segunda-feira, 7 de maio de 2012


Tributo a Mantovani
 Inesquecível é o que amamos!

Em diversas línguas, o lembrar, o memorizar está associado não já (ou não só...) a um processo intelectual, mas ao coração: saber de memória é, em inglês, by heart; em francês, par coeur; e esquecer-se de alguém, em italiano, é scordarsi, sair do coração...
Lembramos - sabemos de cor - o que está em nosso coração. Tomás de Aquino, o grande pensador do Ocidente, explica, agudamente, a razão profunda do lembrar e do esquecer: ele faz a ligação entre amar e lembrar: inesquecível é o que amamos!



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Passos de um bolero


Estava eu recostada em um banco da velha pracinha, quando deparei com aquele sujeito vindo em minha direção. A princípio, como era de se esperar senti um calafrio percorrer todo o meu corpo. Numa mistura de medo e autodefesa cheguei a pensar que o sujeito sentia o mesmo, já que, a rua estava deserta e só nos dois nos encontrávamos ali. Mas à medida que ele se aproximava esse pensamento se dissipou, pois apesar de caminhar com passos firmes possuía uma leveza digna de bailarinos. 

E, quem sabe, fosse mesmo. E aproveitava o vazio das ruas para passos de uma coreografia imaginária. Só isso mesmo e nada demais. Mas de repente parou bruscamente. Ajeitou o chapéu. Enfiou as mãos no bolso do paletó. E olhou-me nos olhos. Novamente os calafrios e tive a exata sensação de desmaio. Cheguei a enxergar um revólver entre seus dedos. Então ele veio calmamente em minha direção e com uma voz rouca perguntou: — o amigo tem fogo?  Eu aliviado disse: — Não fumo, companheiro. Senti o peso da sua mão e o frio da lâmina adentrou no meu peito, enquanto ele  sorria  improvisando passos de um bolero.



sexta-feira, 30 de março de 2012

Sorriso Amarelo


O risco a que me permiti desde cedo foi, ou melhor, foram todos. E, aos desavisados, digo que não me refiro a nenhum ato inconsequente, nenhuma loucura juvenil. Não que essas não estivessem presentes. Mas, todas tão pueris: — uma aula cabulada, um beijo roubado no escurinho do cinema, pequenas mentirinhas, às quais, minha mãe nomeava de mentiras brancas.  Dizia assim, pois elas não faziam mal a ninguém.

E, como nessa época, ainda que houvesse preconceito racial, não era comum associar certas palavras ao negro. Seu uso era geral.  Minha avó costumava dizer: — hoje amanheci com o coração negro, e todos sabiam que não era nenhuma alusão pejorativa.  As cores, na nossa família, sempre estiveram presentes para falar dos sentimentos. Minha tia falava em verde de raiva. Meu avô em roxo beslicão. Acredito que só eu mesma optei pelas palavras para demonstrar minha perplexidade diante de um mundo conservador.

Mas, o risco ao qual me refiro foram as difíceis decisões tomadas, as escolhas feitas frente ao que me chegou.  Um olhar afiado e um coração inquietante. E a certeza de que o preço a pagar seria imenso.  Nada que meu ser não estivesse disposto a aceitar. Viver sempre foi para mim um ato de assumir quem somos e como somos. O que queremos e como queremos. Um gesto de humildade para dizer não, quando muitos dizem sim às conveniências e ao engodo. Pois, como dizia meu pai, em tardes como aquelas,  repletas de cores, de prosa e de poesia, não se deve viver com um sorriso amarelo estampado no rosto.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O pó do tempo



Esperou por tanto tempo, eu diria que a vida toda, por aquele momento. Um momento que nunca chegou, não da forma como sonhara.  Mas de um jeito ou de outro chegou.  E quando ele chegou uma dor invadiu-lhe o peito. Parecia até que suas suspeitas confirmavam: — Não era para ser.

Com olhos vagos, distantes e um silêncio sepulcral ele nem notou sua presença. Tornou-se  uma desconhecida, uma passante.   E ali, bem à frente a estradinha poeirenta parecia um convite. Uma lágrima, e ato contínuo lembrou-se de outros caminhos, outras estradas, outros convites. Mas em nenhuma seus pés quiseram adentrar.

