Era aquele barulho de brocas e britadeiras, de manhã à noite, deixando os nervos à flor da pele. Ele acostumara-se com uma facilidade que, na época, eu sentia como pura provocação. Mal entrava no apartamento e já ligava o som. Cheguei mesmo a duvidar que gostasse de música. Quem em sã consciência teria esse comportamento? Às vezes eu ficava escondida, só observando suas atitudes, e foi justamente numa dessas observações, fração de segundos, que presenciei a cena mais absurda da minha vida: ele com uma voz quase em sussurro, uma nota de cinqüenta na mão, dizendo ao rapaz que acabara de entrar: Amanhã, vê se capricha com as britadeiras. Ela está quase louca.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
da série: "Fração de segundos"
Quando chegou ele estava deitado na cama, imóvel, os olhos fixos no teto, as mãos sobre o estômago, calçava só um tênis, o outro jogado no chão todo sujo. Entrou com cuidado, com passos lentos. Já o imaginava em casa. Abriu a porta tentando fazer o menor barulho, conseguiu. Mas não pode conter as lágrimas que a imobilizam de qualquer atitude.
Ali parada, sem ser notada, relembrou outros momentos. Eram felizes. Um leve sorriso formou-se. Bons tempos pensou. Mas não soube explicar, a si mesma, porque em sua mente formava-se aquele pensamento. Feito um passe de mágica seu sorriso desapareceu, ato contínuo tentou sair dali, mas seus pés pareciam colados ao chão e seu corpo endurecido como uma estátua, somente as mãos mesmo obedeciam ao seu comando. Foi quando abriu a bolsa, fração de segundos, e disparou o revólver que atingiu o corpo inerte sobre a cama.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
da série: Tenho um amigo que disse que eu:
Diferentemente de muita gente que ele conhece não tenho por hábito programar, planejar, estabelecer metas, aliás, característica de todo ser humano sensato. E, é justamente isso que ele não compreende: — essa minha mania em querer ser diferente. Fiquei pasma com a observação. Primeiro, porque creio que ela é totalmente equivocada. Diferente do quê? De quem? Segundo, porque tenho lá sim minhas manias. Quem não tem? E terceiro: — Sensata. Planejo, estabeleço, impossível viver ao Deus dará, creio eu.
Já um outro amigo, não por solidariedade, mas por compreensão mesmo disse que entendeu perfeitamente à colocação do amigo incomum. E completou: — é esse teu jeito tranqüilo de ser que deixa essa impressão na gente. Novamente fiquei pasma. Primeiro, porque creio que ela é totalmente equivocada. Tranqüilo com o quê? Com quem? Segundo, o que tem a ver ser tranqüilo, não que eu não seja, com o fato do sujeito ter atitudes necessárias para o bem viver. E terceiro: — tranqüilidade e sensatez andam de mãos dadas, creio eu.
Já um outro amigo, conhecedor profundo da minha leveza frente à resolução das coisas , e com seu jeito poético de ser argumentou:— coisas de gente que mistura movimento e repouso; barulho e silêncio; amor e sexo; alegria e tristeza; vida e morte. Busca disciplina, métodos, faz planos, projetos... Sonha. E, vorazmente dedica-se a eles até a sua concretude, e depois busca outro... e outro... e outro, infinitamente.
Dessa vez não fiquei pasma.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Campânulas Vermelhas...
Na primeira parada deixou claro, feito à lua que iluminava aquelas viagens sem fim, que só é gente aquele que não careça de nada, que a tudo agradece ao nosso senhor Jesus Cristo e na dor enxerga a bondade divina. Sua voz doce é um canto de ninar aos ouvidos da mulher em que hoje me transformei. E trago comigo, como num cofre, cada uma dessas paradas.
Essa sempre foi a palavra de mãe:- descansar. Como se a gente pudesse tirar o cansaço do jeitinho que se tira um chinelo e deixa ao canto. Mãe acreditava nisso e dizia: — Ponhei meu zoio nu sem fim da mata e junto com o chero bão sinti um repio nu corpu. Não careçe de coisa mio não. Mas eu carecia. E o cansaço era só daquela vidinha mesmo. Eu gostava sim do cheiro do mato, da chuva e daquelas tarde de domingo, em que pai sentado na varanda contava histórias, e mãe sempre nos surpreendia com seus doces e manjares. A vida era assim tranqüila por demais.
