quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Semper vivium


Viver é, para a Biologia, em suma, simplesmente manter um metabolismo, produzir energia quando comemos ou respiramos.
Mas, nessa nossa vida corrida, das noites mal dormidas, das manhãs acordadas de sobressalto e das tardes paradoxalmente atribuladas em monotonias cotidianas, quantos de nós estão apenas existindo, sem saborear a unicidade do momento ou respirar a dádiva da liberdade?
Quando foi a última vez que você olhou para o céu?
Mais corriqueiro e menos clichê que isso; quando foi que disse: “bom dia!”, assim mesmo: com exclamação no fim: “bom dia!”. Daqueles que não é dito de forma mecânica, automática, como quem tem em mente a tarefa futura a ser realizada, e sim daqueles que escapa por entre os dentes; aquele que a gente sente emergir das profundezas das entranhas, aquecendo ao passar pelo coração e rasgando o horizonte num sorriso largo.
“Vivo intensamente!”, dizem muitos.
O que é “intensamente”?
É acordar saltando de asa-delta e já aterrissar no lombo de um cavalo em disparada?
É isso intensidade? Velocidade? O fazer incessante? O riscar itens de uma lista a ser cumprida?
Por que não extrair zelosamente a grandeza ímpar dos diminutos detalhes que nos cercam? Saber o momento de parar em contemplação do agora?
Ter vagareza búdica.... vagabúdica.
Rir!
Isso mesmo! Rir das palavras, das novas palavras, das velhas, do novo uso das velhas.
Apreciar cada fonema, cada som que faz vibrar o tímpano, palpitar o coração.
Porém, talvez seja difícil, nestes tempos gris, sentir a energia correr nas veias.
Talvez estejamos com a vista turva, coberta pelas cinzentas nuvens das convenções e convicções, pautando-nos no dever de viver, de conviver, de sobreviver.
Catatônicos na praticidade diária.
Contudo, cabe a nós nos libertarmos das amarras sociais, das pesadas correntes da obrigação, das grades dos julgamentos e abrir fúlgidas asas forjadas na autenticidade, alçando voo rumo ao infinito das possibilidades.
Gritar: “Carpe diem!”;
“Carpe noctem!”;
“Carpe vita!”

Pedro Aduan- professor de Japonês-  aluno da UNISO- Universidade de Sorocaba- Letras- e meu garoto :o)

sábado, 24 de setembro de 2011

da série- Tenho um amigo que disse que eu:


Ando é muito ranzinza, mas que ele entende, imagine. E sabe que é justíssimo esse meu momento, que são muitos compromissos, blá... blá...blá...E por aí foi com um discurso todo cheio de dedos. Eu que não sou boba aproveitei para rir um pouco. E pude mais uma vez constatar, o que ele nem de longe compreende, a leveza que sinto com meus deliciosos compromissos. Ri muito. Foi quando ele à queima roupa disse:- péssimo o seu comportamento no oftalmologista. Nossa! Não se pode mais comentar nada que a notícia se espalha e, claro cada um aumenta um detalhezinho só pra colocar seu estilo pessoal de narrar. Pronto, é o que basta.

Já outro amigo, à boca pequena, me disse: — achei uma bobagem o ocorrido. Não precisava todo aquele pampeiro era só um exame corriqueiro, aliás, e usado desde o tempo da minha avó, Fiquei, com meus botões, a matutar que pampeiro será esse que chegou aos seus ouvidos. Mas amigo é amigo, e se a gente não puder falar o que está pensando melhor nem falar nada. E ele é meu amigo, sei disso. E foi ,então, que rasguei o verbo :— Meu querido, veja você que depois de todos aqueles exames de alta tecnologia ,o sujeito ou melhor o doutor pede gentilmente que eu me acomode em uma bela poltrona , apaga as luzes e de repente só o clarão na outra parede com algumas letras do nosso alfabeto e a famosa técnica: —

A senhora enxerga melhor: — assim, clic ou assim, clic assim ou assim clic assim... E como eu tenho o hábito de comparar para poder escolher o que sinto com a melhor opção, a cada mudança da futura lente respondia: — essa está melhor do que anterior, ah! essa é mais nítida , essa... O que o médico não gostou, pude perceber. Até que levada pelo que meu amigo nomeou acima, ranzinza, e eu categoricamente entendo como o ato de refletir, disse em bom tom ao médico: — impossível não fazer comparações quando temos que escolher é um processo natural da nossa mente, infelizmente nem todos fazem uso desse recurso, pois para muitos pensar é cansativo e por ai fui ... clic, luz acesa. Bom dia, doutor.