Na memória as juras de amor, as declarações escolhidas a dedo em poetas novos e antigos. “Foste a altura que me abençoou e te tornaste o abismo que me devorou...” Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”. Hoje, na memória restaram somente o pó da estrada, o pó do tempo, versos e nada mais.

terça-feira, 13 de março de 2012

da série: Fração de segundos

Eram nove horas, estava eu recostada em um banco da velha pracinha a ponto de desistir dessa busca incessante, quando deparei com aquele sujeito miúdo bem na minha frente e a encarar-me. A princípio pensei em se tratar de algum morador do bairro em sua caminhada noturna.  Mas não. Após duas ou três palavras ditas, com uma voz rouca, o sujeito foi logo se abrindo e eu soube que se tratava do zelador de um prédio pequeno na rua detrás. Não pensei duas vezes e à queima-roupa perguntei:  -você deve saber se há algum apartamento vazio por lá? Com uns olhos entre o desconfiado e a intimidação o sujeito também me respondeu de sopetão: - não há não.


Houve um silêncio sepulcral, fração de segundos, que me pareceram intermináveis.  E com uma voz mais rouca ainda disse:- O que há mesmo é o velho casarão, vazio há anos. Dei um pulo do banco e só faltei agarrar o sujeito pelo colarinho, mas poderia ser mal interpretada, e me contive, no momento não estava interessada em sexo e muito menos com um tipo daqueles. O que eu queria mesmo era um lugar sossegado e longe de todos, morar por um tempo até a poeira baixar como dizia meu pai. Conversa vai, conversa vem mais meia dúzia de palavras e o sujeito resolveu me levar para conhecer o casarão. 


Não era só o zelador do prédio, no caminho por ruelas escuras entre um susto e outro por conta dos muitos gatos, contou-me que era o único no bairro a ter uma cópia da chave e que durante todos esses anos a proprietária não apareceu mais. Suspeitava até de sua morte, mas era uma jovem senhora, quieta, andar vagaroso, sempre com livros nos braços, além de um chapéu preto que lhe dava um ar profundamente intrigante. Ao entrar no casarão um sentimento de pertencimento instalou-se dentro de mim, numa fração de segundos, veio-me à mente cenas vividas naquele espaço. Quando? Mas isso seria  apenas o começo de longas horas de inquietação.

sábado, 10 de março de 2012

“Vingança Adiada”


....Em seus violentos ataques à moral dominante de sua época, Nietzsche elegeu como alvo a figura do ressentido. O ressentido é o sujeito que padece de um ressentimento relacionado a alguém e que ele não conseguiu exteriorizar. Esse sentimento que não atingiu sua finalidade volta ao sujeito; daí o prefixo “re”, que junto com “sentimento”, forma a palavra ressentimento. Esse retorno se dá de forma negativa, pois o ressentido começa a fantasiar, a ruminar os pensamentos; com isso se afasta da realidade e se imobiliza. Todos nos temos afetos negativos,  na maioria das vezes julgamos prudente comunicá-los, seja porque avaliamos que estamos errados, seja porque avaliamos as razões daquele que nos causou um mal. 


Porém, em determinadas situações, o silêncio daquele que foi usurpado pode degenerar em ressentimento, e a principal característica do ressentido é ruminar esse acontecimento e planejar, por longo período , uma vingança.  Foi o que Nietzsche chamou de “Vingança Adiada”, pois, da mesma maneira que o ressentido foi incapaz de se defender no momento do agravo, ele será incapaz de consumar sua vingança.  Por isso, completa : - o ressentimento é uma característica dos “escravos”, isto é, daqueles que não afirmam sua vontade.

Filosofia do Cotidiano (trecho) Luciano Pereira-  mestrando em filosofia pela USP.


quarta-feira, 7 de março de 2012

Fêmea humana, uma linguagem.


Ninguém nasce mulher: torna-se.
Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana
assume no seio da sociedade; é o conjunto da sociedade que elabora esse produto
intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.
Somente a mediação de outrem pode construir um indivíduo como um outro.
Simone de Beauvoir


Opressão do gênero, Opressão de Classe
Apesar das conquistas alcançadas, há muito a ser feito.

