que não conheço. Nunca vi. Não sabe de mim, nem eu dele, escreveu e pelo tipo era Arial 12. Que sou bonita e que me admira.

Não pude deixar de refletir, como diz o sambista, com uma baita duma reiva, — Me admira porque sou bonita? Falei isso olhando nos olhos do meu amigo, que nesse momento me olhava profundamente. Senti que para ele eu era belíssima, mas que jamais tinha me admirado por isso, ou melhor, só por isso.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

"Eu Que Aprenda a Levitar''

 
"O sofrimento existe até na música. Basta reparar. Os instrumentos mais primitivos trazem a sua marca visível: as flautas são feitas de ossos, as cordas de intestinos, tambores são feitos de pele, as trompas e as cornetas de chifres. Todos os instrumentos são, na sua origem, testemunhos sangrentos da vida e da morte.”
 José Miguel Wisnik.

Além de compositor e ensaísta, é professor de literatura brasileira na USP, conversou com o público (Sorocaba) sobre o impacto das crises individuais. Para ele, cair é efeito da gravidade, daquilo que é pesado. Mas e se, em resposta a um corpo que cai, tentarmos voar, levitar? Talvez isso seja possível ao aproximar-se das possibilidades indicadas pela arte, que tantas vezes contrapõe certa leveza profunda a tudo aquilo que é pesado e superficial, acredita o compositor. Ele, que entende o mundo como barulho e silêncio, afirma: Se meu mundo cair, então caia devagar. Não que eu queira assistir, sem saber evitar. Cai por cima de mim: quem vai se machucar, ou surfar sobre a dor até o fim? Cola em mim até ouvir coração no coração. O umbigo tem frio e arrepio de sentir o que fica pra trás até perder o chão. Ter o mundo na mão sem ter mais onde se segurar. Se meu mundo cair, eu que aprenda a levitar.

Wisnik é professor de literatura brasileira na USP, compositor, ensaísta, autor dos livros Sem Receita - Ensaios e Canções (PubliFolha), Veneno Remédio - o Futebol e o Brasil (Companhia das Letras), e do CD Pérolas aos Poucos, além de trilhas para cinema, dança e teatro.


Veja mais:
http://www.cpflcultura.com.br/site/2009/12/01/integra-eu-que-aprenda-a-levitar-jose-miguel-wisnik/

sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Passos firmes, decididos"


Ela anda em direção à praia. Seus passos são firmes e decididos. Não é bonita, nem feia. Um rosto daqueles que a gente vê e nem percebe.O corpo é magro em contraste com os seios fartos. As pernas são compirdas, os cabelos soltos. Ela anda em direção á praia...  Os olhos, grandes e vazios,olham só para frente e guiam automaticamente os sesu passos.

Por que eu, Meu Deus?
Porque logo comigo?

As mãos crispadas apertam o papel, na testa, gota de suor dão um brilho saltado ao reflexo do sol. Ela chega a praia, atravessa a areia e atinge o mar. Olha em volta, ninguém. Joga o papel na água, leva as mãos à cabeça tentando prender o cabelo num gesto mecânico e sem própostio. Olha mais uma vez em volta e, sem qualquer hesitação mergulha em direção ao ignorado.


Fred Nabhan- poeta, e ex- integrante do  grupo "O Tablado", é meu aluno na Oficina em Tatui. O texto é fruto de um exercício proposto em aula,  releitura de "As bailarinas do Teatro São João" de Paulo Setúbal.   Parabéns, Fred. ADOREI!!!!  “O TABLADO” contribuiu para a formação de toda uma geração de atores, diretores, figurinistas, cenógrafos, iluminadores e músicos do teatro carioca.
ver rmais:

quinta-feira, 19 de maio de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Tenho um parafuso a menos. Na hora fiquei tão feliz, mas tão feliz que abri aquele sorrisão. Ele até se assustou. Expliquei: — sempre tive comigo que eram muitos. Ele riu e disse que não, imagine. Isso é tudo da tua cabeça. Na hora fiquei séria, mas tão seria que franzi a testa. Ele até se assustou. Mas nem perdi tempo explicando. É claro que é da minha cabeça. Vai ser de quem? Se sou eu quem está dizendo. Amigo é amigo e a gente releva, mas cada um viu.