E se tem coisa que trago desde minha meninice e o gosto pela aventura. Descobrir, conhecer, saber. Mãe nunca entendeu esse meu jeito, mas mulher amorosa que era sempre respeitou minhas escolhas. Em seu silêncio eu sentia carinho e aprovação, pois ela sabia: — a vida toda seria assim para mim. Na estrada, hoje, em meio às campânulas vermelhas, samambaias, avencas e o cheiro da terra molhada, sua imagem, seu canto doce seu silêncio misturaram-se as minhas alegrias.
Não careço de nada,por ora.
sábado, 17 de dezembro de 2011
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Um olhar poético na prosa de Clarice Lispector
"Sempre tive um profundo senso de aventura, e a palavra profundo está aí querendo dizer inerente. Este senso de aventura é o que me dá o que tenho de aproximação mais isenta e real em relação a viver e, de cambulhada, a escrever"
Clarice Lispector
Um olhar poético na prosa de Clarice Lispector", título de uma oficina que ministrei em 2003, na Oficina Cultural Grande OTELO, uma emoção, uma honra , um grande aprendizado, pois seus livros oferecem um mergulho no indivíduo - o ser particular. Olhar arguto e sem condescendência, mas carregado de afeto, sobre nossas mazelas, contradições, medos e gestos de amor e grandeza.
O que buscamos na oficina foi captar esse olhar , o momento poético, registrá-lo, vivenciá-lo. Perceber em que medida as personagens de Lispector nos incitam à viver nossa cotidianeidade como homens e mulheres inseridos numa identidade global ainda que únicos, singulares.
E esse ano, na direção da Cia Travessia- O ato de ler um encontro com o outro - Sarau Lítero -Musical", inseri no projeto um conto de Lispector, "Felicidade Clandestina", interpretado pela atriz Quitéria Maria. Belíssimo momento do espetáculo.
..."Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada"
Clarice Lispector
( e eu)
(rs)
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
De silêncios, sustos e olhares.
Tomou-me tempo e desânimo aquela viagem, mas era uma questão de escolha. E não tem jeito, a gente já sabe, o coração fica apertado mesmo. Além do esforço que era obrigada a fazer para que meus olhos não se fechassem, havia a questão da pouca luminosidade. Mas fazer o quê? Fui informada que seria assim. Voz doce a sussurrar em meus ouvidos: — Mire, veja... Mire... veja.
Do momento em que eu, confortavelmente, me instalasse na poltrona as mudanças ao meu redor seriam imperceptíveis. Uma longa jornada feita de silêncios, sustos e olhares. No começo, o medo me dominou. Sentia a respiração ofegante, o suor escorrendo pela testa, mas em momento algum pensei em desistir. O jeito era fechar os olhos, relaxar e assim, quem sabe, ao olhar novamente o medo tivesse se dissipado. Não importava quantas vezes isso se daria.
E tive a nítida sensação que seria a vida toda. O espelho que firmemente segurava entre minhas mãos trazia um esboço do meu rosto, um quase rosto. Através dos espelhos comecei a procurar-me. Eu por detrás de mim à tona dos espelhos. E aos poucos, uma imagem ia se formando. Já não era mais um quase, mas uma forma luminosa de um rosto que se sabe.
domingo, 27 de novembro de 2011
Insólito aconteceres
Era só uma porta, fechada. Não fosse o esquecimento do número, exatidão de mundo a mim distante, e uma pequena movimentação nos corredores eu diria que minha figura ali era no mínimo risível.
A angústia que seguiu à abertura da porta, ainda que rápida, povoaram minha mente de recordações da infância, e eu relembrei meu pai sempre sentado em muros, muretas, corredores; minha mãe sempre a gritar com o cachorro que, porta aberta, adentrava em busca de um afago, um carinho.
Sempre as portas. Sempre essa busca. Seres frágeis que somos, sedentos de beijos úmidos, palavra/poesia, sussurros noite adentro.