Sueli Aduan
A linguagem, como sabemos, tem papel fundamental na constituição das coisas. E quando o assunto é “sexual”, então, há diferenças marcantes na construção de como as coisas são escritas, ditas. “Cria-se assim, por conta dessa mesma linguagem: “um tipo de mulher” e, muito provavelmente, “um tipo de homem”, e como consequência, o preconceito”.

A partir daí, a defesa de papéis e de como devem viver homens e mulheres é uma questão também de poder. Para a mulher, ainda que muito tenha se conquistado, cria-se o lugar privado (lar/segurança/família); e para o homem, com sua total independência, a rua, a liberdade, o público. 

O que traz uma situação de mando, domínio, autonomia para ele; e total dependência, submissão para ela. Criam-se dicotomias: a mulher ideal (centrada na vida do marido, da casa, dos filhos) e todas as outras (libertinas devassas).  Esse equívoco na defesa dos papéis, seja pela sociedade como um todo ou por pequenas minorias, produz o macho com a prerrogativa do intelecto e a fêmea fechada em si, no próprio corpo que a define como mulher.


sexta-feira, 2 de março de 2012

da série: Tenho um amigo que disse que eu:



Não me emendo mesmo.  Na hora que ele disse, foi muito engraçado, pois me veio à mente um momento da minha infância, o qual minha mãe, sentada em uma banqueta, emendava retalhos, formando uma imensa colcha colorida. Era tão lindo de se ver; e eu, que ainda não sabia costurar, ficava horas e horas olhando todos aqueles quadradinhos.  Ela pacientemente me explicava que pra ficar bonito, era preciso escolher com muito cuidado as junções, combiná-los entre si, cores claras em contraste com cores escuras, estampadinhos ao lado de tecidos lisos. Meu amigo percebeu que eu estava longe, em puro estado de recordação, e se calou.

Já outro amigo, nem bem o outro se calou, disse: - é verdade, você não se apruma nem de muleta mesmo, pelo jeito ele queria é me tirar do estado de devaneio em que eu me encontrava. E com essa fala, não só conseguiu como me remeteu a outro momento da minha vida, quando meu avô, após uma queda do cavalo, foi obrigado a usar muletas. Eu ficava horas e horas olhando o jeito dele caminhar. Ele pacientemente me explicava que era preciso caminhar com cuidado, sem pressa e com muita firmeza nas mãos.  Esse amigo também percebeu minha ausência mental e, como é desses que gostam de atenção em tempo integral, foi saindo cabisbaixo. Eu até pensei em chamá-lo num gesto de bem querência.

Foi quando avistei meu grande amigo, amigo de todas as horas, que só de olhar em meus olhos percebeu que eu tinha estado longe. E estive sim; nas reminiscências da aprendizagem junto à minha mãe e ao meu avô que, sem saber, ensinaram-me que é preciso escolher, sejam quadradinhos ou não, se queremos algo que nos encha a alma com beleza e harmonia; e que seguir em frente é uma questão somente de calma e firmeza.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sobre a leitura e os livros

 
Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante, ao aprender a escrever, refaz com a pena os traços que seu professor fizera a lápis. Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar.

É por isso que sentimos um alívio ao passamos da ocupação com nossos próprios pensamentos para a leitura. No entanto, a nossa cabeça é, durante a leitura, apenas uma arena de pensamentos alheios. Quando eles se retiram, o que resta? Em conseqüência disso, quem lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar nada, perde gradativamente a capacidade de pensar por si mesmo – como alguém que, de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar.
.....
Com isso não se chega à ruminação, mas é só por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos.

A arte de escrever- Arthur Schopenhauer- p.127  -Editora L&M- Porto Alegre-2005
Tradução: Pedro Süssekind

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

da série: Fração de segundos


Era aquele barulho de brocas e britadeiras, de manhã à noite, deixando os nervos à flor da pele. Ele acostumara-se com uma facilidade que, na época, eu sentia como pura provocação. Mal entrava no apartamento e já ligava o som. Cheguei mesmo a duvidar que gostasse de música. Quem em sã consciência teria esse comportamento? Às vezes eu ficava escondida, só observando suas atitudes, e foi justamente numa dessas observações, fração de segundos, que presenciei a cena mais absurda da minha vida: ele com uma voz quase em sussurro, uma nota de cinqüenta na mão, dizendo ao rapaz que acabara de entrar:  Amanhã, vê se capricha com as britadeiras. Ela está quase louca.


