terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Diotima: do corpo do livro ao corpo do mundo"


   Capítulo 1
 (em 3 capítulos)

Diotima atravessara a rua com passos largos, mãos trêmulas, olhos atentos e movendo-se de um lado a outro com uma respiração ofegante.
A rua em torno era ensurdecedora. Claridade e calorão.Tudo conspirava, a loja da esquina com seu cheiro de incenso, a velha na calçada pondo os óculos.
Por um momento teve a sensação que era observada.
Na verdade Diotima nunca se acostumara com a cidade nem  com corre-corre das pessoas, o barulho, o ar sufocante.
Saia pouco. Às vezes era necessário. E também tinha os biscoitos que Jorge deixava pronto, às terças-feiras, pequenos prazeres que ainda se permitia.
O resto do tempo ficava mesmo em seu quarto. Tempo de leitura e solidão.
O quarto era iluminado, branco, paredes caiadas. Uma cama, criado-mudo o guarda-roupas, os livros. Era o que tinha e lhe bastava.
No começo quando chegou sua estranheza tinha explicação. Mundo dos símbolos e das palavras. Diotima não sabia ler. Mas agora passado tanto tempo. Como podia? Aprendeu a ler. Viu seu crescimento passo a passo, a mudança a alegria ao perceber o sentido das coisas,e, até compreendeu melhor as lágrimas de Tarsila.
A velha firmou mais o olhar tirou os óculos voltou a pô-los. Diotima tremeu pensou em desistir em voltar. Afundar-se em sua poltrona verde oliva cobrir-se com a manta tecida pela mãe, há tanto tempo, com tanto carinho.
A lembrança dessa imagem misturada à voz doce da mãe encorajou-a a seguir.
Não sem dor, mas seguir. O problema está em escolher. Sempre a escolha. Isto ou aquilo; vermelho ou azul, rosas ou margaridas.
Que importa nada lhe faltava. Gostava de viver só. Nem mesmo a morte do irmão ainda pequeno; o pai cuidando do gado sozinho consertando cerca pro boi não fugir; cortando lenha que mãe pedia mesmo sem precisão. Homem paciencioso pai.  E tia Jacobina andando a esmo pelo vale; a casa cercada de varandas e um grande céu por cima.
Nada disso afetava Diotima em sua nova vida na cidade.
Lembrou-se de Tarsila, irmã mais nova, que comprara um vaso novo com tulipas para enfeitar a varanda na esperança que tudo se transformasse. E transformou...

4 comentários:

cristinasiqueira disse...

Ai o vaso de tulipas.
Os olhares.A saudade da avó.
Passeei por todos os cantinhos desta tua construção.
É muito bom!
E agora a Diotimia,incrível encontrar os nomes...A Tarsila.
Gostei.

Te espero por lá.Apareça.

Beijos,

Cris

sueli aduan disse...

Obrigada Cris,
Que bom que gostou.

Apareço com o maior prazer e quando vai "postar" no Tempus,heim?

bjus

Katia Mota disse...

Oba................. outra série... eu adorei a primeira, Da casa... vou ler com calma no final de semana.... bjãooooo

sueli aduan disse...

É oba....,ms não é série não. Será em tres capitulos.

bJÃOOOOOOOO