quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O Espelho
Sueli Aduan
Dormiu mal a noite toda. Levantou-se rápido, tinha pressa, queria ser o primeiro a chegar à empresa.
Olhou sua imagem no espelho automaticamente. Olhou por olhar, sem se ver, como quem olha para o nada. Tal qual um gato que passa entre os móveis, só por passar.
Como de costume, abriu o armarinho e pegou o creme de barbear, numa fração de segundos já estava com o rosto pronto, todo cheio, de espuma.
Maravilha gritou feliz, serei o primeiro a chegar e ninguém para atrapalhar meus planos.
Nesse exato momento ouviu a campainha. Estremeceu, quem seria a essa hora? Tomado de susto, sem reação alguma a única coisa que fez, numa mistura de loucura e medo, foi fechar a porta do banheiro.
Permaneceu assim alguns minutos, estático encostado na parede, com a navalha na mão.
De repente, começou a rir parecia um papai Noel, com toda aquela espuma espalhada pelo rosto. Ria, ria muito, mas sufocava o riso com uma das mãos na boca, preocupado que pessoa do outro lado da porta pudesse ouvi-lo.
Foi quando, pela primeira vez, em muitos anos olhou-se realmente no espelho, no fundo de seus olhos.
A princípio assustou- se com a aparência envelhecida, com os cabelos brancos, com o olhar opaco, tristonho.
Então assim, como numa cena de filme, o riso foi se fechando vagarosamente, dando lugar a uma estranha seriedade, ugar àuma contração dos músculos faciais foi se formando, a respiração tornou-se mais lenta, e mesmo com toda aquela espuma era possível ver algumas rugas.
Como elas surgiram, assim, tão de repente? Como ele não se deu conta da existência delas? Há quanto tempo não prestava atenção em seu corpo, em sua fisionomia? Em seu próprio rosto.
Perguntas vindas à sua mente, como uma tempestade em dias de calor. Lavou o rosto, lentamente, tirou toda a espuma, guardou a navalha no armarinho da parede, e ali ao som da campainha insistente permaneceu, sem a mínima curiosidade, de sabe quem àquela hora da manhã o procurava.
Talvez fosse engano, alguém com endereço errado. Ou não? Alguém pedindo ajuda, um assassinato? Um convite para festa? Nada, nada o movia.
Por uns instantes pensou no casal do 72, brigavam muito, lembrou-se da mulher no elevador, com um dos olhos roxo, escondendo-se atrás de enormes óculos escuros, cabelos caídos sobre a face; lembrou-se da velhinha do 76, vivia reclamando de fortes dores no peito, teria morrido? E porque o avisariam? Mal e mal trocavam algumas poucas palavras, sempre no elevador.
Deu-se conta que, ultimamente, evitava o elevador só para não encontrar com as pessoas, ter que cumprimentá-las, ser gentil, sorrir. Novamente o tremor por todo seu corpo. Estaria enlouquecendo?
Quando menino, sua mãe sempre reclamava, sem esconder a raiva, o quanto seu pai era esquisito falando sozinho pela casa. Adulto ainda guardava a imagem dela, de vestido vermelho, gritando:
_Cale essa boca, velho, miserável.
Seu plano em relação à empresa afastava-o do convívio com as pessoas, da descontração de uma conversa no finalzinho da tarde, do futebol aos sábados, rotina dos homens do edifício.
O que o tornava tão diferente de seus vizinhos? Suas escolhas, suas leituras, seu silêncio, sua infância solitária? E porque um simples toque de campainha imobilizou seu corpo, encheu sua mente de questões?
O que estaria por trás disso tudo? Seria o destino, o acaso, ajudando-o a conter sua vingança?
Não, não acreditava nisso. Levaria seu plano até o fim. Tinha colocado os últimos anos de sua existência em cima da idéia que achava genial. Não seria um simples tocar de campainha que o deteria.
E nunca fora dado a preocupar-se com nada disso. Todos envelhecem, todos têm suas manias, uns gostam de movimento, barulho, outros preferem silêncio e solidão.
Era sim, um sujeito normal, igual a tantos outros que todas as manhãs barbeiam-se, dirigem-se ao escritório, cumprimentam-se amigavelmente e seguem à vida.
Decidido resolveu fazer a barba. Como de costume, abriu o armarinho da parede e pegou o creme de barbear, numa fração de segundo já estava com o rosto pronto, todo cheio, de espuma.
De posse da navalha olhou-se no espelho, nesse exato momento, percebeu que nada mudaria sua decisão.
Olhou-se mais uma vez, profundamente, enxergou as rugas, os cabelos em desalinho, a empresa, a vingança, a infância, o vestido vermelho... Nada o movia.
O som da campainha em seus ouvidos, a voz da mãe e a porta do banheiro fechada.
Foi preciso arrombá-la, dias depois, sangue e espuma grudados no espelho.
Seria destino?



2 comentários:

Katia Mota disse...

Nossa eu adoro O Espelho... estou acompanhando A casa de Carmina, muito bom... confesso que já maquinando tentando desvendar o mistério rs... bjão

sueli aduan disse...

Puxa, fico lisonjeada vindo de vc, e vai mesmo tantando desvendar, Carmina........ bjão