sábado, 14 de janeiro de 2012

da série: "Fração de segundos"


Quando chegou ele estava deitado na cama, imóvel, os olhos fixos no teto, as mãos sobre o estômago, calçava só um tênis, o outro jogado no chão todo sujo. Entrou com cuidado, com passos lentos. Já o imaginava em casa. Abriu a porta tentando fazer o menor barulho, conseguiu. Mas não pode conter as lágrimas que a imobilizam de qualquer atitude.

Ali parada, sem ser notada, relembrou outros momentos. Eram felizes. Um leve sorriso formou-se. Bons tempos pensou. Mas não soube explicar, a si mesma, porque em sua mente formava-se aquele pensamento. Feito um passe de mágica seu sorriso desapareceu, ato contínuo tentou sair dali, mas seus pés pareciam colados ao chão e seu corpo endurecido como uma estátua, somente as mãos mesmo obedeciam ao seu comando. Foi quando abriu a bolsa, fração de segundos, e disparou o revólver que atingiu o corpo inerte sobre a cama.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

da série: Tenho um amigo que disse que eu:

                                    

Diferentemente de muita gente que ele conhece não tenho por hábito programar, planejar, estabelecer metas, aliás, característica de todo ser humano sensato. E, é justamente isso que ele não compreende: — essa minha mania em querer ser diferente. Fiquei pasma com a observação. Primeiro, porque creio que ela é totalmente equivocada. Diferente do quê? De quem? Segundo, porque tenho lá sim minhas manias. Quem não tem? E terceiro: — Sensata. Planejo, estabeleço, impossível viver ao Deus dará, creio eu.

Já um outro amigo, não por solidariedade, mas por compreensão mesmo disse que entendeu perfeitamente à colocação do amigo incomum. E completou: — é esse teu jeito tranqüilo de ser que deixa essa impressão na gente. Novamente fiquei pasma. Primeiro, porque creio que ela é totalmente equivocada. Tranqüilo com o quê? Com quem? Segundo, o que tem a ver ser tranqüilo, não que eu não seja, com o fato do sujeito ter atitudes necessárias para o bem viver. E terceiro: — tranqüilidade e sensatez andam de mãos dadas, creio eu.

Já um outro amigo, conhecedor profundo da minha leveza frente à resolução das coisas , e com seu jeito poético de ser argumentou:— coisas de gente que mistura movimento e repouso; barulho e silêncio; amor e sexo; alegria e tristeza; vida e morte. Busca disciplina, métodos, faz planos, projetos... Sonha. E, vorazmente dedica-se a eles até a sua concretude, e depois busca outro... e outro... e outro, infinitamente.
Dessa vez não fiquei pasma.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Campânulas Vermelhas...


Na primeira parada deixou claro, feito à lua que iluminava aquelas viagens sem fim, que só é gente aquele que não careça de nada, que a tudo agradece ao nosso senhor Jesus Cristo e na dor enxerga a bondade divina. Sua voz doce é um canto de ninar aos ouvidos da mulher em que hoje me transformei. E trago comigo, como num cofre, cada uma dessas paradas.

Essa sempre foi a palavra de mãe:- descansar. Como se a gente pudesse tirar o cansaço do jeitinho que se tira um chinelo e deixa ao canto. Mãe acreditava nisso e dizia: — Ponhei meu zoio nu sem fim da mata e junto com o chero bão sinti um repio nu corpu. Não careçe de coisa mio não. Mas eu carecia. E o cansaço era só daquela vidinha mesmo. Eu gostava sim do cheiro do mato, da chuva e daquelas tarde de domingo, em que pai sentado na varanda contava histórias, e mãe sempre nos surpreendia com seus doces e manjares. A vida era assim tranqüila por demais.