Dessa vez nem tive tempo de ouvir meu outro amigo que, com seu passinho miúdo, chegava. Mas ele também nem disse nada, sabedor que é da importância da refexão, sabia que não havia nada a dizer mesmo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Minicontos

Livro -Dois Palitos- Samir Mesquita


O vento ,inconstante e infiel, dançou primeiro com o trigal,mas logo logo, o trocou pelas cortinas da sala.

O outono chegou entre brisas e desejos. A árvore se despiu apressada .Fizeram amor em plena rua.

Se eu fôsse você ,ficava me beijando o tempo todo.
Já eu, se fôsse você, iria muito além.

Não quer casar, não quer juntar. Que é que você quer, então?Distância.



Fred Nabhan- escritor/ poeta, e ex- integrante do grupo "O Tablado", é meu aluno na Oficina "Os minicontos" ,em Tatui. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

"Tempos Modernos"




-Isto é um assalto.

-No débito ou no crédito?





Fred Nabhan-  escritor/ poeta, e ex- integrante do  grupo "O Tablado", é meu aluno na Oficina em Tatui. O minitexto é fruto de um exercício proposto em aula

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Calcinha de Oncinha

          Dias antes da festa das bodas de prata, a mulher flagra o marido comprando calcinhas de oncinha.

-Faz vinte e cinco anos que você me conhece e nunca usei isso.
-Para quem é, para a sua amante?
Ele pálido e gaguejando, responde:
-É pra mim. Eu sempre adorei usar calcinhas ,me perdoe.
A festa das bodas foi um sucesso. Ele nunca mais deixou de usar calcinhas, pelo menos em casa.  Tampouco, deixou a amante.

                                                
Ary Roberto de S.Pinto- ex- diretor cultural em Tatuí , e atualmente meu aluno na Oficina "Os minicontos"

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

da série- Tenho um amigo que disse que eu:


Posso parar no meio do caminho, aliás, que todos podem. Como assim parar no meio do caminho? E só por brincadeira completei: — para colher flores e levar para a vovozinha. Mas parece que meu amigo não gostou da piadinha e calou-se. Por certo queria alongar-se na questão

Já outro amigo, solidário por natureza, resolveu tomar as dores do colega incomum e disse concordar. E ainda acrescentou, para o espanto do nosso amigo, com um ar todo sério: — Podemos sim parar, apreciar a natureza e quem sabe até descobrir um lugarzinho gostoso para se morar, fazer novos amigos. Não teve jeito, depois dessa o clima ficou tão carregado que os dois nem se despediram. Saíram a miúdo.

Já outro amigo, amante de caminhos e caminhadas, disse que podemos tanto seguir em frente, mesmo sabendo que o caminho será árduo, se essa é a nossa meta ou dar meia volta, mas não pelo fato da sua aridez e sim porque nos parece o melhor a ser feito. Afinal, quem disse que não podemos escolher outro caminho, desistir de tudo já conquistado para conquistar outros sonhos, talvez menores, mas nem por isso menos importante e com os quais sentimos a verdadeira alegria do viver.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Em todos os poros

  Eugène Delacroix

O momento, esse em que vivo é feito de outros momentos. Está na minha pele e em todos os poros, no fio do meu cabelo, no jeito do meu olhar, no barulho do meu movimento e no silêncio do meu repouso. O sorriso é feito de outros sorrisos, o choro de outros choros, o silêncio de outros silêncios. Tudo em mim já foi um dia do outro.