Já um outro amigo disse que não é nada disso. É que provavelmente eu pertença ao grupo dos DDA. Olhei-o dos pés à cabeça. Mas nem ousei sorrir, muito menos ficar séria. Fiquei entre indiferente e curiosa. Uma oscilação de sentimentos tomou conta de mim. Ele percebeu e com todo cuidado que lhe é peculiar começou a tecer algumas explicações. É médico e dos bons. Entregou-me uma folha com várias perguntas. Dias depois respondi e fiquei toda satisfeita. Iidentifiquei-me apenas com cinco das oitena e cinco. Iupiiiii gritei pra ele no telefone que gentilmente perguntou: — as cinco últimas, é? Não entendi bem esse “é”? Só depois de me orientar para algumas práticas relaxantes é que completou: — irremediavelmente uma DDA e em plena ascensão. Mas como sei que ele é também um grande brincalhão, relevei.

Já um outro amigo desses que chegam sorrateiramente, olhando lá no fundo dos olhos da gente, e devagarzinho começam a conversar como quem conta um conto, uma história de antigamente. Como quem fala do rio e a gente sente toda a umidade em volta, como quem fala das árvores e logo a gente se vê saboreando uma goiaba, um pêssgo ou uma fruta qualquer. Ou de um pássaro e a gente ganha asas. Delicadamente me disse que não é nem uma coisa nem outra. Não é falta de parafuso, ou DDA, ou TOC, ou o nome que se queira dar. Mas simplesmente um viver que não conhece outra forma a não ser a do sentir o que verdadeiramente sente. E, ainda por todos os poros, imensamente.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Como num transe"

Pablo Picasso 

É preciso desligar-se do mundo dos objetos, do convívio com as pessoas, do corre-corre cotidiano. Momento de puro prazer em que o nosso corpo pede um ausentar-se de tudo e de todos. A mim, esse momento apoderou-se do meu corpo como num transe, e tornou-se uma necessidade constante. Feito pássaro livre, em seu vôo matinal, adentro lentamente no mundo da linguagem. Busco na harmonia, no jogo das palavras construir meus personagens, minhas histórias, meus poemas.

Alimento das minhas noites. Regozijo de meus dias. Prazer dos prazeres. E no silêncio reinante onde o único barulho existente é o ronronar de gatos, que se abre um vasto mundo de sonhos e fantasias, e meus dedos correm sobre o teclado.

Estou em Paris e numa fração de segundo já no Haiti, choro com o menino baleado na calçada e rio com o palhaço que a cidade contratou. Beijo loucamente um grande amor na praça iluminada com neón, e em outro capítulo à despedida iminente faz escuro o dia mais radiante. Sou previsível, sou dissimulada, sou Capitu, sou Pagu. Sou todas e nenhuma. Há em mim todas as dores do mundo. Mas também todos os risos. Uso palavras que outros usaram, narrativas de outros tempos. Fadas e reis, príncipes e princesas, heróis e vilões. Histórias antigas, modernas, contemporâneas povoam minha mente.

Verso e prosa. É  Camões, é Pessoa, é Machado, é Baudelaire. Tantos. Mestres da palavra. Fonte de minha inspiração.  A noite vai alta, o vinho é doce e no exercício o oficio de escrever.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Risos de vingança

A bailarina- Edgar Degas

Um acontecimento que lhe parecia surreal. Sua vontade era esgueirar-se pelas ruas rindo alto, alto demais que nem a reconhecessem por tamanha ousadia, ou desrespeito - como era mais provável que denominassem. A rainha Dona Mana, em vida, detestara Dona Carlota Joaquina. Dona Carlota por sua vez, detestara a rainha. Não se toleraram nunca. E agora, eis que ela olhava a velha louca no caixão, aquela a quem tanto xingou em seus pensamentos e para quem, pela primeira vez, gostaria de sorrir sinceramente, um sorriso de vitória, de alívio, de prazer! Mas infelizmente não podia. Não naquele momento.

Contendo sua falta de sofrimento, ela volta a si e fita a Senhora Viscondessa do Real Agrado e Dona Margarida Sofia de Castello Branco, ambas velando com fundos respeitos o corpo real. Com ar sombrio ela pensa que essas são umas bajuladoras sem porquê. Mal sabem os maus bocados, infortúnios e desconfortos que passara por conta da doida. Se soubessem, matraqueariam com ela sobre a alegria daquele dia.