E se tem coisa que trago desde minha meninice e o gosto pela aventura. Descobrir, conhecer, saber. Mãe nunca entendeu esse meu jeito, mas mulher amorosa que era sempre respeitou minhas escolhas. Em seu silêncio eu sentia carinho e aprovação, pois ela sabia: — a vida toda seria assim para mim. Na estrada, hoje, em meio às campânulas vermelhas, samambaias, avencas e o cheiro da terra molhada, sua imagem, seu canto doce seu silêncio misturaram-se as minhas alegrias.
Não careço de nada,por ora.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um olhar poético na prosa de Clarice Lispector


"Sempre tive um profundo senso de aventura, e a palavra profundo está  aí querendo dizer inerente. Este senso de aventura é o que me dá o que tenho de aproximação mais isenta e real em relação a viver e, de cambulhada, a escrever"
Clarice Lispector

Um olhar poético na prosa de Clarice Lispector", título de uma oficina que ministrei em 2003, na Oficina Cultural Grande OTELO, uma emoção, uma honra , um grande aprendizado, pois seus livros oferecem um mergulho no indivíduo - o ser particular. Olhar arguto e sem condescendência, mas carregado de afeto, sobre nossas mazelas, contradições, medos e gestos de amor e grandeza.

O que buscamos na oficina foi captar esse olhar , o momento poético, registrá-lo, vivenciá-lo. Perceber em que medida as personagens de Lispector nos incitam à viver nossa cotidianeidade como homens e mulheres inseridos numa identidade global ainda que únicos, singulares.

E esse ano, na direção da Cia Travessia-  O ato de ler um encontro com o outro - Sarau Lítero -Musical", inseri no projeto um conto de Lispector, "Felicidade Clandestina", interpretado pela atriz Quitéria Maria. Belíssimo momento do espetáculo.

..."Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada"
Clarice Lispector
( e eu)
(rs)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

De silêncios, sustos e olhares.

 
Tomou-me tempo e desânimo aquela viagem, mas era uma questão de escolha. E não tem jeito, a gente já sabe, o coração fica apertado mesmo. Além do esforço que era obrigada a fazer para que meus olhos não se fechassem, havia a questão da pouca luminosidade. Mas fazer o quê? Fui informada que seria assim. Voz doce a sussurrar em meus ouvidos: — Mire, veja... Mire... veja.

Do momento em que eu, confortavelmente, me instalasse na poltrona as mudanças ao meu redor seriam imperceptíveis. Uma longa jornada feita de silêncios, sustos e olhares. No começo, o medo me dominou. Sentia a respiração ofegante, o suor escorrendo pela testa, mas em momento algum pensei em desistir. O jeito era fechar os olhos, relaxar e assim, quem sabe, ao olhar novamente o medo tivesse se dissipado. Não importava quantas vezes isso se daria.

E tive a nítida sensação que seria a vida toda. O espelho que firmemente segurava entre minhas mãos trazia um esboço do meu rosto, um quase rosto. Através dos espelhos comecei a procurar-me. Eu por detrás de mim à tona dos espelhos. E aos poucos, uma imagem ia se formando. Já não era mais um quase, mas uma forma luminosa de um rosto que se sabe.

domingo, 27 de novembro de 2011

Insólito aconteceres

Era só uma porta, fechada. Não fosse o esquecimento do número,  exatidão de mundo  a mim distante,  e uma pequena movimentação nos corredores eu diria que minha figura ali era no mínimo risível.

A angústia que seguiu à abertura da porta, ainda que rápida, povoaram minha mente de recordações da infância, e eu relembrei meu pai sempre sentado em muros, muretas, corredores; minha mãe sempre a gritar com o cachorro que, porta aberta, adentrava em busca de um afago, um carinho.

Sempre as portas. Sempre essa busca. Seres frágeis que somos, sedentos de beijos úmidos, palavra/poesia, sussurros noite adentro.
Esse insólito do viver.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

da serie Tenho um amigo que disse que eu:


Ando nas ruas como se estivesse no ar, pisando nas nuvens. Não é aquele meu amigo que já comentei, aqui, várias vezes não. Ainda que ele também tenha falado algo semelhante, mas de lá pra cá mudei muito. Aliás, a gente muda com o tempo, ou melhor, a cada momento, a todo instante. Não que isso seja problema, creio eu. E também nada a ver com ser volúvel, inconstante, não ter opinião formada e por aí. E tenho um amigo, ou melhor, nunca nos conhecemos pessoalmente, mas eu o admiro tanto que, ouso chamá-lo de amigo, nas minhas noites de insônia são suas músicas que me tocam profundamente: — “eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre todas as coisas.”