Somente a palavra é minha, ainda que venha de tantos outros, de tantos caminhos. Escolhi seu nascimento. E foi da boca dos rios, do grito dos bichos, do cheiro do mato, do sol, do vento, da chuva , da tempestade. Por isso, minha palavra pode ser movimento, força, cheiro. Pode ser quente ou fria. Não importa. O que importa é o momento, esse em que vivo e no qual uso de todas as palavras que escolho. Pois como disse o poeta: 

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

mas variados são os modos
como uma coisa
está em outra coisa..."
F.Gullar


E, variadas são as palavras, mas o que seria do homem se não houvesse a liberdade para usá-las.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

MINICONTOS


VOLTA
Não era miado. Agora ela tinha certeza. Era um choro abafado, que insistia em preencher o vazio daquelas horas mortas. Uma criança recém-nascida, talvez? Desceu a escada curiosa. Abriu a porta da sala e viu Helena lá fora com um bebê no colo. A mesma Helena que saíra de casa furiosa, prometendo nunca mais voltar. Olhou para dentro dos olhos dela. Olhou para a criança e sorriu. Balançou a cabeça de cima para baixo, num sinal de consentimento. Pode entrar, minha filha. Você chegou no dia certo.
 É Natal.


FINADOS
O anjo piscou pra mim. Pisquei de volta.
- E aí, tudo bem?
- Tudo bem, disse ele, batendo as asas e desfazendo a pose de estátua. Chegou bem perto de mim e cochichou no meu ouvido.
-Quer saber de uma coisa? Tô de saco cheio de ficar aqui plantado, com essa cara de santo, rezando pelas almas dos mortos. Bom mesmo era o meu emprego de cupido. Tocava fogo no coração da moçada. Seu avô e sua avó, que agora descansam em paz, se apaixonaram por minha causa. Foi tudo armação minha.
Disse isso e piscou mais uma vez, voltando a ficar imóvel.
Pensei com meus botões. É isso aí, seu anjo. Se não fosse você, eu não existiria. Nem estaria aqui, lavando túmulo, nessa tarde morna de finados.

ANOSMIA
Eles estavam ali, no Centro da Memória. O instrutor tinha convocado a reunião para falar sobre um tema comum a todos: o cheiro. Dei meu testemunho:
- Para mim, o cheiro de alho é carregado de emoção. Lembra minha mãe, sua comida, minha infância. Tempos que não voltam mais.
Outros depoimentos se seguiram. Alguns destacavam os cheiros de flores, de perfumes de pessoas amadas ou odiadas. Outros partiam para a escatologia: falavam de cheiros corporais, de suor, urina e fezes. Muitas histórias de paixões, tristezas e alegrias.
Ouvindo com muita atenção, ele se encolheu no canto da sala. Como se tivesse cometido um pecado gravíssimo, confessou:
- Invejo vocês. Não sinto e nunca sentirei cheiro nenhum. Tenho anosmia, falta de olfato. O mundo, para mim, é um quadro de natureza morta.


JASMIM
You make me feel so young
You make me feel like spring has sprung…
A música de Sinatra invadiu o quarto e ele se viu ainda moço, correndo no campo com sua amada, colhendo flores pelo caminho e brincando de esconde-esconde.
De repente um alvoroço ao seu redor, luzes em seu rosto, o médico com ar preocupado. Um cheiro forte de jasmim. Ela estava ali para voar com ele para muito, muito longe.


FREE AGAIN
Estava quase sem fôlego. Queria se misturar àquela massa humana, ficar invisível na multidão, fugir daquele pesadelo. Entrou no vagão e olhou ao redor. Ele finalmente tinha desaparecido e ela podia agora respirar aliviada. A próxima estação estava chegando: Liberdade.

DECLARAÇÃO
Ele estava sentado na mesma mesinha do café em que se conheceram. Com aquele romantismo de galã barato, beijou sua mão e ajeitou a cadeira, disfarçando o nervosismo.
- Sabe aquele exame de sangue que eu te falei? Pois é, deu HIV positivo.


Elizabete Leite: Professora de Português/ Inglês - moradora de Tatui. Atualmente minha aluna na Oficina de Literatura Gênero Minimalista: "Os Minicontos" , no Museu Paulo Setúbal.


