terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Não nos damos conta, Quitéria- sueliaduan

Ás vezes sentimos uma tristeza, dessas que não se consegue chorar, por maior que seja nosso esforço, por mais que tentemos, secamos. Nem uma lágrima brota dos nossos olhos. Parece que qualquer movimento, um único virar de rosto, ou piscar de olhos, vai doer mais.
É como se a gente quisesse parar tudo em volta.Paralisar o tempo.
Talvez seja assim mesmo, e nós que não nos damos conta. Tudo pára dentro da gente, lá no fundo do nosso ser. Só um vazio, uma nonada, um não querer.
Foi assim que vi Quitéria naquela tarde, naquela hora da tarde mais precisamente.
O rosto fechado e o olhar parado. Com passos lentos, veio em minha direção. Tinha os cabelos escorridos, os lábios entreabertos parecendo que queria dizer algo, um andar bambeante, quase um arrasto, uma dor sem fim.
E eu fiquei ali olhando para ela, olhando através dela sem fazer nada, imóvel. Por uns momentos tive a sensação que não existia. Eu não estava vivendo. Não podia mesmo, falar nada, não havia nada a ser falado.
Minhas dores eram outras, não tão cruas, tão puras como as dela.
Havia um silêncio pairando no ar, e as poucas lojinhas da pacata cidade já estavam começando a fechar-se. O relógio da matriz marcava 17h.45. Aquele finalzinho de tarde, igual a tantas outras tardes tornou-se a mais diferente de todas as tardes de minha vida.
E ainda, hoje, passado tanto tempo, quando me recordo daquele dia, vejo que ele foi o mais marcante, o mais doloroso de todos já vividos.
E já vivi muito, mas por mais que viva nenhum outro olhar será como o de Quitéria. Nenhuma outra dor se igualará a dela. Nada, nunca.
Só seu olhar continua cravado fundo em mim, doendo em mim.
No fundo também acho que somos nós que não nos damos conta. Tudo é sempre muito igual. Os dias, o ir e vir, as horas passando, o trabalho feito O que tem valia mesmo é a nossa emoção. É o cheirinho do café passado na hora, o cãozinho latindo ao longe, uma brisa suave a nos refrescar, tardes a conversar, ouvir a chuva batendo nos telhados, escutar criança chorar. Essas coisinhas. Acho que é só isso mesmo o que conta. O resto é enfado, canseira, obra do tinhoso, como diz o povo daqui, como disse Quitéria.
E pensando bem, acho que a gente é que não se dá conta de tudo isso mesmo, e o abraço morre antes da junção dos corpos, e sobram palavras, palavras, palavras.
Hoje me pergunto por que não abracei Quitéria, não a acolhi em meus braços, acarinhei seus cabelos.
Tudo tão simples. Somos nós que não nos damos conta da simplicidade do gesto modificando a vida.
Na minha memória as palavras pausadas de Quitéria quase sussurrada, um sopro, um quase gemido, um pedido de socorro:
_quem que ponho curagem pruma barbaridade dessa, uma farta de amor tão inorme, que homê ou muiê vive despois do acontecido
E eu ali, tentando entender, raciocinar. Perplexa não derramei uma lágrima.
Mas doeu. Não sei o que me machucou o fato ou Quitéria. Acho que os dois, que tudo, a própria impotência nossa diante do imprevisto, diante da tragédia.
E foi uma tragédia.
A poeira que levantou, o barulho das patas no chão, o relinchar, os berros das pessoas, a agonia, o sangue no chão... o choro, tudo meio misturado assim mesmo. Não parecia real.
Aquele cavalo, forte, desembestado, o menino pendurado, preso pelas amarras do arreio, se debatendo entre pedras e pedregulhos, os lábios já cortados, ensangüentados, a pele das pernas já corroídas...
Nada parava aquele animal. Era obediente a ordem dada. E ela foi dada:
_ corre, corre Untu. Ele correu. Nada iria fazê-lo parar, conhecia a voz do dono gritando:
- corre, corre Untu.
Vingança estranha essa, ferir o filho pra atingir a mãe.
Quitéria chorou, chorou, chorou e, de repente, parou. Não quis mais saber do amante, tão louca era por ele. Tudo perdido. Por quê foi assim? Que sentimento era esse?
-que homê ou muiê vive despois do acontecido.
Essas palavras ainda fervilham em minha mente.
Eu vivi, Vivi?

2 comentários:

Katia Mota disse...

Forteeeeeeeeeee.... muito forte... muito lindo....
Eu vivi...
Nossa... preciso pensar...bjs

sueli aduan disse...

que bom, pensar é sempre o melhor.rs
bjs