Ela encara novamente o corpo como enamorada por tal momento, e vê tudo aquilo, aqueles lutos, aqueles cortesões fúnebres, aqueles coches recobertos de crepe. Fechava os olhos e se perdia no próprio entusiasmo. Ao se recompor voltava à pasmaceira do decorrer do velório como que abduzida, sem saber ao certo de onde e para onde voltara.

Acabado o funeral, foi se deitar como uma criança que conseguiu o que queria. Feliz como jamais imaginaria sentir-se com o fardo de ser casada com Dom João VI. E um som invade sua paz tirando-lhe a paciência:
-“Qui est-lá?”
- Sou eu!
-Dona Maria?
- E então o que pensas? Levanta-te bigoduda, já não te suporto sã, qual com essa cara de aparição!
E Maria, a louca, ria alto, alto demais para que Carlota Joaquina conseguisse se recompor da própria desventura quando abrupta e palpitante ela acorda levantando o dorso para encarar a realidade. Mais feliz do que quando foi dormir passou a gargalhar. Passado o frenesi, Carlota encara o nada com um meio sorriso e desabafa:
-Velha louca! Bigoduda são tuas partes!

Patrícia Milão- estágiária de Jornalismo - e minha aluna  na Oficina de Literatura em Tatui  "Do Romance de Paulo Setúbal aos minicontos- Exercício proposto uma releitura do conto "A bailarina do Teatro São João" de Paulo Sétubal-  "Belissimo trabalho, Patrícia. É uma alegria  postá-lo.

sábado, 7 de maio de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Deveria pensar mais a respeito do assunto, já que também sou mãe. E que é no parque de diversões que podemos saber quem realmente tem esse dom. O dom de ser mãe. Na hora não quis contrariá-lo, ele estava tão empolgado em sua fala que deixei passar. Não deveria. Acabou indo embora todo sorridente. Com aquele sorriso, fruto de quem pensa que sabe e não sabe. Não que eu saiba tudo,ao contrário, mas, pelo menos não fico rindo à toa.

Já um outro amigo falou que não é nada disso, que para nos conhecermos, ou conhecermos o outro é preciso silêncio e observação. Coisas impossíveis nos parques de hoje, com esses brinquedos velozes e barulhentos. Concordei, em parte, mesmo porque, acho tão pouco só silêncio e observação em se tratando de nos conhecermos. Imagine, então, conhecer o outro. É preciso mais disse um outro amigo, e nesse momento fechei meus olhos voltei à minha infância ao lado de minha mãe no parque de diversão. Senti o perfume que exalava de seus belos cabelos negros e a força do olhar que sempre teve sobre mim. Naquela época era sim possível saber quem e como eram as mães só pelo jeito como brincavam no silêncio reinante da balança, com seus movimentos de ir e vir, da barca puxada por cordas, do chapéu mexicano com suas voltas vertiginosas. Algumas empurram os filhos como que se através da balança eles realmente pudessem ir embora pra sempre ou a barca afundasse imaginariamente num mar de águas profundas. Eu felizmente sorria ao ver a alegria de minha mãe correndo comigo para aproveitarmos todos os brinquedos. Mesmo sem saber o que era dom, aquela mulher vivia sua maternidade com todas as forças, talvez porque vivesse todas as outras coisas da vida com a mesma intensidade. Não era só minha mãe no parque. Ali estava uma pessoa inteira. Uma mulher com vida própria, sabedora de seus desejos mais simples,consciente de que na vida é preciso escolher.

Já um outro amigo, amigo de cabeceira, conhecedor dos mistérios que nos envolve, diz:─  “Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes”.

Mãe, pai, filho, avô, tio... O que importa? Só precisamos mesmo, como canta o poeta, sermos inteiros.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Dentro do peito - A língua portuguesa-


Uma palavra veemente, e ao mesmo tempo suave, que muitas vezes ouvi quando menina: — leitura. Ler tornou-se, assim, algo constante em minha vida. A princípio somente uma maneira deliciosa de afastar-me de tudo e de todos. Mas como o tempo tornou-se uma necessidade vital. Ler, então, era o meu maior prazer.