 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

da série- Tenho um amigo que disse que eu:



...quem acredita que todos enxergam ou buscam enxergar além dos fatos. E a queima roupa dise: — O que importa se você vê diferente? Uai! Importa, pois sou eu quem vê, respondi. E só para provocá-lo argumentei: — quem disse para você que eu penso que enxergo diferente, aliás, pode ser uma visão semelhante à de muita gente. Gente que não vê a árvore, mas o pássaro. Não o beco, mas a morte; a partida e não o trem. Surpreso, ele arregalou aqueles belos olhos verdes como o mar, sorriu e disse: — você enxerga demais.

Já outro amigo disse: nãnãninãnã. Não é nada disso. Você quer que o outro também veja como você vê e não como eles vêem, ou pensam que vêem... ou será que é você que não vê? Hum! Esse é aquele amigo todo explicadinho, que a gente acaba concordando só para evitar tempo e perdas. Não, caro leitor, não pense que é perda da amizade. Amigo que é amigo não se deixa abater à toa. Ele, sabedor disso, não perde tempo e vai embora todo satisfeito.

Já outro amigo, bom de prosa, adentrou a conversa sem nada comentar, pois sabia que o momento era da poesia. De olhos fechados, olhador profundo das coisas e da vida que é, enxergou no fundo de si o poema há tanto tempo guardado, o poema de seu poeta predileto. Sua voz ecoou na sala e nos fez enxergar, por um momento, a vida com os olhos do amigo e do poeta.

Olhar
Ferreira Gullar

O que eu vejo
Me atravessa
Como o ar a ave
O que eu vejo passa
Através de mim
Quase fica
Atrás de mim
O que eu vejo
- a montanha, por exemplo,
Banhada de sol -
Me ocupa
E sou então apenas
Essa rude pedra iluminada ou quase
Se não fora
Saber que a vejo.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu...


Deveria descansar mais que não é bom dormir pouco que o sono repõe as energias gastas e, óbvio, acabou partindo para o discurso em nome de uma vida saudável. Só faltou sugerir que eu mudasse totalmente a alimentação. Não, não faltou. Sugeriu: — saladas de rúcula, acelga, alface... Foi me dando um sono.

Já um outro amigo disse que não é nada disso e, que cada um é cada um. Nossa que percepção. Não consegui esconder meu risinho que, como já sabem, começa no cantinho esquerdo da boca vai lentamente se abrindo, mal parece sorriso, na verdade é um leve mover de lábios. Se bem que não tive a intenção de esconder não. Amigo que é amigo não se melindra da gente demonstrar o que sente.

Já um outro amigo adepto do “Carpe Diem”, todo sorridente, foi logo dizendo que é isso mesmo : — devemos aproveitar ao máximo todos os momentos sem nos preocuparmos com o amanhã, pois não sabemos o que nos reserva o destino. O que importa é o presente e que dessa vida nada se leva mesmo e que... E que... Bem, amigo a gente gosta e pronto, independentemente se o sujeito é esquisitão, gosta de frases feita, clichês..

Já um outro amigo, poeta de mão cheia, entrou na conversa e não teceu nenhum comentário não. Só nos olhou profundamente e, com sua voz doce, relembrou o grande escritor e suas sábias palavras: — “amigo é só isto a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e todos sacrifícios . Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é .”

Com os olhos marejados de lágrimas e o sorriso escancarado esbanjamos saúde e com um bom vinho alongamos o prazer do viver.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nenhuma palavra

Paul klee

Eu não sei bem o que ele pensou, se é que pensou, mas uma atitude daquela por certo que não. Será que é possível alguém não pensar em nada? O não pensamento, o esvaziar a mente de que falam os iniciados. Em minhas andanças aprendi que é justamente o contrário, dizem os budistas que a mente deve estar sempre cheia de pensamentos, mas alertam : — bons pensamentos que tornam a mente vazia.

Observação e leveza, completam. Procuro colocar esses e alguns outros ensinamentos em prática e, às vezes, me pego no finalzinho da tarde a olhar pela janela e observar o vai e vem das pessoas apressadas em seu viver.

Quando chove, então, o corre-corre aumenta, a avenida fica uma balbúrdia, táxis que param em lugares inadequados, pessoas bravas com alguns motoristas de ônibus que não param nos pontos, buzinas... É a cidade. É o fim do dia. É também a hora da Ave-Maria. E no meio disso tudo escuto longe o sino da igreja chamando os fiéis.

