sábado, 22 de maio de 2010

"Panela no Fogo" (Em IV capítulos)

Na distância do Tempo

Capítulo I

Vivi toda a infância e um pouco da juventude no sítio ajudando pai na plantação, dividindo o tempo entre as tarefas da escola e a colheita. Se na época tudo era enfado, hoje na distância do tempo é saudade e solidão.
O sítio de pai, o banco de pedra na entrada da casa maior, o som das folhas das árvores, o ritual diário de mãe com seus afazeres domésticos, os olhos de desânimo e fadiga de tia Jacobina, na sua velhice, são lembranças do passado em meio as casas brancas, lojas e barulhos que surgiram aos poucos. E que aos poucos foram transformando a paisagem, as pessoas, o nosso viver.
Lembro-me do cesto de frutas sobre a mesa, das ordens dadas por tia Jacobina. Sinto ainda o cheirinho gostoso da terra e a voz doce de mãe:
- A panela tá nu fogu? Fogu baixo, sinão queima tudinhu.
Eu ficava parada, caneca na mão olhando lá longe o campo, a plantação, o milharal. Até esquecia do fogo. Quantas vezes a comida queimou perdeu-se tudo. Mãe ficava uma onça brigava com pai, reclamava da troca gostava mesmo do fogão à lenha.
Pai foi cansando de cortar madeira cansando de tudo. Mesmo sem precisão mãe sempre pedia, gostava de ver os pedaços alinhados num canto tudo arrumadinho. Nu seu divido lugar, como costumava dizer.
Olhos brilhantes, sorriso largo, mulher forte, decidida assim era mãe. Quando os homens chegaram pra derrubar a casa ela foi à única que ficou ali parada. Com a enxada na mão não derrubou uma lágrima nem precisava. Era só olhar no seu rosto e ver a tamanha tristeza.
Os cabelos escorridos pretos, os olhos fundos parados pareciam mais um retrato desses que a gente vê na parede das escolas, uma coisa assim sem vida. Quando a saudade aperta sinto seu cheiro misturado à comida.
Tempo de doces, manjares, compotas, tempo de gula de fartura de alegria, festança. Mas, às vezes, eu também perdia a noção de tempo, se é que se pode dizer que ali o tempo passava. È claro que passava, aliás, como tudo, mas tinha um outro ritmo.
Os passos da gente dali eram miúdos uma coisa difícil de explicar, assim apertadinho, pisando leve como quem não quer machucar a terra. Para tia Jacobina assim como para mim, o passar era lento, doído, sofrido mesmo. Ás vezes, eu centrava meu olhar nela. Tia jacobina, mulher estranha naquele...


2 comentários:

Katia Mota disse...

Tia Jacobina...olha ela aí de volta... aguardo cenas do próximo capítulo...

sueli aduan disse...

Pois é, uma personagem que me acompanha :O)

E,apesar das diferenças entre a minha "Jacobina" é a da Augustina Bessa Luís, foi mediante leituras dessa escritora,maravilhosa, que me apaixonei pelo nome e pela força dessa mulher.

Aguarde que em breve continuarei! rsrs