Esse insólito do viver.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
da serie Tenho um amigo que disse que eu:
Ando nas ruas como se estivesse no ar, pisando nas nuvens. Não é aquele meu amigo que já comentei, aqui, várias vezes não. Ainda que ele também tenha falado algo semelhante, mas de lá pra cá mudei muito. Aliás, a gente muda com o tempo, ou melhor, a cada momento, a todo instante. Não que isso seja problema, creio eu. E também nada a ver com ser volúvel, inconstante, não ter opinião formada e por aí. E tenho um amigo, ou melhor, nunca nos conhecemos pessoalmente, mas eu o admiro tanto que, ouso chamá-lo de amigo, nas minhas noites de insônia são suas músicas que me tocam profundamente: — “eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre todas as coisas.”
Já outro amigo disse que não é nada disso — é que minha maneira de andar está envolta em um grande mistério e que isso fica impregnado no caminho por ando passo. Nossa que susto, numa pensei que o simples ato de andar pudesse provocar tanto. Mas provoca. E a bem da verdade, seja lá o que isso quer dizer, não concordo com esse amigo não, pois todos estão envoltos em grande mistério. Não só eu. É que cada pessoa tem seu jeito singular de caminhar, uns mais rápidos, apressados com seus infindáveis compromissos e envolvidos com o intenso movimento da cidade; outros com seu caminhar lento, compassado, feito eu, absortos com a paisagem com a beleza do movimento ou matutando algum pensamento, relembrando momentos. E não é que nesse exato momento chegou meu velho e bom amigo que, todo prosa foi logo dizendo: — caminho e caminhante o que importa mesmo e enxergar além do que se vê. Eu ri aquele meu rizinho que começa no cant......
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Lá fora, o dia. (De corpos e esmaltes)
Corpo ereto, cabelos cuidadosamente desarrumados , ar blasé, e vestida de vermelho ela descia as escadas lentamente. Equilibrando-se no salto da sandália preta não ousava segurar no corremão. O esmalte ainda úmido podia borrar, e se tinha uma coisa que ela não admitia era mulher descuidada. Costumava dizer que era natural esse cuidado todo, um ato corriqueiro, quase automático. Não fossem os muitos elogios que recebia: — bela, deslumbrante, gatíssima e uma infinidade de adjetivos dos mais simples aos mais sofisticados, alguns até em outro idioma.
E ela se deixava levar toda orgulhosa. Mas era compreensiva e sabia que nem toda mulher podia se dar a esses pequenos luxos, e na sua imensa delicadeza segredava à amigas seletas — entendo perfeitamente, é uma questão de tempo. E se tinha uma coisa que ela não abria mão era da sua liberdade. Levantava cedo só para ter o prazer de ler o jornal - das notícias que aconteciam do outro lado do mundo, à um cachorrinho perdido, tudo lhe interessava. Botânica, gastronomia, moda, filosofia, literatura, cinema....
E naquela noite, como em tantas outras, ela descia lentamente as escadas mais bela que nunca. Vestida de vermelho, pronta para mais um deliciosa festa noite adentro. Era tudo que queria ,que precisava. Viver, dançar, sorrir. Ser. E num gesto tresloucado, inesperado seus dedos tocaram com força o corremão. Com o esmalte todo borrado um olhar vago, distante, úmido e as mãos trêmulas, acordou.
O dia amanhecia lá fora . Era preciso correr.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
da série- Tenho um amigo que disse que eu:
Sou oito ou oitenta; quente ou frio e que comigo não há meio termo não. Eu ri aquele meu rizinho que, começa no cantinho esquerdo da boca e vai lentamente se abrindo, na realidade e mais um mover de lábios mesmo. Um riso quase imperceptível, eu diria, para raros observadores. O que não é o caso desse amigo, pois está sempre na superfície das coisas, ler nas entrelinhas nem lhe passa pela cabeça ainda que cante aos quatro cantos suas proezas meditativas. Mas amigo é amigo e a bem querência nos faz relevar esquisitices, pois temos as nossas.
