segunda-feira, 24 de maio de 2010

Panela no Fogo

A vida passou
Capítulo II

Às vezes, eu centrava meu olhar nela. Tia jacobina, mulher estranha naquele seu passinho miúdo chegando bem devagar com o cesto cheio de jabuticaba. Chegava sorria, sorriso cumprido, parecia que a boca não ia mais voltar no lugar, e sempre dizia:
-Como está passando Lileía?
- Ao que eu respondia sempre:
- Assim assim, tia. Vem menina, vem ajudar sua tia separar os frutos, que quero levar um pouco para Leôncia. A contra gosto eu ia, não sei se ela fingia ou se realmente não percebia minha má vontade. Era tão inteligente. Todos ali na vila diziam que era uma mulher cheia de sabedoria. Até hoje não entendi muito bem, se era tão sábia porque foi ficando naquela vidinha tão monótona, tão pobre.
Envelheceu ajudando mãe nos afazeres domésticos. Quando jovem deve ter sido muito bonita, ainda guardava no olhar algo de profundo, provocante mesmo, olhos azuis da cor do mar. Havia beleza em seu corpo, contornos perfeitos, ancas largas, seios volumosos, uma mulher ainda formosa apesar da idade. Mas a vida passou, e ela se acomodou.
Só de pensar eu ficava toda arrepiada. Um tremor percorria todo meu corpo, medo de que o mesmo se desse comigo. Não que eu não gostasse da vida do sítio, até gostava, mas não como eles.
Pai, mal amanhecia já estava em pé arrumando arreios, consertando cerca para o boi num fugir, depois ia lá para o milharal misturava-se com a plantação que não dava nem para saber o que era mato o que era ele. Parecia tudo uma coisa só. Estranho
Um dia, perdi o sono e fiquei espionando. Olhei lá na plantação, que susto de longe parecia que ele era plantado. Assim, como se os pés saíssem de dentro da terra, que bobagem, é que de longe tudo parece meio parado mesmo, imóvel. Igual os olhos de mãe no dia que os homens chegaram.
Já pensou um pai plantado. Não seria espanto nenhum para o povo dali. Acreditavam em tudo, principalmente nas estórias de Leôncia.
Leôncia contava tanta estória. Aquele lugar era misterioso mesmo, e ela passava os dias tricotando para os pobres, bordando colchas, rezando o terço.
Nas noites de luar sentávamos em volta da fogueira, e ela com sua voz rouca, com uma fala pausada ia contando os causos. Gostava tanto de contar estórias, que em algumas partes, nas mais tristes seus olhos enchiam-se de lágrimas, e sem nenhum pudor ela ...


2 comentários:

Katia Mota disse...

Adoro essa coisa de simplicidade... nada é simples, no mais simples está o mais complexo... estou adorando.

bjs

sueli aduan disse...

Bingo! E "olha" quem fala (tb) sobre simplicidade:-

"Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho." Clarice Lispector.