terça-feira, 13 de outubro de 2009

Você tem medo de quê?

Vou direto ao ponto: estive em Paris. Está dito e precisava ser dito, logo verão por quê. Mas é difícil escapar à impressão de pedantismo ou de exibicionismo, ao dizer isso. Culpa da nossa velha francofilia (já um tanto fora de moda). Ou do complexo de eternos colonizados diante dos países de Primeiro Mundo. Alguns significantes, como Nova York ou Paris, produzem fascínio instantâneo. Se eu disser “fui a Paris”, o interlocutor responderá sempre: “Que luxo!” E se contar “fui assaltada em Paris”, ou “fui atropelada em Paris”, é bem provável que escute: “Mas que luxo, ser assaltada (atropelada) em Paris!”
O pior é que é verdade. É um verdadeiro luxo, Paris. Não por causa do Louvre, da Place Vendôme ou dos ChampsÉlysées. Nem pelas mercadorias todas, lindas, chiques, caras, que nem penso em trazer para casa. Meu luxo é andar nas ruas, a qualquer hora da noite ou do dia, sozinha ou acompanhada, a pé, de ônibus ou de metrô (nunca de táxi) e não sentir medo de nada. Melhor: de ninguém. Meu luxo é enfrentar sem medo o corpo-a-corpo com a cidade, com a multidão.
O artigo de luxo que eu traria de Paris para a vida no Brasil, se eu pudesse – artigo que não se globalizou, ao contrário, a cada dia fica mais raro e caro –, seria este. O luxo de viver sem medo. Sem medo de quê? De doenças? Da velhice? Da morte, da solidão? Não, esses medos fazem parte da condição humana. Pertencemos a esta espécie desnaturada, a única que sabe de antemão que o coroamento da vida consiste na decadência física, na perda progressiva dos companheiros de geração e, para arrematar tudo, na morte. Do medo desse previsível grand finale não se escapa.
O luxo de viver sem medo a que me refiro é bem outro. O de circular na cidade sem temer o semelhante, sem que o fantasma de um encontro violento esteja sempre presente. Não escrevi “viver numa sociedade sem violência”, já que a violência é parte integrante da vida social. Basta que a expectativa da violência não predomine sobre todas as outras. Que a preocupação com a “segurança” (que no Brasil de hoje se traduz nas mais variadas formas de isolamento) não seja o critério principal para definir a qualidade da vida urbana.
Não vale dizer que fora do socialismo esse problema não tem solução. Há mais conformismo do que parece em apostar todas as fichas da política na utopia. Enquanto a sociedade ideal não vem, estaremos condenados a viver tão mal como vivemos todos por aqui? Temos de nos conformar com a sociabilidade do medo?....
Sei lá como os franceses conseguiram preservar seu raro luxo urbano. Talvez o valor do espaço público, entre eles, não tenha sido superado pelo dos privilégios privados. Talvez a lei se proponha, de fato, a valer para todos. Pode ser que a Justiça funcione melhor. E que a sociedade não abra mão da aposta nos direitos. Pode ser que a violência necessária se exerça, prioritariamente, no campo da política, e não da criminalidade.
Se for assim, acabo de mudar de idéia. Viver sem medo não é, não pode ser um luxo. É básico; é o grau zero da vida em sociedade. Viver com medo é que é uma grande humilhação.

Maria Rita Kehl é doutora em psicanálise pelo departamento de Psicologia Clínica da PUC/SP e clinica, desde 1981, em consultório particular. É conferencista, ensaísta e poeta. Escreve artigos sobre cultura, comportamento, literatura, cinema, televisão e psicanálise para a imprensa. É autora de diversas obras, entre elas, Processos primários e Sobre ética e psicanálise.

10 comentários:

Toni D'Agostinho disse...

Sobre o público e o privado, deixo a frase do Barão de Itararé;

"Para certos políticos, a coisa pública acaba na privada".

Ótimo texto como sempre.
Parabéns.
Beijão.

sueli aduan disse...

kkkkkk que frase!!!!

tb gosto muito dos textos dela.
obrigada Toni.

Katia Mota disse...

Paris é logo ali....

sueli aduan disse...

KKKKKK,pra M.Rita Kehl deve ser mesmo,

dizem que a Clarice Lispector,não raras vezes, ia pr Paris pq lá tinha café como em nenhum outro lugar....eut tb vou, sempre, pra

Paricidinha!!!!!

cristinasiqueira disse...

