sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Como num transe"

Pablo Picasso 

É preciso desligar-se do mundo dos objetos, do convívio com as pessoas, do corre-corre cotidiano. Momento de puro prazer em que o nosso corpo pede um ausentar-se de tudo e de todos. A mim, esse momento apoderou-se do meu corpo como num transe, e tornou-se uma necessidade constante. Feito pássaro livre, em seu vôo matinal, adentro lentamente no mundo da linguagem. Busco na harmonia, no jogo das palavras construir meus personagens, minhas histórias, meus poemas.

Alimento das minhas noites. Regozijo de meus dias. Prazer dos prazeres. E no silêncio reinante onde o único barulho existente é o ronronar de gatos, que se abre um vasto mundo de sonhos e fantasias, e meus dedos correm sobre o teclado.

Estou em Paris e numa fração de segundo já no Haiti, choro com o menino baleado na calçada e rio com o palhaço que a cidade contratou. Beijo loucamente um grande amor na praça iluminada com neón, e em outro capítulo à despedida iminente faz escuro o dia mais radiante. Sou previsível, sou dissimulada, sou Capitu, sou Pagu. Sou todas e nenhuma. Há em mim todas as dores do mundo. Mas também todos os risos. Uso palavras que outros usaram, narrativas de outros tempos. Fadas e reis, príncipes e princesas, heróis e vilões. Histórias antigas, modernas, contemporâneas povoam minha mente.

Verso e prosa. É  Camões, é Pessoa, é Machado, é Baudelaire. Tantos. Mestres da palavra. Fonte de minha inspiração.  A noite vai alta, o vinho é doce e no exercício o oficio de escrever.

4 comentários:

Leonardo B. disse...

[O mundo, assim construído, já não é "corpo que pede um ausentar-se de tudo e de todos", mas a evocação da nossa tão necessária presença, tão incondicional, perante e como alicerce por palavra, como pedra por acto, na persistente construção do próprio mundo]

um imenso abraço, Sueli

LB

sueli aduan disse...

Ô Leonardo, como sempre, vc extrapola e adentra na essência,na origem de tudo, na construção do próprio mundo. Amei!

gratíssima

um imenso abraço, Leonardo.

Katia Mota disse...

O Su como falávamos... preciso dessa solidão povoada de palavras... bjs

sueli aduan disse...

É isso mesmo,Ka.
Às vezes sou chatíssima :o),mas tenho que ser (rs) :- escrever exige essa solidão ,porém só isso tb não é garantia de nada, mas além do prazer que nos proporcia existe a questão do "exercício"

bjão