E mais uma vez penso no não pensar, no desligar-se proposto por algumas seitas ou no religar atribuído ao significado da palavra religião. Eu não sei bem o que ele pensou, se é que pensou, mas uma atitude daquela por certo que não. Nenhuma palavra, nenhuma carta. Nada. Somente o vazio. Vazio da mente, do corpo. Transcendência, morte.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Era para mim.


Não sei se começo pelo que vai dentro ou fora; pelo paletó ou pela camisa. Na realidade não se trata de paletó, e muito menos camisa. Explico: — é só mesmo um velho hábito de denominar, tratar coisas diferentes como se elas fossem iguais. Paletó, blazer, casco, jaqueta. E, bastou cair à temperatura que lá estou eu procurando um blazer para vestir. Mas não uso com camisa, não. Uso mesmo é com uma camiseta, pois além de ser prático penso eu, fica mais feminino. E gosto muito.

Mas apesar da minha dúvida no começo dessa narrativa, a bem da verdade, o que importa aqui é o que vai dentro, ou melhor, o que ficou guardado dentro, no fundo de mim. Foi tudo muito rápido. Hoje, no finalzinho da tarde quando virava à esquina Moreira Cesar avistei um grupo de jovens senhoras sorridentes. Na hora não me dei conta que o sorriso era para mim. Demorei uns segundos até reconhecê-las. E, quase no meio da rua, eufóricas nos abraçamos.

As jovens senhoras foram professoras, na Escola Estadual Francisco Eufrásio Monteiro, e na época eu era a Coordenadora Pedagógica na mesma escola. Trabalhamos juntas durante três anos e nas nossas reuniões semanais, os famosos HTPCs, eu sempre procurava ler um poema, um texto literário ou comentar algum filme interessante antes de começarmos as discussões dos temas propriamente pedagógicos.

E, hoje a tarde no friozinho da Moreira Cesar, esquina da Cesário Mota, elas recordaram desse fato. Meus olhos se encheram de lágrimas, meu coração ficou apertado, e ao mesmo tempo senti uma grande alegria com essa bela lembrança guardada lá no fundo de mim.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu...



Tenho que ser mais flexível, pois nem sempre as pessoas entendem um tipo como eu. Nossa! Como assim um tipo como eu? Percebi que ele ficou embasbacado com a minha pergunta. Não esperava, por certo. E respondeu à queima-roupa. É isso. Você faz cada pergunta.

Já outro amigo disse que não é nada disso. O problema não está na pergunta, ou melhor, nas perguntas, pois devemos sempre questionar. Se iremos encontrar respostas são outros quinhentos. Como assim outros quinhentos, perguntei sem pestanejar. Viu como estou certo, argumentou meu amigo que mal esperou o outro completar a frase. E lá ficaram os dois a confabular sobre minha esquisitice.

Foi quando entrou meu amigo das horas certas o qual, tanto eu quanto você, caro leitor, aguardamos na expectativa de que, com sua sabedoria peculiar, coloque um fim nessas saudáveis discussões entre amigos. E ele foi logo dizendo: — não há nada de estranho em ser como se é. E eu não podia deixar por menos. Como assim dá para ser como não se é?  Ele, com os olhos lagrimejando de tanto rir, respondeu: — sim, é a chamada pseudo-esquisitice. Agora sou eu quem está com os olhos lagrimejando de tanto rir, pois sou verdadeiramente esquisita.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Eu sei...


 A vida sempre está por um fio. Eu sei e você, caro leitor, também o sabe. Essa frase, lugar comum, clichê como tantos que esquecemos no corre-corre da vida moderna e só muito remotamente ousamos olhá-la de frente. Talvez por sabermos de nossa impotência, nossa precariedade frente aos mistérios do viver. Mas há dias que esse mistério, sem pedir sequer licença, sorrateiramente se instala em nosso coração.