Oi Sueli

E de brinde este delicioso texto de Maria Rita Kehl.Concordo em termos com esta tranquilidade em Paris.Os orelhões são depredados,como aqui,nos parques dependendo da hora o assédio de sujeitos mal encarados acontece como no Jardim da Luz em São Paulo quando se visita o Museu da Lingua Portuguesa ou a pinacoteca do estado.Então depende do roteiro escolhido para perambular pela cidade.O medo é uma situação que infelizmente esta em qualquer esquina do mundo.
Salvo em Parecidinha,que atualmente já tá perigando também.

Beijos,


Cris

PS-Tem nova postagem

sueli aduan disse...

Oi Cris,
vc tem toda razão "O medo é uma situação que infelizmente esta em qualquer esquina do mundo."

obrigada pela visita.

kkk Parecidinha...
Beijos

Veroca disse...

Sueli, mil coisas pra comentar hehehe, eu sempre atrasadinha. Não conhecia a autora, gostei do texto que fala do medo e de Paris. O medo vamos lutando prá controlar que eliminar é impossível. Paris... ah Paris é uma festa! Sabe, eu tinha um sonho, conhecer Paris. Passei minha adolescência embalando este sonho. Até que chegou o dia de ir até lá pela primeira vez. Sueli, neste dia lembro-me bem, saí do metro, Ile de la Cité", por instinto segui até a margem do Sena. Então chorei de alegria. Chorar de alegria é raro, lembro-me de todas as vezes que me aconteceu. Aí, neste dia entendi que já conhecia Paris, apenas estava tendo a dádiva de reconhecê-la pessoalmente hehehe. Porque a Paris de Hemingway, de Miller, Sartre e Simone, de Vitor Hugo e tantos outros vive desde sempre no coração da gente e se reinventa a cada dia também. Teria de escrever uma série sobre Paris hehehe. Sueli, as séries minha filha! Hoje inicio uma mini série, agora vou me especializar em mini séries hehehe. E tenho uma sugestão pra te dar, você que é professora de literatura. Volto mais tarde pra dar, porque estou correndo ( sou o coelho da história da Alice hehehe) e também pra fazer suspense. Beijos meus querida

sueli aduan disse...

Oi Veroca,
adorei ler sobre sua viagem, sua emoção, e que linda associação vc fez com a Paris dos livros, que é a única que eu conheço um pouqinho.

Hum!!!! vou aguardar!!!!que delícia uma sugestão sua!!!
obrigada
bjs

Mirella disse...

Misteriosamente vim cair aqui neste buraco-cratera, nesta cidade do além !!! Além-linha,além-ponte além tudo.Cultura então!inexiste aqui em SOROCABA!cidade caipira! retrógada e ainda caminho de tropeiros.A arte aqui é um lixo ! Luxo só em Paris!A escritora M.Rita Kehl,é incomparávelmente capaz e extremamenteculta.Concordo com ela,discordando de todos os comentários infelizes que não só denotam inveja e desrespeito como tambem escritos de maneira pobre e sem conteudo.Os pobres de Paris são o máximo, muito mais cultos e politizados do que os mais ricos dessa cidadezinha,quizá vítimada por algum asteróide gigante.Brega,provinciana,caipira,
medíocre e hipócrita onde só são valorizados os que dirigem carrões do ano!Viva Maria Rita ! e sua luz interior!Viva PARIS!Talvez,ela nem devesse ter retornado, e sim se estabelecido na FRANÇA"berço cultural!""lugar para se viver e morrer!p/pessoas talentosas e preocupadas com a cultura,e o saber.... proprietária de todas as letras,dando vida e tornando mágica cada palavra escrita.Maria querida!volte à PARIS p/que não desaprenda o que a USP lhe permitiu conhecer.Je te embrasse trés fòrt !....
Milénne Thormann Demajewsky

sueli aduan disse...

Oi Mirella,

complexa discutirmos sobre cultura/pobreza/países/Brasil/ParisSorocaba...e muito mais,nesse espaço/tempo: curtos. Envolve tantos outros aspectos/ questionamentos/pre e pós conceitos.

Respeito sua opinião quanto a Sorocaba,ainda, que a minha seja totalmente diferente. Adoro essa cidade(já morei em muitas outras),mas sempre retornei. E a respeito da cultura (e todos os equívocos com essa palavrinha), há muitos projetos, grupos de teatro/ (o teatro é fortíssimo atores e atrizes maravilhosos,encenações belíssimas etc etc/; bandas/shows/leituras poéticas em bares/ oficinas e mais. Concordo que é pouco ,sempre será quando se trata de arte!
Eu sou totalmente envolvida com a cultura local, na medida do possívele dentro da minha área que é Literatura.
Forte abraço