Já outro amigo disse que é exatamente o contrário — sou é água morna dura de ferver. Lembrei-me do meu pai na hora com seus olhos brilhantes e sua voz rouca, naquelas tardes de outono quando sentávamos na varanda e eu em silêncio ouvia seus ensinamentos. Conhecedor do que ia dentro de mim sabia de minhas tristezas só pela maneira como eu bebia o chá ou mastigava um pedaço de bolo, ou ainda, da minha perplexidade frente a um mundo feito de aparências. E se por um lado, como pai, preocupava-se com minhas escolhas, como amigo, sabia que eu não podia fazer diferente, pois, tanto para ele quanto para mim nunca houve oito ou oitenta, certo ou errado, mas descobertas. Busca para ser como se é. Pelo caminho do meio onde os extremos passam longe e a água ferve lentamente.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
"...Que faça acordar os homens..."
Canção amiga
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Canção Amiga"- é um poema no qual Drummond expressa o ideal de construir uma poesia capaz de despertar a consciência dos adultos e servir de canção de ninar para as crianças.
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Canção Amiga"- é um poema no qual Drummond expressa o ideal de construir uma poesia capaz de despertar a consciência dos adultos e servir de canção de ninar para as crianças.
A melhor forma de homenagear o poeta, creio, é tentar ler com profundidade a sua poesia
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Minicontos
Bela Viola
Nossa! Que homem bonito! Que porte, que olhos, que cabelos! Isso não é um homem, isso é um deus grego, grego não, babilônico. Que maravilha!! Sorridente e feliz, João mandou-se um beijo estalado, saiu do espelho e partiu prás baladas.
Fredy Nabhan
Sexo explicito
O outono chegou entre brisas e desejos. A árvore se despiu apressada .(Fizeram amor em plena rua)
Fredy Nabhan
O Boto
Na beira do igarapés o boto se fez homem e engravidou a pobre donzela. Além da lua, eu fui a única testemunha. Mas foi ela quem me seduziu.
Ary Roberto Souza Pinto
A Correria
Marilson estava de costas quandoo gatilho foi acionado. Nada viu. Somente ouviu o estampido. Todo mundo saiu correndo. Porém, por decisão do destino, foi ele quem recebeu a medalha de ouro da maratona
Ary Roberto Souza Pinto
Exercícios propostos em sala -Tatuí.
sábado, 15 de outubro de 2011
Professor, um encontro com o outro
Disponibilidade à vida e a seus contratempos. Estar disponível é estar sensível aos chamamentos que nos chegam, aos sinais mais diversos que nos apelam, ao canto do pássaro, à chuva que cai ou que se anuncia na nuvem escura, ao riso manso da inocência, à cara carrancuda da desaprovação, aos braços que se abrem para acolher ou ao corpo que se fecha na recusa. É na minha disponibilidade permanente à vida a que me entrego de corpo inteiro, pensar crítico, emoção, curiosidade, desejo, que vou aprendendo a ser eu mesmo em minha relação com o contrário de mim. E quanto mais me dou à experiência de lidar sem medo, sem preconceito, com as diferenças, tanto melhor me conheço e construo meu perfil .
Paulo Freire
Paulo Freire
1999
Professor, um encontro com o outro
Uma palavra veemente, e ao mesmo tempo suave, que muitas vezes ouvi quando menina: — leitura. Ler tornou-se assim algo constante em minha vida. A princípio somente uma maneira deliciosa de afastar-me de tudo e de todos. Mas como o tempo tornou-se uma necessidade vital. Ler, então, era o meu maior prazer.
Uma palavra veemente, e ao mesmo tempo suave, que muitas vezes ouvi quando menina: — leitura. Ler tornou-se assim algo constante em minha vida. A princípio somente uma maneira deliciosa de afastar-me de tudo e de todos. Mas como o tempo tornou-se uma necessidade vital. Ler, então, era o meu maior prazer.
Passava horas e horas na biblioteca ou mesmo no fundo do quintal embaixo da velha mangueira com o livro que, às vezes, chegava a cair das minhas mãos tamanho o cansaço. Acordava assustada com minha mãe que sorrindo fechava o livro. E eu seguia cambaleando para dentro de casa a sonhar como o final da história
Hoje relembrando esse fato penso que tornar-me professora, já estava presente na minha infância não só pela paixão aos livros, mas por acreditar no sonho, no diálogo, no questionamento, na flexibilidade e no envolvimento com as pessoas.
