quinta-feira, 27 de maio de 2010

Panela no Fogo

No mundo do pensamento
capítulo IV

Essa era outra coisa que eu achava errada. E se de repente eu entendo melhor, só por que sou mais nova não posso? Mãe tinha cada uma.
Dona Dagmar era a professora, mas será que ela estava sempre certa? Ela falava tão bonito, eu ficava como que encantada ouvindo o som das palavras que saiam pausadamente de sua boca parecendo mais uma melodia. Música aos meus ouvidos quando ela dizia:
─Liléia, você aprende muito rápido.
Engraçado eu penso o tempo todo. Será que as outras pessoas também? Não concordo muito com D. Dagmar não, isso da gente é que faz a nossa sorte.
E tem alguém que ia escolher sofrer? Vai me dizer que o povo dali não sofria. Fartava tudo nem distração a gente tinha. Faltava. Dona Dagmar vivia me corrigindo.
Lembro-me que uma vez veio um teatro ficou pouco. Uns dias. Mas foram os dias mais felizes da minha vida. Só de escutar os poemas, olhar para os olhos brilhantes dos atores. Quanta alegria quando na escola a diretora perguntou o que tínhamos gostado, eu imediatamente comecei a repetir o poema.
─No meio do caminho tinha uma pedra
─Tinha uma pedra no meio do caminho
Que coisa essa pedra no caminho. E eu que sempre gostei de catar as pedrinhas que encontrava quando criança, quando ouvi o moço do teatro senti que não eram as mesmas pedrinhas que existiam no meu caminho.
Eram outras pedras, e que alegria ao saber que podiam ser outras as pedras, outros os caminhos.
Dona Dagmar estava certa mesmo. São muitos os caminhos que podemos trilhar. Eu fiquei no sítio mesmo. E não fiz outro caminho. Terminei a escola continuei estudando, estudando,lendo, lendo. Como disse Dona Dagmar realmente aprendi rápido e também passei a falar bonito.
Mas ainda trago dentro de mim aquela menina que não sabia falar direito, que imaginava coisas, que espionava o pai na plantação.
Já pensou se ele fosse mesmo plantado, feito a uma flor, era só regar e pronto ele estaria aqui cheio de vida. Que bobagem.
Contadas assim essas coisas parecem pitorescas e nada mais, parecem só recordações de uma velha que abre uma gaveta à procura de uma foto, uma estória, uma lembrança qualquer, como que querendo preencher seus dias. Mas não.
Elas são as minhas maiores riquezas, marcas da minha personalidade.
Meu caminho no mundo do pensamento.

FIM

 

5 comentários:

Katia Mota disse...

Ah acabou....
Eu já disse e acabo redundante... adoro essa sabedoria sertaneja, do puro, no real sentido das coisas.
Adorei.. qdo teremos outra novela? bjão

sueli aduan disse...

Obrigada,kátia.Também gosto muito de "causos", abuso um pouco de uma escrita pautada pela oralidade e
pela profusão de expressões dialetais caipiras.
bjus, valeu!!!!
Logo teremos outra :o)

Leia- Cornélio Pires, "causos" maravilhosos.

°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°° Marcos Quinan disse...

Maravilhoso...

Com a letra dessa canção te abraço.


Caminho

Vim de carrascais
E beiradas
Terra de bem-te-vis
E pequizeiros
Lá onde o orvalho benze
A manhã todos os dias
E a vida que nasce
Vem da raiz
Pecha cedendo
Ao fecundo
Nas veredas
E descampados
Buritis se põe em fila
Sanhaços e sabias
Criam crias e cantos
Céu afora
Caminho a dentro
No campo aberto
O vento toca doce
E dançam as folhas
Acompanhando o farfalho
Enramado na canção
O cheiro da terra
Valora qualquer respingo
Que põe fartura no ar
De lá vim sonhando
Com tanto caminho
Sem saber
Que o caminho era eu

sueli aduan disse...

Maravilha é você gostar dos meus escritos, e que belíssima musica.
te abraço.

em tempo; de quem é a cançao???

°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°° Marcos Quinan disse...

Caminho,

Minha com o parceiro Tavinho Limma