terça-feira, 25 de maio de 2010

Panela no Fogo

Mãe Leo
capítulo III

Gostava tanto de contar estórias, que em algumas partes, nas mais tristes seus olhos enchiam-se de lágrimas , e sem nenhum pudor ela deixava que escorressem pela face e só depois quando aparecia um fato alegre dava uma risada deliciosa e delicadamente passava as mãos pelo rosto. Acho que ninguém notava essas coisas, eu é que gostava de atentar para esses detalhes. Sempre gostei. A mim parece que isso sim é que diz quem a gente é, os detalhes.
Na vila sempre comentaram a generosidade de Leôncia, era igualitária por natureza repugnava-se com as injustiças da sociedade ficava perplexa com a pobreza do povo. Era uma socialista, sem mesmo ter noção da realidade política, seu coração cheio de uma inquietude e nela o sentimento de igualdade era visceral.
Não é que numa noite apareceu por aquelas bandas um sujeito dizendo que procurava a filha que tinha fugido com um valentão. O povo curioso convidou o sujeito pra ficar.
Nhô Augusto até ofereceu um quartinho vazio da filha, que já tinha casado, vai daqui, vai dali o sujeito foi ficando o tempo passando, e nada dele sair a procura do valentão. Até que encontraram o sujeito morto, estirado no chão do quarto, sem nenhuma gotinha de sangue e com a mesma roupa que tinha chegado naquela noite tempos atrás. Paletó cinza claro com algumas manchas pretas, camisa de um branco amarelado, calça cinza escuro. Foi um corre-corre chamaram o doutor até Leôncia veio benzer, e quando abriu o paletó do homem deu um pulo pra trás lá estavam duas cruzes de madeira já envelhecidas, podre mesmo, enfiadas no peito do sujeito.
Até hoje fico sem saber se era mais uma das muitas estórias de mãe Leo, como era chamada pelo povo, ou aconteceu mesmo. Eles diziam que era obra do tinhoso, coisa do demo. Num creio. Só estórias daquela gente. E naquele tempo eu queria apenas ir-me embora, em busca de novos caminhos. Não queria passar a vida vendo vaca ruminar no pasto, ver o gado morrer sem poder fazer nada. Plantar, plantar e, às vezes, perder toda a plantação. Vida muito dura, vida triste aquela. Não queria ficar ouvindo crendices, histórias.
Queria fazer a minha história. Dona Dagmar dizia bem alto para todos os alunos ouvirem:
─ Somos nós que fazemos o nosso destino. Eu ficava quieta ruminando essa idéia. Mãe dizia que era pra gente não retrucar os mais velhos. Essa era outra coisa que eu ...

 

2 comentários:

Marcela Cocco disse...

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sueli aduan disse...

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