Na época eu não tinha a exata noção do significado dessas palavras na vida de todos nós seres humanos, mas foi através das brincadeiras com os amigos que vivenciei cada uma delas: — no faz de conta dos sonhos, nas conversas e acordos, na aceitação das nossas diferenças e no desejo de estar juntos.
Às vezes percebo coisas que faço em sala de aula que aprendi nas brincadeiras da infância, a infinita curiosidade que eu tinha em descobrir palavras novas, em observar o contorno de cada uma delas, em recortar dos jornais palavras belas e depois no silêncio arranjá-las quase a formar versos. Estão presentes, nas situações que crio hoje com meus alunos, futuros professores, quando os instigo a pesquisar incansavelmente prosa e poesia de grandes autores, no exercício diário da arte da escrita, na paixão pela palavra e no prazer inenarrável da reflexão.
Ser professor é um grande desafio. Desafio próprio da profissão. Para mim, é também um caminho, um belo caminho, um encontro comigo mesmo, com meus questionamentos, com minha visão de mundo, e, que de uma maneira maravilhosa me possibilita o encontro com o outro.
Um grande aprendizado.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Iniciação
Foi num cinema poeira que achei os cigarros, esquecidos na poltrona ao lado. Não me lembro da marca, mas lembro que o filme era de Flash Gordon. Fumei tres seguidos no banheiro acanhado.
Um coroa de óculos escuros acendeu pra mim. No mais, só me lembro da tosse, da mão do cara no meu sexo e da nota de dez que ele me deu, depois.
Foi asim que, num só día e pela primeira vez, fui fumante e prostituto entre naves estelares e pistolas desintegradoras na face ocidental do planeta Mongo.
Fred Nabhan- poeta (de mão cheia) e ex- integrante do grupo "O Tablado", atualmente é meu aluno na Oficina em Tatui. O miniconto é fruto de um exercício proposto em aula.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Semper vivium
Viver é, para a Biologia, em suma, simplesmente manter um metabolismo, produzir energia quando comemos ou respiramos.
Mas, nessa nossa vida corrida, das noites mal dormidas, das manhãs acordadas de sobressalto e das tardes paradoxalmente atribuladas em monotonias cotidianas, quantos de nós estão apenas existindo, sem saborear a unicidade do momento ou respirar a dádiva da liberdade?
Quando foi a última vez que você olhou para o céu?
Mais corriqueiro e menos clichê que isso; quando foi que disse: “bom dia!”, assim mesmo: com exclamação no fim: “bom dia!”. Daqueles que não é dito de forma mecânica, automática, como quem tem em mente a tarefa futura a ser realizada, e sim daqueles que escapa por entre os dentes; aquele que a gente sente emergir das profundezas das entranhas, aquecendo ao passar pelo coração e rasgando o horizonte num sorriso largo.
“Vivo intensamente!”, dizem muitos.
O que é “intensamente”?
É acordar saltando de asa-delta e já aterrissar no lombo de um cavalo em disparada?
É isso intensidade? Velocidade? O fazer incessante? O riscar itens de uma lista a ser cumprida?
Por que não extrair zelosamente a grandeza ímpar dos diminutos detalhes que nos cercam? Saber o momento de parar em contemplação do agora?
Por que não extrair zelosamente a grandeza ímpar dos diminutos detalhes que nos cercam? Saber o momento de parar em contemplação do agora?
Ter vagareza búdica.... vagabúdica.
Rir!
Isso mesmo! Rir das palavras, das novas palavras, das velhas, do novo uso das velhas.
Apreciar cada fonema, cada som que faz vibrar o tímpano, palpitar o coração.
Porém, talvez seja difícil, nestes tempos gris, sentir a energia correr nas veias.
Talvez estejamos com a vista turva, coberta pelas cinzentas nuvens das convenções e convicções, pautando-nos no dever de viver, de conviver, de sobreviver.
Catatônicos na praticidade diária.
Contudo, cabe a nós nos libertarmos das amarras sociais, das pesadas correntes da obrigação, das grades dos julgamentos e abrir fúlgidas asas forjadas na autenticidade, alçando voo rumo ao infinito das possibilidades.