Já outro amigo disse que não é nada disso — é que minha maneira de andar está envolta em um grande mistério e que isso fica impregnado no caminho por ando passo. Nossa que susto, numa pensei que o simples ato de andar pudesse provocar tanto. Mas provoca. E a bem da verdade, seja lá o que isso quer dizer, não concordo com esse amigo não, pois todos estão envoltos em grande mistério. Não só eu. É que cada pessoa tem seu jeito singular de caminhar, uns mais rápidos, apressados com seus infindáveis compromissos e envolvidos com o intenso movimento da cidade; outros com seu caminhar lento, compassado, feito eu, absortos com a paisagem com a beleza do movimento ou matutando algum pensamento, relembrando momentos.  E não é que nesse exato momento chegou meu velho e bom amigo que, todo prosa foi logo dizendo: — caminho e caminhante o que importa mesmo e enxergar além do que se vê. Eu ri  aquele meu rizinho que começa no cant......


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Lá fora, o dia. (De corpos e esmaltes)


Corpo ereto, cabelos cuidadosamente desarrumados , ar blasé, e vestida de vermelho ela descia as escadas lentamente. Equilibrando-se no salto da sandália preta não ousava segurar no corremão. O esmalte ainda úmido podia borrar, e se tinha uma coisa que ela não admitia era mulher descuidada. Costumava dizer que era natural esse cuidado todo, um ato corriqueiro, quase automático. Não fossem os muitos elogios que recebia: — bela, deslumbrante, gatíssima e uma infinidade de adjetivos dos mais simples aos mais sofisticados, alguns até em outro idioma.

E ela se deixava levar toda orgulhosa. Mas era compreensiva e sabia que nem toda mulher podia se dar a esses pequenos luxos, e na sua imensa delicadeza segredava à amigas seletas — entendo perfeitamente, é uma questão de tempo. E se tinha uma coisa que ela não abria mão era da sua liberdade. Levantava cedo só para ter o prazer de ler o jornal - das notícias que aconteciam do outro lado do mundo, à  um cachorrinho perdido, tudo lhe interessava. Botânica, gastronomia, moda, filosofia, literatura, cinema....

E naquela noite, como em tantas outras, ela descia lentamente as escadas mais bela que nunca. Vestida de vermelho, pronta para mais um deliciosa festa noite adentro. Era tudo que queria ,que precisava. Viver, dançar, sorrir.  Ser. E num gesto tresloucado, inesperado seus dedos tocaram com força o corremão. Com o esmalte todo borrado um olhar vago, distante, úmido e  as mãos trêmulas,  acordou. 
O dia amanhecia lá fora . Era preciso correr.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

da série- Tenho um amigo que disse que eu:


Sou oito ou oitenta; quente ou frio e que comigo não há meio termo não. Eu ri aquele meu rizinho que, começa no cantinho esquerdo da boca e vai lentamente se abrindo, na realidade e mais um mover de lábios mesmo. Um riso quase imperceptível, eu diria, para raros observadores. O que não é o caso desse amigo, pois está sempre na superfície das coisas, ler nas entrelinhas nem lhe passa pela cabeça ainda que cante aos quatro cantos suas proezas meditativas. Mas amigo é amigo e a bem querência nos faz relevar esquisitices, pois temos as nossas.

Já outro amigo disse que é exatamente o contrário — sou é água morna dura de ferver. Lembrei-me do meu pai na hora com seus olhos brilhantes e sua voz rouca, naquelas tardes de outono quando sentávamos na varanda e eu em silêncio ouvia seus ensinamentos. Conhecedor do que ia dentro de mim sabia de minhas tristezas só pela maneira como eu bebia o chá ou mastigava um pedaço de bolo, ou ainda, da minha perplexidade frente a um mundo feito de aparências. E se por um lado, como pai, preocupava-se com minhas escolhas, como amigo, sabia que eu não podia fazer diferente, pois, tanto para ele quanto para mim nunca houve oito ou oitenta, certo ou errado, mas descobertas. Busca para ser como se é. Pelo caminho do meio onde os extremos passam longe e a água ferve lentamente.