Foi de manhãzinha, como de costume caminho até a rodoviária, o trajeto não é longo e a beleza predomina — jardins bem cuidados, flores das mais variadas, ipês amarelos, roxos. Sigo totalmente indiferente aos passantes, ao movimento da avenida, e quando dou por mim estou dentro do ônibus comodamente sentada pronta para apreciar outras belezas da estrada. E meu olhar se detém em pequenos riachos, nas plantações, nos sítios, o gado no pasto. Um homem com sua enxada, roupas nos varais, verde muito verde a perder de vista.

E, lá no fundo girassóis pequenos, grandes, balançando ao vento, imponentes, majestosos. Meus olhos, como num passe de mágica, se enchem desses pequenos sóis, meu pensamento viaja na velocidade da luz. Já não estou não sou. Tudo agora são imagens. Imagens de quando eu não mais existir. Pensamentos de que eu posso não voltar. Um acidente e a morte como fato consumado. A casa que ficou para trás, o cachecol que não terminei, o poema inacabado, o almoço aos domingos, as risadas dos filhos, os gatos, os amigos, o bar, o ir e vir, a alegria de ser. Agora não é nada.
E tudo era tão real.


 

domingo, 5 de junho de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Deveria é ser mais grata na vida e estar muito das contentes, qualquer mulher no meu lugar estaria. Bem, pensei com meus botões: — primeiro eu não sou qualquer mulher e segundo, que estória é essa de ser grata. Grata eu fico quando alguém me faz uma gentileza, mas isso pelo amor de Deus.

Já um outro amigo, que acabava de chegar, foi logo perguntando :— o que é esse “mais isso” ou seria “menos isso” ou eu quem escutou mal? Diante disso, eu só podia rir mesmo. E aquele meu rizinho, que começa no canto da boca, vai abrindo lentamente e preenche todo meu rosto. Ele, percebendo que por trás dessa alegria toda havia uma grande bronca, ficou todo curioso. Mas eu não estava pra prosa, não. E me calei.

Foi quando meu bom e velho amigo entrou, e conhecedor desse rizinho foi logo perguntando: — qual a indignação dessa vez, hein? Ah! Eu não podia ficar calada, não. Amigo, como esse é raro. A gente sente aquela vontade danada de se abrir, falar o que vai lá no fundo do coração. E, assim como quem conta uma estória, fui logo falando: — Ontem alguém que não conheço. Nunca vi. Não sabe de mim, nem eu dele, escreveu e pelo tipo era Arial 12. Que sou bonita e que me admira.

Não pude deixar de refletir, como diz o sambista, com uma baita duma reiva, — Me admira porque sou bonita? Falei isso olhando nos olhos do meu amigo, que nesse momento me olhava profundamente. Senti que para ele eu era belíssima, mas que jamais tinha me admirado por isso, ou melhor, só por isso.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

"Eu Que Aprenda a Levitar''

 
"O sofrimento existe até na música. Basta reparar. Os instrumentos mais primitivos trazem a sua marca visível: as flautas são feitas de ossos, as cordas de intestinos, tambores são feitos de pele, as trompas e as cornetas de chifres. Todos os instrumentos são, na sua origem, testemunhos sangrentos da vida e da morte.”
 José Miguel Wisnik.

Além de compositor e ensaísta, é professor de literatura brasileira na USP, conversou com o público (Sorocaba) sobre o impacto das crises individuais. Para ele, cair é efeito da gravidade, daquilo que é pesado. Mas e se, em resposta a um corpo que cai, tentarmos voar, levitar? Talvez isso seja possível ao aproximar-se das possibilidades indicadas pela arte, que tantas vezes contrapõe certa leveza profunda a tudo aquilo que é pesado e superficial, acredita o compositor. Ele, que entende o mundo como barulho e silêncio, afirma: Se meu mundo cair, então caia devagar. Não que eu queira assistir, sem saber evitar. Cai por cima de mim: quem vai se machucar, ou surfar sobre a dor até o fim? Cola em mim até ouvir coração no coração. O umbigo tem frio e arrepio de sentir o que fica pra trás até perder o chão. Ter o mundo na mão sem ter mais onde se segurar. Se meu mundo cair, eu que aprenda a levitar.