Gritar: “Carpe diem!”;
“Carpe noctem!”;
“Carpe vita!”Pedro Aduan- professor de Japonês- aluno da UNISO- Universidade de Sorocaba- Letras- e meu garoto :o)
sábado, 24 de setembro de 2011
da série- Tenho um amigo que disse que eu:
Ando é muito ranzinza, mas que ele entende, imagine. E sabe que é justíssimo esse meu momento, que são muitos compromissos, blá... blá...blá...E por aí foi com um discurso todo cheio de dedos. Eu que não sou boba aproveitei para rir um pouco. E pude mais uma vez constatar, o que ele nem de longe compreende, a leveza que sinto com meus deliciosos compromissos. Ri muito. Foi quando ele à queima roupa disse:- péssimo o seu comportamento no oftalmologista. Nossa! Não se pode mais comentar nada que a notícia se espalha e, claro cada um aumenta um detalhezinho só pra colocar seu estilo pessoal de narrar. Pronto, é o que basta.
Já outro amigo, à boca pequena, me disse: — achei uma bobagem o ocorrido. Não precisava todo aquele pampeiro era só um exame corriqueiro, aliás, e usado desde o tempo da minha avó, Fiquei, com meus botões, a matutar que pampeiro será esse que chegou aos seus ouvidos. Mas amigo é amigo, e se a gente não puder falar o que está pensando melhor nem falar nada. E ele é meu amigo, sei disso. E foi ,então, que rasguei o verbo :— Meu querido, veja você que depois de todos aqueles exames de alta tecnologia ,o sujeito ou melhor o doutor pede gentilmente que eu me acomode em uma bela poltrona , apaga as luzes e de repente só o clarão na outra parede com algumas letras do nosso alfabeto e a famosa técnica: —
A senhora enxerga melhor: — assim, clic ou assim, clic assim ou assim clic assim... E como eu tenho o hábito de comparar para poder escolher o que sinto com a melhor opção, a cada mudança da futura lente respondia: — essa está melhor do que anterior, ah! essa é mais nítida , essa... O que o médico não gostou, pude perceber. Até que levada pelo que meu amigo nomeou acima, ranzinza, e eu categoricamente entendo como o ato de refletir, disse em bom tom ao médico: — impossível não fazer comparações quando temos que escolher é um processo natural da nossa mente, infelizmente nem todos fazem uso desse recurso, pois para muitos pensar é cansativo e por ai fui ... clic, luz acesa. Bom dia, doutor.
Dessa vez nem tive tempo de ouvir meu outro amigo que, com seu passinho miúdo, chegava. Mas ele também nem disse nada, sabedor que é da importância da refexão, sabia que não havia nada a dizer mesmo.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Minicontos
Livro -Dois Palitos- Samir Mesquita
O vento ,inconstante e infiel, dançou primeiro com o trigal,mas logo logo, o trocou pelas cortinas da sala.
O outono chegou entre brisas e desejos. A árvore se despiu apressada .Fizeram amor em plena rua.
Se eu fôsse você ,ficava me beijando o tempo todo.
Já eu, se fôsse você, iria muito além.
Não quer casar, não quer juntar. Que é que você quer, então?Distância.
Fred Nabhan- escritor/ poeta, e ex- integrante do grupo "O Tablado", é meu aluno na Oficina "Os minicontos" ,em Tatui.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
"Tempos Modernos"
-Isto é um assalto.
-No débito ou no crédito?
Fred Nabhan- escritor/ poeta, e ex- integrante do grupo "O Tablado", é meu aluno na Oficina em Tatui. O minitexto é fruto de um exercício proposto em aula
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Calcinha de Oncinha
Dias antes da festa das bodas de prata, a mulher flagra o marido comprando calcinhas de oncinha.
-Faz vinte e cinco anos que você me conhece e nunca usei isso.
-Faz vinte e cinco anos que você me conhece e nunca usei isso.
-Para quem é, para a sua amante?
Ele pálido e gaguejando, responde:
-É pra mim. Eu sempre adorei usar calcinhas ,me perdoe.
A festa das bodas foi um sucesso. Ele nunca mais deixou de usar calcinhas, pelo menos em casa. Tampouco, deixou a amante.
Ary Roberto de S.Pinto- ex- diretor cultural em Tatuí , e atualmente meu aluno na Oficina "Os minicontos"
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