segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Perdidos & Achados - sueli aduan

Perdidos & Achados-
Desço rapidamente à rua. Sinto que meus pés mal tocam o chão. Levito? Isso são horas para ironias. O momento não é para piadas, ainda mais, de mau gosto. Coração acelerado aperto o passo. E se realmente perdi?
Como era que brincávamos, mesmo? São Longuinho, São Longuinho, se eu achar dou três pulinhos.
Saudade da Rita, tão linda e, e nada, diacho. Malditos pensamentos não paro de pensar. Será normal? Olha aí, cada passo um pensamento, um questionamento.
Vai ver, é assim com todo mundo. Mas comigo penso que é diferente, meu vôo vai longe. Mãe sempre dizia:
_Voando menino... Mulher boa, a mãe, sempre fingindo não ver Rita e eu, escondidinhos, lá no milharal trocando beijos.
Que nostalgia é essa? O que está acontecendo comigo? Preciso me concentrar, relembrar o trajeto feito. Como o trajeto feito? Sempre subo a 42. Será que mudei e nem percebi? E se andei a esmo?
O que é isso agora, delírio? Com andei a esmo? Basta. Não ouço mais essa maldita voz. Exijo de mim concentração, silenciar esses ruídos interiores.
Os orientais dizem que os amantes nada dizem por que no seu silêncio mora um mundo, uma imagem imobilizada num momento eterno.
Então, a Rita nunca me amou como falava, as juras de amor sussurradas aos meus ouvidos, os lábios a roçar-me o pescoço, os beijos ardentes, tudo tão forte, tão intenso.
Que bom que era ouvir sua voz, principalmente, quando me chamava:
_Titooo, Titooo, Vamos. Não gosto de chegar com as luzes apagadas. Íamos toda terça na sessão das quatro, único dia da semana que passava bons filmes.
Rita ficou encantada com “Passagem para a Índia”, não parava de falar, dias depois ainda comentava as cenas mais marcantes, as mais belas falas dos personagens. Seus olhos ficavam cheios d’ água, à voz embarcada.
Outro que a impressionou: “O Desaparecimento de Lorca”, com Andy Garcia no papel de Frederico Garcia Lorca. Este sim, mexeu com ela e, quando Andy Garcia/Lorca com terno branco, chapéu cinza, gravata vermelha, desceu magistralmente às escadas, chorou copiosamente.
Sabia os poemas. Ouvi baixinho, Rita, declamando Lorca. Que emoção.
Engraçado, só hoje, percebo que Rita pronunciava meu nome acentuando o “o” do Tito, como se estivesse cantando.
Será que ela queria ser cantora?
Quanta se perdeu da Rita, em mim, com o tempo? E o que eu nem cheguei a conhecer?
Rita pintava, nunca mostrou- me seus quadros. Também a gente nunca falou de cores, falávamos de tudo: das ondas do mar, do canto de um rouxinol, dos caminhos dos descaminhos. Cores nunca.
Só depois do acontecido é que soube, até guardei um quadro de lembrança. Vai ver pintava declamando Lorca.
Quer dizer então, que eu vou ficar aqui descendo e subindo a ladeira, relembrando perdas?
Lembrar-me da Rita, recordar seu jeito doce dói e, o fato não resolvido, martela na minha cabeça, a própria polícia não soube explicar.
Quanta coisa se perde nesta vida, ou não. Quantos encontros e desencontros. O que é que realmente fica em nós? Uma moringa de barro, um cesto de vime, uma garrafa de vinho, toalhas brancas dos finos restaurantes, um guardanapo, os aromas, os cheiros das ruas, das casas, a morte de Rita, o documento perdido.
O vento empurra a manhã silenciosa, profusão de coisas acontecidas, infinitas manhãs.

2 comentários:

Katia Mota disse...

O fato nao resolvido martela minha cabeça... gostei disso.... bjs

sueli aduan disse...

Kátia, são tantos os fatos não resolvidos que martelam em minha cabeça...rs...rs...gosto disso