Wisnik é professor de literatura brasileira na USP, compositor, ensaísta, autor dos livros Sem Receita - Ensaios e Canções (PubliFolha), Veneno Remédio - o Futebol e o Brasil (Companhia das Letras), e do CD Pérolas aos Poucos, além de trilhas para cinema, dança e teatro.


Veja mais:
http://www.cpflcultura.com.br/site/2009/12/01/integra-eu-que-aprenda-a-levitar-jose-miguel-wisnik/

sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Passos firmes, decididos"


Ela anda em direção à praia. Seus passos são firmes e decididos. Não é bonita, nem feia. Um rosto daqueles que a gente vê e nem percebe.O corpo é magro em contraste com os seios fartos. As pernas são compirdas, os cabelos soltos. Ela anda em direção á praia...  Os olhos, grandes e vazios,olham só para frente e guiam automaticamente os sesu passos.

Por que eu, Meu Deus?
Porque logo comigo?

As mãos crispadas apertam o papel, na testa, gota de suor dão um brilho saltado ao reflexo do sol. Ela chega a praia, atravessa a areia e atinge o mar. Olha em volta, ninguém. Joga o papel na água, leva as mãos à cabeça tentando prender o cabelo num gesto mecânico e sem própostio. Olha mais uma vez em volta e, sem qualquer hesitação mergulha em direção ao ignorado.


Fred Nabhan- poeta, e ex- integrante do  grupo "O Tablado", é meu aluno na Oficina em Tatui. O texto é fruto de um exercício proposto em aula,  releitura de "As bailarinas do Teatro São João" de Paulo Setúbal.   Parabéns, Fred. ADOREI!!!!  “O TABLADO” contribuiu para a formação de toda uma geração de atores, diretores, figurinistas, cenógrafos, iluminadores e músicos do teatro carioca.
ver rmais:

quinta-feira, 19 de maio de 2011

da série: Tenho um amigo que disse que eu


Tenho um parafuso a menos. Na hora fiquei tão feliz, mas tão feliz que abri aquele sorrisão. Ele até se assustou. Expliquei: — sempre tive comigo que eram muitos. Ele riu e disse que não, imagine. Isso é tudo da tua cabeça. Na hora fiquei séria, mas tão seria que franzi a testa. Ele até se assustou. Mas nem perdi tempo explicando. É claro que é da minha cabeça. Vai ser de quem? Se sou eu quem está dizendo. Amigo é amigo e a gente releva, mas cada um viu.

Já um outro amigo disse que não é nada disso. É que provavelmente eu pertença ao grupo dos DDA. Olhei-o dos pés à cabeça. Mas nem ousei sorrir, muito menos ficar séria. Fiquei entre indiferente e curiosa. Uma oscilação de sentimentos tomou conta de mim. Ele percebeu e com todo cuidado que lhe é peculiar começou a tecer algumas explicações. É médico e dos bons. Entregou-me uma folha com várias perguntas. Dias depois respondi e fiquei toda satisfeita. Iidentifiquei-me apenas com cinco das oitena e cinco. Iupiiiii gritei pra ele no telefone que gentilmente perguntou: — as cinco últimas, é? Não entendi bem esse “é”? Só depois de me orientar para algumas práticas relaxantes é que completou: — irremediavelmente uma DDA e em plena ascensão. Mas como sei que ele é também um grande brincalhão, relevei.

Já um outro amigo desses que chegam sorrateiramente, olhando lá no fundo dos olhos da gente, e devagarzinho começam a conversar como quem conta um conto, uma história de antigamente. Como quem fala do rio e a gente sente toda a umidade em volta, como quem fala das árvores e logo a gente se vê saboreando uma goiaba, um pêssgo ou uma fruta qualquer. Ou de um pássaro e a gente ganha asas. Delicadamente me disse que não é nem uma coisa nem outra. Não é falta de parafuso, ou DDA, ou TOC, ou o nome que se queira dar. Mas simplesmente um viver que não conhece outra forma a não ser a do sentir o que verdadeiramente sente. E, ainda por todos os poros, imensamente.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Como num transe"

Pablo Picasso 

É preciso desligar-se do mundo dos objetos, do convívio com as pessoas, do corre-corre cotidiano. Momento de puro prazer em que o nosso corpo pede um ausentar-se de tudo e de todos. A mim, esse momento apoderou-se do meu corpo como num transe, e tornou-se uma necessidade constante. Feito pássaro livre, em seu vôo matinal, adentro lentamente no mundo da linguagem. Busco na harmonia, no jogo das palavras construir meus personagens, minhas histórias, meus poemas.

