segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O olhar – ver e falar

Raras vezes, despertam atenção as palavras de nosso cotidiano. Falamos em amor à primeira vista, sem que nos preocupe havermos, assim atribuídos poder mágico aos olhos, poder em que acreditamos (alguns) se falarmos em mau olhado. Aceitamos discordâncias dizendo que cada qual tem direito ao seu ponto de vista ou à sua perspectiva, sem causar-nos estranheza o crermos que a origem das opiniões dependa do lugar de onde vemos as coisas e sem que nos detenha a palavra “perspectiva”.
Se pretendemos assegurar que algo é efetivamente verdadeiro, dizemos ser “evidente’ e “sem sombra de dúvida”, porém não indagamos por que teríamos feito a verdade equivalente à visão perfeita, já que não pensamos com os olhos, nem por que teríamos associado “dúvida e sombra”, associação que transparece quando enfatizamos nossa certeza com um “mas é claro”.
Se desejamos expressar agrado e espanto, exclamamos: “ é espetacular”, “é fenomenal”.
No entanto, não nos demoramos a pensar de onde viriam as palavras espetáculo e fenômeno, nem porque esta última é tão curiosa, pois o cientista ao falar em fenômenos da natureza, refere-se a regularidades naturais enquanto, no cotidiano, reservamos seu uso para o que é excepcional. Também não nós parece curioso falar em “investigação” para designar tanto a atividade do cientista quanto a do policial e não nos indagamos se ambos teriam algo a ver com um olhar que espia, espreita e espiona. Aliás, não nos surpreende usarmos a expressão “ter (ou não ter) algo a ver” ao pretendermos afirmar (ou negar) relações entre coisas, pessoas ou fatos.
Pouca atenção prestamos à relação que espontaneamente fazemos entre“ ver e falar” quando, acautelando alguém , dizemos: “veja o que diz”.
Assim como, não nos demoramos na relação entre “ver e escutar” quando, em vez de “escute”, dizemos “olhe aqui”.
Relações que estabelecemos quando chamamos aos profetas, “videntes”, sem indagarmos por que ouviriam vendo, nem por que mensagens e prodígios sagrados tendem a procurar nossos olhos, de onde vem a palavra milagre? , nem porque nossa persuasão seria obtida privilegiadamente pelo ver, não foi essa a exigência de são Tomé?
Falamos em visão de mundo.... falamos em revisão...
Porque cremos nas palavras e nelas cremos porque cremos em nossos olhos: cremos que as coisas e os outros existem porque os vemos e que os vemos porque existem. (Chaui,M.)
Somos, pois, espontaneamente realistas.

2 comentários:

Katia Mota disse...

Su, me fez pensar....
Posso usar esse texto com meus alunos? Eu achei muito interessante...
bjs

sueli aduan disse...

Kátia:
Que ótimo,
use, abuse se lambuse...
gracias
abs