Passava horas e horas na biblioteca, ou mesmo no fundo do quintal embaixo da velha mangueira com o livro que, às vezes, chegava a cair das minhas mãos tamanho o cansaço. Acordava assustada com minha mãe que sorrindo fechava o livro. E eu seguia cambaleando para dentro de casa a sonhar como o final da história.

Ouvi também muitas e muitas vezes comentários, preocupações carinhosas de alguns vizinhos sobre essa difícil escolha:- ficar só. Difícil para eles que não tinham descoberto, ainda, a riqueza contida nas páginas de um livro. E, hoje na distância do tempo constato que silêncio e solidão foram determinantes na minha vida. Uma área mágica que trago guardado dentro do peito.

E nessa quietude vivo uma grande emoção, uma festa, um quase ritual orgíaco sentido em cada verso do poema, em cada conto, romance, crônica de escritores fabulosos dessa belíssima língua que tanto me encanta: — a língua portuguesa.
 
 
 

domingo, 1 de maio de 2011

Dança - A vida que pulsa

É noite. A dança acontece. O pensamento se vai. No ar, os tambores, a voz, a paixão, a música a sedução. O burburinho das conversas aos poucos se dilui. O salão, como num passe de mágica, ganha dimensões espetaculares.

E, meu corpo desliza leve sobre a pista feito à bailarina de que fala Mallarmé: — Ela não dança, é uma metáfora onde o movimento se dá a ver.Semelhante à bailarina do poeta, então, também me deixo ver e sou toda movimento. Sou toda sentimento, toda alegria nos requebros e remeleijos do quadril, no balançar das mãos, no arrastar dos pés.

A noite vai alta o corpo cansa, mas quer continuar e num quase ritual gira, gira, gira em puro delírio. Delírio da dança, beleza de ser um corpo entre tantos outros corpos que, em pleno movimento sente a vida que pulsa e pulsando vive.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu

 
Faço parte desse grupo de pessoas de temperamentos desensofridos, e apesar de ter comentado comigo, em uma outra oportunidade, essa sua teoria me fiz de rogada só pelo prazer em ouvi-lo. Ele, então, não perdeu a oportunidade e entusiasticamente discursou: — Veja bem, cara amiga, há no mundo somente dois tipos de pessoas: — os de temperamentos desensofridos, os quais estão sempre prontos a zombar vão da pilhéria à bofetada com a rapidez de um salto, mas ao mesmo tempo conservam o bom humor; e os de temperamentos sofridos totalmente sem humor, carregam o mundo nas costas.

Já um outro amigo disse que a dor é a condição sine qua non para subirmos os degraus da evolução espiritual, mas que em mim a dor virou pura ventania. Concordei porque gosto mesmo de olhar minhas mazelas não como ventania que gela o corpo, mas feito palito de fósforo aceso. Fogo rápido. Queima somente quando seguramos tempo demais. E aproveitei da oportunidade já que meu amigo, o criador da teoria, me olhava como quem espera uma resposta. Aí não me fiz de rogada, não. E arrematei: — não se chega ao grupo dos desensofridos sem o muito sofrer.

Já um outro amigo com a serenidade dos que sabe que a dor queima feito fogo, mas que também gela feito ventania, trouxe na sua prosa a beleza da poesia e disse que, quer pertença ao grupo dos sofridos ou desensofridos, como eu amanheço e anoiteço no mundo das palavras nada disso importa. Dor, alegria, fogo, ventania tudo vira fantasia. Concordei porque, como ele, acredito no poder da palavra transformando nossas vidas. Ele conhecedor do que vai fundo em mim riu um risinho de quem sabe a dor que provocaria sua partida.