Alimento das minhas noites. Regozijo de meus dias. Prazer dos prazeres. E no silêncio reinante onde o único barulho existente é o ronronar de gatos, que se abre um vasto mundo de sonhos e fantasias, e meus dedos correm sobre o teclado.

Estou em Paris e numa fração de segundo já no Haiti, choro com o menino baleado na calçada e rio com o palhaço que a cidade contratou. Beijo loucamente um grande amor na praça iluminada com neón, e em outro capítulo à despedida iminente faz escuro o dia mais radiante. Sou previsível, sou dissimulada, sou Capitu, sou Pagu. Sou todas e nenhuma. Há em mim todas as dores do mundo. Mas também todos os risos. Uso palavras que outros usaram, narrativas de outros tempos. Fadas e reis, príncipes e princesas, heróis e vilões. Histórias antigas, modernas, contemporâneas povoam minha mente.

Verso e prosa. É  Camões, é Pessoa, é Machado, é Baudelaire. Tantos. Mestres da palavra. Fonte de minha inspiração.  A noite vai alta, o vinho é doce e no exercício o oficio de escrever.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Risos de vingança

A bailarina- Edgar Degas

Um acontecimento que lhe parecia surreal. Sua vontade era esgueirar-se pelas ruas rindo alto, alto demais que nem a reconhecessem por tamanha ousadia, ou desrespeito - como era mais provável que denominassem. A rainha Dona Mana, em vida, detestara Dona Carlota Joaquina. Dona Carlota por sua vez, detestara a rainha. Não se toleraram nunca. E agora, eis que ela olhava a velha louca no caixão, aquela a quem tanto xingou em seus pensamentos e para quem, pela primeira vez, gostaria de sorrir sinceramente, um sorriso de vitória, de alívio, de prazer! Mas infelizmente não podia. Não naquele momento.

Contendo sua falta de sofrimento, ela volta a si e fita a Senhora Viscondessa do Real Agrado e Dona Margarida Sofia de Castello Branco, ambas velando com fundos respeitos o corpo real. Com ar sombrio ela pensa que essas são umas bajuladoras sem porquê. Mal sabem os maus bocados, infortúnios e desconfortos que passara por conta da doida. Se soubessem, matraqueariam com ela sobre a alegria daquele dia.

Ela encara novamente o corpo como enamorada por tal momento, e vê tudo aquilo, aqueles lutos, aqueles cortesões fúnebres, aqueles coches recobertos de crepe. Fechava os olhos e se perdia no próprio entusiasmo. Ao se recompor voltava à pasmaceira do decorrer do velório como que abduzida, sem saber ao certo de onde e para onde voltara.

Acabado o funeral, foi se deitar como uma criança que conseguiu o que queria. Feliz como jamais imaginaria sentir-se com o fardo de ser casada com Dom João VI. E um som invade sua paz tirando-lhe a paciência:
-“Qui est-lá?”
- Sou eu!
-Dona Maria?
- E então o que pensas? Levanta-te bigoduda, já não te suporto sã, qual com essa cara de aparição!
E Maria, a louca, ria alto, alto demais para que Carlota Joaquina conseguisse se recompor da própria desventura quando abrupta e palpitante ela acorda levantando o dorso para encarar a realidade. Mais feliz do que quando foi dormir passou a gargalhar. Passado o frenesi, Carlota encara o nada com um meio sorriso e desabafa:
-Velha louca! Bigoduda são tuas partes!

Patrícia Milão- estágiária de Jornalismo - e minha aluna  na Oficina de Literatura em Tatui  "Do Romance de Paulo Setúbal aos minicontos- Exercício proposto uma releitura do conto "A bailarina do Teatro São João" de Paulo Sétubal-  "Belissimo trabalho, Patrícia. É uma alegria  postá-lo.