sábado, 16 de abril de 2011

O HOMEM QUE COMIA PALAVRAS

O Homem Que Comia Palavras
O Homem Que Comia
O Homem Que
O Homem

O

Godiva

Dionísio era o seu nome. Nome de deus grego amante de festas e orgias. Mas este Dionísio da história era diferente. Avesso a qualquer agrupamento humano, solitário, só tinha uma mania que o distinguia dos comuns mortais: comia palavras.
Foi assim desde criança, quando começou a falar. No início, comia sílabas, depois passou a devorar vocábulos inteiros.
“– Qual o seu nome, menino?”
E ele respondia:
“– Dio.”
“– Dio? Que lindo!”
Na escola, ele levava o dicionário na lancheira. Enquanto a criançada, no recreio, se empanturrava de sorvete e hot-dog, ele simplesmente abria os seus verbetes preferidos no livrinho e comia com os olhos: “Pão-de-ló. S. m. [............], Chocolate. S. m. [............], Orchata. S. f. [............]. Huuummm!!!”
Assim, fazendo dos olhos parte do seu sistema digestivo, devorava o que melhor lhe apetecia.
Os pais o levaram a psicólogos, que logo identificaram sua estranha doença como “verbofagia crônica irreversível”.
Sim, o seu mal não tinha cura, pois, para o tratamento era necessário isolá-lo de livros, jornais e de qualquer material ou objeto que apresentasse palavras impressas. Ou seja, uma missão impossível.
Dessa maneira, Dionísio foi crescendo à sua moda, escolhendo sua alimentação nos cardápios dos melhores restaurantes da cidade. Ele entrava, pedia ao maître o menu e se deliciava com um refinado “canard aux oranges”, um “einsbein”ou um prosaico “beef steak”. Dionísio era um autêntico verbofágico poliglota, um fenômeno de paranormalidade glutônica multinacional.
Essa sua curiosa peculiaridade e seu modo conciso de falar fizeram de Dionísio um verdadeiro deus: Dio.
Como já dizia a bíblia, no princípio era o verbo. E o verbo, a palavra, o signo escrito, era o combustível vital desse estranho ser.
Aos 33 anos, Dio já havia experimentado todas as iguarias de todos os povos da terra. Um gourmand completo, pós-graduado em gastronomia e nutricionismo virtual. Era consultado por especialistas, que o procuravam para conhecer a receita de pratos exóticos, da Conchinchina ao Afeganistão. Ele respondia por escrito, pois era a única forma através da qual conseguia se comunicar.
Nessa altura da vida, Dionísio começou a evitar leituras de qualquer espécie e iniciou um processo auto-destrutivo. Fez greve de palavras e, consequentemente, greve de fome.
Primeiro, perdeu peso. Depois, os cabelos. E, sem usar mais caneta e papel ou computador, isolou-se do mundo.
Bastaram alguns dias para que de sua boca saíssem apenas duas sílabas, pronunciadas num sopro: “Di-o”!
Nas vésperas de sua morte, balbuciava incessantemente: “Io, Io, Io”...
Até que, já agonizando, emitiu o mantra dos mantras, o som vazio, circular, redondo e perfeito: “O”.
Arregalou os olhos e descansou em paz.

Elizabete Leite: professora de Inglês, moradora de Tatui. Atualmente minha aluna na Oficina de Literatura (em Tatui). Adorável perguntou-me "se leva jeito para escrever contos/crônicas...", preciso responder :o)

domingo, 10 de abril de 2011

Do homem cordial à sinuca de bico.


Às vezes, muitas, ficamos numa sinuca de bico, saia justa mesmo. E somos cordiais, aqui vale lembrar "O homem cordial', um capítulo da obra "Raízes do Brasil", de Sérgio buarque de Holanda, onde o tema é belíssimamente tratado , certeiro, e não há como discordar. Perfeito.
E se a prática é a da cordialidade seremos taxados ,com toda razão, de coniventes com o que ai está, hipócritas, manipuladores...

E se optamos, corajosamente, pela franqueza, pelo embate, pelo esclarecimento do que entendemos, do que está acontecendo conosco , ou com o nosso entorno seremos taxados de  problématicos, mal amados, um caso a parte, um sujeito suspeitíssimo. Bipolar, tão na moda. Carente, solitário.  Um louco!

O que nos resta?  Um fechar- se em si mesmo? Um sorrisinho amarelo? Um tapinha nas costas. Alguns, a maioria,  com certeza seguiram esse caminho. Não diria mais fácil, talvez mais elegante, mais apropriado, mais lucrativo, mais... sempre mais.   Eu me contento com menos, bem menos :  - um elegante e sonoro va à merda, meu caro. Um preço que  sempre estive disposta a pagar.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Que eu não meço as palavras. Medir, medir, eu meço sim. O que esse amigo não sabe é que não há uma medida e nem por isso uma desmedida. Cada momento exige de nós uma medida, completei. Ele me olhou dos pés à cabeça numa atitude de quem quer medir forças. E vi no seu olhar o espanto dos que acreditam que é possível usar a mesma medida para tudo. Medir, medir, eu meço sim. E essa hora exigia uma medida dita em alto e bom tom. Caro amigo que merda é essa que está a me dizer.

Já um outro amigo diante desse fato disse que não é nada disso. A verdade é que sou muito exigente comigo e com as palavras. Como se um coisa estivesse separada da outra, eu disse. E isso com um risinho já velho conhecido de todos, mas que não chega a ser irônico apenas provocativo. Sou, e a medida de exigência é a mesma para mim e para com o outro. Mas a maioria das pessoas não gosta dessa exigência. É sempre uma para si e outra para o outro.

Já um outro amigo disse que isso acontece porque tudo é sem medida, imensurável, relativo. Hum! Essa é daquelas certezas feitas às pressas totalmente sem medida, descabível. É claro que não só podemos como medimos o tempo todo. Mas será que ele pensou que eu me referia às pessoas. Dei uma medida nele que sem jeito saiu à francesa, mas não era minha intenção, não. Amigo a gente gosta de qualquer jeito mesmo quando não concordamos.

Já um outro amigo desses que sabe a exata medida das coisas. Disse que cada um gosta a sua maneira. Gosta muito, largo infinito, mas também pequeno e raso. E que eu não precisava ficar triste, não. Se meu amigo foi embora só porque não concordei com suas palavras é porque essa era a medida dele. E completou: — É que para nós, diferentemente da maioria, pessoas e palavras são uma coisa só.

Medir, medir eu meço sim, e fecho com o grande poeta ... “e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem...”


terça-feira, 15 de março de 2011

Água vital, poesia.


Um pensamento surge bem devagar toma corpo em meu corpo, permeia minha mente, mexe com meus sentidos transforma o momento comum em rara beleza.  Apenas uma palavra dita por mim, ou mesmo por outro para que esse fato singular aconteça. E um mundo se abre à minha frente.

Avenidas movimentadas, girassóis nos campos, uma mulher, uma criança, um pássaro, um funeral. Os que por mim passam percebem uma mudança no olhar. Vago diriam alguns, sonhador diriam outros.
E há os exagerados, que afirmam ser um olhar demente.

Eu mesma não sinto assim. Nem vago, nem sonhador, nem demente. Somente o olhar de quem se sabe pleno, inteiro.  Eu um vivente das palavras que mal rompe a manhã saio a colhê-las nas ruas, nos bares, nos escritórios, nas feiras.
Em todo o canto, ouço seu canto. São azuis, negras, vermelhas.
De amor ou de ódio. De prosa e de verso.
Palavra poética, água vital.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Escapo, feito água, pelos vãos dos dedos. Será que ele pensa que eu quero estar entre os vãos dos dedos de alguém, entrelaçada? Não, penso que não. Ele me conhece pouco, mas conhece, e já percebeu que sou menos líquida e mais rarefeita, solta.
Já um outro amigo disse que não é nada disso, que nem líquida, nem rarefeita, que sou sólida, feito pedra. Desejo de brilho. Na hora, juro que levei um susto. Não imaginava que alguém me visse assim, sempre tive a vaga sensação de que sou vista como um vento forte, desses que traz tempestade, derruba portas e janelas, desnuda todos e tudo, mas que no fim deixa tudo limpo.
Já um outro amigo, desses que enxerga em cada um a natureza toda, disse que eu derramo, não feito água, mas em palavras, e que por isso mesmo não gosto de entrelaçar, ficar presa, que transbordo em versos livres, que não caibo em mim porque sou múltipla.
E eu sorri levemente, mas eis que chega meu amigo, amigo de longa data, conhecedor profundo do que trago no peito, olhando-me fundo nos olhos disse que eu sou líquida na paixão, sólida como uma flor na terra, etérea junto ao corpo amado. Então suas palavras ecoaram na sala, testemunhando o que há muito eu já vivia, a paixão de ser como se é.